quinta-feira, 6 de junho de 2019

75 Anos Depois





1944, JUNHO, 06. NORMANDIA, FRANÇA. OPERAÇÃO OVERLORD.


Foi o dia e o local em que a barbárie nazi começou, decidida e consolidadamente a ser esmagada. Completam-se hoje 75 anos.
Os aliados chegariam ao coração da Alemanha nazi, Berlim, em Abril de 1945. As tropas de Estaline seriam as primeiras a entrar, para travar, aquela que foi, porventura, a última batalha da 2ª Guerra Mundial. Nessa altura a desproporção de meios de combate e tropas era abismal. Cerca de 100.000 soldados alemães, a maioria jovens e velhos recrutados à última hora, para cerca de dois milhões de russos que cercavam a cidade, bem equipados, motivados e apoiados por um enorme dispositivo em equipamento aéreo e terrestre. Berlim caiu, e com ela a Alemanha nazi.
O que aprendeu a Europa com a Segunda Guerra mundial e o desaparecimento, causado por ela, de cerca de cinquenta e cinco milhões de pessoas? O que aprendemos nós, depois de 75 anos passados ?
O ambiente político à época, que levou à guerra, embora com raízes e causas muito diversas, não deixa de apresentar algumas semelhanças com os dias que se vivem hoje em quase todo o território europeu: populismos e nacionalismos exacerbados e a recrudescer todos os dias.
Seria bom bom que todos, e especialmente os líderes políticos, pudessem tomar mais atenção aos livros de história. É crucial que as novas gerações, apesar dos anos que as separam do episódio que se celebra hoje, possam ser ensinadas e esclarecidas sobre o que se passou durante a Segunda Guerra Mundial e os motivos principais que levaram até ela. Esse é um princípio fundamental e os europeus nunca poderão perder de vista que a ele estão subjacentes a Paz e os VALORES que nos enformam !
Em todos os países europeus se devia celebrar hoje o DIA DA MEMÓRIA. Em todas as escolas, em todos os graus, se deveriam consagrar algumas horas de aulas a esclarecer os jovens sobre esta temática. Conferências e sessões de esclarecimento deviam ser promovidas em locais públicos, abertos a toda a população, se possível com testemunhos de pessoas que tivessem ainda vivas as memórias do que foi viver o pós-guerra nos diversos países. Para que todos saibam que a liberdade, a paz e o bem estar de que usufruem hoje teve um preço muito elevado pago por gerações que nos antecederam, mas também de muitos homens, que nem sequer eram europeus e que vieram combater e morrer pela Europa e pelos europeus. O exercício da memória e do reconhecimento pelos que combateram e deram a vida por valores que nos são caros será sempre o mínimo que podemos fazer e quem não quiser perceber isso, não poderá perceber nada da vida que vive e como a vive.




Jacinto Lourenço, Junho, 2019

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Uma Conversa de CACA...






Com tantos temas interessantes para falar, logo me havia de dar para isto, uma conversa de...
Explodiu nas cidades e vilas portuguesas um último modismo, quiçá importado de alguns países europeus 'mais à frente' do que Portugal: a posse de animais domésticos por camadas da população que acham que isso lhes dará um ar mais civilizado e, eventualmente, mais 'chique'. Até aqui nada de anormal, eu próprio, não sendo particularmente admirador de gatos, gostaria de ter um ou dois cães se para tal tivesse condições, e resumo 'condições' como um espaço aberto contíguo à habitação onde os ditos se pudessem exercitar e desenvolver normalmente de acordo com as suas necessidades físicas e lúdicas. Não o tendo, não me acho no direito de confinar um cão, qualquer que seja o seu porte, a um recanto da marquise ou da varanda. Isso, quanto a mim, é exercer uma violência que nenhum canino merece. Mas pronto, são opções e minha opinião.

Agora, o que não percebo, nem nunca entenderei, é que uma grande parte dos novo(a)s possuidores de cães afirmem amar os animais e depois os confinem durante horas esquecidas a uma reclusão que nenhum animal realmente merece, muitos deles saindo à rua apenas quando os donos acham que eles precisam de se aliviar.

E nesse momento temos outro problema; quando vejo um ou vários cães a passearem nas traseiras relvadas da minha casa, fico sem saber quem 'se alivia' mais, se o canino ou o humano... É que se o animal não pode fugir às suas necessidades fisiológicas após horas encerrado no apartamento e faz o que a natureza o chama a fazer, o  seu dono humano, pelo contrário, não faz o que tem que fazer e que consiste em limpar os dejectos depostos, mais conhecidos por 'caca',  sobre o relvado. Algumas vezes, quando observo o seu "esquecimento",  alerto para o facto, recebendo, invariavelmente, a resposta de  "já apanho". Claro que nunca voltam atrás para apanhar. Outros, para evitarem ser confrontados com o débil grau de civilidade exibido, optam por soltar os animais no relvado mantendo-se eles a coberto de olhares e repreensões dos residentes,  pretendendo deixar  transparecer que os seu cães são afinal vadios ou que não lhes pertencem...

Havendo humanos que se lembram de que não basta exibir notas de civilização ou de um certo pedantismo "chique" e que são responsáveis por tudo o que implica possuir um animal doméstico, outros, porventura a maioria, só mereceriam que lhes esfregassem na cara o que os seus cães deixam na relva atrás da minha casa... Merecendo igual tratamento quando também os abandonam para poderem ir a banhos no verão.




Maio 2019

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Açúcar, um Veneno que nos Corre nas Veias


"Gente toda da cor da mesma noite, trabalhando vivamente e gemendo tudo ao mesmo tempo sem momento de tréguas, nem de descanso: quem vir enfim toda a máquina e aparato confuso e estrondoso daquela Babilónia não poderá duvidar, ainda que tenha visto Etnas e Vesúvios, que é uma semelhança do inferno."
Estas palavras do Padre António Vieira, no sermão do Rosário, em 1633, citadas por Stuart Schwartz na História da Expansão Portuguesa, edição Círculo de Leitores, julgo traduzirem bem a imagem da realidade da indústria do açúcar aos olhos de quem não estava habituado ainda, no século XVI, aos ritmos de trabalho pontuado pela exploração intensiva e industrial, mesmo tendo em linha de conta que a indústria açucareira só começou realmente a florescer e incrementar-se a partir de meados desse século. Mas não era apenas a realidade do processo industrial propriamente dito, ou da actividade de "platation", que causava espanto e admiração no espírito do Jesuíta. A realidade que ele observava com os seus olhos e aferia com as suas palavras era mais ampla e continha, parece-me, um sentimento de alguma repulsa, de cariz porventura religioso, por aquilo que observava e que era certamente o que mais saltava à vista: o trabalho forçado de um exército de mão de obra negra e escrava que tinha sido a solução encontrada para a substituição dos ameríndios menos adaptados e menos capazes, quer do ponto de vista técnico, quer do ponto de vista cultural, aos trabalhos de índole agrícola. Isto, claro, para além da escassez de mão de obra ameríndia que se foi acentuando em razão de vários factores, nomeadamente, e talvez dos mais importantes, o das doenças viajadas da europa e que foram dizimando os indígenas aos milhares no Brasil.
À realidade, que Vieira conheceria, juntava-se ainda o facto da complacência demonstrada em relação à rentabilidade laboral exigida pelos senhores ser muito menor para com os negros do que para com os ameríndios. A.R.Disney, dá conta disso na sua "História de Portugal e do Império Português", da "Guerra e Paz, Editores, numa pequena amostra do tratamento reservado aos escravos negros logo que chegavam a território brasileiro, mesmo que isso pudesse variar de senhor para senhor: “em algumas plantações brasileiras os novos escravos eram imediatamente chicoteados após a chegada, para enfatizar o seu estatuto servil”.
Pese embora saibamos que nem sempre os Jesuítas foram coerentes no discurso relativo à escravatura, não podemos deixar de notar, apesar de tudo, a visão de Vieira, a exibir ódio e repulsa face ao que via. Mas lembraremos igualmente a exclamação, por demais conhecida, do mesmo Padre António Vieira, quando fazia a defesa da expulsão dos holandeses da região Pernambucana: "Sem Angola não há negros e sem negros não há Pernambuco". Ou seja, o contexto da escravatura não deixava ninguém sem mácula.
Parece implícito que o jesuíta conhecia bem a realidade em que se movia o tráfico e reconhecia que ele era importante no recrutamento de mão de obra para a indústria do açúcar, logo para a Europa e, especialmente, para o bolso das coroas europeias sempre carecidas de novas receitas.


Jacinto Lourenço - Janeiro 2019



quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Pudores Parvos do Género Humano





Ainda levei o nariz aos sovacos para ver se cheirava a algo que não fosse normal em mim, ou pudesse incomodar os outros. Mas não, o odor era apenas a desodorizante mesclado com o da água de colónia que tinha posto após o banho matinal. Ou seja: eu até cheirava bem. Por isso não percebi as reticências das pessoas que chegavam, de tabuleiro na mão, cabeça no ar à procura de um lugar para se sentarem a almoçar. A minha mesa tinha quatro lugares e eu só estava a ocupar um deles. Tive o cuidado de me sentar junto à parede para que quem chegasse depois de mim não tivesse que me pedir licença para passar para os lugares ainda livres.

Estava num daqueles restaurantes de Centro Comercial que, por acaso, até tinha meia dúzia de mesas só para os seus próprios clientes, embora todos os lugares, para além daqueles três que restavam na minha mesa estivessem ocupados. De realçar que até à zona comunitária do espaço de restauração ainda distavam uns 50 ou 60 metros desde o dito restaurante.

Mas não, ninguém se sentava perto de mim. Esta atitude é típica dos portugueses. Não gostarem de se sentar junto de pessoas desconhecidas à mesa de um restaurante. Mas ali, caramba, até estávamos num espaço comercial alargado onde quase toda a gente faz compras sem conhecer ninguém em particular E onde toda as pessoas se misturam e acotovelam.

Que raio de pudor será este que leva as pessoas a preferirem andar umas boas dezenas de metros à procura de mesa com assento em vez de usarem um lugar a uma mesa que tem quatro e só um está ocupado ?

Só posso responder por mim, e garanto que não cheirava mal, não estava mal vestido ou demasiado bem vestido. Sou um português normal, um pouco mais alto do que a média, é certo, olhos castanhos esverdeados, nem gordo nem magro.

Acabei de almoçar, fui ao WC lavar as mãos e, de relance, meio desconfiado de mim próprio, olhei para o espelho. Não, não foi por mim que as pessoas deixaram de se sentar. Foi por causa de um pudor parvo que não consigo explicar. Se fosse eu, garanto que me sentava.
Provavelmente, as mesmas pessoas que não ocuparam um dos lugares na mesa onde eu almoçava, são capazes de empurrar tudo e todos, esbracejar e barafustar com meio mundo na disputa do único lugar disponível na carruagem do metro que apanham todos os dias, de casa para o trabalho e do trabalho para casa, amalgamados por muitas outras pessoas que não conhecem ou sequer viram. Quanto a odores, nestas circunstâncias, nem vale a pena falar. Enfim, vá lá perceber-se o género humano !?!



Jacinto Lourenço       


   Janeiro 2019

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Escravatura, o Grande Leviatã que se Abateu sobre a Humanidade






A temática da escravatura é das que mais tenho lido e estudado em História ao longo da minha vida. Sempre procurei compreender o que pode estar oculto no coração e na cabeça de quem a tal prática se dedicou, ou continua ainda a dedicar-se, e das motivações sociais que permitiram o aparecimento e manutenção da monstruosidade do que considero ser  o maior crime contra a humanidade desde o início da criação do mundo.                                     

Quando chegou à altura de elaborar e submeter o meu projecto de dissertação de mestrado em História do Império Português, a minha escolha pareceu-me  óbvia e centrou-se  à volta da demografia da escravatura.                                                                                                                

 A escravatura é um facto histórico bastante bem documentado sendo relativamente fácil, a qualquer historiador, ou mesmo para alguém dotado do mais básico senso comum, chegar a uma conclusão: a realidade sobre esta, ao longo dos séculos, supera quase sempre o que alguma vez pudéssemos ter imaginado que poderia acontecer,  tal a dimensão de tão grande  tragédia e drama da humanidade. A escravatura é uma camada lodosa, grossa,  escura, fétida e profunda que se depositou nos interstícios da alma humana e por lá teima em persistir ficar.


A RTP 1 está a passar um conjunto de quatro documentários, intitulados genericamente “As Rotas da Escravatura”, que, mesmo tratando o assunto pela sua rama, tem o mérito de trazer ao grande público, em pinceladas largas,  mas de cores fortes, o que este deve saber, no mínimo, sobre o que foi, o que é,  e o que continuará a ser a escravatura. Não sei se alguma vez este cancro virá a ser erradicado no mundo tal qual o conhecemos e perspectivamos que as próximas gerações possam vir a conhecer. 


Desenganem-se aqueles que acham que a escravatura, ou o tráfico de pessoas destinadas a esse fim  atingiu apenas os seres humanos de raça negra. Muito longe disso.  Havia de  decorrer muito tempo até que o primeiro negro fosse escravizado, pois a escravatura e o tráfico foram, durante muitos séculos,  dirigidos primariamente a gente de pele branca. Ironicamente, se podemos dizer alguma coisa menos conhecida sobre a escravatura e o tráfico de seres humanos a ela destinado, é que tais práticas raramente foram dominadas por ideias racistas.  A razão  e  valor maior para traficar e escravizar um ser humano radicou, e radica ainda,  principalmente,  na questão económica.


Também não trarei, decerto, nenhuma novidade se adiantar que quase nenhum povo ou raça, de qualquer língua ou nação, pode dizer que não teve a sua quota parte de participação na tragédia hedionda da escravatura.                                                                                                                                           

Já agora será conveniente acrescentar que os portugueses, não estando, nem de longe nem de perto, isentos de grandes  responsabilidades no tráfico e na escravatura, só tardiamente aderiram a tais práticas, embora da forma, quanto a mim, mais odiosa  que se pode imaginar e que passava, nomeadamente, entre outros,  pelo método de razia nas costas africanas para apresamento e tráfico continuado de homens mulheres e crianças.  Quando o Papa Nicolau V outorga a D. Afonso V, através da  Bula Dum Diversas, em Junho de 1452, o direito de submeter e subjugar as terras dos  infiéis, abriu, para os portugueses, uma caixa de Pandora de onde  saiu a validação das miseráveis práticas da captura e redução à  escravidão de todos os africanos a que conseguissem  deitar mão, mesmo que,  acrescente-se,  tal Bula só tenha vindo a  “legitimar” algo a que os portugueses se dedicavam já desde meados do século XV.


Jacinto Lourenço   -    Janeiro   2019

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Hoje Estamos em Quarto Crescente...





O que se pode  aprender com a mudança de um dígito no calendário no início de um novo ano civil ? Desde logo o que resulta da enorme festa que se faz ao redor do mundo devido à simples e rotineira mudança de  um também simples dígito na forma como escrevemos a data em que nos situamos. Mas será que  o nível de paroxismo que a esmagadora maioria das pessoas revela justifica tal ? 

    Uma das últimas vezes que fui ao hipermercado para fazer compras de última hora, e esqueci a data em que me encontrava, aprendi a duras penas que não podemos esquecer, nunca, olhar de relance para o calendário antes de sair de casa, porque depois de apontarmos a frente do carro ao estacionamento interior da loja, não há volta a dar nem mais  nada que possamos fazer para emendar o terrível erro de termos tido a péssima ideia de sair de casa. Claro, alimentamos sempre  a vaga esperança de que uma multidão furiosa possa, ainda assim, ter um comportamento minimamente racional.  Mas cerca de duas horas depois, muitas buzinadelas, manobras agressivas e discussões histéricas escutadas através do vidro fechado do automóvel,  só para sair do parque de estacionamento do  hipermercado ensinam-nos esse princípio de vida: o calendário não muda o ser humano e, como resultado desse axioma, aprendemos também a nunca mais nos  metermos  no meio de uma multidão especialmente quando esta reage como se o ontem  não existisse e o amanhã fosse uma uma onda gigante de qualquer coisa que não sabemos o que é mas que queremos que nos atinja e nos leve ao zénite da felicidade e, já agora, nos mantenha lá enquanto os dígitos do calendário vão mudando rotineira e compassadamente.  

     Dá-se e troca-se tudo, até o siso,  por uma mudança de um dígito de calendário. 

     Estudámos e aprendemos que o ser humano é altamente predizível, ou seja, que  se pode predizer ou prever a forma como  responde quando sujeito a estímulos padronizados. Bom, isto é capaz de ser contraditado pela mudança de um simples  dígito de calendário no final de um ano civil e princípio de outro. O mesmo ser humano que se mete alegremente  no meio de uma multidão para fazer compras dos últimos luxos possíveis que, qual tapete mágico, o irão transportar à felicidade indizível, está disposto a atropelar tudo e todos para ser o primeiro a sair de um parque de estacionamento, mesmo que pela frente tenha centenas de carros e condutores insanos e ímpobros  pouco ou nada dispostos a ceder  um milímetro de espaço no lugar que ocupam na linha de saída.

     Em boa verdade, o calendário é mentiroso;  mudando não muda nada. Mudar está em nós, não no calendário. E mesmo aqueles dígitos que se sucedem diariamente e que uns dias nos fazem felizes e outros dias nem por isso, não passam de uma forma que arranjámos para armazenar memórias de acontecimentos e factos reais  que vão moldando a nossa vida. Se pudesse, acabava com o calendário ! Preferiria, apesar de tudo, contar as luas, porque essas sim, mudam muita coisa, mesmo aquelas que não damos conta que mudam.

     Como está dito no evangelho de Mateus: "Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal".

     É por tudo isto que acho que a festa que os mundos fazem por causa da mudança de um dígito, é a festa mais irracional do mundo. Depois disso, só o Carnaval. Ora eu, considero-me, sobretudo uma pessoa racional.

     Porque é que escrevo acerca disto ?  Provavelmente porque me deu a lua, ou porque apanhei lua. Vá lá saber-se !



Jacinto Lourenço     Janeiro, 2019

     

      

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Um Homem com Fome Não é um Homem Livre *




























"Ao que tem fome e te rouba o último pedaço de pão, chamas  teu inimigo,
mas não saltas ao pescoço do ladrão que te rouba sem nunca ter sentido  fome."


Bertolt Brecht





A RTP Memória passou há dois ou três anos atrás as aventuras e desventuras de D. Camilo e Pepone.  Gravei e fui revendo.  Não deixo de sorrir, ma já não me divertem como nos anos sessenta,  até porque o que alegrava a minha adolescência ingénua de há quarenta e tal anos  cobre-me agora de um quase "ridículo" quando revejo o D.Camilo e penso na minha incapacidade de então para discernir a mensagem subliminar que D. Camilo transmitia sob a capa do bem e do mal enquadrados no plano da oposição entre a política e a religião, ou melhor, de uma certa política e de uma determinada religião. 

Mas afinal, o que são o bem e o mal ? Bom, não vou discutir agora o conceito embutido em mim  pela cultura judaico-cristã. Tão pouco o que resultava da mensagem maniqueísta vista em D.Camilo.  Mas talvez, porventura de uma forma simplista, possamos dizer que tanto o bem como o mal são coisas do âmbito de percepção do  senso comum, que todos sabemos o que é o bem e o mal ou que todos podemos discernir o que está bem e o que está mal feito.  

E, já agora,  tão pouco me interessa trazer   a discussão sobre  os conceitos filosóficos à volta do bem e do mal.  

O mundo, tal qual o conhecemos hoje, já não é  visto como há quarenta ou cinquenta anos atrás. O bem e o mal ganharam outras dimensões e outros contornos. Talvez mesmo novas conceptualizações.  A mensagem maniqueísta que o estado novo pretendia fazer  passar nos anos 60 em Portugal, e onde os filmes de D.Camilo assentavam que nem uma luva, ajoelhou perante  os ventos de Abril.  Volvidas algumas décadas, D.Camilo e Pepone já não encaixam nestes tempos de pós- modernidade, mesmo se traduzem uma velha realidade sociológica  que se espraia envolta na espuma do tempo. O bem e o mal  são-nos hoje apresentados  veiculados por diferentes e intrincadas manifestações sociológicas, muito mais complexas e estruturadas, de difícil descodificação  mas, na essência, a terra  que deixa um ou outro germinar continua presente nas sociedades e nos homens do nosso tempo, de todos os tempos, aliás.  D.Camilo ou Pepone não passavam de metáforas que, de uma forma ou de outra, e despidas da sua roupagem política,  se projectam em todos os tempos, em todas as sociedades, em todas as vivências.

A questão principal que se coloca hoje à volta do bem e do mal é a relativização ética e moral dos conceitos,  coisa que tanto D. Camilo como Pepone desconheciam o que poderia significar.  Mas também não é sobre isso que quero falar. Talvez seja matéria para umas páginas lá mais à frente no tempo. 

Mas  que me assusta a relativização da ética e da moral sentida nos nossos tempos, lá isso assusta. E assusta porque, ainda que quisesse manter-me à margem, e não quero, tal relativização havia sempre de me desafiar, de me provocar. 

Há coisas que fazemos bem relativizar, outras nem por isso e outras ainda porque não devemos mesmo relativizar, a não ser que queiramos jogar aos dados com aquilo que somos. 

Eu não gosto e nem quero jogar aos dados com coisas sérias. E porque é que digo isto ?  É porque durante muito tempo, em anos recuados,  eu relativizei coisas que não devia, outras coisas não percebi que,  relativizando,  o tempo, mestre como sempre, haveria de me ensinar duras lições a expensas próprias, e outras ainda, sabendo que não podia relativizar, relativizei porque não me apetecia estar com o trabalho de separar o trigo do joio. Ora, como bem sabemos, o joio nunca dará pão. 

Há coisas que só o passar dos anos  e as experiências de vida nos ensinam. 

Felizmente nunca soube o que significa passar fome, mas quando digo passar fome, não quero significar com isso aquela fome momentânea que saciamos pouco depois de a começarmos a sentir, não, não é disso que falo. Falo mesmo da fome que não pode ser saciada por total ausência de recursos que permitam a  saciedade.

Ora, existem hoje no meu país vários tipos de fome; a fome que é fome de alimentos essenciais à vida, mas também  uma fome metafórica ou alegórica, se quisermos: fome de justiça, fome da verdade, fome de honestidade, fome de igualdade de direitos e deveres, fome de cidadania, fome de respeito, fome de convicções, fome de ética e valores, fome de moral e moralização, fome espiritual, fome de palavra e de palavras, fome de autoridade legítima e legitimada, fome de rectidão, etc. 

É pois sobre estes tipos de fomes que me proponho escrever por estes dias, por aqui. Até porque tenho fome de escrever. 


J. Lourenço 




*) Robert Louis Stevenson


quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Somos todos Cidadãos iguais em Direitos e Deveres






Faz meia dúzia de dias atrás que trouxe aqui o episódio do 'Mauzinho',  o filho do cabo da guarda lá da terra, episódio que não era uma metáfora de coisa nenhuma por ser verdadeiro. Pensei desde logo que voltaria ao tema, agora para lembrar o cabo João (*), um agente da GNR com verdadeiro sentido cívico, moral e ético da sua missão numa pequena terra alentejana com todas as condições sócio-económicas formatadas pela realidade que a existência do Estado Novo, ou melhor dito, da ditadura Salazarista quis  impor aos portugueses com recurso a uma unicidade de pensamento, maneira de ser,  ver e estar. Em resumo, um comportamento social balizado pela doutrina aprendida do fascismo italiano  decalcada e adaptada à ditadura que em terras lusas ocorreu de 1926  a 1974, com o conluio, é bom não esquecer, da igreja católica.

Sentado no banco de madeira do velho cacilheiro que resfolegava para chegar à outra margem, distraído com a leitura de um livro, reparo de soslaio num primeiro sargento da GNR que viajava de pé e não deixava de me fitar. Imaginei que talvez estivesse a tentar descortinar se eu era alguém que se tivesse cruzado com ele nalguma operação movida pela Guarda. Senti-me desconfortável com o seu olhar fixo na minha direcção mas, ao mesmo tempo, absolutamente tranquilo. Afinal estava apenas a fazer uma viagem de cacilheiro num final de dia de trabalho.                                                    
O primeiro sargento, trajando o habitual fato de cotim, soltou as amarras da sua curiosidade abordando-me  e perguntando se "eu não o estava a conhecer ? ".   Respondi  evasivamente, entre uma estupefacção expectante, que não, que nunca tinha conhecido ou sequer tivera,  na minha vida, qualquer contacto com alguém da GNR com o posto de cabo para cima.  Era melhor assim, achava eu,  acabar com a conversa que estava a nascer uma vez que não queria alongar-me  em falas com um agente da GNR. Mas o homem quis continuar. Fechei o livro que tinha entre mãos e fixei-o directamente, em jeito de desafio, para que me dissesse exactamente ao que vinha, e foi o que ele fez.   "Então não se lembra do cabo 'João', lá na terra, no Alentejo ?".  Foi quando as escamas me caíram dos olhos e a memória recuou cerca de dez anos até ao período em que tinha estado a fazer a instrução primária no Alentejo. 

Tirei-lhe o recorte das feições, coloquei-lhe umas divisas imaginárias de cabo da Guarda, respirei fundo e disse-lhe, com satisfação não disfarçada,  num sorriso franco e aberto, que sim, que já me lembrava muito bem  quem ele era e quem ele tinha sido nesse período em que se cruzou comigo naquela pequena terra do Alentejo.  Demos um abraço. Perguntou-me pela família, pelos meus avós, pelos meus tios, pela minha vida, pelo meu percurso, o que fazia, onde morava.  Sobre ele, e sem que eu lhe perguntasse o que quer que fosse, contou-me um pouco do trajecto desde que saíra  lá da terra. Agora já não era cabo, era sargento. Dei-lhe os  parabéns e fiquei a pensar de mim para mim que um homem bom e íntegro, até mesmo numa força como era a GNR nessa altura, ao serviço de uma ditadura no Alentejo rural dos anos sessenta, e sem precisar exibir ostentação de poder ou ascendência autoritarista  sobre os seus semelhantes, consegue ter uma boa carreira profissional, sem a ter consolidado à custa de exercícios abusivos do poder em que esteve investido naquele pequeno posto que comandou e, estou certo, nas demais funções que desempenhou ao longo da sua carreira.                                                                                                                                          
O cabo 'João' era apenas um entre tantos militares da GNR, colocados no Alentejo mais ou menos profundo e recrutados, regra geral, bem no norte do país, que isolado do seu meio de origem e da sua família, podia ter "descarregado" a sua frustração pessoal sobre quem lhe "estivesse à mão". Foi sua opção não seguir por esse caminho 'largo',  embora nesse tempo o respaldo para qualquer acção potencialmente abusiva da sua parte tivesse de certeza o  apoio da força que integrava e o aplauso dos senhores da terra.  Nunca o fez. Sabia quem era e qual a responsabilidade social da sua função. Hoje tudo é diferente, ou melhor dito: hoje tudo é afinal mais parecido com os anos sessenta e as ditas forças da ordem, agem como se o primado da lei pudesse dar cobertura a todos os seus actos e a todas as suas inacções ou omissões. Os cidadãos estão genericamente entregues a si próprios ou então entregues às omissões e inacções de outros cidadãos fardados. Mérito para todos aqueles que não repudiam o primado da sua função social enquanto integrados numa qualquer força militar ou policial e, felizmente, ainda existem, e são muitos. De resto somos todos cidadãos iguais em direitos e deveres. O cabo 'João' percebeu isto muito bem.

A viagem do velho cacilheiro estava a terminar, percebi pelo ronco um pouco mais forte que vinha abafado da casa das máquinas. Despedimo-nos, desejei-lhe o melhor para a sua vida. Nunca mais nos cruzámos desde esse dia. Já passou quase meio século. Retenho a memória de um homem bom, mas que por ser bom não deixava de ser cumpridor das suas obrigações profissionais. Nunca lhe reconheci o mesmo perfil de fúria autoritária como o que enformava  a Guarda no tempo do cabo 'Mauzão', no Posto lá da terra.

Faz meia dúzia de dias atrás que trouxe aqui o episódio do 'Mauzinho',  o filho do cabo da guarda lá da terra, o 'Mauzão',  episódio que não era uma metáfora de coisa nenhuma por ser verdadeiro. Pensei desde logo que voltaria ao tema, mas agora para lembrar o cabo 'João' (*),  que sucedeu ao cabo 'Mauzão' no comando do posto. Um agente da GNR com verdadeiro sentido cívico, moral e ético da sua missão numa pequena terra alentejana com todas as condições sócio-económicas formatadas pela realidade que a existência do Estado Novo, ou melhor dito, que a ditadura Salazarista,  quis  impor aos portugueses com recurso a uma unicidade de pensamento, maneira de ser, ver e estar, em resumo um comportamento social balizado pela doutrina aprendida do fascismo italiano e adaptada à ditadura imposta em terras lusas de 1926  a 1974, com o conluio, é bom não esquecer, da igreja católica, cujo chefe máximo em Portugal, o Cardeal Cerejeira, era quase uma alma siamesa de Salazar.

É preciso que se  saiba que, da perspectiva do regime de antes do 25 de Abril de 1974,  o autoritarismo  revestia, por essa altura, em especial nas vilas e aldeias do Alentejo,  o exercício do rigor mascarado de fúria autoritária que acabava por se materializar na ponta dos cassetetes, nas sevícias, ou nas multas desproporcionadas que visavam, umas e outras as costas ou as  magras jornas dos trabalhadores rurais do Alentejo. As lutas e greves pela jornada diária de oito horas, e não de sol a sol, levaram muitos ao posto local da Guarda, outros a serem encaminhados para o posto da sede de concelho, e alguns a acabarem na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, sede da PIDE/DGS. Um caminho que tinha quase sempre como fim de rota a prisão de Caxias.  A GNR, em particular no Alentejo, foi sempre o braço armado do regime salazarista, como o tinha sido de outros regimes anteriores e continuaria a ser nos posteriores.  Mais do que manter a ordem, mantinha o terror a mando dos latifundiários locais, os verdadeiros donos do Alentejo de então, ou das ordens provenientes dos mandatários da ditadura de Salazar.  Normalmente, quando começava a bater ou a agir de forma desproporcionada, cegava na carreira sem direcção certa.

Ao ver na televisão as imagens e a denúncia do que se passou em Portalegre, com a violência exercida sobre os instruendos, e supostamente futuros guardas da GNR, e que atirou com alguns para as urgências hospitalares, fiquei a pensar se tal tipo de treino ainda será o mesmo que era fornecido aos instruendos que entravam para a GNR no tempo do Estado Novo, quando esta força estava ao serviço dos grandes  terratenentes alentejanos de então e da ditadura salazarista que durante 48 anos manteve Portugal na 'idade das trevas'. Será que os responsáveis máximos da Guarda e os decisores políticos de agora imaginam que ainda vivem em ditadura salazarista e que se devem preparar para concretizar, na prática, o treino que administram aos seus instruendos ?  Não seria melhor fazer-se à GNR o mesmo que fizeram à Guarda Fiscal, extiguindo-a, para assim dar lugar a uma força que não seja um espelho de vergonha para o país e quebre, por uma vez, esta 'escola'  que tem feito um trajecto velho e contorcido e  preparado os agentes  para bater ou apanhar  os cidadãos, qual passarinheiro que apanha as suas vítimas com um pouco de visgo como se cada cidadão fosse um malfeitor ?   É que não me deixa, em absoluto, nada descansado o processo de apuramento de responsabilidades e aplicação de justiça, dentro dos muros altos da GNR, quando é público que, depois de tudo o que se passou em Portalegre, com a violência sem medida a ser exibida, o facto de nem uma só queixa ter sido apresentada por qualquer um dos agredidos naquela escola de militares da GNR.  Talvez por isso somos levados a pensar que a GNR precisa  urgentemente, dentro do seu corpo militar, de muitos mais  homens como o cabo 'João', capazes de verem na generalidade de cada cidadão português alguém a quem se pede um comportamento socialmente responsável, mas que requer reciprocidade de tratamento por parte das forças militares e policiais e não a aplicação do autoritarismo e da força desmesurada só porque apetece,  mesmo que na sua frente esteja um cidadão com deveres, é certo, mas com todos os direitos que a lei lhe confere. 


(*) Por  razões de protecção de identidade não divulgamos o verdadeiro nome do cabo 'João'. 



Jacinto Lourenço -   Dezembro, 2018










terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Se eu Fosse Deus...








"...Agora cada um está a raspar cuidadosamente com a colher o fundo da marmita para tirar os últimos restos de sopa , o que provoca um ruído metálico que significa que o dia acabou. Pouco a pouco o silêncio prevalece, e então, da minha cama , no terceiro andar, vê-se e ouve-se que o velho Kuhn reza, em voz alta, com o boné na cabeça e abanando o corpo com violência. Kuhn agradece a Deus por não ter sido escolhido.

Kuhn é um insensato. Não vê, na cama ao lado, Beppo, o grego, que tem vinte anos, e que depois de amanhã irá para o gás; e que, sabendo-o, fica deitado olhando fixamente a lâmpada sem dizer nada e sem pensar em mais nada ? Não sabe Kuhn que a próxima será a sua vez ? Não percebe Kuhn que hoje aconteceu uma coisa abominável que nenhuma oração propiciatória, nenhum perdão, nenhuma expiação dos culpados, nada, em suma, que esteja em poder do homem fazer, poderá nunca mais cancelar ? 

Se eu fosse Deus, cuspiria para o chão a oração de Kuhn. [...]"

Primo Levi

( Se Isto é Um Homem, pág. 144 - Edição Público, Colecção Mil Folhas )

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

O que Sei sobre Comboios




Sei pouco sobre comboios, tirando que gosto de neles viajar e que já viajei o suficiente, ao longo da minha vida, para saber algumas coisas como utilizador não regular e ainda o que se passa em Portugal acerca do tema. Nunca, ou quase nunca foram pontuais. As condições das composições em que viajámos, e viajamos, nunca foram de excelência, salvaguardando alguns casos, como por exemplo o do "Alfa". Sei também que nas linhas mais importantes resolviam razoavelmente a contento das necessidades da população. A bem dizer, e sempre que viajei de comboio, nunca tive grandes motivos de reclamação do material circulante no que ao conforto dos passageiros dizia respeito. Já quanto a gares, horários, preços e etc... Enfim. 


Talvez por isso é que estranho muito mais o que está a acontecer com os comboios em Portugal. Ou melhor dito, quem e porque razão, e com que objectivos, está a destruir o transporte ferroviário em Portugal a ponto de, ao que vejo, ouço e leio, mais parecer que estamos num país de Terceiro Mundo. O que acho é que na Índia, no Bangladesh, no Perú ou no Nepal, por exemplo, e sem qualquer menosprezo para com estes países, o transporte ferroviário, se existir em todos eles - coisa que não sei com precisão - funciona muito melhor do que em Portugal. Transporta as pessoas, facto que não é despiciendo e não acontece por aqui.




Jacinto Lourenço, Nov. 2018

sábado, 24 de novembro de 2018

Do Servilismo e da Cultura de Penacho



       ( Foto: Jornal de Notícias )


 O artigo que segue foi por mim publicado a 26 de Novembro de 2012 em blogue entretanto desactivado. Seis anos depois continua a estar actual.


problema é antigo, está-nos no sangue, parece-me. Dizem-nos que o herdámos do tempo do "botas" , que nos obrigou ao servilismo. Não, a coisa vem mais de trás, do princípio da nossa história enquanto nação, com Egas Moniz a confundir honra com servilismo ( numa "interpretação" muito minha, e livre, da história...) quando foi pedir perdão e oferecer a sua vida e da sua família em resgate  a Afonso VII por D. Afonso Henriques se ter recusado a prestar vassalagem ao primo, conforme lhe prometera Egas Moniz, se este levantasse o cerco a Guimarães.  Sempre tivemos esta tendência para o servilismo, para a obediência cega e parva sem questionamentos. Somos assim; desenvolvemos, como nenhum outro povo da Ibéria,  a arte de "engolir sapos", mesmo se eles são de difícil digestão, e mostrar um sorriso,  por mais amarelo que seja.

Se vamos ao senhor doutor para tratar das maleitas que nos afligem, lá vem a promessa de, pela páscoa, lhe fazermos chegar um borreguinho ou um cabritinho desmamado, tenrinho, ainda a saber a leite, sim,  claro, porque  o médico nos vai aliviar das dores que carregamos. Os mais pobres podem sempre ofertar um queijinho ou um chouriço lá da terrinha. O físico, impante na sua cátedra inquestionável e impenetrável, a olhar-nos por cima dos óculos, diz que sim, que gosta e, na volta de uns comprimidos milagrosos, ou de umas gotas,  lá mais para a frente poderá seguir também para o consultório  um perú pelo natal. Ainda hoje, mesmo acedendo a um Serviço Nacional de Saúde que pagamos com os nossos  impostos, não conseguimos deixar de olhar para o médico como alguém a venerar servilmente, em lugar de o vermos como profissional que é, pago para cuidar da nossa saúde.                              
A esta imagem, talvez mais diluída nos meios urbanos, juntam-se outras que têm a ver com o sacerdote, o pastor, o advogado, o cabo da guarda, o presidente da Câmara, etc, a quem dedicamos ridículos e servis  encómios numa atitude borrega, sem paralelo conhecido a não ser o da  nossa triste vocação para desistirmos, com facilidade, de exibir a dignidade que reside no simples facto de sermos seres humanos e cidadãos na  plenitude da igualdade de direitos e deveres que independe da posição social que ocupamos, não esquecendo de tratar todos os nossos semelhantes com probidade e educação.                                                                  

Somos, quiçá, dos únicos países do mundo chamado desenvolvido a achar que títulos académicos fazem parte, ou devem  usar-se em lugar dos nomes de registo ou baptismo. Um país de doutores e engenheiros em que, mesmo aqueles que o não são exigem tratamento deferente como se o fossem. Doutor para aqui, doutor para ali, senhor engenheiro para isto senhor engenheiro para aquilo. É cultural, dizem-nos. Sim, até pode ser, mas não passa de uma cultura de penacho que assenta num servilismo a raiar a falta de coluna vertebral que se liga com a facilidade com que a vergamos por tudo e nada.

Clara Ferreira Alves constatava, numa das suas habituais e recentes crónicas no Expresso, que "outros países estão a conseguir atravessar a crise da dívida com a dignidade intacta" e só "Portugal resolveu transformar-se num país habitado por bonecos das Caldas". Dizia ainda  que "o nosso desejo de agradar, de servir, perde-nos. Faz-nos perder o respeito por nós próprios". Também, num outro registo, a mesma Clara Ferreira Alves, em reportagem sobre os estragos provocados pelo furacão Sandy, nos Estados Unidos da América, e para o mesmo semanário, constatava que os milionários de Manhattan, a deslizarem nos seus carros de luxo como se fossem os donos do planeta, não fazem a menor ideia de como vivem os pobres. "Usam-nos como serviçais, e proporcionam-lhes empregos com estatuto de invisibilidade. Os portugueses, uma comunidade em Newark, são famosos pela sua honestidade e por serem criados, governantes  e mulheres da limpeza de confiança. Gente que se pode meter dentro de casa. Simples, discretos, invisíveis. Sem nome nem história".

Também é certo, por aquilo que diz Clara Ferreira Alves, que pudemos, e devemos,  interpretar essa atitude dos trabalhadores portugueses nos E.U. da América, por exemplo, como francamente profissional: fazem o seu trabalho com correcção, executam as suas tarefas com profissionalismo e não se metem, mais do que devem, na vida dos outros, especialmente dos seus patrões. Mas também pode ser que o servilismo cultural dos portugueses os ajude a isso tudo.

Quando Portugal esteve sob dominação espanhola, esta cultura de servilismo era levada ao extremo para com a corte Filipina: relata-nos a História de Portugal coordenada por José Mattoso, no volume 5.3,  que "na corte de Filipe III [de Portugal], em Valladolid, os Castelhanos zombavam da soberba e vaidade dos portugueses: «não cuida um fidalgo português se não em que entrando na Corte, a hão-de assombrar, com os seus lacaios mais rica e custosamente vestidos do que nunca seus bisavós o fizeram nas suas vodas". Claro que o objectivo destes fidalgotes que se deslocavam a Valladolid,  emproados, empoados e seguidos pelo seu séquito de serviçais, era essencialmente  o de bajular o rei  e assim conseguir prebendas e favores políticos. Verificamos que, afinal, o servilismo é transversal na sociedade portuguesa e já vem de antanho.

O que sabemos hoje é que dignidade não rima com servilismo e que este não deve ser confundido com capacidade de realização e disponibilidade para correcção no nosso relacionamento com tudo e com todos.



Jacinto Lourenço, Nov. 2018

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O Dia em que me Armei de Pancada com o Filho do Cabo da Guarda




Lembro-me bem de ter andado à pancada com o filho do cabo 'Mauzão' (*), que era o cabo da guarda lá da terra quando eu era miúdo. Todos tinham medo de se meter com o filho do cabo da guarda, mais por medo da "casa escura", o lugar onde ia parar quem a GNR da vila achasse que não se portava bem, conceito ligado, aliás, mais ligado a leis não escritas do que a outra coisa qualquer. Não sei se alguém de minha casa teve que se ir explicar ao posto por eu ter batido no 'Mauzinho'(**), mas a verdade é que lhe arreei umas boas chapadas quando o apanhei por baixo. Embora, em abono da verdade, deva dizer que também levei.

Senti um prazer inaudito por ter dado ao filho do cabo "Mauzão" uns bons tabefes, lá isso senti. Nos meus escassos 10 anos de idade, foi porventura o meu maior momento de glória, rapazinho, que era, tímido e circunspecto, e de humilhação para ele, que exibia nos recreios a sua imunidade de filho do cabo da guarda. De entre a miudagem, quem se atreveria a dar uns murros no 'mauzinho', filho do todo poderoso cabo "Mauzão" naqueles idos de final da década de sessenta, quando a GNR estava ao serviço dos poderosos e importantes do Alentejo e os pobres e remediados eram sempre atirados para a mó de baixo ? Foi muita 'inconsciência'... Vem talvez daí a minha antipatia pela GNR, acrescida de achar, ainda hoje, que esta força militar nunca deixou de ter o mesmo tipo de comportamentos e instintos 'caçadores' que tinha nos anos sessenta, especialmente quando os vemos nas estradas, e que já lhe identificávamos então quando por exemplo se escondiam os agentes nas curvas da estrada à passagem dos trabalhadores rurais, no final do dia de trabalho e lhes saltavam à frente, multando-os por cometerem esse 'hediondo crime' de transportarem as namoradas ou esposas nos suportes das suas pasteleiras, ou até para revistarem alcofas e taleigos em busca de meia dúzia de bolotas apanhadas longe da vista de feitores ou manageiros. Neste capítulo, julgo que tem a força militar em causa, e particularmente os seus chefes, nos vários escalões hierárquicos até ao topo, um caminho para percorrer, mesmo se a herança é pesada e carregada de maus exemplos históricos, com séculos de idade, permeada, é certo,  também com bons exemplos.

Difícil é avistar hoje, por exemplo, um patrulhamento de proximidade nas aldeias, vilas ou cidades, sob jurisdição da força em causa, na protecção de pessoas e bens, embora o patrulhamento sob jurisdição da PSP não traga nada de muito diferente e, por vezes, ainda piora, como foi o caso na cidade onde resido. O patrulhamento de proximidade, sem descurar as restantes missões, para além do mais, devia ser a missão primordial das forças de segurança.  Mas por uma razão ou por outra o entendimento não é esse. Claro, que há sempre que salvaguardar os bons exemplos que vêm, por via de regra, da parte de muitos agentes com uma sólida sensibilidade pessoal e profissional plenamente conscientes do papel que lhes é cometido na sociedade e da pedagogia e elevação de valores que devem revestir esse papel. Mas sobre isso, falarei daqui por dois ou três dias.
Se eu me arrependo de ter dado uns tabefes no 'Mauzinho' ? Não, nada mesmo. Para além do mais, também levei, embora o saldo se tenha mostrado mais positivo para mim. Ainda hoje, ao fim de meio século, não sei onde arranjei ganas para me armar de pancadaria com o 'Mauzinho' , o filho do temido cabo da guarda 'Mauzão', mesmo a trinta ou quarenta metros da porta do posto, nas barbas do 'Mauzão'.  Tenho esta particular tendência de não conseguir resistir à provocação por muito tempo e o 'Mauzinho', naquele dia, meteu-se a jeito.





(*) Por questões de protecção de identidade não menciono o verdadeiro nome do cabo 'Mauzão'.
(**) Idem para o 'Mauzinho'




Jacinto Lourenço, Novembro 2018