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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Açúcar, um Veneno que nos Corre nas Veias


"Gente toda da cor da mesma noite, trabalhando vivamente e gemendo tudo ao mesmo tempo sem momento de tréguas, nem de descanso: quem vir enfim toda a máquina e aparato confuso e estrondoso daquela Babilónia não poderá duvidar, ainda que tenha visto Etnas e Vesúvios, que é uma semelhança do inferno."
Estas palavras do Padre António Vieira, no sermão do Rosário, em 1633, citadas por Stuart Schwartz na História da Expansão Portuguesa, edição Círculo de Leitores, julgo traduzirem bem a imagem da realidade da indústria do açúcar aos olhos de quem não estava habituado ainda, no século XVI, aos ritmos de trabalho pontuado pela exploração intensiva e industrial, mesmo tendo em linha de conta que a indústria açucareira só começou realmente a florescer e incrementar-se a partir de meados desse século. Mas não era apenas a realidade do processo industrial propriamente dito, ou da actividade de "platation", que causava espanto e admiração no espírito do Jesuíta. A realidade que ele observava com os seus olhos e aferia com as suas palavras era mais ampla e continha, parece-me, um sentimento de alguma repulsa, de cariz porventura religioso, por aquilo que observava e que era certamente o que mais saltava à vista: o trabalho forçado de um exército de mão de obra negra e escrava que tinha sido a solução encontrada para a substituição dos ameríndios menos adaptados e menos capazes, quer do ponto de vista técnico, quer do ponto de vista cultural, aos trabalhos de índole agrícola. Isto, claro, para além da escassez de mão de obra ameríndia que se foi acentuando em razão de vários factores, nomeadamente, e talvez dos mais importantes, o das doenças viajadas da europa e que foram dizimando os indígenas aos milhares no Brasil.
À realidade, que Vieira conheceria, juntava-se ainda o facto da complacência demonstrada em relação à rentabilidade laboral exigida pelos senhores ser muito menor para com os negros do que para com os ameríndios. A.R.Disney, dá conta disso na sua "História de Portugal e do Império Português", da "Guerra e Paz, Editores, numa pequena amostra do tratamento reservado aos escravos negros logo que chegavam a território brasileiro, mesmo que isso pudesse variar de senhor para senhor: “em algumas plantações brasileiras os novos escravos eram imediatamente chicoteados após a chegada, para enfatizar o seu estatuto servil”.
Pese embora saibamos que nem sempre os Jesuítas foram coerentes no discurso relativo à escravatura, não podemos deixar de notar, apesar de tudo, a visão de Vieira, a exibir ódio e repulsa face ao que via. Mas lembraremos igualmente a exclamação, por demais conhecida, do mesmo Padre António Vieira, quando fazia a defesa da expulsão dos holandeses da região Pernambucana: "Sem Angola não há negros e sem negros não há Pernambuco". Ou seja, o contexto da escravatura não deixava ninguém sem mácula.
Parece implícito que o jesuíta conhecia bem a realidade em que se movia o tráfico e reconhecia que ele era importante no recrutamento de mão de obra para a indústria do açúcar, logo para a Europa e, especialmente, para o bolso das coroas europeias sempre carecidas de novas receitas.


Jacinto Lourenço - Janeiro 2019



terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Escravatura, o Grande Leviatã que se Abateu sobre a Humanidade






A temática da escravatura é das que mais tenho lido e estudado em História ao longo da minha vida. Sempre procurei compreender o que pode estar oculto no coração e na cabeça de quem a tal prática se dedicou, ou continua ainda a dedicar-se, e das motivações sociais que permitiram o aparecimento e manutenção da monstruosidade do que considero ser  o maior crime contra a humanidade desde o início da criação do mundo.                                     

Quando chegou à altura de elaborar e submeter o meu projecto de dissertação de mestrado em História do Império Português, a minha escolha pareceu-me  óbvia e centrou-se  à volta da demografia da escravatura.                                                                                                                

 A escravatura é um facto histórico bastante bem documentado sendo relativamente fácil, a qualquer historiador, ou mesmo para alguém dotado do mais básico senso comum, chegar a uma conclusão: a realidade sobre esta, ao longo dos séculos, supera quase sempre o que alguma vez pudéssemos ter imaginado que poderia acontecer,  tal a dimensão de tão grande  tragédia e drama da humanidade. A escravatura é uma camada lodosa, grossa,  escura, fétida e profunda que se depositou nos interstícios da alma humana e por lá teima em persistir ficar.


A RTP 1 está a passar um conjunto de quatro documentários, intitulados genericamente “As Rotas da Escravatura”, que, mesmo tratando o assunto pela sua rama, tem o mérito de trazer ao grande público, em pinceladas largas,  mas de cores fortes, o que este deve saber, no mínimo, sobre o que foi, o que é,  e o que continuará a ser a escravatura. Não sei se alguma vez este cancro virá a ser erradicado no mundo tal qual o conhecemos e perspectivamos que as próximas gerações possam vir a conhecer. 


Desenganem-se aqueles que acham que a escravatura, ou o tráfico de pessoas destinadas a esse fim  atingiu apenas os seres humanos de raça negra. Muito longe disso.  Havia de  decorrer muito tempo até que o primeiro negro fosse escravizado, pois a escravatura e o tráfico foram, durante muitos séculos,  dirigidos primariamente a gente de pele branca. Ironicamente, se podemos dizer alguma coisa menos conhecida sobre a escravatura e o tráfico de seres humanos a ela destinado, é que tais práticas raramente foram dominadas por ideias racistas.  A razão  e  valor maior para traficar e escravizar um ser humano radicou, e radica ainda,  principalmente,  na questão económica.


Também não trarei, decerto, nenhuma novidade se adiantar que quase nenhum povo ou raça, de qualquer língua ou nação, pode dizer que não teve a sua quota parte de participação na tragédia hedionda da escravatura.                                                                                                                                           

Já agora será conveniente acrescentar que os portugueses, não estando, nem de longe nem de perto, isentos de grandes  responsabilidades no tráfico e na escravatura, só tardiamente aderiram a tais práticas, embora da forma, quanto a mim, mais odiosa  que se pode imaginar e que passava, nomeadamente, entre outros,  pelo método de razia nas costas africanas para apresamento e tráfico continuado de homens mulheres e crianças.  Quando o Papa Nicolau V outorga a D. Afonso V, através da  Bula Dum Diversas, em Junho de 1452, o direito de submeter e subjugar as terras dos  infiéis, abriu, para os portugueses, uma caixa de Pandora de onde  saiu a validação das miseráveis práticas da captura e redução à  escravidão de todos os africanos a que conseguissem  deitar mão, mesmo que,  acrescente-se,  tal Bula só tenha vindo a  “legitimar” algo a que os portugueses se dedicavam já desde meados do século XV.


Jacinto Lourenço   -    Janeiro   2019

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Somos todos Cidadãos iguais em Direitos e Deveres






Faz meia dúzia de dias atrás que trouxe aqui o episódio do 'Mauzinho',  o filho do cabo da guarda lá da terra, episódio que não era uma metáfora de coisa nenhuma por ser verdadeiro. Pensei desde logo que voltaria ao tema, agora para lembrar o cabo João (*), um agente da GNR com verdadeiro sentido cívico, moral e ético da sua missão numa pequena terra alentejana com todas as condições sócio-económicas formatadas pela realidade que a existência do Estado Novo, ou melhor dito, da ditadura Salazarista quis  impor aos portugueses com recurso a uma unicidade de pensamento, maneira de ser,  ver e estar. Em resumo, um comportamento social balizado pela doutrina aprendida do fascismo italiano  decalcada e adaptada à ditadura que em terras lusas ocorreu de 1926  a 1974, com o conluio, é bom não esquecer, da igreja católica.

Sentado no banco de madeira do velho cacilheiro que resfolegava para chegar à outra margem, distraído com a leitura de um livro, reparo de soslaio num primeiro sargento da GNR que viajava de pé e não deixava de me fitar. Imaginei que talvez estivesse a tentar descortinar se eu era alguém que se tivesse cruzado com ele nalguma operação movida pela Guarda. Senti-me desconfortável com o seu olhar fixo na minha direcção mas, ao mesmo tempo, absolutamente tranquilo. Afinal estava apenas a fazer uma viagem de cacilheiro num final de dia de trabalho.                                                    
O primeiro sargento, trajando o habitual fato de cotim, soltou as amarras da sua curiosidade abordando-me  e perguntando se "eu não o estava a conhecer ? ".   Respondi  evasivamente, entre uma estupefacção expectante, que não, que nunca tinha conhecido ou sequer tivera,  na minha vida, qualquer contacto com alguém da GNR com o posto de cabo para cima.  Era melhor assim, achava eu,  acabar com a conversa que estava a nascer uma vez que não queria alongar-me  em falas com um agente da GNR. Mas o homem quis continuar. Fechei o livro que tinha entre mãos e fixei-o directamente, em jeito de desafio, para que me dissesse exactamente ao que vinha, e foi o que ele fez.   "Então não se lembra do cabo 'João', lá na terra, no Alentejo ?".  Foi quando as escamas me caíram dos olhos e a memória recuou cerca de dez anos até ao período em que tinha estado a fazer a instrução primária no Alentejo. 

Tirei-lhe o recorte das feições, coloquei-lhe umas divisas imaginárias de cabo da Guarda, respirei fundo e disse-lhe, com satisfação não disfarçada,  num sorriso franco e aberto, que sim, que já me lembrava muito bem  quem ele era e quem ele tinha sido nesse período em que se cruzou comigo naquela pequena terra do Alentejo.  Demos um abraço. Perguntou-me pela família, pelos meus avós, pelos meus tios, pela minha vida, pelo meu percurso, o que fazia, onde morava.  Sobre ele, e sem que eu lhe perguntasse o que quer que fosse, contou-me um pouco do trajecto desde que saíra  lá da terra. Agora já não era cabo, era sargento. Dei-lhe os  parabéns e fiquei a pensar de mim para mim que um homem bom e íntegro, até mesmo numa força como era a GNR nessa altura, ao serviço de uma ditadura no Alentejo rural dos anos sessenta, e sem precisar exibir ostentação de poder ou ascendência autoritarista  sobre os seus semelhantes, consegue ter uma boa carreira profissional, sem a ter consolidado à custa de exercícios abusivos do poder em que esteve investido naquele pequeno posto que comandou e, estou certo, nas demais funções que desempenhou ao longo da sua carreira.                                                                                                                                          
O cabo 'João' era apenas um entre tantos militares da GNR, colocados no Alentejo mais ou menos profundo e recrutados, regra geral, bem no norte do país, que isolado do seu meio de origem e da sua família, podia ter "descarregado" a sua frustração pessoal sobre quem lhe "estivesse à mão". Foi sua opção não seguir por esse caminho 'largo',  embora nesse tempo o respaldo para qualquer acção potencialmente abusiva da sua parte tivesse de certeza o  apoio da força que integrava e o aplauso dos senhores da terra.  Nunca o fez. Sabia quem era e qual a responsabilidade social da sua função. Hoje tudo é diferente, ou melhor dito: hoje tudo é afinal mais parecido com os anos sessenta e as ditas forças da ordem, agem como se o primado da lei pudesse dar cobertura a todos os seus actos e a todas as suas inacções ou omissões. Os cidadãos estão genericamente entregues a si próprios ou então entregues às omissões e inacções de outros cidadãos fardados. Mérito para todos aqueles que não repudiam o primado da sua função social enquanto integrados numa qualquer força militar ou policial e, felizmente, ainda existem, e são muitos. De resto somos todos cidadãos iguais em direitos e deveres. O cabo 'João' percebeu isto muito bem.

A viagem do velho cacilheiro estava a terminar, percebi pelo ronco um pouco mais forte que vinha abafado da casa das máquinas. Despedimo-nos, desejei-lhe o melhor para a sua vida. Nunca mais nos cruzámos desde esse dia. Já passou quase meio século. Retenho a memória de um homem bom, mas que por ser bom não deixava de ser cumpridor das suas obrigações profissionais. Nunca lhe reconheci o mesmo perfil de fúria autoritária como o que enformava  a Guarda no tempo do cabo 'Mauzão', no Posto lá da terra.

Faz meia dúzia de dias atrás que trouxe aqui o episódio do 'Mauzinho',  o filho do cabo da guarda lá da terra, o 'Mauzão',  episódio que não era uma metáfora de coisa nenhuma por ser verdadeiro. Pensei desde logo que voltaria ao tema, mas agora para lembrar o cabo 'João' (*),  que sucedeu ao cabo 'Mauzão' no comando do posto. Um agente da GNR com verdadeiro sentido cívico, moral e ético da sua missão numa pequena terra alentejana com todas as condições sócio-económicas formatadas pela realidade que a existência do Estado Novo, ou melhor dito, que a ditadura Salazarista,  quis  impor aos portugueses com recurso a uma unicidade de pensamento, maneira de ser, ver e estar, em resumo um comportamento social balizado pela doutrina aprendida do fascismo italiano e adaptada à ditadura imposta em terras lusas de 1926  a 1974, com o conluio, é bom não esquecer, da igreja católica, cujo chefe máximo em Portugal, o Cardeal Cerejeira, era quase uma alma siamesa de Salazar.

É preciso que se  saiba que, da perspectiva do regime de antes do 25 de Abril de 1974,  o autoritarismo  revestia, por essa altura, em especial nas vilas e aldeias do Alentejo,  o exercício do rigor mascarado de fúria autoritária que acabava por se materializar na ponta dos cassetetes, nas sevícias, ou nas multas desproporcionadas que visavam, umas e outras as costas ou as  magras jornas dos trabalhadores rurais do Alentejo. As lutas e greves pela jornada diária de oito horas, e não de sol a sol, levaram muitos ao posto local da Guarda, outros a serem encaminhados para o posto da sede de concelho, e alguns a acabarem na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, sede da PIDE/DGS. Um caminho que tinha quase sempre como fim de rota a prisão de Caxias.  A GNR, em particular no Alentejo, foi sempre o braço armado do regime salazarista, como o tinha sido de outros regimes anteriores e continuaria a ser nos posteriores.  Mais do que manter a ordem, mantinha o terror a mando dos latifundiários locais, os verdadeiros donos do Alentejo de então, ou das ordens provenientes dos mandatários da ditadura de Salazar.  Normalmente, quando começava a bater ou a agir de forma desproporcionada, cegava na carreira sem direcção certa.

Ao ver na televisão as imagens e a denúncia do que se passou em Portalegre, com a violência exercida sobre os instruendos, e supostamente futuros guardas da GNR, e que atirou com alguns para as urgências hospitalares, fiquei a pensar se tal tipo de treino ainda será o mesmo que era fornecido aos instruendos que entravam para a GNR no tempo do Estado Novo, quando esta força estava ao serviço dos grandes  terratenentes alentejanos de então e da ditadura salazarista que durante 48 anos manteve Portugal na 'idade das trevas'. Será que os responsáveis máximos da Guarda e os decisores políticos de agora imaginam que ainda vivem em ditadura salazarista e que se devem preparar para concretizar, na prática, o treino que administram aos seus instruendos ?  Não seria melhor fazer-se à GNR o mesmo que fizeram à Guarda Fiscal, extiguindo-a, para assim dar lugar a uma força que não seja um espelho de vergonha para o país e quebre, por uma vez, esta 'escola'  que tem feito um trajecto velho e contorcido e  preparado os agentes  para bater ou apanhar  os cidadãos, qual passarinheiro que apanha as suas vítimas com um pouco de visgo como se cada cidadão fosse um malfeitor ?   É que não me deixa, em absoluto, nada descansado o processo de apuramento de responsabilidades e aplicação de justiça, dentro dos muros altos da GNR, quando é público que, depois de tudo o que se passou em Portalegre, com a violência sem medida a ser exibida, o facto de nem uma só queixa ter sido apresentada por qualquer um dos agredidos naquela escola de militares da GNR.  Talvez por isso somos levados a pensar que a GNR precisa  urgentemente, dentro do seu corpo militar, de muitos mais  homens como o cabo 'João', capazes de verem na generalidade de cada cidadão português alguém a quem se pede um comportamento socialmente responsável, mas que requer reciprocidade de tratamento por parte das forças militares e policiais e não a aplicação do autoritarismo e da força desmesurada só porque apetece,  mesmo que na sua frente esteja um cidadão com deveres, é certo, mas com todos os direitos que a lei lhe confere. 


(*) Por  razões de protecção de identidade não divulgamos o verdadeiro nome do cabo 'João'. 



Jacinto Lourenço -   Dezembro, 2018










terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Se eu Fosse Deus...








"...Agora cada um está a raspar cuidadosamente com a colher o fundo da marmita para tirar os últimos restos de sopa , o que provoca um ruído metálico que significa que o dia acabou. Pouco a pouco o silêncio prevalece, e então, da minha cama , no terceiro andar, vê-se e ouve-se que o velho Kuhn reza, em voz alta, com o boné na cabeça e abanando o corpo com violência. Kuhn agradece a Deus por não ter sido escolhido.

Kuhn é um insensato. Não vê, na cama ao lado, Beppo, o grego, que tem vinte anos, e que depois de amanhã irá para o gás; e que, sabendo-o, fica deitado olhando fixamente a lâmpada sem dizer nada e sem pensar em mais nada ? Não sabe Kuhn que a próxima será a sua vez ? Não percebe Kuhn que hoje aconteceu uma coisa abominável que nenhuma oração propiciatória, nenhum perdão, nenhuma expiação dos culpados, nada, em suma, que esteja em poder do homem fazer, poderá nunca mais cancelar ? 

Se eu fosse Deus, cuspiria para o chão a oração de Kuhn. [...]"

Primo Levi

( Se Isto é Um Homem, pág. 144 - Edição Público, Colecção Mil Folhas )

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

O que Sei sobre Comboios




Sei pouco sobre comboios, tirando que gosto de neles viajar e que já viajei o suficiente, ao longo da minha vida, para saber algumas coisas como utilizador não regular e ainda o que se passa em Portugal acerca do tema. Nunca, ou quase nunca foram pontuais. As condições das composições em que viajámos, e viajamos, nunca foram de excelência, salvaguardando alguns casos, como por exemplo o do "Alfa". Sei também que nas linhas mais importantes resolviam razoavelmente a contento das necessidades da população. A bem dizer, e sempre que viajei de comboio, nunca tive grandes motivos de reclamação do material circulante no que ao conforto dos passageiros dizia respeito. Já quanto a gares, horários, preços e etc... Enfim. 


Talvez por isso é que estranho muito mais o que está a acontecer com os comboios em Portugal. Ou melhor dito, quem e porque razão, e com que objectivos, está a destruir o transporte ferroviário em Portugal a ponto de, ao que vejo, ouço e leio, mais parecer que estamos num país de Terceiro Mundo. O que acho é que na Índia, no Bangladesh, no Perú ou no Nepal, por exemplo, e sem qualquer menosprezo para com estes países, o transporte ferroviário, se existir em todos eles - coisa que não sei com precisão - funciona muito melhor do que em Portugal. Transporta as pessoas, facto que não é despiciendo e não acontece por aqui.




Jacinto Lourenço, Nov. 2018

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O Dia em que me Armei de Pancada com o Filho do Cabo da Guarda




Lembro-me bem de ter andado à pancada com o filho do cabo 'Mauzão' (*), que era o cabo da guarda lá da terra quando eu era miúdo. Todos tinham medo de se meter com o filho do cabo da guarda, mais por medo da "casa escura", o lugar onde ia parar quem a GNR da vila achasse que não se portava bem, conceito ligado, aliás, mais ligado a leis não escritas do que a outra coisa qualquer. Não sei se alguém de minha casa teve que se ir explicar ao posto por eu ter batido no 'Mauzinho'(**), mas a verdade é que lhe arreei umas boas chapadas quando o apanhei por baixo. Embora, em abono da verdade, deva dizer que também levei.

Senti um prazer inaudito por ter dado ao filho do cabo "Mauzão" uns bons tabefes, lá isso senti. Nos meus escassos 10 anos de idade, foi porventura o meu maior momento de glória, rapazinho, que era, tímido e circunspecto, e de humilhação para ele, que exibia nos recreios a sua imunidade de filho do cabo da guarda. De entre a miudagem, quem se atreveria a dar uns murros no 'mauzinho', filho do todo poderoso cabo "Mauzão" naqueles idos de final da década de sessenta, quando a GNR estava ao serviço dos poderosos e importantes do Alentejo e os pobres e remediados eram sempre atirados para a mó de baixo ? Foi muita 'inconsciência'... Vem talvez daí a minha antipatia pela GNR, acrescida de achar, ainda hoje, que esta força militar nunca deixou de ter o mesmo tipo de comportamentos e instintos 'caçadores' que tinha nos anos sessenta, especialmente quando os vemos nas estradas, e que já lhe identificávamos então quando por exemplo se escondiam os agentes nas curvas da estrada à passagem dos trabalhadores rurais, no final do dia de trabalho e lhes saltavam à frente, multando-os por cometerem esse 'hediondo crime' de transportarem as namoradas ou esposas nos suportes das suas pasteleiras, ou até para revistarem alcofas e taleigos em busca de meia dúzia de bolotas apanhadas longe da vista de feitores ou manageiros. Neste capítulo, julgo que tem a força militar em causa, e particularmente os seus chefes, nos vários escalões hierárquicos até ao topo, um caminho para percorrer, mesmo se a herança é pesada e carregada de maus exemplos históricos, com séculos de idade, permeada, é certo,  também com bons exemplos.

Difícil é avistar hoje, por exemplo, um patrulhamento de proximidade nas aldeias, vilas ou cidades, sob jurisdição da força em causa, na protecção de pessoas e bens, embora o patrulhamento sob jurisdição da PSP não traga nada de muito diferente e, por vezes, ainda piora, como foi o caso na cidade onde resido. O patrulhamento de proximidade, sem descurar as restantes missões, para além do mais, devia ser a missão primordial das forças de segurança.  Mas por uma razão ou por outra o entendimento não é esse. Claro, que há sempre que salvaguardar os bons exemplos que vêm, por via de regra, da parte de muitos agentes com uma sólida sensibilidade pessoal e profissional plenamente conscientes do papel que lhes é cometido na sociedade e da pedagogia e elevação de valores que devem revestir esse papel. Mas sobre isso, falarei daqui por dois ou três dias.
Se eu me arrependo de ter dado uns tabefes no 'Mauzinho' ? Não, nada mesmo. Para além do mais, também levei, embora o saldo se tenha mostrado mais positivo para mim. Ainda hoje, ao fim de meio século, não sei onde arranjei ganas para me armar de pancadaria com o 'Mauzinho' , o filho do temido cabo da guarda 'Mauzão', mesmo a trinta ou quarenta metros da porta do posto, nas barbas do 'Mauzão'.  Tenho esta particular tendência de não conseguir resistir à provocação por muito tempo e o 'Mauzinho', naquele dia, meteu-se a jeito.





(*) Por questões de protecção de identidade não menciono o verdadeiro nome do cabo 'Mauzão'.
(**) Idem para o 'Mauzinho'




Jacinto Lourenço, Novembro 2018

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

As Questiúnculas da Nação







Para Rui Rio, a questão das falsas presenças, na Assembleia da República, do seu Secretário Geral, o Sr. Silvano, não passam afinal de "questiúnculas" levantadas por pessoas mal intencionadas. Para a senhora deputada Emília Cerqueira, que só se lembrou, seis dias depois, que havia sido ela a ter validado, sem querer, as falsas presenças do Senhor Secretário geral Silvano, com a password que este lhe facultou, e de isso lhe ser apontado como um grave atropelo aos seus deveres e direitos enquanto deputada eleita pela nação, o facto não passa de más intenções de "virgens ofendidas". Afinal, diz ela, todos têm as passwords de todos, o que implica, achamos nós, que  todos podem validar falsas presenças de todos, coisa que, a fazer fé no que já vimos sair daquela casa, que devia ser um exemplo de cidadania e democracia, não será de todo despiciendo.

O senhor presidente da Assembleia da República afirma que não é suposto que os senhores deputados conheçam as passwords uns dos outros, mas a verdade é que parece que conhecem e, muito provavelmente, a coisa não se resume ao Sr. Silvano e à D.Emília Cerqueira. A prática pelos vistos é useira e porventura estendendo-se um pouco por todo o hemiciclo, a fazer fé na D. Emília Cerqueira, que, no seu dizer, é uma "mulher do Alto Minho" e sem papas na língua e que por isso deixou a pairar no ar que há afinal muitas "virgens ofendidas" a usar o mesmo processo de validação de falsas presenças.                                                                                                                                               
Ao fim e ao cabo parece  que os únicos  'mal intencionados', no meio de tantas "questiúnculas" levantadas, somos nós, os cidadãos que placidamente continuamos a pagar, com língua de palmo, o vencimento de tantas "virgens" que circulam, ou não, pelo Parlamento. Assim se vai desacreditando a democracia por via da baixa política, dos políticos mentirosos e falsos e dos partidos que, numa atitude claramente corporativista, encobrem, ao limite, os seus e se recusam a olhar para a evolução da taxa de abstenção registada nas sucessivas eleições que desde 1975  vem quase sempre em crescendo, eleição após  eleição. Provavelmente, com "questiúnculas" destas ou de outras parecidas e com os líderes dos partidos a tentarem manobras de ocultação, dilação e desculpabilização dos seus actores partidários, a democracia vai continuar a degradar-se em Portugal e  a abstenção vai continuar a exibir o pouco que os cidadãos confiam no actual sistema político regido por tanta mentira e golpada partidária.  Tenham tento !


Jacinto Lourenço   Nov. 2018

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Receita para fazer Morrer uma Cidade





Nasci e cresci quase sempre em Lisboa, se descontar cerca de quatro anos passados no Alentejo que fizeram com que o sentir alentejano se me tornasse indissociável do que sou hoje.



Sempre gostei da capital, dos seus bairros, das gentes que os habitam, do seu pulsar de grande / pequena cidade com um misto de pormenores de ruralidade que não podiam escapar a qualquer observador estivesse dentro ou viesse de fora.  Não foram muitos os anos que morei em Lisboa, mas foram suficientes para perceber que Lisboa, para mim, era uma cidade para ir, estar umas horas, visitar, e regressar de quando em vez. Valia sempre a pena  Ir à baixa às compras, ou ver o último filme a passar no Condes, no Eden, no São Jorge, no Odeon, etc; era um programa aliciante. Subir pela Sé até ao miradouro de Santa Luzia ou pela Calçada da Glória até São Pedro de Alcântara para ver os telhados que se espraiam cidade acima, cidade abaixo, ou mirar a  Senhora do Monte no Outeiro contrário, eram motivos mais do que suficientes para nos lavar a vista e a alma. Sempre me orgulhei da cidade onde nasci e que vi transformar-se, mesmo que nem sempre tenha sido para melhor.



Depois, mais tarde, comecei a ir a Lisboa para percorrer os alfarrabistas à procura de obras ‘descatalogadas’ pelas editoras e que só naqueles  templos do livro se podiam encontrar. Mas também nesses périplos, atrás de livros,  me deliciava com a paisagem citadina, visto que muitos alfarrabistas se podiam encontrar nos bairros mais característicos de Lisboa. Subir as Escadinhas do Duque ou descer a Calçada do Combro, por exemplo, não era apenas exercício físico, eram percursos de fruição pura da cidade nas suas zonas mais pitorescas e onde se congrega muita da sua monumentalidade.

Mas as cidades mudam e mudam de forma mais ou menos continuada. Afinal, como diz o povo, “parar é morrer”.  Pese embora isso, nem toda a mudança tem sido para melhor,  em Lisboa. Hoje caminhar na baixa é quase como estar num centro comercial asiático a céu aberto. Poucas lojas tradicionais restam. As livrarias onde me habituei a entrar, quanto mais não fosse do que para apenas folhear meia dúzia de livros e olhar as novidades ou sentir o cheiro do papel de livro que, como bem sabemos, é um cheiro diferente de todos os outros  papéis.
   


Alfarrabistas contam-se quase pelos dedos das mãos no núcleo da cidade onde se concentravam a maioria deles. A marcha inexorável do dinheiro e do lucro rápido têm condenado toda uma forma de vida que devia manter o seu lugar em Lisboa, porque uma cidade, e a alma de uma cidade,  também se faz disso, das lojas tradicionais, do comércio tradicional e de Livrarias e alfarrabistas. Dir-me-ão que é o progresso. Pois sim, mas o progresso não se deve sobrepor à alma, ao sentir fundamental das cidades, ao seu coração, à sua cultura, à sua idiossincrasia.  E Lisboa está a perder-se um pouco todos os dias. E é pena, porque afinal cultura e tradição não são incompatíveis com modernidade, bem pelo contrário, é isso que traz, em grande medida, os turistas a visitar Lisboa. Era isso que poderia continuar a fazer com que apetecesse, a estrangeiros e portugueses, desejar passar umas horas ou dias em Lisboa e fruir a cidade.



Quando fechar a última loja tradicional ou o último café centenário. Quando a última livraria encerrar portas. Quando todos os bairros mais tradicionais estiverem despejados de moradores e transformados em alojamentos locais ou hotéis de charme. Quando no São Carlos já não se ouvirem notas musicais ou a voz dos sopranos em toda a sua beleza lírica e o Teatro de ópera for apenas mais um centro comercial, ou mesmo quando o D. Maria II vier a ser  apenas mais um edifício de fachada com um escritório em open space no seu interior. Quando em todas as ruas da cidade se ouvir apenas o bulício surdo dos "Tuk Tuk", dos táxis e o rosnar das rodas dos troleys dos turistas a baterem na calçada portuguesa, então aí sim, deixará de valer a pena revisitar uma Lisboa sem alma que será igual a qualquer outra cidade ocidental  daquelas pelas  quais não valerá a pena derramar uma lágrima de saudade. Assim se mata uma cidade.







Jacinto Lourenço  -  Nov. 2018

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Jogos e Jugos da Democracia



 "A democracia política foi criticada porque conduz à ineficiência e fraqueza de direcção, porque permite aos homens menos desejáveis obter o poder, porque fomenta a corrupção. A ineficiência e fraqueza da democracia política tornam-se mais aparentes nos momentos de crise, quando é preciso tomar e cumprir decisões rapidamente. Averiguar e registar os desejos de muitos milhões de eleitores em poucas horas é uma impossibilidade física".


Aldous Auxley - "Sobre a democracia e outros estudos"





Só a título de exemplo, Portugal, mesmo considerando  a breve tragicomédia  da primeira república, nunca soube verdadeiramente o que era viver em democracia até Abril de 1974.

  
Por mais imperfeitos e incapazes que se mostrem os sistemas políticos sediados na democracia, esta não deixará de ser a única descoberta filosófica feita até hoje, pelos homens,  capaz de nos conceder, pelo menos, a a ideia de que somos livres  de pensar em voz alta aquilo que nos vai na alma.                                                                                                             


Claro que Aldous Huxlei não deixa de ter razão quanto  a alguns aspectos menos conseguidos da democracia e que são aproveitados pelos políticos, e quantas vezes inimigos latentes da própria democracia, para esgravatar na fissura da indolência dos povos.  Em muitos casos,  estes últimos entram, como vemos na actualidade, em negação aceitando com plácido entusiasmo  participar em  todos os  jogos e jugos que lhes querem impor majorados estes pela necessidade, real ou artificialmente criada, de ultrapassar tormentosas dificuldades, na maior parte dos casos fabricadas pelos que repartem o bolo do poder e das 'benesses democráticas' que ele proporciona. Deste bolo e destas benesses, para os povos, é certo, restará sempre e só a fava.  E esta será,  ad eternum,  a contradição  da democracia que, à imagem do homem imperfeito e carregado de enganos, erros e oportunismos,  ocasionais ou não, vedará o acesso  ao el dorado sonhado para qualquer regime democrático a que  restará  contentar-se sempre com o pragmatismo do 'menos mau',  sendo esse, porventura, o lado mais odioso da fraqueza da democracia. 





Jacinto Lourenço, Out. 2018

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

O TEMPO: ESPECTADOR IMPASSÍVEL DA DANÇA DA VIDA.





Chegar ao fim não é uma questão de vida ou de morte, até porque o tempo é um valor etéreo, a eternidade e o céu, o firmamento e as estrelas, continuam a ser meus. Não tiro o chapéu ao tempo que passou , e não brindo ao que vier porque não o conheço e porque não faço do tempo um deus, um ditador implacável ou temível a quem deva oferendas para conseguir favores. O tempo, afinal, não é um Absoluto e menos ainda um legado privado. O Tempo é espaço onde a vida se conjuga mediada por entre dias e noites que se sucedem sem compasso, vertiginosamente. O Tempo é Vertigem. Pretérito, presente e futuro, são vestes de que se traja para assistir, impassível, à imperativa dança da vida que nos devora como se fôssemos algodão doce à beira de um carrossel, que roda, roda, roda ! O tempo não é o Verbo. O tempo é o hiato entre o Alfa e o Ómega, onde o Verbo se conjuga em nós.



Jacinto Lourenço
2018/01

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

RADICALISMOS E OUTROS INCÓMODOS...





Poderia escrever algo sobre a "raríssima" qualidade humana da 'senhora' presidente da Raríssimas, mas não me apetece. Apetece-me sim elogiar a qualidade da investigação jornalística da jornalista Ana Leal para a TVI. Não me refiro à qualidade da TVI nem de qualquer outro meio da Cofina simplesmente porque não gosto de jornalismo 'tabloide' ou sensacionalista. Gosto de gente que faz bem o seu trabalho e Ana Leal fá-lo. Pena fazê-lo na TVI. Mas isso, como é evidente, é coisa que só a ela diz respeito, não a mim.
Poderia falar até de um trabalho, também com relevante qualidade, de outras duas jornalistas, para a mesma estação, sobre a IURD. Mas também não quero falar. E não quero porque isso me iria pôr ainda mais zangado do que já estou ao constatar que uma boa parte das pessoas que convivem no mesmo território português que eu, e que respiram o mesmo tipo de ar, são apenas 'gentinha' que não passa de 'gentalha' que, em minha opinião, não nos devem ofuscar a visão das coisas boas e bonitas da vida.
Poderia até comentar a verborreia e a baixa retórica do ódio de muitos ditos cristãos (evangélicos), provavelmente milenaristas extremados ou escatologistas radicais exaltados, deixada nos últimos dias nesta rede através de um discurso nada bíblico e menos ainda condicente com o céu a que dizem aspirar com a defesa rasteira que fazem da posição de Trump de querer levar a embaixada americana para Jerusalém. Se contrariados, esmagam, comprimem, ofendem ou colocam em causa o cristianismo de quem também aspira a viver os ensinos e os desafios cristãos sem necessidade de esmagar quem com estes não concorde. Enfim, não sei a que céu aspiram. Pelo sim pelo não, não escolho o caminho deles. Escolho o que vejo em Cristo. No fim das coisas e das contas, Trump nunca me foi apresentado e, pelo que conheço da personagem, passo...
Prefiro, por isso, deixar-vos com esta breve nota sobre uma cientista portuguesa, mulher simples mas altamente focada e que trata as coisas da vida, mesmo as complicadas, com eloquência e clarividência: Zita Martins. " Quinze anos depois de ter emigrado e de se tornar uma das maiores especialistas mundiais, a estrela portuguesa da Astrobiologia regressa às origens. Zita Martins, 38 anos, estava no Imperial College Lodon, uma das melhores universidades do mundo, e resolveu voltar para Portugal." ( Expresso 08 Dez. 2017) . Leiam a reportagem e digam se tenho ou não razão por não dar tanta atenção assim à tal gentalha.


Jacinto Lourenço 

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Saudades de quando o Futebol era Sério e Bonito



O interregno nos campeonatos de futebol para dar lugar aos jogos da selecção nacional tem sabido bem. Por um tempo, pequeno que seja, livramo-nos do discurso do ódio. Estes dirigentes que tomaram o futebol como se fora um negócio seu, o seu emprego ou o seu modo de vida,  têm passado, nas últimas décadas, todo o tempo, a semear ódios e ventos. Ora, como bem sabemos,  ódio gera  ódio e quem semeia ventos só pode esperar colher tempestades.   
Estas pessoas usam os clubes como instrumentos de ataques pessoais e institucionais e transformam mesmo os atletas que representam os clubes em joguetes das suas políticas, ditas "desportivas", aproveitando-se muitas vezes da instabilidade emocional destes, da avidez dos seus empresários, e do seu desejo por minutos de jogo, brilho e glória rápida capazes de os guindarem a mais altos voos achando que conseguem tal desiderato caindo nas boas graças de presidentes e treinadores. Esquecem que à mínima baixa de forma, lesão mais prolongada, ou mesmo à passagem dos anos, se tornam 'produtos' descartáveis e dispensáveis para qualquer presidente.  Há um chicote psicológico nas mãos de cada dirigente de clube pronto a cair em cima de quem não apresente resultados imediatos ou que não alimente a sua sede presidencial de protagonismo. Nessa demanda  promovem uma política de "eucalipto" secando tudo à sua volta e devastando clubes e instituições. Envolvem governos, bancos, cidadãos, empresários, câmaras municipais, juntas de freguesia, orgãos de comunicação e, se necessário, gente da mais baixa ralé nas suas "guerras" contra hipotéticos "sistemas".  Querem ser donos da cidade. Ganhar a qualquer custo ou com qualquer estratagema. Ganhar sempre, se não dentro do campo então que seja fora dele.  O seu ego é enorme e insaciável por cada vez mais protagonismo e exibição. As suas atoardas e as dos seus apaniguados, agora designados directores de comunicação, são setas envenenadas, mas vistas como garantia de facturação pelas televisões que consomem horas e horas da mais reles e baixa programação em nome do futebol  que raia muitas vezes o asco. Poucos dirigentes, muito poucos, têm feito bem ao futebol e ao desporto em geral no país;  pelo contrário: os resultados da sua maléfica acção estão  à vista, todas as semanas, nas bancadas dos estádios, nos orgãos de comunicação,  nos tribunais.  

Tenho pena que o futebol se tenha deixado conquistar por esta gente, até porque  sou de uma geração que cresceu em Portugal tendo praticamente como únicas referências capazes de sustentar algum orgulho nacional  a nossa história passada e o futebol que,  lá fora,  e às vezes, se agigantava e ganhava, volta e meia, um jogo ou  um troféu que nos deixava a pensar que também  éramos gente e que nos chegava a dar a ideia de que, afinal, podíamos ombrear com os grandes da Europa em alguma coisa, mesmo que isso não passasse de uma ilusão...

É assim, a nossa vida, em Portugal. Parece-me bem que um dos nossos principais defeitos, enquanto povo, é não estarmos dispostos a escrutinar, convenientemente,  as competências e interesses de quem se propõe dirigir-nos, seja na política, no desporto ou até noutros sectores da vida. Normalmente vamos na cantiga de embalo fácil de homens e mulheres, sacos de vento, que não passam afinal de manipuladores das paixões populares em proveito próprio. Assaltantes que com todo o despudor e à vontade vão roubando e matando o que ao futebol ainda resta de bonito. Até quando deixaremos que isso seja assim ?!



Jacinto Lourenço

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O Tempo que Separa e que Une


      Mostramo-nos ingratos em relação ao que nos foi dado por esperarmos sempre no futuro, como se o futuro (na hipótese de lá chegarmos) não se transformasse rapidamente em passado. Quem goza apenas o presente não sabe dar o correcto valor aos benefícios da existência; quer o futuro quer o passado podem proporcionar-nos satisfação, o primeiro pela expectativa, o segundo pela recordação; só que enquanto um é incerto e pode não se realizar, o outro nunca pode deixar de ter acontecido. Que loucura é esta que nos faz não dar importância ao que temos de mais certo? Mostremo-nos satisfeitos por tudo o que nos foi dado gozar.
Lúcio Aneu Séneca, in Cartas a Lucílio, ed. Fundação Caloustre Gulbenkian


    A temporalidade é evidentemente uma estrutura organizada, e esses três pretensos "elementos" do tempo, passado, presente , futuro, não devem ser considerados como uma colecção de "dados" cuja soma deve ser feita - por exemplo, como uma série infinita de "agora", alguns dos quais ainda não são, outros que não são mais -, mas como momentos estruturados de uma síntese original. Senão encontraremos, em primeiro lugar, este paradoxo: o passado não é mais, o futuro ainda não é, quanto ao presente instantâneo, todos sabem que ele não é tudo, é o limite de uma divisão infinita, como o ponto sem dimensão.
Jean-Paul Sartre in O Ser e o Nada, (via Citador)

sexta-feira, 6 de março de 2015

Viver num País em estado de Esquizofrenia Colectiva


Cada dia que passa  mais me convenço que vivo num país em estado de esquizofrenia  colectiva.  Depois de quase  meia dúzia de anos a serem explorados, roubados, espoliados, humilhados e enxovalhados, os portugueses, quando tudo podia levar a supor que tivessem ganho  alguma experiência com tão amargas vicissitudes, voltam - a fazer fé nas últimas sondagens – a dizer que vão votar, nas próximas eleições legislativas, nos mesmos partidos e homens que os fizeram amargar e passar por tão difíceis condições que levaram ao empobrecimento, à miséria de muitos, à emigração massiva e forçada de jovens que tanta falta faziam ao país, ao desemprego  na casa dos 20 %, à penhora  de habitações e despejo das famílias em números nunca vistos em Portugal, ao aumento exponencial da dívida pública, ao escândalos  económicos  de BPN, BES, PT, etc, e que estamos a pagar, à transferência de fundos dos bolsos dos pobres para a conta dos ricos, à degradação do Serviço Nacional de Saúde procurando substituí-lo por uma saúde privada a que só têm acesso  os que puderem pagar um seguro de saúde ou aqueles a quem as empresas privadas o atribuírem, da escola pública em benefício da privada com a degradação ostensiva e calculada da primeira, à  delapidação  dos melhores e mais  lucrativos  activos do estado e da sua entrega ao capital privado , na maior parte estrangeiro , etc, e isto para só lembrar um pouco daquilo que todos, ou quase todos,  sabem.

Em Belém, devíamos ter um Presidente, mas temos apenas um residente, que nem sequer paga renda, e que dispõe de um orçamento sumptuoso e escandaloso  especialmente quando comparado com outros no estrangeiro, em países com diferentes capacidades económicas,  e que disse ao que vinha logo no discurso de vitória na noite das últimas eleições presidenciais.   No (des)governo , está um pequeno exército de copistas e replicadores das políticas da srª Merkel, que, como é evidente, só interessam à srª Merkel.  Na oposição trocaram o chamado líder da oposição, que diziam enfermar de frouxidão, por outro tão frouxo como o seu antecessor  mas a que junta  a desgraça de ser desastrado e ausente, isto, claro, para além de não se lhe conhecer qualquer tipo de ideia para o futuro do país que vá além de dizer mal do principal adversário. Ora, como bem sabemos, só isso, não serve para reerguer Portugal da miséria moral e material  em que caiu.

Para finalizar, sabemos agora que o ‘impoluto’ primeiro-ministro, afinal, utilizou o ‘esquecimento’ ou  ‘ignorância’  legal  como argumentos  para justificação de evasão de pagamento de impostos e contribuições.  E, para além de ele próprio achar que tem condições  para  continuar a (des)governar,  outros,  como o  residente de Belém,  não se pronunciam, não vá alguém lembrar-se, outra vez,  dos processos, pouco claros, que permitiram que ele usufruísse de mais-valias ao alcance apenas de alguns amigos de Oliveira e Costa, no BPN, ou ainda dos esquemas, também nunca esclarecidos, que facilitaram a construção da sua nova  moradia algarvia, na mesma rua onde muitos  dos seus amigos do BPN também possuem uma.

Face a tudo isto, os portugueses acham que os partidos que os (des)governam e levam à miséria há muitos anos, devem continuar com terreno livre para concluir, ou continuar a sua obra.  Isto tem um, ou vários  nomes : esquizofrenia, fuga para a frente, atraso, embrutecimento, amorfismo, baixa auto-estima, estupidez.   E disto, eu não partilho.

Se tenho alternativa ? Não sei se tenho ! Mas uma coisa faço: se estou à beira do abismo nunca dou um passo em frente, recuo, fujo dali, não deixo que me empurrem.


Jacinto Lourenço

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Rádio é outra Coisa - 13 de Fevereiro, Dia Mundial da Rádio


Há coisas que não se explicam, e esta é uma delas: não consigo passar um dia sem ouvir rádio. É aliás uma das primeiras coisas que faço de manhã, quando acordo; ligar o rádio. Mas não ouço qualquer tipo de rádio ou qualquer estação de rádio. A rádio, como a televisão, hoje, tem escolha. Já não é como nos meus tempos de criança e adolescente em que ouvir rádio significava ouvir Emissora Nacional, Rádio Clube Português ou, se morássemos em Lisboa, os Emissores Associados ou uma ou outra rádio de menor dimensão e alcance. Depois havia as ondas curtas, para ouvir a Rádio Moscovo ou a Rádio Portugal Livre, de que o meu avô José era atento ouvinte. Também se podia ouvir a BBC, mas isso, claro, o meu avô José não fazia por não saber inglês. Ouvir  rádio, nesse tempo, nos anos 60 e início de 70, podia ser, de acordo com o regime vigente, uma atitude subversiva e "anti-patriótica". Mas toda a gente ouvia. Os que eram anti-salazaristas ouviam as ondas-curtas para saberem o que se passava no país. Os Salazaristas ouviam também, mas por razões contrárias: para saberem o  que diziam os ingleses da BBC, e os comunistas da Rádio Moscovo sobre o que não se passava no país.  A rádio, nesse tempo, era das poucas alternativas dos pobres, e especialmente dos pobres e assalariados rurais no sentido da amenização das suas  difíceis condições de vida. Televisão era algo ainda incipiente e só durava duas ou três horas por dia, com uma programação onde a transmissão de uma corrida de touros ou de um evento desportivo eram uma autêntica pedrada no charco. Claro, também se podia ver os desenhos animados ao domingo à tarde.  Mas rádio sim, era outra coisa. Passava a "Simplesmente Maria", os "Parodiantes de Lisboa", o "Serão para Trabalhadores", os "Discos Pedidos", os concursos para eleição do rei e da rainha da rádio, ganhos invariavelmente por Madalena Iglésias, Simone de Oliveira, António Calvário, Artur Garcia, Fernando Farinha ou Tony de Matos. Ouvia-se também as peças de teatro onde pontificavam os grande actores nacionais de então. Enfim, outro tempo, em que a rádio era uma referência de todos.

A Rádio marcou a minha geração. Nela ouviam-se os relatos da bola ao domingo à tarde,  sim, porque os jogos realizavam-se, todos, e sempre, ao domingo à tarde.  O 25 de Abril trouxe as "Rádios-Piratas", onde eu próprio fui radialista, e o país radiofónico havia de se transformar bastante e, quanto a mim, para melhor. A rádio reinventou-se. Teve que fazer face à televisão, à explosão de novos meios de comunicação, aos jornais, à Internet. Quando todos lhe prognosticavam a morte, eis que ela aí está, mais viva do que nunca, com mais estações do que nunca. Rádio para todos os gostos, todas as idades, todos os momentos do dia ou da noite. Rádio que levamos connosco para a praia, para o campo, para o carro, para a rua. para a cama, até para a casa de banho. A rádio faz-nos companhia em todas as circunstâncias e ocasiões e, normalmente, é a primeira a trazer-nos as boas ou más notícias. 

Em minha casa, a casa onde cresci, a casa dos meus avós, nunca houve televisão, até porque a energia eléctrica só chegou à povoação no final da década de 60 e a televisão, alimentada a gerador, era um 'luxo'  algo recente a que poucos particulares podiam ainda aceder,  mas houve, tanto quanto me lembro, quase sempre,  uma telefonia que era o centro de todas as nossas atenções. Era ela   a ligação ao pequenino mundo português que se fechava sobre si próprio nas fronteiras com Espanha.  A rádio era assim como que uma evasão espiritual e mental para quem habitava um país que uma ditadura teimava em manter como ilha de criminoso subdesenvolvimento e atraso cultural e civilizacional. Era, dentro do "Estado Novo", o único meio de comunicação que possibilitava uma pequena amostra de democracia. E talvez por tudo isto me tornei um indefectível ouvinte de rádio. Possúo uns sete ou oito aparelhos de rádio, dois deles com mais de cinquenta anos, a válvulas, e ainda a funcionar . Ainda hoje, em qualquer divisão da casa onde eu esteja, salvo alguma ocupação que o não permita,  há sempre um rádio ligado para eu ouvir, como é o caso agora mesmo, enquanto escrevo e ouço a emissão especial da Antena 1.   Gosto de  estações de rádio com gente dentro. Já as rádios temáticas, que só passam música durante horas a fio, não me dizem muito, salvo uma ou outra honrosa excepção.  Bem sei que poupam em recursos humanos... Mas se é  para ouvir apenas música, então  tenho outros suportes mais modernos. Rádio é uma coisa diferente.

 Gosto de uma Rádio atenta a tudo o que se passa à nossa volta, uma Rádio que me traga o mundo sem me ocupar a visão com imagens de arquivo que nos adormecem ao cabo de alguns minutos de 'bombardeio' noticioso. Gosto de uma Rádio que não faça das notícias um repetitivo 'enchimento de chouriços'. Uma Rádio que diz o que tem a dizer sem grandes delongas ou 'floreados'  bacocos.  Gosto de rádio com cultura, com entretenimento inteligente, com uma boa selecção musical, com diversidade de rubricas, actuais e interessantes, e pluralidade de programação que chegue aos vários  estratos da população. Depois é só escolher  o que mais me me agrada.  Outras vezes ouço rádio sem estar a ouvir, apenas por companhia. Não gosto da solidão pela solidão. Nunca gostei de estudar em silêncio. Isolo-me mais facilmente,  para ler ou estudar,  num ambiente ruidoso, sem exagero, do que numa sala onde esteja sozinho.

É raro, mas às vezes tenho insónias; então ligo o rádio e ponho uns auriculares. Ao fim de algum tempo 'desligo-me'  sem dar por isso e os auriculares  saltam-me das orelhas e vão à sua vida. 

A Rádio acabou por marcar um pouco do que eu sou como pessoa, pelas melhores razões. Fui radialista  durante cerca de 17 anos e, tudo somado, dá como resultado que, sem Rádio por perto, a minha vida seria sem dúvida um pouco mais insonsa. 

Felizmente que em Portugal se faz muito boa e variada Rádio. Obrigado a todos os que a produzem, realizam e trazem até nós, os ouvintes.

Jacinto Lourenço