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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

No Limbo entre o Purgatório e o Inferno...



Portugal está numa situação insustentável. Está num limbo entre o purgatório e o inferno. Os portugueses sentem-se encurralados e sem saída, ou melhor, têm duas saídas: o abismo e a fuga para a frente. Não sei qual vai ser escolhida, mas nenhuma augura nada de bom.

Estávamos nós mergulhados na letargia habitual da nossa triste vida colectiva, a que nos deixámos conduzir como nação, quando, de repente, somos despertados num estertor de notícias pavorosas vindas dum subterrâneo político-institucional-social que nos alertou para o facto de que, afinal, as coisas são e estão muito piores do que imaginávamos,  neste país de brandíssimos e amórficos costumes.

De repente percebemos que os vistos dourados de Portas e Macedo eram ( e são ), afinal, uma porta dourada para actuações verdadeiramente mafiosas, no pior sentido da palavra.   A rede de interesses urdida por criminosos revestidos com a  pele de altos quadros do estado é assustadora. Há de tudo: criminosos que utilizam os seus cargos na administração pública para 'facilitarem' vistos de permanência, residência  e circulação a gente que chega com malas de euros conseguidos sabe-se lá como e onde ( só desconfiamos...), políticos que telefonam a esses corruptos a pedir favores para 'amigos' e 'conhecidos', juízes que jantam com os criminosos e corruptos e com os clientes destes, serviços secretos do estado, onde se encontram parqueados os amigos dos corruptos,  que fazem limpezas informáticas, varrimentos  e despistagens a  escutas e vigilâncias electrónicas nos gabinetes dos criminosos e a pedido destes, os mesmos criminosos a telefonarem a juízes queixando-se do 'aborrecimento' que é saberem que estão a ser escutados e vigiados, ministros que vão até Ayamonte só para se encontrarem  com os seus amigos corruptos e falarem longe das escutas telefónicas das polícias portuguesas, etc, etc. E isto, meus amigos, é só aquilo que a comunicação social nos vai trazendo, o grosso das coisas, estou convencido, nem chega ao nosso conhecimento pois é abafado nos gabinetes, nos corredores sombrios ou nos esconsos dos edifícios do poder ou da administração pública ou, quiçá, mais criativo ainda, à mesa de um qualquer café em Badajoz,  Ayamonte ou Cáceres.

Como se  não bastasse, do parlamento chega-nos a notícia de que os políticos que passaram 12 anos a executar 'arriscadas', 'perigosas' e 'desgastantes' funções políticas naquele lugar, voltam a ter direito à pensão vitalícia que lhes foi cortada com a crise. Claro que, todos os outros 'privilegiados' pensionistas portugueses, da Segurança Social e da Caixa Geral de Aposentações,  que viram 'muito justamente' as suas pensões sistematicamente cortadas e atacadas pela usura e captura fiscal do governo, continuarão sem receber aquilo que era seu, de direito, por uma vida inteira de trabalho, muitos desde crianças de tenra idade. E pasme-se, ou talvez não, o entendimento para que as subvençõezinhas desses 'denodados' deputados e políticos chegasse a bom porto vem de deputados do PS e PSD, os mesmos partidos que têm governado Portugal nos últimos 40 anos e que nos levaram à situação onde estamos.  Costa ainda nem chegou ao poder mas, falando, sem falar, ou mandando outros falar em seu lugar,  já todos percebemos as suas linhas de orientação para o futuro do país: mais do mesmo que temos tido desde 2011.

Mas ainda não é tudo. Ontem assistia no canal generalista da SIC à reportagem sobre o BPN e a Parvalorem, esta última é a empresa que ficou com os activos financeiros tóxicos do banco para que este fosse entregue, limpinho e sem osso,  ao BIC Angolano, pelos tais 40 milhões de euros. Um negócio no mínimo estranho e obscuro, como é bom de ver.  A reportagem  não deixa lugar a dúvidas: está confirmado e reconfirmado que  o aparelho de estado foi e continua a estar capturado por  mafiosos e criminosos que ostentam uma pele de gente elegante, bem falante e de trato fino.  Uma grande parte  dos ex-gestores  e ex-directores do BPN, que ajudaram a administração da central criminosa, que era o banco, a concretizar os seus crimes, roubos e desvios de grandes somas de dinheiro, e que todos estamos a pagar, estão agora colocados na Parvalorem  em elevados cargos de gestão, principescamente  remunerados como convém, mesmo depois de terem sido julgados e condenados por participação na ajuda à administração no saque ao BPN. E, imagine-se que, 'sem surpresa nenhuma', até o filho de Oliveira e Costa se apresenta, religiosamente, todos os dias, para cumprir o seu horário sem que se saiba muito bem o que por lá anda a fazer para além de receber o ordenado ao fim do mês e eventualmente catar documentos que possam eventualmente incriminar, ainda mais, a quadrilha do BPN .

Perante isto, dez milhões de portugueses, assistimos passivamente, como se tudo se estivesse a passar a milhares de quilómetros da nossa costa, como se não nos dissesse respeito, como se não ocorresse no nosso país, como se não fosse a nossa vida, a dos nossos filhos e filhas, a dos nossos netos.  Andamos a construir uma nação há novecentos anos. Somos um povo velho ( e agora de velhos ).  Devíamos ter vergonha por deixarmos, de facto, que isto aconteça a uma nação supostamente adulta e a um povo supostamente autónomo e dono de si próprio. O sebastianismo que nos vai na alma é uma coisa dolorosa, doentia, purolenta.                                                                                                                                                                  
 Estamos sempre à espera de algo ou de alguém providencial que nos mude o fado, como se esse  fosse o nosso destino secular. Recusamos erguer a indignação mais além da fronteira de uns desabafos  raivosos debitados nos fóruns radiofónicos e televisivos, ou à mesa do café, numa tertúlia conspirativa com os amigos,  desfiando o nosso fadário,  em surdina, sim,  porque as paredes voltaram a ter ouvidos, e nunca sabemos quando alguém quer ficar com o nosso emprego por menos duzentos ou trezentos desgraçados euros.

Somos realmente um povo estranho ou, pelo menos, nos últimos anos da nossa história, deixámos de atender ao essencial da dignidade que reveste a existência de uma nação enquanto tal.


Jacinto Lourenço





quinta-feira, 11 de setembro de 2014

11 de Setembro: Nada será como Antes



Hoje já ninguém tem duvidas sobre o que realmente aconteceu no fatídico dia 11 de Setembro de 2001.
A verdade é que uma data assim, marcada por acontecimentos tão macabros, nunca mais se esquece, por muitos anos que vivamos. O 11 de Setembro mudou, em definitivo, o mundo e os seres humanos, socialmente, economicamente e politicamente. O planeta tornou-se num sítio mais feio para viver e conviver.                                                                                       

Sabemos sempre e exactamente onde estávamos, o que fazíamos naquele momento, com quem estávamos e como nos chegou a notícia pela primeira vez levando a que nos precipitássemos para as televisões para, incrédulos, contemplarmos, em directo, uma elegia à loucura humana que, em nome de deus, de um deus menor, de um deus qualquer, acabava de assassinar mais de 3000 pessoas. Perguntamo-nos, ainda hoje, como é que foi possível ? ! Julgo que, o diálogo inter-religioso entre as nações do islão e as nações cristãs, por muitos anos, terminou ali no "Ground Zero", perdido por entre a poeira das torres gémeas e os restos de seres humanos que se lhe juntaram. Nunca mais, até hoje, foi possível ensaiar uma aproximação séria e honesta a esse diálogo de tolerância.  O terrorismo alcandorou-se a patamares nunca antes atingidos. Ganhou escala. Ressuscitou todos os fantasmas. Domina povos e países inteiros. Trouxe-nos de volta a idade média.

Há duas ou três coisas fundamentais para restabelecer a confiança entre as pessoas e os povos: reconhecer que estamos errados no fundamentalismo e no radicalismo religioso. Praticar a tolerância em relação ao nosso próximo, perdoar e ser perdoado.  Mas isso é uma quimera enquanto a lei do terror for a regra para muitos. 
Entretanto, enquanto escrevemos este texto, o nome de Deus continua a ser usado para justificar a matança de seres humanos de um e de outro lado da fronteira religiosa.
"Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize." João 14:27


Jacinto Lourenço

terça-feira, 22 de julho de 2014

Os que Não são Lembrados


Não tenho tido grande disponibilidade para vir até aqui escrever alguma coisa. Depois, bem ,depois não tenho disponibilidade nenhuma para vir aqui apenas  dizer alguma coisa do género vazio só para marcar presença, ou para 'encher'.

Escrever, para mim, não é um acto de violentação intelectual. Ou escrevo porque sinto que tenho algo de relativa relevância para escrever, ou não escrevo. Mas violento-me também se não escrevo. Tenho pavor da página em branco. Não sou do género de me sentar à espera de uma ideia para escrever. Quando me sento ao computador já sei o que vou escrever e porque o vou escrever, mesmo que não saiba se vou escrever muito ou pouco sobre o que quero escrever. Hoje, por exemplo, acho que vou escrever pouco porque a razão porque quero escrever se torna penosa em extremo para que me apeteça escrever muito sobre ela.

Toda a vida desejei estudar História tendo realizado o desiderato de fazer o meu curso de História. Percebo quase tudo sobre a história da humanidade, velha de séculos e milénios, vinda  desde tempos perdidos até aos nossos dias. Muitos dos livros que li e que estudei, e já foram provavelmente algumas centenas ao longo dos anos que levo de vida, estavam repassados de cadáveres de reis, príncipes, rainhas, princesas, imperadores, guerreiros, soldados, peões, cavaleiros, cruzados, homens bons e homens maus, gente importante ou gente simples que se deu por causas justas ou injustas. Muitos 'historiadores' infantilizaram a História passando a ideia de que a  gente que morria sabia  que esse poderia ser o seu destino por estar no meio de uma guerra qualquer em defesa de qualquer coisa, por mais banal que fosse, nem que fosse o quintal de um senhor da guerra. A verdade por detrás disso é que muita  gente  morreu sem sequer perceber porque razão tinha que morrer.

Não sei quem irá condensar, de forma escrita, a história das guerras de que todos os dias ouvimos agora falar, mas sei que, muito provavelmente, aqueles que comprarem, daqui por alguns anos, os livros de História que se escreverão sobre as guerras deste tempo actual, irão achar que a humanidade, afinal, jamais aprenderá, ou mostrará disponibilidade para aprender com as suas guerras e com os seus mortos. No fim, restarão, para memória futura, umas quantas estátuas erguidas a uns quantos 'heróis' que para o serem tiveram que matar uns quantos 'inimigos'. Claro que nunca serão lembrados os milhares de homens, mulheres e crianças inocentes que foram covardemente assassinados para que fosse produzido um 'herói'. É talvez porque me considero um anti-herói que desejo lembrar aqui, hoje, aqueles que morrem às mãos dos que acham que matar ou morrer é apenas  escolher um lado da moeda. Nenhum lado de uma moeda atirada ao ar e à sorte diz seja o que for sobre uma vida.

A morte de um ser humano não tem um preço porque a vida tem um valor imaterial incalculável. 


Jacinto Lourenço

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Um Abril Proibido


O despertador tocou, à mesma hora de sempre, na manhã de quinta-feira, 25 de Abril de 1974. Seria um dia normal, igual a tantos outros, não fora o facto de haver um pronunciamento militar nas ruas que poria fim ao Estado Novo em Portugal.

Vivi o 25 de Abril de 1974 com muita intensidade. Tinha vinte anos acabados de fazer em Março.  Apresentara-me  já  à   inspecção militar e sabia que, como qualquer jovem português de então, o meu destino seria cumprir cerca de quatro  anos de tropa obrigatória sendo dois deles  no então designado Ultramar. Quatro anos na vida de um jovem na casa dos vinte, a cumprir serviço militar obrigatório, eram sem dúvida um tempo de interregno que comprometia  aspirações e punha em causa a própria vida. Muitos fugiam para o estrangeiro para não obedecerem a esse chamamento do regime a uma guerra injusta  que não fazia qualquer sentido. França era o destino mais corrente dos mais politizados, dos que tinham família emigrada ou dos que possuíam suporte financeiro familiar para por lá ficarem o tempo necessário. Eu não me enquadrava em nenhum destes perfis pelo que,  era mais do que certo, iria para o ultramar. Sem dúvida um cenário que apavorava.

Quarenta anos depois, os portugueses já não exibem o sorriso daquele dia vinte e cinco de Abril de 1974. O que sobra é apreensão, tristeza, angústia, revolta. Interrogam-se como é que deixaram que lhes retirassem coisas importantes que Abril lhes deu, que os amesquinhassem, que voltassem a espezinhá-los como no tempo do Salazarismo  e do Marcelismo. Desconfiam de si próprios e da sua capacidade para se voltarem a erguer e a lutar por liberdade, direitos e dignidade. Desconfiam que não conseguirão readquirir  o sorriso e a alegria que lhes roubaram neste percurso de quatro décadas de liberdade. Sabem que Salgueiro Maia já partiu, e que nem sequer será evocado como símbolo nas cerimónias oficiais na Assembleia da República. Sabem também que a letargia a que chegou a sua democracia só tenderá agravar-se às mãos de políticos vendidos a poderes que emergem de grandes grupos económicos que só tem o lucro como alvo. Nesse caminho as vidas das pessoas, a sua desgraça, não passam carne para canhão ou efeito colateral.

Em Portugal, em Abril de 2014, existem cada vez menos homens e mulheres com coluna vertebral e verticalidade suficientes para se erguerem em prol do que deixámos que se esboroasse às mãos de inimigos e falsos amigos do povo português. Os cravos perderam a sua cor quando o capitão partiu. Os seus colegas, os que fizeram com ele o 25 de Abril de 1974 ,foram proibidos de falar na Assembleia da República. O mais irónico de tudo isto é que os que agora proibiram os militares de Abril de falar na Assembleia, são os mesmos a quem estes deram voz.  Mas o povo, em quem reside a soberania de um país, quer ouvir os militares de Abril. Eles vão falar na rua, no Largo do Carmo, que é afinal símbolo maior do fim de um regime que também silenciou os portugueses durante 48 anos.

Sim, queremos ouvir o que  os homens que fizeram Abril em Portugal têm para dizer ! É verdade que quase posso adivinhar o que vão dizer e também sei que foram proibidos, pelos revanchistas que ocupam S. Bento, de o dizer ali, naquele lugar, porque estes não querem que os homens de Abril lhes digam, cara a cara, olhos nos olhos, o que eu adivinho que eles querem dizer. O que eles querem dizer é o que o povo sente quanto ao que eles fizeram de mal à democracia e a tudo o que de mais importante ela trouxe e que foi tão duramente conquistado.

Abril não pode ser proibido nem vendido !


Jacinto Lourenço

segunda-feira, 31 de março de 2014

Um Outro Caminho...






A História da humanidade está cheia de violência, de ódio, de preconceito. Mas se é verdade que não podemos modificar o passado, podemos aprender com ele. Durante a guerra civil na antiga Jugoslávia (1992-1996), a comunidade sefardita de Sarajevo decidiu lutar contra a intolerância ditada pelos senhores da guerra, que pretendiam segregar a população por grupos étnicos.

El Otro Camino é um pequeno filme com cerca de 12 minutos – uma co-produção entre a Espanha, a Turquia, a Bulgária e a Sérvia -, que nos fala da corajosa iniciativa daquela pequena comunidade, que em memória dos seus antepassados expulsos 500 anos antes de Sefarad, se recusou a trilhar o caminho do ódio. Ao invés decidiu trilhar um caminho de coexistência, de entreajuda com os seus vizinhos, quer fossem muçulmanos ou cristãos. 

Fonte:  Eterna Sefarad


segunda-feira, 24 de março de 2014

Lançar Pérolas a Porcos...




Poucos têm a coragem de assumir a ruptura com alguns mantos diáfanos que cobrem fantasias pessoais dissimuladas. No que me diz respeito, nunca sustentei nem me escondi atrás de mantos de ilusão e também não sou especialista na contrafacção da verdade e muito menos domino a 'arte' da dissimulação . Tomo a vida por inteiro, como ela se apresenta, sendo as minhas opções e escolhas pessoais disso consequência, para o bem, para o bom, mas também para as coisas menos positivas que eventualmente me aconteçam. Interrogo-me muitas vezes se poderia ter descrito, em termos pessoais, outra trajectória, sublimado os meus defeitos, melhorado as minhas virtudes; enfim ser uma pessoa diferente em alguns aspectos. A resposta é sim e é não. Por um lado somos sempre resultado das nossas circunstâncias e das opções que tomamos face às mesmas, por outro lado há coisas que nunca conseguiremos mudar, que são intrínsecas a nós próprios, estão nos nossos genes e é isso que faz do ser humano uma criação perfeita; somos, a um tempo, todos diferentes e todos iguais. Claro que poderia sempre ter sido diferente daquilo que sou, mas então já não seria eu.   Foi Voltaire que disse que "Deus concedeu-nos o dom de viver, compete-nos a nós viver bem" .  Viver bem a vida de acordo com a visão daquele que no-la concedeu, sem peias, amarras ou receio de críticas daqueles que discordam de nós, melhorando sempre o que tiver que ser melhorado mas sem jamais correr o risco de pretender parecer outro 'eu', um 'eu' fantasioso, fabricado ou exibido com recurso a artes de prestidigitação.

Nunca tive e não tenho, felizmente, problemas de dupla personalidade ou bipolaridade.
Tenho por hábito dar-me sempre por inteiro, como sou, tal e qual, com toda a  frontalidade e lealdade, à vida que recebi em herança e penhor revestida de tudo o que ela supõe e traz.

Pela manhã estava a ler e a meditar num devocional de Spurgeon onde o autor diz, a dado passo, que "muitas vezes os homens maus carecem tanto de juízo quanto de fé [...], é inutil discutir ou procurar fazer paz com eles porquanto são falsos de coração e enganosos na suas palavras".

Quando inicio  um novo ano de vida, enquadrado igualmente por um novo ciclo, reflicto sobre a forma como muitas vezes  nos prejudicamos por darmos demasiada importância a pessoas que a não têm, que consomem o tempo da sua vida a colocar-se em bicos de pés  apenas para serem vistos ou para exibirem a sua moral e ética fantasiosas e falaciosas, ou ainda fazendo jogos de malabarismos com pessoas. Neste sentido penso que Spurgeon tem razão, que devemos 'sacudir o pó das nossas alparcas' e passar adiante fazendo a jornada da vida com quem se preocupe verdadeiramente com os valores mais elevados que fazem da dela algo que valha a pena ser vivido e não um deserto onde se amontoam esqueletos ressequidos. Isto é: como diz o livro de Mateus, não vou desperdiçar mais nenhum tempo da minha vida a  'lançar pérolas aos porcos'.

Jacinto Lourenço

segunda-feira, 10 de março de 2014

A Camioneta da História...


O sol acordou, ainda preguiçoso como em todos os finais do inverno e primeiros rasgos de primavera. Iluminou o dia e afugentou frios e medos  que as madrugadas acoitam. O rádio dá novas/velhas notícias  duma Europa perdida e de um Portugal sufocado pelo garrote económico apertado sem dó nem piedade por quem manobra a economia a seu favor cá dentro mas também a milhares de quilómetros mais a norte. As notícias de um país em ruínas vêm no éter e vão-se esparramando nas nossas vidas.                                                                                

Por entre urbanos sons matinais, o pensamento voa-me para a minha infância,  na escola primária, com a mala às costas para aprender o futuro, numa sala fria, hostil em todos os invernos. Pensei na professora Helena, todos os dias má e todos os dias temível para alguns alunos. Havia os alunos de 'primeira' e os de 'segunda', mesmo se isso não tinha nada a ver com a classe frequentada. Os de 'primeira', normalmente de famílias mais facilitadas de vida, eram poupados à pancada e  elogiados; ocupavam as primeiras filas. Os outros, os de 'segunda', nas últimas filas, eram sempre candidatos naturais à ponteirada e reguada; estavam, paradoxalmente, sempre na linha da frente, mas apenas para  o castigo, houvesse ou não motivo de maior. O recreio era a libertação, tal como as segundas-feiras, quando a camioneta das onze, que trazia a dona Helena, se atrasava e nos dava mais uma hora de bónus de alegria. 

Hoje de manhã, quando Deus  nos visitou no sol,  lembrei-me que Ele nasceu para todos   mas lembrei-me também que a vida, no meio dos homens,  é normalmente aprendida à bruta. A rudeza dos dias, mesmo os de sol, castiga sempre os mais frágeis, os que pouco ou nada têm, nem mesmo uma simples escapatória. Este (des)governo,    faz quase o papel da dona Helena: marginaliza, açoita, despreza, castiga e fere ostensivamente. Distribui reguadas e ponteiradas aos que põe nas últimas filas. Em Portugal, a não ser que tenhamos vontade e determinação para isso, as coisas dificilmente vão mudar para quem está nas últimas filas... Restam-nos os pequenos recreios da história, quando ela se lembra de nós, por entre dias e tempos  feitos de invernias duras para quem foi condenado às  zonas de sombra  em Portugal,  a quem  o sol, quando chega, já está no seu declinar. Tirando isso, alegram-nos os atrasos da 'camioneta' da História quando esta se decide dar um bónus a quem normalmente só é autorizado a vê-la passar...

Jacinto Lourenço

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O Valor da Dignidade e da Fé




...O trauma de ficar diante de um pelotão de fuzilamento, segundos antes da execução ser suspensa, não bastou para que Fiodor Dostoievsky deixasse de ser o aclamado escritor Fiodor Dostoievsky.
A força do império britânico não foi suficiente para que Mahatma Gandhi deixasse de se tornar o Mahatma Gandhi que trouxe tanto a independência da Índia quanto a filosofia do pacifismo como resistência política.
O ódio e a perseguição de John Edgar Hoover não foram suficientes para que Martin Luther King Junior deixasse de conquistar o seu lugar no panteão dos grandes vultos da humanidade como Martin Luther King Junior.
A difamação e a censura da União Soviética – e mais o exílio na Sibéria – não evitaram que Aleksandr Solzhenitsyn ganhasse o Prêmio Nobel de literatura como o Aleksandr Solzhenitsyn em Arquipélago Gulag.
O bloqueio da rede Globo de televisão não ofuscou o brilho poético do Chico Buarque de Holanda e ele continuou a compor para se imortalizar como um dos maiores letristas da música popular brasileira como o Chico Buarque de Holanda.
Os vinte sete anos de cadeia, além de ser chamado de terrorista por Ronald Reagan e Margareth Thatcher, não anularam Nelson Mandela; sequer impediram que ele se tornasse o presidente da África do Sul, e uma das maiores figuras da humanidade como Nelson Mandela.
[...]
Delatores congelam nas esferas mais baixas do inferno.
Covardes saem na urina da história.
Venais escorrem no esgoto da vida.
Lambe-botas se arrastam anos a fio como capachos.
Quando pensar que tiranos, oportunistas, poderosos e famosos levam vantagem, lembre-se do texto sagrado [Hebreus 11:35-39]:
[Devido a fé] mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos;
uns foram torturados, não aceitando o seu livramento,
para alcançarem uma melhor ressurreição;
E outros experimentaram escárnios e açoites,
e até cadeias e prisões.
Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada;
andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras,
desamparados, aflitos e maltratados
(Dos quais o mundo não era digno), 
errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra.
E todos estes, tendo tido testemunho pela fé,
não alcançaram a promessa.
Soli Deo Gloria

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Um 'Monstro Sagrado' no concerto dos Futebolistas



Houve um tempo em que um clube, em Portugal, foi maior, na sua projecção internacional que o próprio país. Esse clube chamava-se  Sport  Lisboa e Benfica.

Houve uma década em que esse clube chamado Benfica projectou, mundo fora,  o nome de um país desconhecido chamado Portugal.

Nesse clube chamado Benfica e nessa recuada década de 60 emergiu uma equipa de jogadores que, sabemos hoje, se tornou irrepetível na sua qualidade, grandeza e valor. Nessa equipa despontaram e cresceram jogadores do maior valor desportivo a nível internacional. Essa equipa tinha um 'patrão', um senhor que comandava uma constelação de futebolista a partir do meio campo, esse senhor dava pelo nome de Mário Coluna.

Ontem à noite, depois de saber do seu falecimento, comentei com o meu filho Pedro, benfiquista como eu, que me sentia um privilegiado por ter vivido  esse tempo, o tempo em que uma equipa de futebol foi muito maior, e mais importante no mundo que o próprio país onde emergiu, e dentro dessa equipa de futebol, Mário Coluna foi, como lhe chamaram desde sempre, um 'monstro sagrado' no concerto dos futebolistas.



Há muita coisa de que não me orgulho em Portugal. Foi sempre assim. Portugal tem muita coisa, sempre teve, de que não nos podemos orgulhar, bem pelo contrário.  Mas o Sport Lisboa e Benfica, e em especial Coluna é algo que, como português, me enche de orgulho e uma das razões pela qual me sinto recompensado na vida  por ter vivido esse tempo, o tempo em que Mário Coluna jogou e em que o Benfica foi maior que Portugal.

Moçambique, Portugal, os moçambicanos e os portugueses devem sentir-se orgulhosos por Mário Coluna ter trazido brilho e glória aos dois povos.

Obrigado Mário Coluna. Descansa em paz.


Jacinto Lourenço

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Já Não Tenho Paciência...


Tenho andado a pensar que começo a acumular um défice de paciência para muitas coisas, sendo que  outras já me passam completamente ao lado.
Não tenho paciência, por exemplo, para discussões inúteis no Facebook, especialmente as   que têm em vista, por parte de quem muitas vezes as alimenta, a  marcação de território, ostentação de opiniões absolutistas,  ou exibicão de narcisismos  pseudo-culturais com pouca saída em foruns de  mais avisada assistência. Recuso liminarmente os púlpitos virtuais que se erguem nesta rede social  onde pregadores ocasionais proclamam, em 'deriva profética',  um evangelho de consumo imediato, pessoal ou utilitário ou, por outro lado, um cristianismo simplista de trazer por casa. 

Tenho, como sempre tive, e só isso me levou a "aderir", uma visão puramente hedonista do FB, ou melhor: o FB é um dos meus lugares de "veraneio"  na rede e nada mais, onde convivo com os amigos descontraidamente. Que me perdoem os puristas da coisa ou os que possam ter outra visão mais "séria" do assunto que eu sinceramente nunca consegui, nem quero, atingir.

Também já não tenho paciência para um certo  'imperialismo militante', de muitos sectores ditos cristãos, fundamentalistas  religiosos, donos de toda a verdade e revelação. Jesus disse que Ele era a Verdade e é essa Verdade que eu defendo 'com unhas e dentes' por ser a Única Verdade. Esse é o evangelho que leio e que guia a minha vida. De resto, o respeito que tenho por qualquer cristão que, como eu, leia apenas e siga  esse evangelho,  é infinitamente  maior do que o que tenho por  qualquer exegeta, doutor da lei, apóstolo ( destes modernos que circulam por aí agora ) ou pregador, mesmo que possa ser muito relevante o seu papel numa qualquer igreja.
Já não tinha nenhum respeito nem paciência  para cristãos, pastores, evangelistas, ministros, que acham que por o serem,  a sua fé não pode ser confrontada,  ou que  estão acima de qualquer questionamento. Jesus nunca fugiu aos debates, aos diálogos com aqueles que o questionavam sobre a Salvação e até acerca da sua própria condição humana-divina, mas fartou-se algumas vezes dos fariseus e dos seus discursos rasteiros.  Paulo não desprezava os confrontos que esclarecessem as posições e o alcance da fé cristã mas não os trocou por por um cristianismo de segunda.  Mais modernamente Lutero ou todos os outros reformadores tiveram que se questionar igualmente sobre as "verdades" absolutas da fé que os tinha formatado tendo a sua vida sido um constante corrigir de percurso e erros, muito deles, infelizmente graves e irremediáveis. Há muito de farisaísmo numa fé que se refugia na fuga ao debate, ao diálogo, que acha que não se deve deixar questionar por quem dela duvida. Gente com uma fé assim anda sempre carregada de pedras nos bolsos, vive num círculo fechado, é habitada por um  'Trento' protestante.

Já se me esgotou a paciência, há muito, para igrejas que se escondem em lugar de se exporem mostrando que também são feitas da mesma 'massa humana' que toda a gente que não é igreja. Igrejas que necessitam de redenção!  Já não tenho pachorra para tolerar  'superioridades' espirituais que mais parecem apontar para  regimes de castas sublinhadas por particularismos pontuais que marcaram a vida da igreja de todos os tempos. Sou cristão-pentecostal, sim, mas  não tenho isso como fundamental ou como matriz diferenciadora da minha fé ou do meu comportamento cristão. Não julgo que haja qualquer virtude cristã especial em ser pentecostal, em ser batista, presbiteriano, etc. Somos todos, se efectivamente somos, um em Cristo, nada mais. Não faço  leituras ou exegeses abusivas da Bíblia Sagrada que tenham em vista aprisionar onde o evangelho libertou.

Noutro domínio, já não tenho paciência para governos de suposta esquerda, de centro direita e menos ainda de direita. Cansam-me as causas fracturantes da esquerda e os populismos da direita; a vacuidade das falsas   ideologias que nos faz andar em círculos subindo na escala da babel dos ódios de estimação. Prefiro causas sociais,  pessoas reais, trabalhadores, empresários e sindicalistas sérios, que não vêm o capital como o fim último dos seus interesses ou dos seus combates, mas as pessoas, o povo, a nação, como fim último do seu trabalho .  Entre os valores do trabalho e de quem trabalha em qualquer sector da vida, e os do capitalismo selvagem que nos devora, nem preciso escolher. Sei de onde vim, quem sou e para onde vou e não vou com quem me devora.

Chateia-me Olivença e os seus 'amigos portugueses' em romaria anual a lembrar aos espanhóis que lá vivem que aquilo já foi português. A guerra de fronteiras encerrou-se há muito na península ibérica e os "fantasmas", como é sabido, não gostam de Espanha; preferem os ares mais taciturnos deste lado da fronteira onde os touros nunca andam em pontas e a investida é sempre mais dócil porque nada se arrisca. Para além do mais, Olivença nem quer ser portuguesa!

Perdi a paciência com um país de penacho onde as pessoas se tratam por doutores e engenheiros como se título académico fosse nome próprio ou apelido de pai ou mãe. Agasta-me de morte  ver uma justiça onde muitos  juízes prendem  polícias e soltam  ladrões. É bem provável que tenham cabulado no exame de acesso à profissão...

Não dá mais para suportar o eterno desprezo a que é votada a cultura em Portugal. Menos paciência tenho  ainda para tolerar uma cultura-de-faz-de-conta-que-é-mas-não-é  promovida por quem não sabe nem quer respeitar um país, um povo e uma cultura  que se souberam  afirmar contra ventos e tempestades e onde falta, há muito,  uma nova geração de Avis que recoloque Portugal no lugar que é seu no concerto das nações. Enquanto isso não acontecer, estou sem paciência para este país e para este povo que teima em escolher para o governar  as máfias que se acoitam nos partidos. 

Jacinto Lourenço

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A Rádio é Uma Coisa Diferente, e Hoje é o Dia Mundial da Rádio




Indiscutivelmente, a Rádio marcou a minha geração. Na Rádio ouviam-se os relatos da bola ao domingo à tarde ( sim, os jogos realizavam-se todos, e sempre, ao domingo à tarde... ). Para os mais velhos, e mais politizados, era também a Rádio que trazia as notícias que não passavam no crivo da censura em Portugal. Nas ondas curtas sintonizavam-se a Rádio-Moscovo e a Rádio-Portugal  Livre. Foi assim que se ficou a conhecer no país  a realidade da crise estudantil  da década de 60 e também  o que realmente estava a acontecer nas colónias quando aí estalou a guerra.         Era tudo escutado muito em surdina, tudo muito baixinho, que as paredes, nesse tempo, tinham mesmo ouvidos e muitas pessoas foram delatadas à GNR local, por vizinhos ou 'amigos' apenas por ouvirem esses programas e, claro, sujeitos posteriormente ao respectivo interrogatório no Posto acompanhado  pelos  'afagos' dos guardas... Portugal, queiramos ou não, foi sempre, mais do que se pensa  ou diz, um país de 'bufos' .

Na Rádio passavam alguns programas que ninguém perdia e que marcaram gerações: o Serão para Trabalhadores, da FNAT ( actual Inatel ), os Parodiantes de Lisboa, o Quando o Telefone Toca, os Discos Pedidos ou a primeira rádio-novela em Portugal: "Simplesmente Maria", que deu brado. Foi pela Rádio que soubémos, ao momento, que Salazar tinha caído da cadeira. Foi também a Rádio que nos trouxe até casa essa notícia alegre e libertadora de que o 25 de Abril, estava na rua.

Em minha casa, a casa dos meus avós, nunca houve televisão, até porque a energia eléctrica só chegou à povoação no final da década de 60 e a televisão, alimentada a gerador, era um 'luxo'  algo recente a que poucos particulares podiam ainda aceder,  mas houve, tanto quanto me lembro, quase sempre,  uma telefonia que era o centro de todas as nossas atenções. Era ela   a ligação ao pequenino mundo português que se fechava sobre si próprio nas fronteiras com Espanha.  A Rádio era assim como que uma evasão espiritual e mental para quem habitava um país que uma ditadura teimava em manter como ilha de criminoso subdesenvolvimento e atraso cultural e civilizacional. Era, dentro do Estado Novo, o único meio de comunicação que possibilitava uma pequena amostra de democracia. As Ondas-Curtas traziam aos portugueses um mundo novo e diferente que nenhum ditador ou polícia política conseguiam esconder ou prender.  E talvez por tudo isto me tornei um indefectível ouvinte de rádio. Ainda hoje, em qualquer divisão da casa onde eu esteja, salvo alguma ocupação que o não permita,  há sempre um rádio ligado para eu ouvir, como é o caso agora mesmo, enquanto escrevo.  Gosto de  estações de Rádio com gente dentro. Já as Rádios temáticas, que só passam música durante horas a fio, não me dizem muito, salvo uma ou outra honrosa excepção.  Bem sei que poupam em recursos humanos... Mas se é  para ouvir apenas música, então  tenho outros suportes mais modernos. Rádio é uma coisa diferente.

 Gosto de uma Rádio atenta a tudo o que se passa à nossa volta, uma Rádio que me traga o mundo sem me ocupar a visão com imagens de arquivo que nos adormecem ao cabo de alguns minutos de 'bombardeio' noticioso. Gosto de uma rádio que não faça das notícias um repetitivo 'enchimento de chouriços'. Uma rádio que diz o que tem a dizer sem grandes delongas ou 'floreados'  bacocos.  Gosto de rádio com cultura, com entretenimento inteligente, com uma boa selecção musical, com diversidade de rubricas, actuais e interessantes, e pluralidade de programação que chegue aos vários  estratos da população. Depois é só escolher  o que mais me me agrada.  Outras vezes ouço rádio sem estar a ouvir, apenas por companhia. Não gosto da solidão pela solidão. Nunca gostei de estudar em silêncio. Isolo-me mais facilmente,  para ler ou estudar,  num ambiente ruidoso do que numa sala onde esteja sozinho.

Quando o meu despertador toca, pela manhã, a primeira coisa que faço é ligar um pequeno rádio que tenho na cabeceira e ouvir o que se passou no mundo enquanto eu dormia; a situação do trânsito, o tempo que vai fazer, etc.  É raro, mas às vezes tenho insónias; então ligo o rádio e ponho uns auriculares. Ao fim de algum tempo 'desligo-me' sem dar por isso e os auriculares  saltam-me das orelhas e vão à sua vida. 

A Rádio acabou por marcar um pouco do que eu sou como pessoa, pelas melhores razões. Fui também radialista  durante cerca de 17 anos e, tudo somado, dá como resultado que, sem Rádio por perto, a minha vida seria sem dúvida um pouco mais insonsa. 

Felizmente que em Portugal se faz muito boa e variada rádio. Obrigado a todos os que a produzem, realizam e trazem até nós, os ouvintes.

Jacinto Lourenço  

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Expulsão dos Judeus em Espanha - 1492




A decisão [recente] do governo [espanhol] de modificar o código civil  e conceder a nacionalidade espanhola aos descendentes dos judeus, que foram expulsos de Espanha em 1492, despertou um extraordinário interesse entre os cidadãos do estado de Israel. O facto não é estranho se pensarmos que as famílias de  judeus sefarditas conservaram a sua língua  e também as chaves das suas casas de onde foram expulsos.

Desde o tempo dos godos que os judeus foram perseguidos com maior ou menor intensidade conforme o momento e o lugar.  Foram acusados de serem portadores da peste, de crucificarem crianças na sexta-feira santa; proibiu-se-lhes a prática de determinadas profissões, foram obrigados a viver em guetos e, levando ao extremo a sua perseguição, tinham ainda que  exibir  uma marca distintiva no vestuário.   Toda esta voragem de humilhações e aberrações culminou com o decreto da sua expulsão de Espanha assinado em 31 de Março de 1492 pelos reis católicos com base num texto  do inquisidor geral  Tomás de Torquemada. Segundo este decreto, os judeus que não se convertessem deviam abandonar Sefarad (nome pelo qual era conhecida a Península Ibérica entre os judeus). Cerca de 100.000 judeus abandonaram então as suas casas e o seu país ( Espanha). Tiveram que vender os seus pertences à pressa e ao desbarato e pagar o frete dos barcos que os transportaram. Muitos exilaram-se em Navarra ( reino tido como independente ), em países dos balcãs, no norte de áfrica ou no império otomano [muitos outros refugiaram-se igualmente em Portugal onde, apesar de tudo, a monarquia era um pouco mais branda com os judeus].
Há contudo dois detalhes que são demonstrativos do seu apego por Espanha, que era também a sua terra.  Mantiveram viva entre si  a língua  sefardí, ou ladino [...], nos territórios para onde se dirigiram e onde se estabeleceram de novo. E, mais surpreedente ainda, conservaram as chaves das suas casas que tiveram que abandonar em Espanha. Mesmo hoje, muitas famílias guardam ainda as chaves dessas casas sendo as mulheres encarregadas de as passar de geração em geração.

Javier Sanz in Histórias de la História
( traduzido do Castelhano por Jacinto Lourenço )

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Uma Voz que o Tempo não Consegue Calar




Ministros da República, da justiça, da guerra, do estado, do mar, da terra. Vedes as 

desatenções do governo, vedes as injustiças, vedes os sonhos, vedes os descaminhos, vedes 

os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes os respeitos, vedes as potências dos 

grandes, e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos povos, os clamores e os gemidos 

de todos ? Ou os vedes ou não os vedes. Se os vedes, como não os remediais ? E se não os 

remediais, como os vedes ? Estais cegos ? 

Padre António Vieira

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Se os Homens fossem Anjos...



Se os homens fossem anjos nenhuma espécie de governo seria necessária." Esta observação escrita por James Madison em 1788, no debate sobre a Constituição Federal dos EUA, continua a merecer uma validade universal absoluta. Num tempo em que o Estado (em Portugal e na Europa) foi assaltado por aqueles que não só nele não acreditam, mas que o querem ativamente destruir, vale a pena meditar no rosto que poderá assumir a nossa sociedade se as instituições públicas - inventadas pelos homens para o seu autogoverno - continuarem a ser descapitalizadas e desmanteladas. Como muito bem escreveu Hobbes, no século XVII, sem contrato social, sem um poder soberano que garanta a justiça, os homens ficam entregues ao desespero, ao medo, à "guerra de todos contra todos". A construção de uma ordem pública justa está longe de estar terminada. Ainda há poucos anos, o que se passava nessa comunidade de afetos, mas também de poder e violência, chamada família, era considerado como reserva da vida privada: "Entre o marido e a mulher ninguém mete a colher." Hoje, apesar de crime público, a violência doméstica continua a ceifar mulheres. Cidadãs que a lei não consegue proteger contra a tirania e o abuso do mais forte que reinam em muitos lares. Também em muitas escolas crianças são perseguidas pelo preconceito cobarde de colegas a quem ninguém ensina os limites. Os tempos de crise são propícios a libertar a crueldade que todas as pessoas têm dentro de si. Sobretudo quando as políticas públicas que privam as escolas de psicólogos, ou retiram às polícias meios operacionais, acabam por se transformar nos principais catalisadores da barbárie.

Viriato Soromenho Marques in Diário de Notícias

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A História também se Constrói...



O melhor que Portugal tem é o seu povo. O pior que o Portugal de hoje  tem é a apatia e o amorfismo do seu povo quando confrontado com a realidade e a necessidade de mudança e reacção face ao que o atinge. 

Há coisas significativas na análise básica do perfil das gerações que numa determinada baliza temporal enforma a identidade de um povo e a sua idiossincrasia. O povo que somos hoje, não tem a mesma marca identitária do povo que fomos ontem. As gerações cruzam-se, sucedem-se, interligam-se nos antípodas das suas vivências. São influenciadas por factores diversos, endógenos ou exógenos e, mais do que as semelhanças,  sublinham-lhe  as diferenças. Olhar para as gerações que conviveram há cem anos atrás, por exemplo,  neste pedaço geográfico do extremo ocidental da europa  e pretender compará-las com as gerações actuais só  redundará em erro grosseiro se não forem  salvaguardados  todos os necessários  distanciamentos.

Olhando para a história de Portugal, é fácil confirmar que as gerações contemporâneas se tornaram acomodadas e indolentes  face ao seu presente e mais ainda face ao seu futuro, que é também o de Portugal.

Somos herdeiros recentes de uma ditadura fascista que durou quase 48 anos e que marcou significativamente a nossa memória colectiva desde 1926. O Estado Novo decidia o que as pessoas podiam ou não fazer, onde podiam ou não estar e que futuro podia ser o de cada um certo e seguro de que isso  seria sempre diferente e determinante em função do local de nascimento e das condições sócio-económicas  em que cada família se movesse. Isto é: se alguém nascia em Trás-os-montes ou no alentejo profundo, o mais provável é que vivesse agarrado à terra e à agricultura pelo resto dos seus dias, e mesmo que se pretendesse mudar de vida, melhorar, sair do círculo vicioso da pobreza e sub-desenvolvimento sócio-económico, o estado tudo fazia para impedir que isso acontecesse implementando políticas migratórias restritivas querendo com isso mostrar e sublinhar o lugar que estava destinado a cada ser nascido português. Nas cidades, a dificuldade de acesso das classes pobres à educação não permitia facilmente a saída da  trama social  que o estado e as classes ricas iam  tecendo no sentido de dificultar a mobilidade ascensional dos mais desfavorecidos. Para as classes pobres, fazer a 4ª classe da instrução primária já era uma conquista, fosse na cidade ou no campo, e isso só mudou um pouco com o tímido desenvolvimento industrial das décadas de 1950/60 e com o aparecimento das escolas industriais e comercias para onde eram canalizados os filhos das classes operárias e rurais que podiam suportar o sacrifício de manter um filho a estudar até mais tarde. Universidade era coisa para gente rica e privilegiada ou que gravitava as esferas do poder nas suas diversas vertentes.

E foi assim até à madrugada de 25 de Abril de 1974.  A revolução não foi feita pelo povo, pese embora este  tivesse todas as razões para a fazer, mas pelos militares que estavam cansados de uma guerra colonial sem solução possível que não fosse a da auto-determinação dos territórios africanos ocupados. O povo assistiu, apoiou e saiu à rua a festejar o fim da ditadura. Desde então muita coisa mudou, mas não a vontade manifesta de um povo, acomodado, em  dizer basta à situação em que tem vindo  a ser colocado pelas políticas partidárias dos partidos do designado arco do poder e por um conjunto de políticos profissionais que nada mais fazem do que aplicar as medidas que o capitalismo internacional lhe exige. E estas, como é bom de ver, recaem basicamente sobre as classes médias e os trabalhadores em geral.
                
O povo vota e elege e, quando vota e elege, estabelece como que um pacto com os partidos políticos no sentido de estes aplicarem as medidas que prometeram ou, inversamente, de não aplicarem medidas lesivas dos interesses da nação. Facto é que assim que se instalam no poder, as políticas e os políticos vão em sentido oposto ao do pacto celebrado com o povo que neles votou. Ou seja: passam a governar em nome de outros interesses que não os de Portugal e dos portugueses. Ora nada mais que isto é o que (des)governo actual tem estado apostado em fazer agradando assim aos banqueiros alemães e aos fundos disto e daquilo que um dia, mais tarde, lhes darão emprego bem remunerado. Os portugueses deixaram de contar e pouco importa se lhes agrada ou não o que a (des)governação faz. Passos e Portas só têm olhos para os mercados... O povo português é apenas um acessório aborrecido no meio deste processo de submissão ao capitalismo selvagem.  Perante esta ilegalidade governativa e constitucional não tem o povo o direito de dizer basta, de se indignar, de fazer uma revolução ética e moral, de chamar  à responsabilidade efectiva quem já perdeu o direito legal e moral de o governar !!?                                                                                                                                        
A história de Portugal tem poucos registos que assinalem momentos em que o povo tenha decidido conduzir o seu próprio destino. Normalmente entregou essa responsabilidade a supostos "representantes"  que, na primeira oportunidade, traem todas as expectativas que criaram de uma governação virada para os verdadeiros interesses da nação. Andamos há quase quarenta anos neste círculo vicioso de, literalmente,  "entregar o ouro ao bandido", esperando sempre que alguém venha, providencialmente, qual D. Sebastião, resolver os nossos problemas. Depois, bem, depois lá estaremos para bater palmas ao cortejo da nobreza... Somos portugueses dum tempo geracional que, pelos vistos, é incapaz de enfrentar os seus próprios medos e desafios. E há sempre alguém, algum partido político, algum carreirista da política, dispostos a aproveitarem essa fragilidade inscrita nos nossos genes, essa incapacidade de não sermos capazes de estar à altura da história ancestral de Portugal. 

Todos os dias o (des)governo em Portugal elege, como  alvo preferencial das suas medidas, ditas de "ajustamento", o povo trabalhador, a classe média, os pensionistas, os funcionários públicos. Todos os dias há uma novidade que nos tira mais qualquer coisa, que nos faz regredir social e economicamente. Todos os dias sentimos que a injustiça é gritante por vermos a destruição de um país que queríamos construir e que construímos um pouco mais justo depois de 25 de Abril de 1974. Educação, saúde e direitos no trabalho são apenas três dos mais relevantes sectores onde Portugal se tornou  muito mais equitativo e até, em muitos casos, exemplar na europa,  e contra os quais o (des)governo actual em Portugal mais investe em destruição. A mando da Troica e por vontade própria, este (des)governo  ultra-liberal  acelera a sua sanha destruidora e procura fazer-nos regredir ao tempo do Estado Novo através de um veloz  empobrecimento das classes trabalhadoras e dos mais desfavorecidos bem como da delapidação do que resta do aparelho produtivo do país. As forças policiais voltaram a bater indiscriminada e despudoradamente, excepto neles próprios quando pisam os limites da lei, como se viu em S.Bento,  e os ministros a apoiar a sua acção. A  economia e o emprego, dizem-nos, estão a crescer: noticiam-se cento e vinte mil novos empregos esquecendo-se os cento e vinte mil portugueses que tiveram que sair do país para poderem trabalhar... Não sendo economistas sabemos no entanto que quando não se pode afundar mais, só há um caminho: para cima. Mas Passos e Portas insistem em dizer que crescemos sem contabilizarem o que entretanto havíamos decrescido...  A  governação, de democrática,  já nem o formalismo  possui.  O (des)governo engana, mente, destrói, (des)governa, omite e comporta-se como autêntico "sniper" a quem é difícil fugir; quando damos conta, estamos abatidos... O presidente da república, aprova, hipócrita e cinicamente este estilo de governação de vão de escada; ficará para a história, de certeza, como um dos piores presidentes da república portuguesa em democracia formal. A europa, necessitada, como de pão para a boca,  de um "caso de sucesso", manda os seus paladinos apregoar que Portugal é o "sucesso" que foi produzido pelas políticas criminosas de Merkel, Barroso e apaniguados da banca e finança internacional; pelo caminho premeiam Gaspar e Arnaut  pelos bons serviços que prestaram à alta finança... Outros receberão os seus respectivos prémios. Por muito menos do que isto foi Miguel de Vasconcelos defenestrado...

Na década de 60 do século passado, os trabalhadores do alentejo, jornaleiros e assalariados, explorados e agredidos, física e psicologicamente, pelos grandes latifundiários, com a cobertura, não necessariamente tácita, do governo de então e das designadas "forças da ordem",  levantaram-se em luta pelo fim da cruel jornada laboral de sol a sol e pela fixação das oito horas de trabalho diário. Foram barbaramente perseguidos, espancados, torturados e alguns mortos pelas forças policiais ao serviço  de um governo que nunca teve legitimidade para o ser. Resistiram estoicamente, sózinhos, de forma razoavelmente pacífica, mas não passiva. Alcançaram os seus objectivos.

Depois da liberdade de Abril e pela primeira vez, na história dos últimos 40 anos ditos de democracia, um governo em Portugal faz tábua rasa de uma conquista que resultou da força e do querer, da luta e do sacrifício de um povo  pelo direito e pela  justiça. Significativo e elucidativo.

Ao contrário de gerações anteriores, há hoje uma geração de portugueses, que prefere a apatia e o amorfismo, e que, porventura, acha normal que continuem a rir-se de Portugal e dos portugueses que após 40 anos  de democracia continuam a aspirar a  um país mais justo, social, material, ética e moralmente.

Olhamos para a Islândia e vimos como os islandeses lidaram com políticos corruptos, iguais aos de cá, e de como, apesar de serem apenas cerca de três milhões e de não terem grandes recursos nem uma  história comparável à portuguesa, se ergueram em vontade e união para dizerem que em sua casa eram eles que mandavam e não a alta finança, a europa ou o FMI. 

Cada povo é responsável pela sua história e em todos os momentos essa história exige que a saibamos construir e estar  à altura dos que nos antecederam e de sermos referência para os que nos sucederem. É isso pesa sobre cada português de hoje. À mesa do café as discussões podem ser muito interessantes, mas não é lá que se conquista o presente e muito menos o futuro de um povo. Infelizmente, e até prova em contrário, as actuais gerações de portugueses acham que sim...

Jacinto Lourenço