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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Se eu Fosse Deus...








"...Agora cada um está a raspar cuidadosamente com a colher o fundo da marmita para tirar os últimos restos de sopa , o que provoca um ruído metálico que significa que o dia acabou. Pouco a pouco o silêncio prevalece, e então, da minha cama , no terceiro andar, vê-se e ouve-se que o velho Kuhn reza, em voz alta, com o boné na cabeça e abanando o corpo com violência. Kuhn agradece a Deus por não ter sido escolhido.

Kuhn é um insensato. Não vê, na cama ao lado, Beppo, o grego, que tem vinte anos, e que depois de amanhã irá para o gás; e que, sabendo-o, fica deitado olhando fixamente a lâmpada sem dizer nada e sem pensar em mais nada ? Não sabe Kuhn que a próxima será a sua vez ? Não percebe Kuhn que hoje aconteceu uma coisa abominável que nenhuma oração propiciatória, nenhum perdão, nenhuma expiação dos culpados, nada, em suma, que esteja em poder do homem fazer, poderá nunca mais cancelar ? 

Se eu fosse Deus, cuspiria para o chão a oração de Kuhn. [...]"

Primo Levi

( Se Isto é Um Homem, pág. 144 - Edição Público, Colecção Mil Folhas )

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O que é Fátima ?


O que move tanta gente a pé para Fátima? Trinta e cinco mil, este ano, segundo consta. No fundo, diria que é a Mãe. Ele há tanto sofrimento - físico, psicológico, moral, próprio, dos filhos, do marido, da mulher, da mãe, do pai... E a Mãe não há-de entender e socorrer?
Depois, lá chegados, homens e mulheres, agradecem à Mãe as graças, gritam lá no mais íntimo, suplicam, choram, cumprem as promessas, de joelhos ou mesmo arrastando-se. E a gente comove--se. E é preciso respeitar o sofrimento das pessoas e manifestar--lhes compaixão activa na sua dor. Quem se atreverá, perante o sofrimento, por vezes extremo, a ridicularizar, em vez de tentar compreender e ajudar?
Mas, dito isto, deve-se acrescentar que é preciso evangelizar Fátima e o Deus de Fátima, mesmo sabendo que se trata de uma tarefa quase impossível. Foi o famoso antigo bispo de Nampula, D. Manuel Vieira Pinto, que me contou que, encontrando-se em Fátima, se deparou com uma senhora que, de joelhos, se arrastava a custo para a Capelinha das Aparições. Na tentativa de demovê-la, pois o Evangelho não é a favor de promessas nem do sacrifício pelo sacrifício, foi-lhe dizendo que Deus não queria aquilo e que ele, bispo, até podia substituir a promessa, por exemplo, pela ajuda a uma obra social. Insistiu, sublinhando até que assumia a responsabilidade. Mas a senhora atirou-lhe: "Vá com Deus, senhor bispo. Não foi a si que eu fiz a promessa." O bispo voltou-se para dentro de si e ter-se-á interrogado como é que o Evangelho tem dificuldade em entrar na Igreja.
As pregações em Fátima, apelando à penitência e ao sacrifício, nem sempre estão de acordo com o Evangelho. Até etimologicamente, a palavra Evangelho significa notícia boa e felicitante. O Evangelho segundo São Marcos começa assim: "Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. Jesus pregava o Evangelho do Reino de Deus e dizia: o Reino de Deus está próximo; mudai de mentalidade e acreditai na Boa Nova." O que lá está é: Evangelho enquanto notícia boa e feliz. Habitualmente, aquele "mudai de mentalidade" é traduzido por "fazei penitência". Mas, no original grego, está: "metanoeîte", que significa: "mudai de mentalidade, de pensamento, de coração". Não está: "fazei penitência". E Jesus também dizia: "Ide aprender o que isto quer dizer: Deus não quer sacrifícios, mas misericórdia."
Mas, muitas vezes, talvez porque ao poder interessa o cultivo do medo, o Evangelho tornou-se de facto uma má notícia. Deus, que Jesus proclamou como Amor, Liberdade criadora, Fonte de alegria e de realização plena, acabou por ficar associado a tristeza, tédio, medo, castigo, infantilismo, vida tolhida, sentimento de culpa. Para esse "Disangelho" (notícia má e paralisante), como lhe chamou Nietzsche, foi decisiva a infiltração da ideia de que Deus, para aplacar a sua ira e reconciliar-se com a humanidade, precisou da morte do próprio Filho na cruz. E aí está um deus vingativo, cruel e monstruoso, contradizendo o que Jesus disse e fez: Deus é Amor incondicional. Mas, se Deus fosse vingativo e cruel, também os seres humanos poderiam exercer vingança e crueldade. Que pai ou mãe sadios exigiriam a morte de um filho para reconciliar-se com os outros filhos? Note-se que o teólogo J. Ratzinger, mais tarde Bento XVI, rejeitou a noção de um Deus "cuja justiça inexorável teria exigido um sacrifício humano, o sacrifício do seu próprio Filho. Esta imagem, apesar de tão espalhada, não deixa de ser falsa".
Há ligação entre a crise e as peregrinações a Fátima? Não me custa admiti-lo. Mas, seguindo o Evangelho, isso não pode acontecer no sentido das promessas e do sacrifício pelo sacrifício, mas do que realmente deve ser: o sacrifício da conversão para uma nova mentalidade, um pensamento novo e um coração novo. Em Portugal, ainda há 80% que se confessam católicos. Se todos se convertessem, também no Parlamento, no Governo, nos Tribunais, na Banca, na Igreja, isso havia de ter consequências. E teríamos uma sociedade mais reflexiva, mais justa, mais solidária, mais empenhada no trabalho, menos corrupta, mais confiante.

Anselmo Borges in Diário de Notícias

( Título original do artigo: Fátima e a crise )