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terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Escravatura, o Grande Leviatã que se Abateu sobre a Humanidade






A temática da escravatura é das que mais tenho lido e estudado em História ao longo da minha vida. Sempre procurei compreender o que pode estar oculto no coração e na cabeça de quem a tal prática se dedicou, ou continua ainda a dedicar-se, e das motivações sociais que permitiram o aparecimento e manutenção da monstruosidade do que considero ser  o maior crime contra a humanidade desde o início da criação do mundo.                                     

Quando chegou à altura de elaborar e submeter o meu projecto de dissertação de mestrado em História do Império Português, a minha escolha pareceu-me  óbvia e centrou-se  à volta da demografia da escravatura.                                                                                                                

 A escravatura é um facto histórico bastante bem documentado sendo relativamente fácil, a qualquer historiador, ou mesmo para alguém dotado do mais básico senso comum, chegar a uma conclusão: a realidade sobre esta, ao longo dos séculos, supera quase sempre o que alguma vez pudéssemos ter imaginado que poderia acontecer,  tal a dimensão de tão grande  tragédia e drama da humanidade. A escravatura é uma camada lodosa, grossa,  escura, fétida e profunda que se depositou nos interstícios da alma humana e por lá teima em persistir ficar.


A RTP 1 está a passar um conjunto de quatro documentários, intitulados genericamente “As Rotas da Escravatura”, que, mesmo tratando o assunto pela sua rama, tem o mérito de trazer ao grande público, em pinceladas largas,  mas de cores fortes, o que este deve saber, no mínimo, sobre o que foi, o que é,  e o que continuará a ser a escravatura. Não sei se alguma vez este cancro virá a ser erradicado no mundo tal qual o conhecemos e perspectivamos que as próximas gerações possam vir a conhecer. 


Desenganem-se aqueles que acham que a escravatura, ou o tráfico de pessoas destinadas a esse fim  atingiu apenas os seres humanos de raça negra. Muito longe disso.  Havia de  decorrer muito tempo até que o primeiro negro fosse escravizado, pois a escravatura e o tráfico foram, durante muitos séculos,  dirigidos primariamente a gente de pele branca. Ironicamente, se podemos dizer alguma coisa menos conhecida sobre a escravatura e o tráfico de seres humanos a ela destinado, é que tais práticas raramente foram dominadas por ideias racistas.  A razão  e  valor maior para traficar e escravizar um ser humano radicou, e radica ainda,  principalmente,  na questão económica.


Também não trarei, decerto, nenhuma novidade se adiantar que quase nenhum povo ou raça, de qualquer língua ou nação, pode dizer que não teve a sua quota parte de participação na tragédia hedionda da escravatura.                                                                                                                                           

Já agora será conveniente acrescentar que os portugueses, não estando, nem de longe nem de perto, isentos de grandes  responsabilidades no tráfico e na escravatura, só tardiamente aderiram a tais práticas, embora da forma, quanto a mim, mais odiosa  que se pode imaginar e que passava, nomeadamente, entre outros,  pelo método de razia nas costas africanas para apresamento e tráfico continuado de homens mulheres e crianças.  Quando o Papa Nicolau V outorga a D. Afonso V, através da  Bula Dum Diversas, em Junho de 1452, o direito de submeter e subjugar as terras dos  infiéis, abriu, para os portugueses, uma caixa de Pandora de onde  saiu a validação das miseráveis práticas da captura e redução à  escravidão de todos os africanos a que conseguissem  deitar mão, mesmo que,  acrescente-se,  tal Bula só tenha vindo a  “legitimar” algo a que os portugueses se dedicavam já desde meados do século XV.


Jacinto Lourenço   -    Janeiro   2019

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Somos todos Cidadãos iguais em Direitos e Deveres






Faz meia dúzia de dias atrás que trouxe aqui o episódio do 'Mauzinho',  o filho do cabo da guarda lá da terra, episódio que não era uma metáfora de coisa nenhuma por ser verdadeiro. Pensei desde logo que voltaria ao tema, agora para lembrar o cabo João (*), um agente da GNR com verdadeiro sentido cívico, moral e ético da sua missão numa pequena terra alentejana com todas as condições sócio-económicas formatadas pela realidade que a existência do Estado Novo, ou melhor dito, da ditadura Salazarista quis  impor aos portugueses com recurso a uma unicidade de pensamento, maneira de ser,  ver e estar. Em resumo, um comportamento social balizado pela doutrina aprendida do fascismo italiano  decalcada e adaptada à ditadura que em terras lusas ocorreu de 1926  a 1974, com o conluio, é bom não esquecer, da igreja católica.

Sentado no banco de madeira do velho cacilheiro que resfolegava para chegar à outra margem, distraído com a leitura de um livro, reparo de soslaio num primeiro sargento da GNR que viajava de pé e não deixava de me fitar. Imaginei que talvez estivesse a tentar descortinar se eu era alguém que se tivesse cruzado com ele nalguma operação movida pela Guarda. Senti-me desconfortável com o seu olhar fixo na minha direcção mas, ao mesmo tempo, absolutamente tranquilo. Afinal estava apenas a fazer uma viagem de cacilheiro num final de dia de trabalho.                                                    
O primeiro sargento, trajando o habitual fato de cotim, soltou as amarras da sua curiosidade abordando-me  e perguntando se "eu não o estava a conhecer ? ".   Respondi  evasivamente, entre uma estupefacção expectante, que não, que nunca tinha conhecido ou sequer tivera,  na minha vida, qualquer contacto com alguém da GNR com o posto de cabo para cima.  Era melhor assim, achava eu,  acabar com a conversa que estava a nascer uma vez que não queria alongar-me  em falas com um agente da GNR. Mas o homem quis continuar. Fechei o livro que tinha entre mãos e fixei-o directamente, em jeito de desafio, para que me dissesse exactamente ao que vinha, e foi o que ele fez.   "Então não se lembra do cabo 'João', lá na terra, no Alentejo ?".  Foi quando as escamas me caíram dos olhos e a memória recuou cerca de dez anos até ao período em que tinha estado a fazer a instrução primária no Alentejo. 

Tirei-lhe o recorte das feições, coloquei-lhe umas divisas imaginárias de cabo da Guarda, respirei fundo e disse-lhe, com satisfação não disfarçada,  num sorriso franco e aberto, que sim, que já me lembrava muito bem  quem ele era e quem ele tinha sido nesse período em que se cruzou comigo naquela pequena terra do Alentejo.  Demos um abraço. Perguntou-me pela família, pelos meus avós, pelos meus tios, pela minha vida, pelo meu percurso, o que fazia, onde morava.  Sobre ele, e sem que eu lhe perguntasse o que quer que fosse, contou-me um pouco do trajecto desde que saíra  lá da terra. Agora já não era cabo, era sargento. Dei-lhe os  parabéns e fiquei a pensar de mim para mim que um homem bom e íntegro, até mesmo numa força como era a GNR nessa altura, ao serviço de uma ditadura no Alentejo rural dos anos sessenta, e sem precisar exibir ostentação de poder ou ascendência autoritarista  sobre os seus semelhantes, consegue ter uma boa carreira profissional, sem a ter consolidado à custa de exercícios abusivos do poder em que esteve investido naquele pequeno posto que comandou e, estou certo, nas demais funções que desempenhou ao longo da sua carreira.                                                                                                                                          
O cabo 'João' era apenas um entre tantos militares da GNR, colocados no Alentejo mais ou menos profundo e recrutados, regra geral, bem no norte do país, que isolado do seu meio de origem e da sua família, podia ter "descarregado" a sua frustração pessoal sobre quem lhe "estivesse à mão". Foi sua opção não seguir por esse caminho 'largo',  embora nesse tempo o respaldo para qualquer acção potencialmente abusiva da sua parte tivesse de certeza o  apoio da força que integrava e o aplauso dos senhores da terra.  Nunca o fez. Sabia quem era e qual a responsabilidade social da sua função. Hoje tudo é diferente, ou melhor dito: hoje tudo é afinal mais parecido com os anos sessenta e as ditas forças da ordem, agem como se o primado da lei pudesse dar cobertura a todos os seus actos e a todas as suas inacções ou omissões. Os cidadãos estão genericamente entregues a si próprios ou então entregues às omissões e inacções de outros cidadãos fardados. Mérito para todos aqueles que não repudiam o primado da sua função social enquanto integrados numa qualquer força militar ou policial e, felizmente, ainda existem, e são muitos. De resto somos todos cidadãos iguais em direitos e deveres. O cabo 'João' percebeu isto muito bem.

A viagem do velho cacilheiro estava a terminar, percebi pelo ronco um pouco mais forte que vinha abafado da casa das máquinas. Despedimo-nos, desejei-lhe o melhor para a sua vida. Nunca mais nos cruzámos desde esse dia. Já passou quase meio século. Retenho a memória de um homem bom, mas que por ser bom não deixava de ser cumpridor das suas obrigações profissionais. Nunca lhe reconheci o mesmo perfil de fúria autoritária como o que enformava  a Guarda no tempo do cabo 'Mauzão', no Posto lá da terra.

Faz meia dúzia de dias atrás que trouxe aqui o episódio do 'Mauzinho',  o filho do cabo da guarda lá da terra, o 'Mauzão',  episódio que não era uma metáfora de coisa nenhuma por ser verdadeiro. Pensei desde logo que voltaria ao tema, mas agora para lembrar o cabo 'João' (*),  que sucedeu ao cabo 'Mauzão' no comando do posto. Um agente da GNR com verdadeiro sentido cívico, moral e ético da sua missão numa pequena terra alentejana com todas as condições sócio-económicas formatadas pela realidade que a existência do Estado Novo, ou melhor dito, que a ditadura Salazarista,  quis  impor aos portugueses com recurso a uma unicidade de pensamento, maneira de ser, ver e estar, em resumo um comportamento social balizado pela doutrina aprendida do fascismo italiano e adaptada à ditadura imposta em terras lusas de 1926  a 1974, com o conluio, é bom não esquecer, da igreja católica, cujo chefe máximo em Portugal, o Cardeal Cerejeira, era quase uma alma siamesa de Salazar.

É preciso que se  saiba que, da perspectiva do regime de antes do 25 de Abril de 1974,  o autoritarismo  revestia, por essa altura, em especial nas vilas e aldeias do Alentejo,  o exercício do rigor mascarado de fúria autoritária que acabava por se materializar na ponta dos cassetetes, nas sevícias, ou nas multas desproporcionadas que visavam, umas e outras as costas ou as  magras jornas dos trabalhadores rurais do Alentejo. As lutas e greves pela jornada diária de oito horas, e não de sol a sol, levaram muitos ao posto local da Guarda, outros a serem encaminhados para o posto da sede de concelho, e alguns a acabarem na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, sede da PIDE/DGS. Um caminho que tinha quase sempre como fim de rota a prisão de Caxias.  A GNR, em particular no Alentejo, foi sempre o braço armado do regime salazarista, como o tinha sido de outros regimes anteriores e continuaria a ser nos posteriores.  Mais do que manter a ordem, mantinha o terror a mando dos latifundiários locais, os verdadeiros donos do Alentejo de então, ou das ordens provenientes dos mandatários da ditadura de Salazar.  Normalmente, quando começava a bater ou a agir de forma desproporcionada, cegava na carreira sem direcção certa.

Ao ver na televisão as imagens e a denúncia do que se passou em Portalegre, com a violência exercida sobre os instruendos, e supostamente futuros guardas da GNR, e que atirou com alguns para as urgências hospitalares, fiquei a pensar se tal tipo de treino ainda será o mesmo que era fornecido aos instruendos que entravam para a GNR no tempo do Estado Novo, quando esta força estava ao serviço dos grandes  terratenentes alentejanos de então e da ditadura salazarista que durante 48 anos manteve Portugal na 'idade das trevas'. Será que os responsáveis máximos da Guarda e os decisores políticos de agora imaginam que ainda vivem em ditadura salazarista e que se devem preparar para concretizar, na prática, o treino que administram aos seus instruendos ?  Não seria melhor fazer-se à GNR o mesmo que fizeram à Guarda Fiscal, extiguindo-a, para assim dar lugar a uma força que não seja um espelho de vergonha para o país e quebre, por uma vez, esta 'escola'  que tem feito um trajecto velho e contorcido e  preparado os agentes  para bater ou apanhar  os cidadãos, qual passarinheiro que apanha as suas vítimas com um pouco de visgo como se cada cidadão fosse um malfeitor ?   É que não me deixa, em absoluto, nada descansado o processo de apuramento de responsabilidades e aplicação de justiça, dentro dos muros altos da GNR, quando é público que, depois de tudo o que se passou em Portalegre, com a violência sem medida a ser exibida, o facto de nem uma só queixa ter sido apresentada por qualquer um dos agredidos naquela escola de militares da GNR.  Talvez por isso somos levados a pensar que a GNR precisa  urgentemente, dentro do seu corpo militar, de muitos mais  homens como o cabo 'João', capazes de verem na generalidade de cada cidadão português alguém a quem se pede um comportamento socialmente responsável, mas que requer reciprocidade de tratamento por parte das forças militares e policiais e não a aplicação do autoritarismo e da força desmesurada só porque apetece,  mesmo que na sua frente esteja um cidadão com deveres, é certo, mas com todos os direitos que a lei lhe confere. 


(*) Por  razões de protecção de identidade não divulgamos o verdadeiro nome do cabo 'João'. 



Jacinto Lourenço -   Dezembro, 2018










terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Se eu Fosse Deus...








"...Agora cada um está a raspar cuidadosamente com a colher o fundo da marmita para tirar os últimos restos de sopa , o que provoca um ruído metálico que significa que o dia acabou. Pouco a pouco o silêncio prevalece, e então, da minha cama , no terceiro andar, vê-se e ouve-se que o velho Kuhn reza, em voz alta, com o boné na cabeça e abanando o corpo com violência. Kuhn agradece a Deus por não ter sido escolhido.

Kuhn é um insensato. Não vê, na cama ao lado, Beppo, o grego, que tem vinte anos, e que depois de amanhã irá para o gás; e que, sabendo-o, fica deitado olhando fixamente a lâmpada sem dizer nada e sem pensar em mais nada ? Não sabe Kuhn que a próxima será a sua vez ? Não percebe Kuhn que hoje aconteceu uma coisa abominável que nenhuma oração propiciatória, nenhum perdão, nenhuma expiação dos culpados, nada, em suma, que esteja em poder do homem fazer, poderá nunca mais cancelar ? 

Se eu fosse Deus, cuspiria para o chão a oração de Kuhn. [...]"

Primo Levi

( Se Isto é Um Homem, pág. 144 - Edição Público, Colecção Mil Folhas )

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

O que Sei sobre Comboios




Sei pouco sobre comboios, tirando que gosto de neles viajar e que já viajei o suficiente, ao longo da minha vida, para saber algumas coisas como utilizador não regular e ainda o que se passa em Portugal acerca do tema. Nunca, ou quase nunca foram pontuais. As condições das composições em que viajámos, e viajamos, nunca foram de excelência, salvaguardando alguns casos, como por exemplo o do "Alfa". Sei também que nas linhas mais importantes resolviam razoavelmente a contento das necessidades da população. A bem dizer, e sempre que viajei de comboio, nunca tive grandes motivos de reclamação do material circulante no que ao conforto dos passageiros dizia respeito. Já quanto a gares, horários, preços e etc... Enfim. 


Talvez por isso é que estranho muito mais o que está a acontecer com os comboios em Portugal. Ou melhor dito, quem e porque razão, e com que objectivos, está a destruir o transporte ferroviário em Portugal a ponto de, ao que vejo, ouço e leio, mais parecer que estamos num país de Terceiro Mundo. O que acho é que na Índia, no Bangladesh, no Perú ou no Nepal, por exemplo, e sem qualquer menosprezo para com estes países, o transporte ferroviário, se existir em todos eles - coisa que não sei com precisão - funciona muito melhor do que em Portugal. Transporta as pessoas, facto que não é despiciendo e não acontece por aqui.




Jacinto Lourenço, Nov. 2018

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

As Questiúnculas da Nação







Para Rui Rio, a questão das falsas presenças, na Assembleia da República, do seu Secretário Geral, o Sr. Silvano, não passam afinal de "questiúnculas" levantadas por pessoas mal intencionadas. Para a senhora deputada Emília Cerqueira, que só se lembrou, seis dias depois, que havia sido ela a ter validado, sem querer, as falsas presenças do Senhor Secretário geral Silvano, com a password que este lhe facultou, e de isso lhe ser apontado como um grave atropelo aos seus deveres e direitos enquanto deputada eleita pela nação, o facto não passa de más intenções de "virgens ofendidas". Afinal, diz ela, todos têm as passwords de todos, o que implica, achamos nós, que  todos podem validar falsas presenças de todos, coisa que, a fazer fé no que já vimos sair daquela casa, que devia ser um exemplo de cidadania e democracia, não será de todo despiciendo.

O senhor presidente da Assembleia da República afirma que não é suposto que os senhores deputados conheçam as passwords uns dos outros, mas a verdade é que parece que conhecem e, muito provavelmente, a coisa não se resume ao Sr. Silvano e à D.Emília Cerqueira. A prática pelos vistos é useira e porventura estendendo-se um pouco por todo o hemiciclo, a fazer fé na D. Emília Cerqueira, que, no seu dizer, é uma "mulher do Alto Minho" e sem papas na língua e que por isso deixou a pairar no ar que há afinal muitas "virgens ofendidas" a usar o mesmo processo de validação de falsas presenças.                                                                                                                                               
Ao fim e ao cabo parece  que os únicos  'mal intencionados', no meio de tantas "questiúnculas" levantadas, somos nós, os cidadãos que placidamente continuamos a pagar, com língua de palmo, o vencimento de tantas "virgens" que circulam, ou não, pelo Parlamento. Assim se vai desacreditando a democracia por via da baixa política, dos políticos mentirosos e falsos e dos partidos que, numa atitude claramente corporativista, encobrem, ao limite, os seus e se recusam a olhar para a evolução da taxa de abstenção registada nas sucessivas eleições que desde 1975  vem quase sempre em crescendo, eleição após  eleição. Provavelmente, com "questiúnculas" destas ou de outras parecidas e com os líderes dos partidos a tentarem manobras de ocultação, dilação e desculpabilização dos seus actores partidários, a democracia vai continuar a degradar-se em Portugal e  a abstenção vai continuar a exibir o pouco que os cidadãos confiam no actual sistema político regido por tanta mentira e golpada partidária.  Tenham tento !


Jacinto Lourenço   Nov. 2018

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

ENCOSTADO À PAREDE




Tenho dois princípios, mais ou menos assumidos, que raramente quebrei aqui: não falo sobre futebol e não falo sobre política partidária. Hoje vou abrir uma excepção e vou falar sobre as últimas eleições autárquicas que nos trouxeram algumas surpresas (ou talvez não). 

     A grande surpresa (ou talvez não) foi para mim a enorme 'vassourada', representada por duas mãos cheias de câmaras, que o PCP e seus pares levaram em regiões onde não seria espectável (ou talvez fosse) que tal acontecesse. Bom, pelo menos para Jerónimo de Sousa, a avaliar pelas contundentes palavras que dirigiu a PS e BE nas intervenções que tem feito até agora e que os media nos têm trazido. 


     Jerónimo de Sousa tem mostrado duas ou três coisas importantes: 1ª que tem muito mau perder. 2ª que ficou absolutamente surpreso com as perdas que o voto popular lhe inflingiu. 3ª que está enraivecido com as perdas e a seleccionar os culpados que obviamente identificou já no PS e no BE.



Passe a imagem, que não pretende ofender Jerónimo de Sousa nem o PCP, as suas intervenções pós eleições fazem lembrar a reacção daqueles touros que são soltos nas largadas e que, acossados e espicaçados pela populaça por todos os lados, vão recuando e encostando os quartos traseiros a um qualquer pedaço de parede disponível, resfolegando e aumentando perigosamente a sua raiva que descarregarão num ataque na única direcção que têm disponível: em frente, e sobre quem tiverem  pela frente. É isso que Jerónimo de Sousa representa neste momento: um "touro enraivecido" pouco disposto a medir consequências do seu ataque ou se ele tem ou não alguma razão de ser.

     Jerónimo de Sousa e o PCP nunca souberam tirar boas lições do que a história lhes vai impondo. Esqueceram que o Estalinismo já não rende votos e que ser amigo da Coreia do Norte ou defender Maduro, por exemplo, é algo que lança um verdadeiro anátema sobre quem quer fazer política séria e que possa ser levada a sério por quem deposita o seu voto nas urnas. E isso, claro tem um preço alto a pagar. Pessoalmente tenho pena que assim seja. Afinal o PCP tem o seu lugar na história contemporânea portuguesa, uma história que, no caso dos comunistas, se fez principalmente na resistência à ditadura militar e salazarista que contribuiu em muito para abrir caminho ao 25 de Abril de 1974.

Jacinto Lourenço

domingo, 8 de outubro de 2017

INDEPENDÊNCIA, PARA QUE TE QUERO ?!



É a segunda vez esta semana que quebro o meu princípio de não escrever sobre política, mas confesso nem sequer saber se o que vou escrever é sobre política ou sobre paixão, sendo que seja sobre política ou sobre paixão o assunto é, em qualquer dos casos, apaixonante.

Falo sobre a Catalunha e sobre os últimos acontecimentos, de todos conhecidos, à volta da vontade e aspiração manifestas de uma parte significativa dos seus naturais em acederem à independência. Mas antes disso é preciso relembrar aos mais distraídos de que Espanha, ao contrário daquilo que possam imaginar, não é uma nação, Espanha, esse país reunido no espaço geográfico restante da península ibérica depois de descontado Portugal, é uma amálgama de nações que nunca perderam, umas mais outras menos, a sua identidade própria. Galiza, País Basco, Navarra, Andalucía, Castela e mesmo Aragão ou outros territórios em que essa identidade própria está mais sublimada mas não menos esquecida, coabitam no mesmo território ibérico mas não comungam todos dos mesmos valores identitários dentro das fronteiras espanholas.
De vez em quando isso vem ao de cima, o desejo de ser livre, de ser independente. A Catalunha nunca o foi, pese embora já o tenha tentado anteriormente. De certa maneira a nossa restauração da independência em 1640 está ligada à impossibilidade da Catalunha o ter sido nessa altura. Tivesse Filipe III desviado os seus exércitos da Catalunha para Portugal e hoje a Catalunha seria, quiçá, independente . Mas enfim, isso são outras histórias.

     Não sei se os catalães podem ou não ser independentes. Como português não desejo negar aos outros povos aquilo a que o meu próprio povo sempre aspirou e que, felizmente, foi capaz de construir e consolidar. Também não sei se ser independente é ou não o melhor para a Catalunha no contexto global em que vivemos. Essas são questões a que o povo catalão terá que saber que respostas dar. O que sei, e muito bem, é que o desejo de ser independente e livre de jugos estrangeiros é um desejo legítimo que ninguém pode negar a ninguém e muito menos negar a afirmação da expressão legítima dessa vontade através do voto em referendo.

Dito isto, espantam-me, e alarmam-me, as reacções irracionais de todos os intervenientes no processo que se está a desenrolar na Catalunha. Cargas policiais violentas e descontextualizadas com um resultado pesado de feridos entre gente pacífica que só queria manifestar o seu desejo de liberdade ou de continuidade da integração. Crescendo de ódio entre os pró independentistas e integracionistas. Absoluta e invalidada capacidade de trazer alguma lucidez crítica a um processo que pedia isso acima de tudo, de ambos os lados. Finalmente um governo espanhol e um rei de Espanha que se comportam como senhores feudais que pretendem, ao que parece e acima de tudo, manter intocado o seu feudo catalão. Se Filipe VI, Mariano Rajoy e Carles Puigdemont, conseguiram demonstrar alguma coisa, foi apenas que nenhum deles estará porventura à altura de esgrimir vontades sobre este assunto na Catalunha.


Jacinto Lourenço

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

A sacralização da Direita e a diabolização da Esquerda...






Tinha acabado de fazer 20 anos quando aconteceu o 25 de Abril em Portugal. Sobre esse momento já passaram mais de 4 décadas. Embora nunca tenha sido analista político, não precisei de muito tempo, após um ou dois actos eleitorais, para perceber o rumo que o país iria seguir. Mas confesso que, depois da adesão de Portugal à então CEE, nada me poderia levar a supor que esta evoluísse na direcção que evoluiu e se transformasse numa hidra que abocanha a soberania das nações, especialmente das mais pequenas, e a reduz a um mero espasmo de subserviência ou a um tipo de balcão único  de representação  da plutocracia instalada em Bruxelas.

   Num curto lapso de tempo, depois de se ter percebido que o partido socialista não iria fazer qualquer tipo de favor à direita para a manter à tona, eis que se agitam todos os fantasmas e se ameaça com os piores anátemas essa  'heresia'  que se ergue de eventualmente poder vir a existir um governo que congregue o partido socialista e as forças partidárias à sua esquerda com representação parlamentar, como se o voto que elegeu os deputados da direita merecesse mais crédito do que a maioria dos votos que elegeram as forças da esquerda. Que eu saiba, o voto, um voto, seja ele qual for, depois de entrar na urna, não revela casta, cor ou cheiro; trata-se de um pedaço de papel com uns quantos símbolos partidários inscritos e sobre um dos  quais o cidadão eleitor, qualquer cidadão eleitor,  apôs uma cruz que determina a sua vontade sobre quem gostaria de ver a governar o país. Mas parece que agora, de repente, se descobriu em Portugal, e na Europa, que o voto de um cidadão eleitor de direita tem sempre mais valor para eleger quem deve governar do que o voto de um cidadão eleitor de esquerda. Ou melhor: para a direita, o que interessa no Sufrágio Universal Secreto e Directo é que, seja qual for a quantidade de votos que consiga obter, seja sempre ela a governar porque só ela tem o direito de o fazer, como se os seus votos passassem por um processo de transubstanciação que transformasse uns pedaços de papel com alguma tinta em algo de transcendente. Se o mesmo Sufrágio Universal Secreto e Directo, colocar a maioria dos votos nas forças à sua esquerda, aí já não pode ser, essas forças não podem governar porque são de esquerda.

     Ou seja: na verdade, o que as forças da direita , em Portugal e na Europa, intuíram desde há uns anos a esta parte é que nós, portugueses e europeus, temos um sistema eleitoral baseado num sufrágio censitário, ou dinástico, sei lá, em que só os votos de uns quantos plutocratas e dos seus representantes e clientes  podem ser validados para eleger quem governa em Portugal  porque só eles são os 'lídimos portugueses'. Os votos dos portugueses apontados à esquerda são, para toda essa gente que anda agora abespinhada com a possibilidade de ser o partido socialista e as forças da esquerda a governarem, assim como que um género de votos iconoclatas, anti-naturais, não transubstanciados, feios, porcos e maus e logo não podendo ser tidos em conta para que com eles se possa governar em Portugal, mesmo que até representem a maioria da vontade do povo. É o principio antinómico da sacralização da direita e da diabolização da esquerda, especialmente se a esquerda não manifestar espasmos de subserviência para com Bruxelas, ou não aceitar um qualquer exorcismo que a submeta aos poderes da hidra.

Jacinto Lourenço

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A Pedagogia dos Valores




Já escrevi anteriormente sobre este tema, dos jovens, do seu presente e do seu futuro, mas também dos seus pais e encarregados de educação e da forma como interagem uns e outros sabendo das responsabilidades inerentes no plano dessa interacção.

Bem sabemos que o paradigma dos adoslescentes e jovens de hoje é bem distinto do de há três ou quatro décadas atrás, contudo há coisas que nunca mudam.  Mas na  verdade, para as actuais gerações de pais e educadores, ou mesmo desde há uma ou duas gerações para cá, essas coisas de que falo, e que nunca mudam, foram simplesmente banalizadas ou completamente relativizadas e o resultado disso espelha-se nos comportamentos que observamos nos adolescentes e jovens  e nas consequências que eles traduzem.

Não quero trazer à colação os meus valores cristãos para que não se diga que este pequeno texto reproduz ideias feitas ou influências de vínculo religioso . Quero  apenas olhar para algumas pequenas/grandes diferenças que encontro entre a matriz educacional e de valores ( as tais pequenas coisas que nunca mudam ) que foi  transmitida à minha geração e a mais uma ou duas gerações posteriores à minha e que, por muito que me esforce, não consigo encontrar na generalidade das actuais gerações de jovens nem de pais e educadores.
Longe de mim reivindicar a ideia do retorno ao trabalho infantil ou algo parecido, porém a minha geração aprendeu desde cedo o valor do trabalho, a sua dificuldade, a sua necessidade e recompensa enquanto factores de evolução pessoal e humana, fosse na escola ou fora dela  na ajuda aos familiares nas mais diversas tarefas domésticas ou mesmo em pequenos trabalhos agrícolas, oficinais ou outros.

Nas férias grandes era seguro e sabido que não ficaríamos a curtir o corpo na cama até às duas ou três da tarde mas que teríamos de acompanhar os nossos pais ou educadores até ao seu local de trabalho e ali permanecer grande parte do dia, ou então ser-nos-ia encontrada uma ocupação, a troco de uma pequena remuneração, num qualquer comércio, escritório ou oficina afim de não ficarmos entregues a nós próprios em casa ou na rua.  Se gostávamos ?  Claro que não !  Mas nada disso nos retirava o tempo para a brincadeira e convívio com os amigos ao final da tarde. Os serões, sentados nas soleiras das portas a ouvir histórias dos adultos ou a observar as estrelas no firmamento e a aprender eram uma animação e uma experiência irrepetível nas nossas vidas.  Sorvíamos cada momento,  cada experiência,  cada história.   Hoje o que vemos é os adolescentes completamente desocupados ou envolvidos com os seus gadgets quase todo o tempo que estão acordados. É a isso que se resume o seu pequeno mundo somado aos encontros de grandes grupos que pululam nas ruas até de madrugada quer provocando desmandos ou ruídos inadmissíveis, quer grafitando paredes de prédios com caracteres meio góticos  que só a sua tribo entende. Hoje o que observamos nos pais e encarregados de educação é a preocupação em rodearem, a uso e a desuso, os seus filhos e educandos de todo o conforto possível e impossível, a propósito ou despropósito, merecido ou imerecido sem que tal resulte de um critério educacional compreensível ou de uma escala de valores bem graduada.

Interrogo-me sempre sobre a qualidade do sono dos pais que permitem que os seus adolescentes e jovens, na maior parte dos casos ainda menores de idade, deambulem fora de casa, dia ou  noite dentro, sem qualquer tipo de controlo tutelar. Admito que, para alguns  pais e educadores, isso possa ser  uma alegria, um tempo de recreio em que não têm que se preocupar, achando que os seus filhos são um exemplo e os melhores filhos do mundo. Puro engano. Os seus filhos são iguais aos de todos os outros pais e com comportamentos iguais aos de todos os outros rapazes e raparigas quando deixados em roda livre e “entregues aos cuidados” e "conselhos" do seu grupo de amigos. Mas pelos vistos esses  pais e educadores acham que não e descansam nessa perigosa hipótese. O resultado é o que se vê e que algumas vezes aparece nos meios de comunicação social.

Sim, não peço desculpa por achar que aos filhos e educandos devem ser ensinados, além de outros, também os valores do trabalho enquanto ferramenta  útil de socialização e promoção social e humana e isso nada tem a ver com exploração de trabalho infantil. Mas muitos pais e educadores, quais moderníssimos  pedagogos  acham que os seus filhos devem ser “protegidos” dos “malefícios” dessa aprendizagem, preferindo que eles fiquem entregues a si próprios enquanto não estão na escola, ou quando estão de férias fora desta. E os resultados dessa opção estão à vista na civilidade comportamental das gerações juvenis actuais, na interacção com as gerações mais velhas, na  cada vez maior e incontrolada indisciplina nas salas de aula, na ausência do respeito devido aos professores que os ensinam e na falta de aplicação nos estudos com o insucesso escolar conhecido no país.

Existe um défice de compreensão elevado, da parte de muitos pais e educadores, mas também do estado, quanto a estas matérias e  sobre a sua importância, e alguma coisa precisa ser feita, a começar em casa, no seio familiar, sim, porque é aí que se educam os filhos, mas também no âmbito das  políticas de enquadramento sócio-económico dos jovens e na responsabilização cívica dos pais e educadores que continuam a achar que cabe à escola e não a eles educar os seus rebentos.   


Jacinto Lourenço

quinta-feira, 10 de abril de 2014

O Problema é Nosso !


Acabo de ouvir na rádio a resposta dada por Assunção Esteves relativamente à pretensão dos militares de Abril poderem usar a palavra na sessão evocativa dos 40 anos do 25 de Abril a realizar proximamente na Assembleia da República. "O problema é deles!", foi o que disse a dama do "inconseguimento".  Mais pela manhã, também já tinha ouvido que a maioria CDS e PSD tinha chumbado essa mesma pretensão. Os militares queriam estar presentes e usar a palavra. Nada que o regimento da Assembleia não preveja em situações especiais, como é o caso da dita  sessão evocativa. 

Ninguém, com mais qualidade do que os militares de Abril, tem esse direito, quanto mais não seja pelo respeito que eles devem merecer da parte de  todo o povo português e de todas as instituições que dizem representá-lo. O problema é deles sim, como já foi quarenta anos antes quando, mesmo com risco da própria  integridade física expuseram por nós o corpo ao perigo que envolvia derrubar uma ditadura velha de 48 anos. No mínimo, se os ventos não lhes tivessem sido favoráveis, esperava-os  a prisão, provavelmente o Tarrafal durante largos anos, a destruição da sua carreira profissional e eventualmente a desintegração da sua vida familiar com tudo o que isso teria implicado. E tudo para que depois possam existir figuras, da ridícula dimensão de Assunção Esteves, a ocupar o lugar mais elevado do Parlamento.  Sim, o problema era deles e só deles, não nosso, do povo,  que só saímos à rua quando a vitória era certa, num comportamento típico de assumida covardia e amorfismo que nos caracteriza.  Sim, não fora a vitória de Abril à mão de militares que se deram por inteiro, porventura, em muitos aspectos com uma cândida ingenuidade, em favor de um povo há muito espezinhado nos seus mais elementares direitos e hoje não seria possível à senhora que ocupa, indignamente, a cadeira de presidente da A.R. elevar a uma potência de estupidez inaudita a arrogância própria de quem acha que tem o poder de escorraçar da casa da democracia portuguesa aqueles em quem o povo português ainda se revê no sonho alcançado da conquista da liberdade e da democracia em Portugal. 

Este poder, esta arrogância e prepotência estúpida com que é exercido não é herdeiro legítimo do 25 de Abril de 1974 nem a maioria do povo português nele se reconhece. Este poder inspira-se nas catacumbas do 24 de Abril de 1974 e Assunção Esteves é apenas uma 'sacerdotisa'  que obedece a um ritual  de destruição dos melhores valores que a primavera de Abril nos trouxe. Nenhuma democracia, nenhum estado de direito, nenhum poder em Portugal pode jamais obliterar o que aconteceu em 25 de Abril de 1974. Os portugueses, em última análise, têm um penhor de gratidão para com os militares de Abril que devia impedir este tipo de tratamento a que assistimos por parte de figuras que não nos merecem nenhum respeito nem qualquer tipo de consideração ou crédito sócio-político.  

Não, o problema não é deles, dos capitães de Abril que fizeram o que tinham que fazer. O problema é nosso ao deixarmos que alguns destruam tudo o que de bom conseguimos construir nos últimos quarenta anos e ao permitirmos que nos matem os sonhos que um dia acreditámos ser possível concretizar. Não se pode incensar uma democracia que responde apenas perante a arrogância do poder plutocrata e não pelos interesses do povo que a constrói .  


Jacinto Lourenço

quarta-feira, 26 de março de 2014

Lá Vamos Nós outra Vez...




Não conheço pessoalmente nenhum candidato de qualquer partido às eleições europeias. Não sei quem saiu ou quem entrou das listas partidárias, tirando um ou outro nome mais sonante . Mas aquilo que sei é que os partidos deste regime têm um grave problema de comunicação, que se agrava com a distância, no que concerne ao trabalho que fazem os seus deputados eleitos no Parlamento Europeu. Não duvido que muitos deles sejam uma jóia de pessoas e eventualmente bons/as deputados/as, mas a verdade é que o seu trabalho lá fora não tem eco cá dentro.

Não gosto de enveredar por opiniões populistas, mas aquilo que passa para a opinião pública é sobre as viagens que fazem os sres/as. deputados/as, os vencimentos que auferem e as super regalias que têm. Quanto ao resto, quase zero. Julgo que os cidadãos, em geral, não deviam ter que andar a vasculhar as páginas oficiais dos deputados ou dos partidos para saberem alguma coisa do que os primeiros por lá fazem. Talvez por tudo isto, as eleições europeias merecem dos portugueses ainda um maior desprezo do que todas as outras.

Acredito que uma pequena minoria de deputados/as possam ser pessoas de grande valia e competência, mas a verdade é que, até eu, que me considero uma pessoa razoavelmente bem informada, sei pouco do que fazem em Estrasburgo. Ou, num registo mais humorístico, os deputados europeus não se sabem 'vender tão bem' quanto os seus chefes, para poderem, como estes, levar os portugueses ao engano. Mais engano menos engano, pelos vistos os portugueses já não se importam com isso; ou porque já se habituaram, ou porque gostam, ou porque padecem de um problema que dá pelo nome de amorfismo.



Jacinto Lourenço

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Uma Migalha de Sorte...



A   história de Portugal tem, apesar de tudo,  alguns  poucos registos que assinalam momentos em que o povo decidiu conduzir o seu próprio destino, de resto, o que é mais comum  é  deixarmo-nos embalar pelas cantigas  de uns quantos que traem, sistematicamente,  os verdadeiros interesses da nação portuguesa. Andamos há já quase quarenta  anos neste círculo vicioso isto, claro, se não contarmos com os dezasseis anos da Primeira República mais os quarenta e oito da ditadura e do Estado Novo  e, literalmente, passámos todo este tempo a "entregar o ouro ao bandido"  esperando sempre que alguém venha, providencialmente, qual D. Sebastião, resolver os nossos problemas.

 A verdade é que, no pós 25 de Abril de 1974  nunca deixámos de entregar o nosso presente e o futuro nas mãos dos  cleptocratas do costume e depois ainda  lá estamos para lhes bater palmas  na sua marcha triunfal esperando sempre  que algum deles  nos atire uma migalha de sorte. O problema é que o futuro dos povos não se contrói  à  sorte.                                                                  
Chegámos tarde à democracia e não conseguimos ainda decifrar muito bem os reais interesses dos que se acoitam nas quintas partidárias. Esses sim aprendem depressa os códigos da sobrevivência e fazem juz ao apodo  de chicos espertos  e à proverbial  fama de desenrascanço que normalmente o português se atribui a si próprio.  Deixamo-nos enganar ou damos espaço para que nos enganem. Somos enrolados em marés de promessas eleitorais e discursos acalorados que nos falam ao imediatismo do momento para depois, na glorificação dos vencedores, nos reservarem apenas o papel de aguentar  o férculo.                                      

Somos portugueses dum tempo geracional  incapaz de enfrentar os seus próprios medos e desafios, preferimos pagar, e bem, a quem o faça por nós. Falamos muito à mesa do café sobre os males que nos assolam mas não mostramos rasgo nem golpe de asa~para ir além disso. E há sempre alguém, alguma quinta partidária, algum carreirista da política, dispostos  a aproveitar essa fragilidade inscrita nos nossos genes, essa incapacidade de não conseguirmos construir a nossa própria história ou de sabermos  estar à altura da ancestral identidade de Portugal. 

Jacinto Lourenço

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O Abismo Europeu...




Em Inglaterra, o governo prepara-se para fazer a vida negra a todos os emigrantes, sejam ou não comunitários, mesmo que serem ou não comunitários para o caso até é irrelevante. Dentro de pouco tempo, os emigrantes perderão o direito a qualquer subsídio de renda de casa se ficarem desempregados por mais de um ano e, suprema maldade, os estrangeiros que forem encontrados na rua a deambular ou a pernoitar como sem-abrigos serão presos e repatriados. A coisa dita sem sofismas resume-se assim: o actual governo conservador inglês tratará de criar, estou certo, desemprego entre os emigrantes para, a seguir, lhes retirar subsídios, retirada essa que levará a uma vida insustentável  e os conduzirá a  sem-abrigos . Ora,  encontrando-os nessa situação, as autoridades inglesas encarregar-se-ão de os prender e expulsar e  de regressarem ao país durante um período mais ou menos alargado de tempo. Mas quer fazer mais, o actual governo inglês; quer proibir os emigrantes, que chegam a Inglaterra com um contrato de trabalho, de usufruírem quaisquer direitos de acesso à Segurança Social inglesa nos primeiros dois anos que lá permanecerem. 

David Cameron, como é sabido, está com  dificuldades de relacionamento com o eleitorado britânico e é ainda apertado pela extrema direita de Nigel Farage, factos que lhe encolhem a estreita margem de confiança para as próximas eleições. Os designados eurocépticos também não lhe cedem espaço de manobra e pretendem que o parlamento inglês tenha poderes de veto sobre leis da UE  que atentem contra os interesses ingleses. Búlgaros, romenos e asiáticos, ao que parece, são  alvos preferenciais de Cameron e irão ter grandes dificuldades, mais do que a generalidade dos  trabalhadores comunitários, para entrarem no mercado de trabalho inglês. A grande contradição de tudo isto é que todos os estudos de especialistas ingleses comprovam que os emigrantes não são, em Inglaterra, um peso para os cofres da Segurança Social, bem pelo contrário,  são contribuintes largamente líquidos, mas Cameron  com  a sua política populista prefere não atender a isso no caminho da  estigmatização dos emigrantes, como acontece, aliás, já em alguns países do norte da europa.

 Como sabemos, Cameron  quer realizar, em 2017, um referendo que responda sobre a permanência ou saída da Inglaterra da União Europeia. A razão  prende-se com o facto de se entender, em Inglaterra, especialmente nos meios conservadores, que devem ser revistos os tratados da UE e devolvida a soberania perdida pelo país. Este é um braço de ferro entre o actual governo inglês e a comissão europeia.  Não sabemos como vai acabar, mas sabemos que tem todos os condimentos para não acabar bem, se atendermos ao facto de que, não pertencendo à zona euro, e neste caso ainda bem para os ingleses, a Inglaterra foi em boa parte deixada à margem  das grandes decisões sobre a europa que, como igualmente sabemos, abandonou há muito o sonho europeu  inicial transformando-se a UE numa organização semi-mafiosa onde o poder  financeiro é que decide da vida e da morte, da pobreza e da riqueza dos povos. Ora nesta balança de poderes perversos quem mais  perde são os povos, especialmente os do sul europeu, e quem mais ganha é a Alemanha e os grandes grupos financeiros e capitalistas que se movem nos corredores da UE e nos meandros da economia alemã. O problema é que a Inglaterra, que não quer estar do lado dos perdedores,  possui uma das maiores e mais influentes praças financeiras internacionais e os ingleses não estão dispostos a abrir mão desse privilégio para nada nem ninguém e muito menos para os poderes instituídos na UE à volta da zona euro que, como sabemos é, fundamentalmente, o braço armado dos interesses financeiros alemães.

É um pouco por tudo o que fica dito que a Inglaterra está a usar os emigrantes como arma de arremesso contra a UE, e ameaça ainda  com a revisão dos tratados europeus e com o referendo em 2017 para decidir, em definitivo, da saída ou não, do país da  UE.  Uma parte disto é bluff ,   outra parte  será  xenofobia e o que resta será verdade.

Não temos nada contra que os ingleses defendam os seus interesses enquanto país, gostaríamos até que o mesmo acontecesse por cá. Compreendemos igualmente a reivindicação da devolução de boa parte da soberania perdida e desejamos o mesmo para Portugal. O que nos causa repulsa é que Cameron utilize os emigrantes como arma de arremesso e a xenofobia como argumento político para conseguir os votos dos ultra-conservadores afim de poder ser reeleito no próximo acto eleitoral. O palco político europeu está destinado à realização de melodramas de segunda categoria e Cameron é um actor político menor, como aliás quase todos os que ocupam actualmente o poder em toda a europa, e é por isso que a  europa e o sonho europeu morreram e, neste momento, nada nem ninguém sabe ainda como é que tudo isto vai acabar para os europeus.

A extrema direita ganha poder e instala-se um pouco por todo o lado. Os valores negativos e nefastos contra os quais se ergueu a construção do sonho europeu no pós-primeira e segunda guerra mundiais voltam agora a bater-nos de novo à porta. A europa está  claramente cindida entre sul e norte. A Alemanha comanda e, ensina-nos a história, sempre que a Alemanha comandou ou quis comandar, as coisas acabaram mal. Há hoje, claramente, uma guerra intestina, dentro da UE, por poder e dinheiro. Uma guerra que se reparte entre dois grandes centros de influência: Berlim e Londres. Bruxelas, e Paris por agora,  não contam neste jogo, são meros actores secundários que se limitam a colocar-se  em bicos de pés para serem vistos. A França, como sabemos, só voltará à liça depois do flop chamado Hollande ter saído de cena e a direita, unida à extrema direita, ocupar de novo o poder em 2017, curiosamente a mesma data em que deverá ocorrer ( se ocorrer ) o referendo inglês que Cameron quer levar a efeito... 

Como vemos, não é fácil compreender e resolver a equação que serve de construção à matriz europeia actual, especialmente porque os dados da mesma se alteram constantemente, mas de uma coisa não tenho dúvidas: a europa, perdidos os seus valores cristãos e humanistas que foram sempre as suas grandes referências construtivas,  não sabe, neste momento, para onde vai, mas, continuando pelo actual caminho só poderá encontrar um abismo no fim. E nós, os povos que pouco ou nenhum peso têm para se fazerem ouvir, e que ainda por cima elegem, para os governarem,  partidos que mais não são do que centrais de empregos muito bem pagos e distribuição de dividendos financeiros e económicos pelos seus líderes e clientelas políticas, sim, nós os povos europeus que somos apanhados na trama implacável e mafiosa do ultra-liberalismo e da ganância imperial e económica de alguns países que nunca querem perder, pelos vistos não passamos de arma de arremesso. 

Deixo aqui em citação parte de um artigo publicado no Diário Económico por José Reis Santos intitulado Eunucos sem Pio. Mesmo enquadrando uma temática de fundo quanto à qual me posiciono do ponto de vista cristão   discordando forçosamente do autor do artigo no fundamental do mesmo e no que à essência da  família diz respeito,  o enquadramento do texto não deixa de retratar bem o que os povos europeus, em particular os do sul europeu, uns mais que outros, bem entendido são neste momento: Eunucos sem Pio.

No meu trabalho como historiador, investigando os anos 30, sou diariamente confrontado com a crescente hegemonia política e ideológica do fascismo no mapa político europeu e de como, paulatinamente, se processaram as transição para modelos autoritários de cariz totalitário e se desmantelaram, peça a peça, as instituições democrático-liberais construídas no pós-I Guerra Mundial.
Claro que bem longe da imaginação estava a barbárie do genocídio, mas era já bem patente que estes Estados autoritários promoveriam - a bem a Nação e da pacificação social - sociedades exclusivas e estanques, masculinas, e que utilizariam todos os métodos disponíveis, legais ou não, para forçar a construção de uma utopia fascista, um Homem Novo, xenófobo, racista, homófono e misógino por definição moral e ideológica. E assim, um após outro, se foram retirando direitos fundamentais a esta e a outras minorias, primeiro a socialistas e comunistas, depois a sindicalistas e judeus, homossexuais e deficientes, mulheres e negros. Contra esta sistematização legal poucos foram os que organizadamente se insurgiram, pois não se consideravam parte da minoria afectada.
Sabemos hoje o resultado desta desistência e estamos conscientes da capacidade de "entrismo" do fascismo nos edifícios institucionais das democracias (via eleições e governos) em momentos de crise, apoiados em promessas de pacificação social, desenvolvimento e revitalização económica, reapropriamento da soberania nacional e na incapacidade de actuação dos sistemas democráticos em momentos de conflitualidade social e insolvência económica. Aliás, já nos anos 30 alguns alertavam para este perigo e para a necessidade das democracias liberais construírem diques legais que impossibilitassem o acesso legal de tal ideologia ao poder; preocupações aliás muito visíveis na aliança entre sociais-democratas e democratas-cristãos no processo de construção europeia.[...]  

Jacinto Lourenço

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O Significado de 'Sucesso' no diccionário de "Coelhês"- Português...


Há  já uns dias que tenho andado para aqui às voltas com o significado da palavra 'sucesso'. É que, com o pessimismo que nos chega por intermédio da  líder do FMI, dos senhores da OCDE, do Parlamento Europeu e de mais umas quantas vozes avisadas e suficientemente credíveis, por esse mundo fora, quanto ao 'sucesso' do programa de ajustamento desenhado para Portugal e executado, com excesso de zelo, pelo (des)governo de Passos Coelho, fiquei confuso quanto às minhas certezas etimológicas sobre o tão cantado 'sucesso'  com que o nosso - salvo seja - (des)governo tem vindo, todos os dias, nos últimos tempos, a brindar-nos.

Eu, que não sou de me ficar quando tenho uma dúvida, tinha agora duas dúvidas e qualquer delas estava não só a criar-me confusão na cabeça como a  atormentar-me a vida. Vai daí abri dois ou três diccionários da língua portuguesa e, por via das dúvidas e à cautela, consultei a palavra 'sucesso'. Confesso que fiquei mais descansado, pelo menos linguisticamente falando. Sucesso, afinal, quer mesmo dizer aquilo que eu tinha a certeza querer dizer, em bom português, bem entendido: "êxito" / "bom resultado". Posto isto, achei por bem escrever uma carta registada ao primeiro-ministro do (des)governo que lidera  Portugal e recomendar-lhe que fosse aprender português já que a língua em que ele nos transmite os resultados da sua (des)governação não tem nada a ver com a língua portuguesa, mesmo que esta seja encarada na perspectiva do novo (des)acordo ortográfico. Como também não consigo descortinar que língua é que ele está a falar quando vem falar do 'sucesso' da sua  (des)governação, não sei que diccionário posso consultar para entender o significado que ele atribui às palavras na língua em que se nos dirige.

Não sou economista, e por isso tive que valer-me do trabalho que alguns deles têm publicado online e disponibilizado em alguns sites, nomeadamente nos dos jornais económicos e na Pordada, para ver se, com os números divulgados entre 2011 e 2012/13, conseguia descodificar o significado que o primeiro-ministro que nos (des)governa atribui à palavra que tanto lhe enche o peito ultimamente: 'sucesso'. Ora aí vai o significado da palavra 'sucesso' para Passos Coelho, visto e revisto desde 2011 - ano em que o seu (des)governo tomou posse:   o desemprego passou de 12,7% em 2011 para 16,5 % em 2012. O défice, que foi calculado em 2011 em 4,8%  passou em 2012 para 6,5 %. A dívida pública  aumentou de 106 % em 2011 para 130 % em 2013.  Quanto à emigração  foi desde 2011, e  até ao presente, incrementada em mais de 150.000 portugueses. A falência de empresas em Portugal registou um aumento exponencial entre 2011 e 2013  de mais  62% . O PIB per capita reduziu de € 16.208 em 2011  para € 15.702 . Todos estes valores são aferidos, maioritariamente, entre 2011 e 2012 uma vez que  não encontrei ainda números finais para 2013, o que se explica pelo facto de o ano económico não ter ainda  encerrado.

É bom que não esqueçamos igualmente o 'sucesso' que o ministro Crato está a alcançar com a educação destruindo a escola pública e sustentando os empórios das escolas privadas. Os patrões destas agradecem.  Para além de tudo isto,  temos  ainda que  somar  ao sucesso (des)governativo de Passos Coelho o alcançado com a destruição do estado social, para só ficar por aqui.

Sim, agora percebo a língua falada pelo primeiro-ministro do (des)governo de meliantes que tomou Portugal de assalto. Não, nem sequer é o 'economês', é antes uma língua que só ele e os seus apaniguados entendem, a que poderíamos talvez chamar 'coelhês', e na qual o significado da palavra 'sucesso' é igual  a 'destruição total e irreversível ', com muitos sinónimos do mesmo valor linguístico.  Se ainda há gente que não entendeu, ou não quer entender a verdadeira dimensão do 'sucesso' a que o país e os portugueses foram conduzidos, então arranjem  um diccionário de português-'coelhês'-português. Há, e já agora digam a Passos Coelho que mude as pilhas da calculadora pois os resultados obtidos não estão a dar certos  na vida de milhões de portugueses...

Jacinto Lourenço