terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A História também se Constrói...



O melhor que Portugal tem é o seu povo. O pior que o Portugal de hoje  tem é a apatia e o amorfismo do seu povo quando confrontado com a realidade e a necessidade de mudança e reacção face ao que o atinge. 

Há coisas significativas na análise básica do perfil das gerações que numa determinada baliza temporal enforma a identidade de um povo e a sua idiossincrasia. O povo que somos hoje, não tem a mesma marca identitária do povo que fomos ontem. As gerações cruzam-se, sucedem-se, interligam-se nos antípodas das suas vivências. São influenciadas por factores diversos, endógenos ou exógenos e, mais do que as semelhanças,  sublinham-lhe  as diferenças. Olhar para as gerações que conviveram há cem anos atrás, por exemplo,  neste pedaço geográfico do extremo ocidental da europa  e pretender compará-las com as gerações actuais só  redundará em erro grosseiro se não forem  salvaguardados  todos os necessários  distanciamentos.

Olhando para a história de Portugal, é fácil confirmar que as gerações contemporâneas se tornaram acomodadas e indolentes  face ao seu presente e mais ainda face ao seu futuro, que é também o de Portugal.

Somos herdeiros recentes de uma ditadura fascista que durou quase 48 anos e que marcou significativamente a nossa memória colectiva desde 1926. O Estado Novo decidia o que as pessoas podiam ou não fazer, onde podiam ou não estar e que futuro podia ser o de cada um certo e seguro de que isso  seria sempre diferente e determinante em função do local de nascimento e das condições sócio-económicas  em que cada família se movesse. Isto é: se alguém nascia em Trás-os-montes ou no alentejo profundo, o mais provável é que vivesse agarrado à terra e à agricultura pelo resto dos seus dias, e mesmo que se pretendesse mudar de vida, melhorar, sair do círculo vicioso da pobreza e sub-desenvolvimento sócio-económico, o estado tudo fazia para impedir que isso acontecesse implementando políticas migratórias restritivas querendo com isso mostrar e sublinhar o lugar que estava destinado a cada ser nascido português. Nas cidades, a dificuldade de acesso das classes pobres à educação não permitia facilmente a saída da  trama social  que o estado e as classes ricas iam  tecendo no sentido de dificultar a mobilidade ascensional dos mais desfavorecidos. Para as classes pobres, fazer a 4ª classe da instrução primária já era uma conquista, fosse na cidade ou no campo, e isso só mudou um pouco com o tímido desenvolvimento industrial das décadas de 1950/60 e com o aparecimento das escolas industriais e comercias para onde eram canalizados os filhos das classes operárias e rurais que podiam suportar o sacrifício de manter um filho a estudar até mais tarde. Universidade era coisa para gente rica e privilegiada ou que gravitava as esferas do poder nas suas diversas vertentes.

E foi assim até à madrugada de 25 de Abril de 1974.  A revolução não foi feita pelo povo, pese embora este  tivesse todas as razões para a fazer, mas pelos militares que estavam cansados de uma guerra colonial sem solução possível que não fosse a da auto-determinação dos territórios africanos ocupados. O povo assistiu, apoiou e saiu à rua a festejar o fim da ditadura. Desde então muita coisa mudou, mas não a vontade manifesta de um povo, acomodado, em  dizer basta à situação em que tem vindo  a ser colocado pelas políticas partidárias dos partidos do designado arco do poder e por um conjunto de políticos profissionais que nada mais fazem do que aplicar as medidas que o capitalismo internacional lhe exige. E estas, como é bom de ver, recaem basicamente sobre as classes médias e os trabalhadores em geral.
                
O povo vota e elege e, quando vota e elege, estabelece como que um pacto com os partidos políticos no sentido de estes aplicarem as medidas que prometeram ou, inversamente, de não aplicarem medidas lesivas dos interesses da nação. Facto é que assim que se instalam no poder, as políticas e os políticos vão em sentido oposto ao do pacto celebrado com o povo que neles votou. Ou seja: passam a governar em nome de outros interesses que não os de Portugal e dos portugueses. Ora nada mais que isto é o que (des)governo actual tem estado apostado em fazer agradando assim aos banqueiros alemães e aos fundos disto e daquilo que um dia, mais tarde, lhes darão emprego bem remunerado. Os portugueses deixaram de contar e pouco importa se lhes agrada ou não o que a (des)governação faz. Passos e Portas só têm olhos para os mercados... O povo português é apenas um acessório aborrecido no meio deste processo de submissão ao capitalismo selvagem.  Perante esta ilegalidade governativa e constitucional não tem o povo o direito de dizer basta, de se indignar, de fazer uma revolução ética e moral, de chamar  à responsabilidade efectiva quem já perdeu o direito legal e moral de o governar !!?                                                                                                                                        
A história de Portugal tem poucos registos que assinalem momentos em que o povo tenha decidido conduzir o seu próprio destino. Normalmente entregou essa responsabilidade a supostos "representantes"  que, na primeira oportunidade, traem todas as expectativas que criaram de uma governação virada para os verdadeiros interesses da nação. Andamos há quase quarenta anos neste círculo vicioso de, literalmente,  "entregar o ouro ao bandido", esperando sempre que alguém venha, providencialmente, qual D. Sebastião, resolver os nossos problemas. Depois, bem, depois lá estaremos para bater palmas ao cortejo da nobreza... Somos portugueses dum tempo geracional que, pelos vistos, é incapaz de enfrentar os seus próprios medos e desafios. E há sempre alguém, algum partido político, algum carreirista da política, dispostos a aproveitarem essa fragilidade inscrita nos nossos genes, essa incapacidade de não sermos capazes de estar à altura da história ancestral de Portugal. 

Todos os dias o (des)governo em Portugal elege, como  alvo preferencial das suas medidas, ditas de "ajustamento", o povo trabalhador, a classe média, os pensionistas, os funcionários públicos. Todos os dias há uma novidade que nos tira mais qualquer coisa, que nos faz regredir social e economicamente. Todos os dias sentimos que a injustiça é gritante por vermos a destruição de um país que queríamos construir e que construímos um pouco mais justo depois de 25 de Abril de 1974. Educação, saúde e direitos no trabalho são apenas três dos mais relevantes sectores onde Portugal se tornou  muito mais equitativo e até, em muitos casos, exemplar na europa,  e contra os quais o (des)governo actual em Portugal mais investe em destruição. A mando da Troica e por vontade própria, este (des)governo  ultra-liberal  acelera a sua sanha destruidora e procura fazer-nos regredir ao tempo do Estado Novo através de um veloz  empobrecimento das classes trabalhadoras e dos mais desfavorecidos bem como da delapidação do que resta do aparelho produtivo do país. As forças policiais voltaram a bater indiscriminada e despudoradamente, excepto neles próprios quando pisam os limites da lei, como se viu em S.Bento,  e os ministros a apoiar a sua acção. A  economia e o emprego, dizem-nos, estão a crescer: noticiam-se cento e vinte mil novos empregos esquecendo-se os cento e vinte mil portugueses que tiveram que sair do país para poderem trabalhar... Não sendo economistas sabemos no entanto que quando não se pode afundar mais, só há um caminho: para cima. Mas Passos e Portas insistem em dizer que crescemos sem contabilizarem o que entretanto havíamos decrescido...  A  governação, de democrática,  já nem o formalismo  possui.  O (des)governo engana, mente, destrói, (des)governa, omite e comporta-se como autêntico "sniper" a quem é difícil fugir; quando damos conta, estamos abatidos... O presidente da república, aprova, hipócrita e cinicamente este estilo de governação de vão de escada; ficará para a história, de certeza, como um dos piores presidentes da república portuguesa em democracia formal. A europa, necessitada, como de pão para a boca,  de um "caso de sucesso", manda os seus paladinos apregoar que Portugal é o "sucesso" que foi produzido pelas políticas criminosas de Merkel, Barroso e apaniguados da banca e finança internacional; pelo caminho premeiam Gaspar e Arnaut  pelos bons serviços que prestaram à alta finança... Outros receberão os seus respectivos prémios. Por muito menos do que isto foi Miguel de Vasconcelos defenestrado...

Na década de 60 do século passado, os trabalhadores do alentejo, jornaleiros e assalariados, explorados e agredidos, física e psicologicamente, pelos grandes latifundiários, com a cobertura, não necessariamente tácita, do governo de então e das designadas "forças da ordem",  levantaram-se em luta pelo fim da cruel jornada laboral de sol a sol e pela fixação das oito horas de trabalho diário. Foram barbaramente perseguidos, espancados, torturados e alguns mortos pelas forças policiais ao serviço  de um governo que nunca teve legitimidade para o ser. Resistiram estoicamente, sózinhos, de forma razoavelmente pacífica, mas não passiva. Alcançaram os seus objectivos.

Depois da liberdade de Abril e pela primeira vez, na história dos últimos 40 anos ditos de democracia, um governo em Portugal faz tábua rasa de uma conquista que resultou da força e do querer, da luta e do sacrifício de um povo  pelo direito e pela  justiça. Significativo e elucidativo.

Ao contrário de gerações anteriores, há hoje uma geração de portugueses, que prefere a apatia e o amorfismo, e que, porventura, acha normal que continuem a rir-se de Portugal e dos portugueses que após 40 anos  de democracia continuam a aspirar a  um país mais justo, social, material, ética e moralmente.

Olhamos para a Islândia e vimos como os islandeses lidaram com políticos corruptos, iguais aos de cá, e de como, apesar de serem apenas cerca de três milhões e de não terem grandes recursos nem uma  história comparável à portuguesa, se ergueram em vontade e união para dizerem que em sua casa eram eles que mandavam e não a alta finança, a europa ou o FMI. 

Cada povo é responsável pela sua história e em todos os momentos essa história exige que a saibamos construir e estar  à altura dos que nos antecederam e de sermos referência para os que nos sucederem. É isso pesa sobre cada português de hoje. À mesa do café as discussões podem ser muito interessantes, mas não é lá que se conquista o presente e muito menos o futuro de um povo. Infelizmente, e até prova em contrário, as actuais gerações de portugueses acham que sim...

Jacinto Lourenço

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A minha avó Gertrudes - Uma Dádiva de Amor


Hoje é o dia dos avós, bom, pelo menos da minha avó Gertrudes que, se ainda vivesse, teria completado 106 anos. Bem sei que é uma idade a que muito pouca gente pode aspirar a chegar, mas a minha avó Gertrudes partiu cedo demais, aos 63 anos, quando ainda me fazia muita falta.

Poucos têm o privilégio de ter tido uma avó que foi muito além dessa condição. A minha foi avó e mãe. Ou talvez seja melhor dizer ao contrário: ela foi mãe e avó. Condição ambivalente que só um caldo de amor e sofrimento pode determinar. E foi nessa condição que me amou muito além do amor que se espera de quem é apenas mãe, rodeando-me de um amor incondicional e de um cuidado extremo. Passámos por muita coisa juntos. Muito lhe exigiram por mim. Não se negou a nada. Fui um menino mimado, feliz, sob o seu olhar protector, cuidado e educado com o melhor que a minha avó Gertrudes, no seu corpo franzino,  tinha dentro do seu enorme coração, e era muito, e era tudo. Não me lembro de uma única vez me ter sequer  ameaçado  com um açoite, que tantas vezes mereci, seguramente. Mas lembro-me de sempre me ter protegido e afagado. Sinto que a desiludi algumas vezes nos escassos 17 anos que com ela vivi e convivi, mas não me lembro de alguma vez ela me ter desiludido. Uma grande parte daquilo que sou e como sou, o melhor de mim, devo à minha avó Gertrudes.

Esposa, mãe de família, dona de casa, mãe-avó extremosa, cuidadora e cuidadosa, sofredora também. Por muito que eu saiba que dificilmente poderia estar ainda comigo, agora, jamais deixarei de sentir, pesadamente, a sua ausência. 

Num momento em que a sociedade, por força de circunstâncias infelizmente conhecidas, redescobre o papel dos avós, eu não posso deixar de assinalar aqui, o quanto a minha avó foi importante na minha vida.


Jacinto Lourenço

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Eusébio, o meu cromo mais Difícil da caderneta


Mantive, da minha infância, adolescência e juventude referências fortes que me acompanham até hoje.  Ser benfiquista, desde que me conheço como gente, é uma delas.  Fiz-me benfiquista sem que ninguém me obrigasse a tal ou me sugerisse isso, sem que ninguém me tivesse levado aos estádios a ver jogar o Benfica. Jogos de futebol transmitidos na televisão, na minha infância, só os da Selecção Nacional ou os do Benfica quando levava de vencida os gigantes europeus dos idos de 60. De resto, aos domingos, o que havia eram os relatos na rádio que me deixavam suspenso da arte dos relatadores ou de como gritavam os golos do meu Benfica, sim, porque nessa altura não se perguntava se o Benfica ia ganhar ou não mas por quantos golos ia ganhar.

Sou do tempo dos cromos da bola comprados, enrolados em rebuçados  a dois por um tostão, na barbearia dos Lopes e colados na caderneta com uma pasta feita de farinha com água. Dessa fabulosa equipa do Benfica que ganhou duas taças dos Campeões Europeus, no início dos anos sessenta, haviam dois ou três cromos  muito difíceis  de sair ou trocar mas, de entre estes,  um era mais difícil que os outros, era o cromo do Eusébio.

Em criança cresci a sonhar com o Benfica e com o Eusébio. Nos jogos de bola,  no recreio da escola, todos queriam ser o Eusébio, mas eu não porque não tinha habilidade para ir além da baliza ou da defesa, por isso queria ser sempre o Costa Pereira, o Cruz ou o Germano. Podia ser outro qualquer pois o Benfica era enorme nos meus tempos de menino e os seus jogadores, todos eles,  deuses da bola no meu imaginário infantil . Eusébio era um caso à parte: era  o maior de todos no Olimpo da bola.

Partiu hoje, na sua última jornada triunfal, aquele, porventura único, que fez sorrir um povo triste e acabrunhado, antes de Abril de 1974. Eusébio era um país inteiro chamado Portugal quando entrava em campo, fosse para jogar pelo Benfica fosse pela Selecção Nacional.



Nenhum outro jogador de futebol me fez verter uma lágrima que fosse como Eusébio fez. E fez-me chorar várias vezes quando perdia e quando ganhava. Lembro-me bem de como chorei, com os meus 12 anos de idade, ao ver Eusébio chorar enquanto saía de campo depois da Selecção Nacional ter sido eliminada pela Inglaterra no Mundial de Futebol de 1966. Hoje, enquanto via as imagens do cortejo fúnebre de Eusébio, chorei de novo, de alegria e de tristeza. Alegria pelo que me deu ao longo da vida. Tristeza por ver partir um dos homens que mais fez sorrir Portugal na sua história recente. Eusébio podia ter sido outra coisa qualquer na vida, mas não, foi futebolista, e nada que ele pudesse ter sido em vida, estou certo, poderia ter  deixado uma marca tão profunda e tão transversal no espírito  dos portugueses.
Num misto de felicidade e tristeza, resta-me a memória perene de ter visto jogar Eusébio, ao vivo, no antigo estádio da Luz e de aí ter vibrado e sorrido com os seus golos mesmo quando a sua  sua carreira de futebolista já dava sinais de declínio. Obrigado Eusébio. 

Jacinto Lourenço

sábado, 4 de janeiro de 2014

A Vida segundo Séneca




"...Que diferença faz sair de um sítio de onde temos mesmo de  sair ? Não nos devemos preocupar em viver muito, mas sim em viver plenamente; viver muito depende do destino, viver plenamente, da nossa própria alma. Uma vida plena é longa quanto basta; e será plena se a alma se apropria do bem que lhe é próprio e se apenas a si se reconhece poder sobre si mesma. Que interessam os oitenta anos "daquele homem" passados na inacção ? Ele não viveu, demorou-se nesta vida; não morreu tarde, levou foi muito tempo a morrer!  "Viveu oitenta anos". O que importa é ver a partir de que data ele começou a morrer. "Mas aquele outro morreu na força da vida". É certo, mas cumpriu os deveres de um bom cidadão, de um bom amigo, de um bom filho, sem descurar o mínimo pormenor; embora o seu tempo de vida ficasse incompleto, a sua vida atingiu a plenitude. "Viveu oitenta anos ?". Não, existiu durante oitenta anos, a menos que digas que ele viveu no mesmo sentido em que falas na vida das árvores. Peço-te insistentemente, Lucílio: façamos com que a nossa vida, à semelhança dos materiais preciosos, valha pouco pelo espaço que ocupa, e muito pelo peso que tem. Avaliemo-la pelos nossos actos, não pelo tempo que dura. Queres saber qual a diferença entre um homem enérgico, que despreza a fortuna, cumpre todos os deveres inerentes à vida humana e assim se alça ao seu supremo bem, e um outro por quem simplesmente passaram numerosos anos ?  O primeiro continua a existir depois da morte, o outro já estava morto antes de morrer ! Louvemos, portanto, e incluamos entre os afortunados o homem que soube usar com proveito o tempo, mesmo exíguo, que viveu. Contemplou a verdadeira luz; não foi um como tantos outros; não só viveu, como o fez com vigor. Umas vezes gozou de um céu inteiramente sereno; outras, conforme sucede, o fulgor do astro poderoso brilhou através das nuvens. [...]


Lucílio Aneu Séneca - Cartas a Lucílio, livro XV, carta 93 - Edição:  Fundação Calouste Gulbenkian, 2009 

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Sejam Felizes


Não tenho nenhuma expectativa especial pelos dias, semanas, meses ou anos que  que ainda não vivi. Não atribuo nenhuma relevância particular à passagem de ano. Olho para a bíblia e leio o que Jesus disse: "Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã trará as suas próprias preocupações. Basta a cada dia o seu próprio mal."  No entanto, procuro, como todos, ser feliz, ter saúde, paz, tranquilidade e amor na medida em que isso é um desiderato pessoal, familiar, humano, e  inclui-se no projecto de Deus para nós. A expectativa que tenho para a vida concretiza-se todos os dias, a cada momento, na confiança que deposito em Deus e Ele em mim. Essa confiança biunívoca  sintetizo-a e consolido-a na bíblia quando esta afirma que os olhos de Deus estão continuamente postos na terra que piso, desde o princípio até ao fim do ano.  Deus é zeloso de mim e do meu caminho, dos meus passos, do meu chão, no presente e no futuro. Estou tranquilo quanto ao ano que vem, traga ele o que trouxer Deus estará na minha vida como esteio inabalável. 
Por isso, meus amigos, como dizia  Raul Solnado, "façam favor de ser felizes", a cada momento, não esquecendo que a vida é muito mais do que ruído, champanhe e foguetes. 

Jacinto Lourenço

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Tempo para Lembrar




É tempo para tudo menos para esquecer. Estamos nas vésperas do centenário do início da Segunda Guerra Europeia dos Trinta Anos (1914-1945). Em 1914, a Europa sucumbiu a uma crise sistémica da "balança do poder". Os chefes de Estado e de governo não foram capazes de pensar a totalidade dos problemas e dimensões em jogo. Quer na perspectiva das causas, quer sobretudo no plano das consequências. A guerra começou porque a realidade viva foi partida em bocadinhos, e as decisões foram tomadas como se o todo não fosse, sempre, maior do que a soma das partes.[...]

Viariato Soromenho Marques

Fonte: Diário de Notícias online

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Natal na Poesia de Bocage



Se considero o triste abatimento

Em que me faz jazer minha desgraça,

A desesperação me despedaça,

No mesmo instante, o frágil sofrimento.

Mas súbito me diz o pensamento,

Para aplacar-me a dor que me traspassa,

Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,

Teve num vil presepe o nascimento.

Vejo na palha o Redentor chorando,

Ao lado a Mãe, prostrados os pastores,

A milagrosa estrela os reis guiando.

Vejo-O morrer depois, ó pecadores,

Por nós, e fecho os olhos, adorando

Os castigos do Céu como favores.




Manuel Maria Barbosa du Bocage

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Graça Absoluta




Deus ama-nos não por aquilo que somos ou que fizemos, mas por aquilo que Deus é. A graça flui para todos aqueles que a aceitam. Jesus perdoou uma adúltera, um ladrão na cruz, um discípulo que o negou, mesmo conhecendo-o. A graça é absoluta e abrange todas as coisas. Ela estende-se inclusive para as pessoas que pregaram Jesus na cruz: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" está entre as últimas palavras que Ele disse aqui na terra (Lucas 23:34).

Philip Yancey,  in  Alma sobrevivente,  ed. Mundo Cristão, Pg. 152

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Interpelar os Sinais do Tempo.


O livro de Actos dos Apóstolos narra, no capítulo oito, a história de um homem etíope que, regressando ao seu país, após peregrinação a Jerusalém, lia o profeta Isaías. Filipe, o apóstolo, que de perto observava, recebeu um“toque” do Espírito Santo, que lhe disse: “chega-te e junta-te a esse carro”.                                                                                                                                                                                   

Estava eu a pensar no recado que Filipe recebeu naquele momento e achei curioso o facto de que o Espírito Santo não lhe tivesse dito o que fazer, disse-lhe apenas: "chega-te a junta-te..." . Mas parece que Filipe, porém, sabia exactamente o que fazer e dizer : entendes tu o que lês ? ” . Foi a sua pergunta ao etíope. 'Leio mas não entendo. Ninguém se prontificou para se juntar a mim, para me explicar, para me mostrar qual o caminho a seguir ou mesmo, como interpretar os sinais que leio ?! ' . Este será porventura o entrelinhado da resposta do etíope a Filipe.

Na breve reflexão pessoal que fiz sobre esta pequena história lida nos  evangelhos, concluí que, como  cristão, não me chega ler, ouvir ou interpretar. Tenho que guardar aquilo que a Palavra de Deus me ensina. Não posso ser apenas observador do tempo que outros deixam correr sem interpelar a significação dos sinais que deixa. Não devo apenas celebrar a sua passagem 'assobiando para o lado'  fingindo que tudo o resto que me rodeia não me diz respeito. No meu caso, como cristão, viver este tempo implica estar preparado para aplicar, como Filipe, no momento oportuno, aquilo que recebi. Estar atento ao que o Espírito Santo me diz, sem fazer 'orelhas moucas' à voz de Deus. 'Juntar-me' aos homens e mulheres do meu tempo, do tempo corrente, ouvindo e partilhando as suas dúvidas, os seus problemas, as suas dificuldades, as suas angústias.  Ajudando, com o que estiver em mim, a superar tudo isso, superando-me a mim próprio, indo além de mim próprio. Ser actor nos acontecimentos,  mais do que espectador dos factos. 

Preciso 'chegar-me' aos que lendo não entendem e aos que ouvindo não percebem, ou não querem perceber. E não preciso que o Espírito Santo me esteja sempre a dizer, a cada momento, o que devo fazer ou dizer; desde que Ele habite em mim, serei sensível aos seus desejos e aos seus propósitos. Basta-me um 'toque' seu para que eu saiba o que devo fazer. Ou, como diz Pedro, na sua primeira epístola: ”… estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” ( l Pedro 3:15).

Jacinto Lourenço

Jacinto Lourenço

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O Significado de 'Sucesso' no diccionário de "Coelhês"- Português...


Há  já uns dias que tenho andado para aqui às voltas com o significado da palavra 'sucesso'. É que, com o pessimismo que nos chega por intermédio da  líder do FMI, dos senhores da OCDE, do Parlamento Europeu e de mais umas quantas vozes avisadas e suficientemente credíveis, por esse mundo fora, quanto ao 'sucesso' do programa de ajustamento desenhado para Portugal e executado, com excesso de zelo, pelo (des)governo de Passos Coelho, fiquei confuso quanto às minhas certezas etimológicas sobre o tão cantado 'sucesso'  com que o nosso - salvo seja - (des)governo tem vindo, todos os dias, nos últimos tempos, a brindar-nos.

Eu, que não sou de me ficar quando tenho uma dúvida, tinha agora duas dúvidas e qualquer delas estava não só a criar-me confusão na cabeça como a  atormentar-me a vida. Vai daí abri dois ou três diccionários da língua portuguesa e, por via das dúvidas e à cautela, consultei a palavra 'sucesso'. Confesso que fiquei mais descansado, pelo menos linguisticamente falando. Sucesso, afinal, quer mesmo dizer aquilo que eu tinha a certeza querer dizer, em bom português, bem entendido: "êxito" / "bom resultado". Posto isto, achei por bem escrever uma carta registada ao primeiro-ministro do (des)governo que lidera  Portugal e recomendar-lhe que fosse aprender português já que a língua em que ele nos transmite os resultados da sua (des)governação não tem nada a ver com a língua portuguesa, mesmo que esta seja encarada na perspectiva do novo (des)acordo ortográfico. Como também não consigo descortinar que língua é que ele está a falar quando vem falar do 'sucesso' da sua  (des)governação, não sei que diccionário posso consultar para entender o significado que ele atribui às palavras na língua em que se nos dirige.

Não sou economista, e por isso tive que valer-me do trabalho que alguns deles têm publicado online e disponibilizado em alguns sites, nomeadamente nos dos jornais económicos e na Pordada, para ver se, com os números divulgados entre 2011 e 2012/13, conseguia descodificar o significado que o primeiro-ministro que nos (des)governa atribui à palavra que tanto lhe enche o peito ultimamente: 'sucesso'. Ora aí vai o significado da palavra 'sucesso' para Passos Coelho, visto e revisto desde 2011 - ano em que o seu (des)governo tomou posse:   o desemprego passou de 12,7% em 2011 para 16,5 % em 2012. O défice, que foi calculado em 2011 em 4,8%  passou em 2012 para 6,5 %. A dívida pública  aumentou de 106 % em 2011 para 130 % em 2013.  Quanto à emigração  foi desde 2011, e  até ao presente, incrementada em mais de 150.000 portugueses. A falência de empresas em Portugal registou um aumento exponencial entre 2011 e 2013  de mais  62% . O PIB per capita reduziu de € 16.208 em 2011  para € 15.702 . Todos estes valores são aferidos, maioritariamente, entre 2011 e 2012 uma vez que  não encontrei ainda números finais para 2013, o que se explica pelo facto de o ano económico não ter ainda  encerrado.

É bom que não esqueçamos igualmente o 'sucesso' que o ministro Crato está a alcançar com a educação destruindo a escola pública e sustentando os empórios das escolas privadas. Os patrões destas agradecem.  Para além de tudo isto,  temos  ainda que  somar  ao sucesso (des)governativo de Passos Coelho o alcançado com a destruição do estado social, para só ficar por aqui.

Sim, agora percebo a língua falada pelo primeiro-ministro do (des)governo de meliantes que tomou Portugal de assalto. Não, nem sequer é o 'economês', é antes uma língua que só ele e os seus apaniguados entendem, a que poderíamos talvez chamar 'coelhês', e na qual o significado da palavra 'sucesso' é igual  a 'destruição total e irreversível ', com muitos sinónimos do mesmo valor linguístico.  Se ainda há gente que não entendeu, ou não quer entender a verdadeira dimensão do 'sucesso' a que o país e os portugueses foram conduzidos, então arranjem  um diccionário de português-'coelhês'-português. Há, e já agora digam a Passos Coelho que mude as pilhas da calculadora pois os resultados obtidos não estão a dar certos  na vida de milhões de portugueses...

Jacinto Lourenço