quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Já Não Tenho Paciência...


Tenho andado a pensar que começo a acumular um défice de paciência para muitas coisas, sendo que  outras já me passam completamente ao lado.
Não tenho paciência, por exemplo, para discussões inúteis no Facebook, especialmente as   que têm em vista, por parte de quem muitas vezes as alimenta, a  marcação de território, ostentação de opiniões absolutistas,  ou exibicão de narcisismos  pseudo-culturais com pouca saída em foruns de  mais avisada assistência. Recuso liminarmente os púlpitos virtuais que se erguem nesta rede social  onde pregadores ocasionais proclamam, em 'deriva profética',  um evangelho de consumo imediato, pessoal ou utilitário ou, por outro lado, um cristianismo simplista de trazer por casa. 

Tenho, como sempre tive, e só isso me levou a "aderir", uma visão puramente hedonista do FB, ou melhor: o FB é um dos meus lugares de "veraneio"  na rede e nada mais, onde convivo com os amigos descontraidamente. Que me perdoem os puristas da coisa ou os que possam ter outra visão mais "séria" do assunto que eu sinceramente nunca consegui, nem quero, atingir.

Também já não tenho paciência para um certo  'imperialismo militante', de muitos sectores ditos cristãos, fundamentalistas  religiosos, donos de toda a verdade e revelação. Jesus disse que Ele era a Verdade e é essa Verdade que eu defendo 'com unhas e dentes' por ser a Única Verdade. Esse é o evangelho que leio e que guia a minha vida. De resto, o respeito que tenho por qualquer cristão que, como eu, leia apenas e siga  esse evangelho,  é infinitamente  maior do que o que tenho por  qualquer exegeta, doutor da lei, apóstolo ( destes modernos que circulam por aí agora ) ou pregador, mesmo que possa ser muito relevante o seu papel numa qualquer igreja.
Já não tinha nenhum respeito nem paciência  para cristãos, pastores, evangelistas, ministros, que acham que por o serem,  a sua fé não pode ser confrontada,  ou que  estão acima de qualquer questionamento. Jesus nunca fugiu aos debates, aos diálogos com aqueles que o questionavam sobre a Salvação e até acerca da sua própria condição humana-divina, mas fartou-se algumas vezes dos fariseus e dos seus discursos rasteiros.  Paulo não desprezava os confrontos que esclarecessem as posições e o alcance da fé cristã mas não os trocou por por um cristianismo de segunda.  Mais modernamente Lutero ou todos os outros reformadores tiveram que se questionar igualmente sobre as "verdades" absolutas da fé que os tinha formatado tendo a sua vida sido um constante corrigir de percurso e erros, muito deles, infelizmente graves e irremediáveis. Há muito de farisaísmo numa fé que se refugia na fuga ao debate, ao diálogo, que acha que não se deve deixar questionar por quem dela duvida. Gente com uma fé assim anda sempre carregada de pedras nos bolsos, vive num círculo fechado, é habitada por um  'Trento' protestante.

Já se me esgotou a paciência, há muito, para igrejas que se escondem em lugar de se exporem mostrando que também são feitas da mesma 'massa humana' que toda a gente que não é igreja. Igrejas que necessitam de redenção!  Já não tenho pachorra para tolerar  'superioridades' espirituais que mais parecem apontar para  regimes de castas sublinhadas por particularismos pontuais que marcaram a vida da igreja de todos os tempos. Sou cristão-pentecostal, sim, mas  não tenho isso como fundamental ou como matriz diferenciadora da minha fé ou do meu comportamento cristão. Não julgo que haja qualquer virtude cristã especial em ser pentecostal, em ser batista, presbiteriano, etc. Somos todos, se efectivamente somos, um em Cristo, nada mais. Não faço  leituras ou exegeses abusivas da Bíblia Sagrada que tenham em vista aprisionar onde o evangelho libertou.

Noutro domínio, já não tenho paciência para governos de suposta esquerda, de centro direita e menos ainda de direita. Cansam-me as causas fracturantes da esquerda e os populismos da direita; a vacuidade das falsas   ideologias que nos faz andar em círculos subindo na escala da babel dos ódios de estimação. Prefiro causas sociais,  pessoas reais, trabalhadores, empresários e sindicalistas sérios, que não vêm o capital como o fim último dos seus interesses ou dos seus combates, mas as pessoas, o povo, a nação, como fim último do seu trabalho .  Entre os valores do trabalho e de quem trabalha em qualquer sector da vida, e os do capitalismo selvagem que nos devora, nem preciso escolher. Sei de onde vim, quem sou e para onde vou e não vou com quem me devora.

Chateia-me Olivença e os seus 'amigos portugueses' em romaria anual a lembrar aos espanhóis que lá vivem que aquilo já foi português. A guerra de fronteiras encerrou-se há muito na península ibérica e os "fantasmas", como é sabido, não gostam de Espanha; preferem os ares mais taciturnos deste lado da fronteira onde os touros nunca andam em pontas e a investida é sempre mais dócil porque nada se arrisca. Para além do mais, Olivença nem quer ser portuguesa!

Perdi a paciência com um país de penacho onde as pessoas se tratam por doutores e engenheiros como se título académico fosse nome próprio ou apelido de pai ou mãe. Agasta-me de morte  ver uma justiça onde muitos  juízes prendem  polícias e soltam  ladrões. É bem provável que tenham cabulado no exame de acesso à profissão...

Não dá mais para suportar o eterno desprezo a que é votada a cultura em Portugal. Menos paciência tenho  ainda para tolerar uma cultura-de-faz-de-conta-que-é-mas-não-é  promovida por quem não sabe nem quer respeitar um país, um povo e uma cultura  que se souberam  afirmar contra ventos e tempestades e onde falta, há muito,  uma nova geração de Avis que recoloque Portugal no lugar que é seu no concerto das nações. Enquanto isso não acontecer, estou sem paciência para este país e para este povo que teima em escolher para o governar  as máfias que se acoitam nos partidos. 

Jacinto Lourenço

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A Rádio é Uma Coisa Diferente, e Hoje é o Dia Mundial da Rádio




Indiscutivelmente, a Rádio marcou a minha geração. Na Rádio ouviam-se os relatos da bola ao domingo à tarde ( sim, os jogos realizavam-se todos, e sempre, ao domingo à tarde... ). Para os mais velhos, e mais politizados, era também a Rádio que trazia as notícias que não passavam no crivo da censura em Portugal. Nas ondas curtas sintonizavam-se a Rádio-Moscovo e a Rádio-Portugal  Livre. Foi assim que se ficou a conhecer no país  a realidade da crise estudantil  da década de 60 e também  o que realmente estava a acontecer nas colónias quando aí estalou a guerra.         Era tudo escutado muito em surdina, tudo muito baixinho, que as paredes, nesse tempo, tinham mesmo ouvidos e muitas pessoas foram delatadas à GNR local, por vizinhos ou 'amigos' apenas por ouvirem esses programas e, claro, sujeitos posteriormente ao respectivo interrogatório no Posto acompanhado  pelos  'afagos' dos guardas... Portugal, queiramos ou não, foi sempre, mais do que se pensa  ou diz, um país de 'bufos' .

Na Rádio passavam alguns programas que ninguém perdia e que marcaram gerações: o Serão para Trabalhadores, da FNAT ( actual Inatel ), os Parodiantes de Lisboa, o Quando o Telefone Toca, os Discos Pedidos ou a primeira rádio-novela em Portugal: "Simplesmente Maria", que deu brado. Foi pela Rádio que soubémos, ao momento, que Salazar tinha caído da cadeira. Foi também a Rádio que nos trouxe até casa essa notícia alegre e libertadora de que o 25 de Abril, estava na rua.

Em minha casa, a casa dos meus avós, nunca houve televisão, até porque a energia eléctrica só chegou à povoação no final da década de 60 e a televisão, alimentada a gerador, era um 'luxo'  algo recente a que poucos particulares podiam ainda aceder,  mas houve, tanto quanto me lembro, quase sempre,  uma telefonia que era o centro de todas as nossas atenções. Era ela   a ligação ao pequenino mundo português que se fechava sobre si próprio nas fronteiras com Espanha.  A Rádio era assim como que uma evasão espiritual e mental para quem habitava um país que uma ditadura teimava em manter como ilha de criminoso subdesenvolvimento e atraso cultural e civilizacional. Era, dentro do Estado Novo, o único meio de comunicação que possibilitava uma pequena amostra de democracia. As Ondas-Curtas traziam aos portugueses um mundo novo e diferente que nenhum ditador ou polícia política conseguiam esconder ou prender.  E talvez por tudo isto me tornei um indefectível ouvinte de rádio. Ainda hoje, em qualquer divisão da casa onde eu esteja, salvo alguma ocupação que o não permita,  há sempre um rádio ligado para eu ouvir, como é o caso agora mesmo, enquanto escrevo.  Gosto de  estações de Rádio com gente dentro. Já as Rádios temáticas, que só passam música durante horas a fio, não me dizem muito, salvo uma ou outra honrosa excepção.  Bem sei que poupam em recursos humanos... Mas se é  para ouvir apenas música, então  tenho outros suportes mais modernos. Rádio é uma coisa diferente.

 Gosto de uma Rádio atenta a tudo o que se passa à nossa volta, uma Rádio que me traga o mundo sem me ocupar a visão com imagens de arquivo que nos adormecem ao cabo de alguns minutos de 'bombardeio' noticioso. Gosto de uma rádio que não faça das notícias um repetitivo 'enchimento de chouriços'. Uma rádio que diz o que tem a dizer sem grandes delongas ou 'floreados'  bacocos.  Gosto de rádio com cultura, com entretenimento inteligente, com uma boa selecção musical, com diversidade de rubricas, actuais e interessantes, e pluralidade de programação que chegue aos vários  estratos da população. Depois é só escolher  o que mais me me agrada.  Outras vezes ouço rádio sem estar a ouvir, apenas por companhia. Não gosto da solidão pela solidão. Nunca gostei de estudar em silêncio. Isolo-me mais facilmente,  para ler ou estudar,  num ambiente ruidoso do que numa sala onde esteja sozinho.

Quando o meu despertador toca, pela manhã, a primeira coisa que faço é ligar um pequeno rádio que tenho na cabeceira e ouvir o que se passou no mundo enquanto eu dormia; a situação do trânsito, o tempo que vai fazer, etc.  É raro, mas às vezes tenho insónias; então ligo o rádio e ponho uns auriculares. Ao fim de algum tempo 'desligo-me' sem dar por isso e os auriculares  saltam-me das orelhas e vão à sua vida. 

A Rádio acabou por marcar um pouco do que eu sou como pessoa, pelas melhores razões. Fui também radialista  durante cerca de 17 anos e, tudo somado, dá como resultado que, sem Rádio por perto, a minha vida seria sem dúvida um pouco mais insonsa. 

Felizmente que em Portugal se faz muito boa e variada rádio. Obrigado a todos os que a produzem, realizam e trazem até nós, os ouvintes.

Jacinto Lourenço  

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Expulsão dos Judeus em Espanha - 1492




A decisão [recente] do governo [espanhol] de modificar o código civil  e conceder a nacionalidade espanhola aos descendentes dos judeus, que foram expulsos de Espanha em 1492, despertou um extraordinário interesse entre os cidadãos do estado de Israel. O facto não é estranho se pensarmos que as famílias de  judeus sefarditas conservaram a sua língua  e também as chaves das suas casas de onde foram expulsos.

Desde o tempo dos godos que os judeus foram perseguidos com maior ou menor intensidade conforme o momento e o lugar.  Foram acusados de serem portadores da peste, de crucificarem crianças na sexta-feira santa; proibiu-se-lhes a prática de determinadas profissões, foram obrigados a viver em guetos e, levando ao extremo a sua perseguição, tinham ainda que  exibir  uma marca distintiva no vestuário.   Toda esta voragem de humilhações e aberrações culminou com o decreto da sua expulsão de Espanha assinado em 31 de Março de 1492 pelos reis católicos com base num texto  do inquisidor geral  Tomás de Torquemada. Segundo este decreto, os judeus que não se convertessem deviam abandonar Sefarad (nome pelo qual era conhecida a Península Ibérica entre os judeus). Cerca de 100.000 judeus abandonaram então as suas casas e o seu país ( Espanha). Tiveram que vender os seus pertences à pressa e ao desbarato e pagar o frete dos barcos que os transportaram. Muitos exilaram-se em Navarra ( reino tido como independente ), em países dos balcãs, no norte de áfrica ou no império otomano [muitos outros refugiaram-se igualmente em Portugal onde, apesar de tudo, a monarquia era um pouco mais branda com os judeus].
Há contudo dois detalhes que são demonstrativos do seu apego por Espanha, que era também a sua terra.  Mantiveram viva entre si  a língua  sefardí, ou ladino [...], nos territórios para onde se dirigiram e onde se estabeleceram de novo. E, mais surpreedente ainda, conservaram as chaves das suas casas que tiveram que abandonar em Espanha. Mesmo hoje, muitas famílias guardam ainda as chaves dessas casas sendo as mulheres encarregadas de as passar de geração em geração.

Javier Sanz in Histórias de la História
( traduzido do Castelhano por Jacinto Lourenço )

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Uma Migalha de Sorte...



A   história de Portugal tem, apesar de tudo,  alguns  poucos registos que assinalam momentos em que o povo decidiu conduzir o seu próprio destino, de resto, o que é mais comum  é  deixarmo-nos embalar pelas cantigas  de uns quantos que traem, sistematicamente,  os verdadeiros interesses da nação portuguesa. Andamos há já quase quarenta  anos neste círculo vicioso isto, claro, se não contarmos com os dezasseis anos da Primeira República mais os quarenta e oito da ditadura e do Estado Novo  e, literalmente, passámos todo este tempo a "entregar o ouro ao bandido"  esperando sempre que alguém venha, providencialmente, qual D. Sebastião, resolver os nossos problemas.

 A verdade é que, no pós 25 de Abril de 1974  nunca deixámos de entregar o nosso presente e o futuro nas mãos dos  cleptocratas do costume e depois ainda  lá estamos para lhes bater palmas  na sua marcha triunfal esperando sempre  que algum deles  nos atire uma migalha de sorte. O problema é que o futuro dos povos não se contrói  à  sorte.                                                                  
Chegámos tarde à democracia e não conseguimos ainda decifrar muito bem os reais interesses dos que se acoitam nas quintas partidárias. Esses sim aprendem depressa os códigos da sobrevivência e fazem juz ao apodo  de chicos espertos  e à proverbial  fama de desenrascanço que normalmente o português se atribui a si próprio.  Deixamo-nos enganar ou damos espaço para que nos enganem. Somos enrolados em marés de promessas eleitorais e discursos acalorados que nos falam ao imediatismo do momento para depois, na glorificação dos vencedores, nos reservarem apenas o papel de aguentar  o férculo.                                      

Somos portugueses dum tempo geracional  incapaz de enfrentar os seus próprios medos e desafios, preferimos pagar, e bem, a quem o faça por nós. Falamos muito à mesa do café sobre os males que nos assolam mas não mostramos rasgo nem golpe de asa~para ir além disso. E há sempre alguém, alguma quinta partidária, algum carreirista da política, dispostos  a aproveitar essa fragilidade inscrita nos nossos genes, essa incapacidade de não conseguirmos construir a nossa própria história ou de sabermos  estar à altura da ancestral identidade de Portugal. 

Jacinto Lourenço

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O preconceito Mata. A Verdade Liberta


O preconceito mata a verdade na medida em que assenta em tradições, obediências inflexíveis e cegas, convenções que impedem o nosso olhar claro e juízo clarividente. Pela fé sabemos que podemos descansar em Cristo, pois n'Ele, só a verdade subsistirá. Cairão todas as mentiras que a nossa “arqueologia mental” sustentar, porque o Ele as destrói pelo seu poder. Um homem ou mulher que nasce de novo, que alicerça a sua vida em Deus, não pode ser preconceituoso em relação a nada que se lhe apresente pela frente. Jesus nunca utilizou o preconceito para julgar pessoas ou situações. Ele via pelo crivo da verdade e da misericórdia de Deus que assentavam em valores divinos.

”…Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro a atirar a pedra sobre ela (…) quando ouviram isso, saíram um a um , a começar pelos mais velhos até aos últimos; ficaram só Jesus e a mulher, que estava no meio. (…) e Jesus, não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? (…) ninguém Senhor.(…). Nem eu também te condeno; vai e não peques mais.”       Como vimos, nesta passagem bíblica de João 8:7-10, os judeus levaram a Cristo uma mulher adúltera. De acordo com a sua linha de preconceito, baseada em velhas tradições e convenções judaicas, tinham que a apedrejar até à morte. Jesus olhou e viu de outra forma. Uma forma que não está contaminada por qualquer raiz de conceito prévio sem fundamento de verdade.

Nos bolsos e mãos, levava a populaça as pedras que iria atirar sobre a mulher que se deitara com um dos da sua nação, era isso que lhes ditava a tradição. Aquilo que Jesus lhes disse é que as pedras do preconceito não libertam; matam, assassinam a verdade, e a verdade ali , naquele momento, é que nenhum dos que se preparavam para matar poderia atirar uma única pedra, porque as suas próprias vidas eram construídas sobre a mentira do preconceito. “Não peques mais, foi o que Cristo disse à mulher. A Verdade liberta-nos. A mentira oprime-nos e condena-nos. Jesus não relativizou a verdade, não pactuou com o pecado. Perdoou a mulher pecadora, deixando-lhe, ao mesmo tempo, a mensagem da necessidade da pureza de vida. Decerto que ela não esqueceu aquilo que o pecado da relativização moral em conjunto com o da arrogância religiosa institucionalizada podia trazer de nefasto para si própria e para os seus semelhantes.
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Jacinto Lourenço

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Os Dois tipos de Imbecilidade


Estou num vazio tal de inspiração que não me ocorre, sequer, uma imbecilidade para escrever. Até para se ser mentecapto é necessário ter inspiração. Existem dois tipos de imbecis: os superficiais e os profundos. Eu prefiro os imbecis superficiais, são mais genuínos, terra-a-terra, dizem imbecilidades sem nenhum tipo de pretensão e normalmente têm graça. Os profundos são mais elaborados, complexos, pedantes adulterados pelo estudo e que recorrem normalmente à imbecilidade dos outros para elaborar teorias tolas, com duplo sentido. «O idiota é aquele que, quando se lhe conta uma história com um duplo sentido, não entende nenhum deles» e «não existe nenhuma espécie mais perigosa de estupidez que a de uma inteligência aguçada». No entanto, «devemos ser gratos aos idiotas. Sem eles, o resto de nós não seria bem-sucedido». Por isso, amigos, «percebam que no mundo existem muito mais tolos do que homens, e lembrem-se disso». «Porque, por mais imbecil que eu seja, sempre haverá um imbecil maior para achar que eu não o sou.»

 Jaime Bulhosa

In Pó dos Livros

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Uma Voz que o Tempo não Consegue Calar




Ministros da República, da justiça, da guerra, do estado, do mar, da terra. Vedes as 

desatenções do governo, vedes as injustiças, vedes os sonhos, vedes os descaminhos, vedes 

os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes os respeitos, vedes as potências dos 

grandes, e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos povos, os clamores e os gemidos 

de todos ? Ou os vedes ou não os vedes. Se os vedes, como não os remediais ? E se não os 

remediais, como os vedes ? Estais cegos ? 

Padre António Vieira

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O Abismo Europeu...




Em Inglaterra, o governo prepara-se para fazer a vida negra a todos os emigrantes, sejam ou não comunitários, mesmo que serem ou não comunitários para o caso até é irrelevante. Dentro de pouco tempo, os emigrantes perderão o direito a qualquer subsídio de renda de casa se ficarem desempregados por mais de um ano e, suprema maldade, os estrangeiros que forem encontrados na rua a deambular ou a pernoitar como sem-abrigos serão presos e repatriados. A coisa dita sem sofismas resume-se assim: o actual governo conservador inglês tratará de criar, estou certo, desemprego entre os emigrantes para, a seguir, lhes retirar subsídios, retirada essa que levará a uma vida insustentável  e os conduzirá a  sem-abrigos . Ora,  encontrando-os nessa situação, as autoridades inglesas encarregar-se-ão de os prender e expulsar e  de regressarem ao país durante um período mais ou menos alargado de tempo. Mas quer fazer mais, o actual governo inglês; quer proibir os emigrantes, que chegam a Inglaterra com um contrato de trabalho, de usufruírem quaisquer direitos de acesso à Segurança Social inglesa nos primeiros dois anos que lá permanecerem. 

David Cameron, como é sabido, está com  dificuldades de relacionamento com o eleitorado britânico e é ainda apertado pela extrema direita de Nigel Farage, factos que lhe encolhem a estreita margem de confiança para as próximas eleições. Os designados eurocépticos também não lhe cedem espaço de manobra e pretendem que o parlamento inglês tenha poderes de veto sobre leis da UE  que atentem contra os interesses ingleses. Búlgaros, romenos e asiáticos, ao que parece, são  alvos preferenciais de Cameron e irão ter grandes dificuldades, mais do que a generalidade dos  trabalhadores comunitários, para entrarem no mercado de trabalho inglês. A grande contradição de tudo isto é que todos os estudos de especialistas ingleses comprovam que os emigrantes não são, em Inglaterra, um peso para os cofres da Segurança Social, bem pelo contrário,  são contribuintes largamente líquidos, mas Cameron  com  a sua política populista prefere não atender a isso no caminho da  estigmatização dos emigrantes, como acontece, aliás, já em alguns países do norte da europa.

 Como sabemos, Cameron  quer realizar, em 2017, um referendo que responda sobre a permanência ou saída da Inglaterra da União Europeia. A razão  prende-se com o facto de se entender, em Inglaterra, especialmente nos meios conservadores, que devem ser revistos os tratados da UE e devolvida a soberania perdida pelo país. Este é um braço de ferro entre o actual governo inglês e a comissão europeia.  Não sabemos como vai acabar, mas sabemos que tem todos os condimentos para não acabar bem, se atendermos ao facto de que, não pertencendo à zona euro, e neste caso ainda bem para os ingleses, a Inglaterra foi em boa parte deixada à margem  das grandes decisões sobre a europa que, como igualmente sabemos, abandonou há muito o sonho europeu  inicial transformando-se a UE numa organização semi-mafiosa onde o poder  financeiro é que decide da vida e da morte, da pobreza e da riqueza dos povos. Ora nesta balança de poderes perversos quem mais  perde são os povos, especialmente os do sul europeu, e quem mais ganha é a Alemanha e os grandes grupos financeiros e capitalistas que se movem nos corredores da UE e nos meandros da economia alemã. O problema é que a Inglaterra, que não quer estar do lado dos perdedores,  possui uma das maiores e mais influentes praças financeiras internacionais e os ingleses não estão dispostos a abrir mão desse privilégio para nada nem ninguém e muito menos para os poderes instituídos na UE à volta da zona euro que, como sabemos é, fundamentalmente, o braço armado dos interesses financeiros alemães.

É um pouco por tudo o que fica dito que a Inglaterra está a usar os emigrantes como arma de arremesso contra a UE, e ameaça ainda  com a revisão dos tratados europeus e com o referendo em 2017 para decidir, em definitivo, da saída ou não, do país da  UE.  Uma parte disto é bluff ,   outra parte  será  xenofobia e o que resta será verdade.

Não temos nada contra que os ingleses defendam os seus interesses enquanto país, gostaríamos até que o mesmo acontecesse por cá. Compreendemos igualmente a reivindicação da devolução de boa parte da soberania perdida e desejamos o mesmo para Portugal. O que nos causa repulsa é que Cameron utilize os emigrantes como arma de arremesso e a xenofobia como argumento político para conseguir os votos dos ultra-conservadores afim de poder ser reeleito no próximo acto eleitoral. O palco político europeu está destinado à realização de melodramas de segunda categoria e Cameron é um actor político menor, como aliás quase todos os que ocupam actualmente o poder em toda a europa, e é por isso que a  europa e o sonho europeu morreram e, neste momento, nada nem ninguém sabe ainda como é que tudo isto vai acabar para os europeus.

A extrema direita ganha poder e instala-se um pouco por todo o lado. Os valores negativos e nefastos contra os quais se ergueu a construção do sonho europeu no pós-primeira e segunda guerra mundiais voltam agora a bater-nos de novo à porta. A europa está  claramente cindida entre sul e norte. A Alemanha comanda e, ensina-nos a história, sempre que a Alemanha comandou ou quis comandar, as coisas acabaram mal. Há hoje, claramente, uma guerra intestina, dentro da UE, por poder e dinheiro. Uma guerra que se reparte entre dois grandes centros de influência: Berlim e Londres. Bruxelas, e Paris por agora,  não contam neste jogo, são meros actores secundários que se limitam a colocar-se  em bicos de pés para serem vistos. A França, como sabemos, só voltará à liça depois do flop chamado Hollande ter saído de cena e a direita, unida à extrema direita, ocupar de novo o poder em 2017, curiosamente a mesma data em que deverá ocorrer ( se ocorrer ) o referendo inglês que Cameron quer levar a efeito... 

Como vemos, não é fácil compreender e resolver a equação que serve de construção à matriz europeia actual, especialmente porque os dados da mesma se alteram constantemente, mas de uma coisa não tenho dúvidas: a europa, perdidos os seus valores cristãos e humanistas que foram sempre as suas grandes referências construtivas,  não sabe, neste momento, para onde vai, mas, continuando pelo actual caminho só poderá encontrar um abismo no fim. E nós, os povos que pouco ou nenhum peso têm para se fazerem ouvir, e que ainda por cima elegem, para os governarem,  partidos que mais não são do que centrais de empregos muito bem pagos e distribuição de dividendos financeiros e económicos pelos seus líderes e clientelas políticas, sim, nós os povos europeus que somos apanhados na trama implacável e mafiosa do ultra-liberalismo e da ganância imperial e económica de alguns países que nunca querem perder, pelos vistos não passamos de arma de arremesso. 

Deixo aqui em citação parte de um artigo publicado no Diário Económico por José Reis Santos intitulado Eunucos sem Pio. Mesmo enquadrando uma temática de fundo quanto à qual me posiciono do ponto de vista cristão   discordando forçosamente do autor do artigo no fundamental do mesmo e no que à essência da  família diz respeito,  o enquadramento do texto não deixa de retratar bem o que os povos europeus, em particular os do sul europeu, uns mais que outros, bem entendido são neste momento: Eunucos sem Pio.

No meu trabalho como historiador, investigando os anos 30, sou diariamente confrontado com a crescente hegemonia política e ideológica do fascismo no mapa político europeu e de como, paulatinamente, se processaram as transição para modelos autoritários de cariz totalitário e se desmantelaram, peça a peça, as instituições democrático-liberais construídas no pós-I Guerra Mundial.
Claro que bem longe da imaginação estava a barbárie do genocídio, mas era já bem patente que estes Estados autoritários promoveriam - a bem a Nação e da pacificação social - sociedades exclusivas e estanques, masculinas, e que utilizariam todos os métodos disponíveis, legais ou não, para forçar a construção de uma utopia fascista, um Homem Novo, xenófobo, racista, homófono e misógino por definição moral e ideológica. E assim, um após outro, se foram retirando direitos fundamentais a esta e a outras minorias, primeiro a socialistas e comunistas, depois a sindicalistas e judeus, homossexuais e deficientes, mulheres e negros. Contra esta sistematização legal poucos foram os que organizadamente se insurgiram, pois não se consideravam parte da minoria afectada.
Sabemos hoje o resultado desta desistência e estamos conscientes da capacidade de "entrismo" do fascismo nos edifícios institucionais das democracias (via eleições e governos) em momentos de crise, apoiados em promessas de pacificação social, desenvolvimento e revitalização económica, reapropriamento da soberania nacional e na incapacidade de actuação dos sistemas democráticos em momentos de conflitualidade social e insolvência económica. Aliás, já nos anos 30 alguns alertavam para este perigo e para a necessidade das democracias liberais construírem diques legais que impossibilitassem o acesso legal de tal ideologia ao poder; preocupações aliás muito visíveis na aliança entre sociais-democratas e democratas-cristãos no processo de construção europeia.[...]  

Jacinto Lourenço

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Se os Homens fossem Anjos...



Se os homens fossem anjos nenhuma espécie de governo seria necessária." Esta observação escrita por James Madison em 1788, no debate sobre a Constituição Federal dos EUA, continua a merecer uma validade universal absoluta. Num tempo em que o Estado (em Portugal e na Europa) foi assaltado por aqueles que não só nele não acreditam, mas que o querem ativamente destruir, vale a pena meditar no rosto que poderá assumir a nossa sociedade se as instituições públicas - inventadas pelos homens para o seu autogoverno - continuarem a ser descapitalizadas e desmanteladas. Como muito bem escreveu Hobbes, no século XVII, sem contrato social, sem um poder soberano que garanta a justiça, os homens ficam entregues ao desespero, ao medo, à "guerra de todos contra todos". A construção de uma ordem pública justa está longe de estar terminada. Ainda há poucos anos, o que se passava nessa comunidade de afetos, mas também de poder e violência, chamada família, era considerado como reserva da vida privada: "Entre o marido e a mulher ninguém mete a colher." Hoje, apesar de crime público, a violência doméstica continua a ceifar mulheres. Cidadãs que a lei não consegue proteger contra a tirania e o abuso do mais forte que reinam em muitos lares. Também em muitas escolas crianças são perseguidas pelo preconceito cobarde de colegas a quem ninguém ensina os limites. Os tempos de crise são propícios a libertar a crueldade que todas as pessoas têm dentro de si. Sobretudo quando as políticas públicas que privam as escolas de psicólogos, ou retiram às polícias meios operacionais, acabam por se transformar nos principais catalisadores da barbárie.

Viriato Soromenho Marques in Diário de Notícias