quarta-feira, 26 de março de 2014
Lá Vamos Nós outra Vez...
Não conheço pessoalmente nenhum candidato de qualquer partido às eleições europeias. Não sei quem saiu ou quem entrou das listas partidárias, tirando um ou outro nome mais sonante . Mas aquilo que sei é que os partidos deste regime têm um grave problema de comunicação, que se agrava com a distância, no que concerne ao trabalho que fazem os seus deputados eleitos no Parlamento Europeu. Não duvido que muitos deles sejam uma jóia de pessoas e eventualmente bons/as deputados/as, mas a verdade é que o seu trabalho lá fora não tem eco cá dentro.
Não gosto de enveredar por opiniões populistas, mas aquilo que passa para a opinião pública é sobre as viagens que fazem os sres/as. deputados/as, os vencimentos que auferem e as super regalias que têm. Quanto ao resto, quase zero. Julgo que os cidadãos, em geral, não deviam ter que andar a vasculhar as páginas oficiais dos deputados ou dos partidos para saberem alguma coisa do que os primeiros por lá fazem. Talvez por tudo isto, as eleições europeias merecem dos portugueses ainda um maior desprezo do que todas as outras.
Acredito que uma pequena minoria de deputados/as possam ser pessoas de grande valia e competência, mas a verdade é que, até eu, que me considero uma pessoa razoavelmente bem informada, sei pouco do que fazem em Estrasburgo. Ou, num registo mais humorístico, os deputados europeus não se sabem 'vender tão bem' quanto os seus chefes, para poderem, como estes, levar os portugueses ao engano. Mais engano menos engano, pelos vistos os portugueses já não se importam com isso; ou porque já se habituaram, ou porque gostam, ou porque padecem de um problema que dá pelo nome de amorfismo.
Jacinto Lourenço
segunda-feira, 24 de março de 2014
Lançar Pérolas a Porcos...
Poucos têm a coragem de assumir a ruptura com alguns mantos diáfanos que cobrem fantasias pessoais dissimuladas. No que me diz respeito, nunca sustentei nem me escondi atrás de mantos de ilusão e também não sou especialista na contrafacção da verdade e muito menos domino a 'arte' da dissimulação . Tomo a vida por inteiro, como ela se apresenta, sendo as minhas opções e escolhas pessoais disso consequência, para o bem, para o bom, mas também para as coisas menos positivas que eventualmente me aconteçam. Interrogo-me muitas vezes se poderia ter descrito, em termos pessoais, outra trajectória, sublimado os meus defeitos, melhorado as minhas virtudes; enfim ser uma pessoa diferente em alguns aspectos. A resposta é sim e é não. Por um lado somos sempre resultado das nossas circunstâncias e das opções que tomamos face às mesmas, por outro lado há coisas que nunca conseguiremos mudar, que são intrínsecas a nós próprios, estão nos nossos genes e é isso que faz do ser humano uma criação perfeita; somos, a um tempo, todos diferentes e todos iguais. Claro que poderia sempre ter sido diferente daquilo que sou, mas então já não seria eu. Foi Voltaire que disse que "Deus concedeu-nos o dom de viver, compete-nos a nós viver bem" . Viver bem a vida de acordo com a visão daquele que no-la concedeu, sem peias, amarras ou receio de críticas daqueles que discordam de nós, melhorando sempre o que tiver que ser melhorado mas sem jamais correr o risco de pretender parecer outro 'eu', um 'eu' fantasioso, fabricado ou exibido com recurso a artes de prestidigitação.
Nunca tive e não tenho, felizmente, problemas de dupla personalidade ou bipolaridade.
Tenho por hábito dar-me sempre por inteiro, como sou, tal e qual, com toda a frontalidade e lealdade, à vida que recebi em herança e penhor revestida de tudo o que ela supõe e traz.
Pela manhã estava a ler e a meditar num devocional de Spurgeon onde o autor diz, a dado passo, que "muitas vezes os homens maus carecem tanto de juízo quanto de fé [...], é inutil discutir ou procurar fazer paz com eles porquanto são falsos de coração e enganosos na suas palavras".
Quando inicio um novo ano de vida, enquadrado igualmente por um novo ciclo, reflicto sobre a forma como muitas vezes nos prejudicamos por darmos demasiada importância a pessoas que a não têm, que consomem o tempo da sua vida a colocar-se em bicos de pés apenas para serem vistos ou para exibirem a sua moral e ética fantasiosas e falaciosas, ou ainda fazendo jogos de malabarismos com pessoas. Neste sentido penso que Spurgeon tem razão, que devemos 'sacudir o pó das nossas alparcas' e passar adiante fazendo a jornada da vida com quem se preocupe verdadeiramente com os valores mais elevados que fazem da dela algo que valha a pena ser vivido e não um deserto onde se amontoam esqueletos ressequidos. Isto é: como diz o livro de Mateus, não vou desperdiçar mais nenhum tempo da minha vida a 'lançar pérolas aos porcos'.
Jacinto Lourenço
sábado, 22 de março de 2014
Poesia na Epiderme de Espanca
Ser PoetaSer Poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda gente!
Florbela Espanca in Charneca em Flor
sexta-feira, 21 de março de 2014
'O Tempo em que Festejava o dia dos meus Anos'
...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...
[...]
Álvaro de Campos in "Poemas"
segunda-feira, 10 de março de 2014
A Camioneta da História...
O sol acordou, ainda preguiçoso como em todos os finais do inverno e primeiros rasgos de primavera. Iluminou o dia e afugentou frios e medos que as madrugadas acoitam. O rádio dá novas/velhas notícias duma Europa perdida e de um Portugal sufocado pelo garrote económico apertado sem dó nem piedade por quem manobra a economia a seu favor cá dentro mas também a milhares de quilómetros mais a norte. As notícias de um país em ruínas vêm no éter e vão-se esparramando nas nossas vidas.
Por entre urbanos sons matinais, o pensamento voa-me para a minha infância, na escola primária, com a mala às costas para aprender o futuro, numa sala fria, hostil em todos os invernos. Pensei na professora Helena, todos os dias má e todos os dias temível para alguns alunos. Havia os alunos de 'primeira' e os de 'segunda', mesmo se isso não tinha nada a ver com a classe frequentada. Os de 'primeira', normalmente de famílias mais facilitadas de vida, eram poupados à pancada e elogiados; ocupavam as primeiras filas. Os outros, os de 'segunda', nas últimas filas, eram sempre candidatos naturais à ponteirada e reguada; estavam, paradoxalmente, sempre na linha da frente, mas apenas para o castigo, houvesse ou não motivo de maior. O recreio era a libertação, tal como as segundas-feiras, quando a camioneta das onze, que trazia a dona Helena, se atrasava e nos dava mais uma hora de bónus de alegria.
Hoje de manhã, quando Deus nos visitou no sol, lembrei-me que Ele nasceu para todos mas lembrei-me também que a vida, no meio dos homens, é normalmente aprendida à bruta. A rudeza dos dias, mesmo os de sol, castiga sempre os mais frágeis, os que pouco ou nada têm, nem mesmo uma simples escapatória. Este (des)governo, faz quase o papel da dona Helena: marginaliza, açoita, despreza, castiga e fere ostensivamente. Distribui reguadas e ponteiradas aos que põe nas últimas filas. Em Portugal, a não ser que tenhamos vontade e determinação para isso, as coisas dificilmente vão mudar para quem está nas últimas filas... Restam-nos os pequenos recreios da história, quando ela se lembra de nós, por entre dias e tempos feitos de invernias duras para quem foi condenado às zonas de sombra em Portugal, a quem o sol, quando chega, já está no seu declinar. Tirando isso, alegram-nos os atrasos da 'camioneta' da História quando esta se decide dar um bónus a quem normalmente só é autorizado a vê-la passar...
Jacinto Lourenço
terça-feira, 4 de março de 2014
Sherlock Holmes e o Caso na Livraria...
Cliente: (com um livro esotérico na mão). Você acredita em vidas passadas?
Livreiro: Hum. Bem, eu…
Cliente: Eu acredito. Absolutamente. Sinto que já vi as coisas antes. Tenho a certeza que esta é a minha terceira vida aqui na Terra.
Livreiro: Estou a ver.
Cliente: (com um semblante satisfeito). Tenho quase a certeza que numa vida passada fui Sherlock Holmes.
Livreiro: Mas sabe, Sherlock Holmes é uma personagem de ficção.
Cliente: (com um ar ultrajado). Não me diga que está a querer dizer que eu não existo?
In Pó dos Livros
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
O Valor da Dignidade e da Fé
...O trauma de ficar diante de um pelotão de fuzilamento, segundos antes da execução ser suspensa, não bastou para que Fiodor Dostoievsky deixasse de ser o aclamado escritor Fiodor Dostoievsky.
A força do império britânico não foi suficiente para que Mahatma Gandhi deixasse de se tornar o Mahatma Gandhi que trouxe tanto a independência da Índia quanto a filosofia do pacifismo como resistência política.
O ódio e a perseguição de John Edgar Hoover não foram suficientes para que Martin Luther King Junior deixasse de conquistar o seu lugar no panteão dos grandes vultos da humanidade como Martin Luther King Junior.
A difamação e a censura da União Soviética – e mais o exílio na Sibéria – não evitaram que Aleksandr Solzhenitsyn ganhasse o Prêmio Nobel de literatura como o Aleksandr Solzhenitsyn em Arquipélago Gulag.
O bloqueio da rede Globo de televisão não ofuscou o brilho poético do Chico Buarque de Holanda e ele continuou a compor para se imortalizar como um dos maiores letristas da música popular brasileira como o Chico Buarque de Holanda.
Os vinte sete anos de cadeia, além de ser chamado de terrorista por Ronald Reagan e Margareth Thatcher, não anularam Nelson Mandela; sequer impediram que ele se tornasse o presidente da África do Sul, e uma das maiores figuras da humanidade como Nelson Mandela.
[...]
Delatores congelam nas esferas mais baixas do inferno.
Covardes saem na urina da história.
Venais escorrem no esgoto da vida.
Lambe-botas se arrastam anos a fio como capachos.
Covardes saem na urina da história.
Venais escorrem no esgoto da vida.
Lambe-botas se arrastam anos a fio como capachos.
Quando pensar que tiranos, oportunistas, poderosos e famosos levam vantagem, lembre-se do texto sagrado [Hebreus 11:35-39]:
[Devido a fé] mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos;
uns foram torturados, não aceitando o seu livramento,
para alcançarem uma melhor ressurreição;
E outros experimentaram escárnios e açoites,
e até cadeias e prisões.
Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada;
andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras,
desamparados, aflitos e maltratados
(Dos quais o mundo não era digno),
errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra.
E todos estes, tendo tido testemunho pela fé,
não alcançaram a promessa.
uns foram torturados, não aceitando o seu livramento,
para alcançarem uma melhor ressurreição;
E outros experimentaram escárnios e açoites,
e até cadeias e prisões.
Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada;
andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras,
desamparados, aflitos e maltratados
(Dos quais o mundo não era digno),
errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra.
E todos estes, tendo tido testemunho pela fé,
não alcançaram a promessa.
Soli Deo Gloria
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
Um 'Monstro Sagrado' no concerto dos Futebolistas
Houve um tempo em que um clube, em Portugal, foi maior, na sua projecção internacional que o próprio país. Esse clube chamava-se Sport Lisboa e Benfica.
Houve uma década em que esse clube chamado Benfica projectou, mundo fora, o nome de um país desconhecido chamado Portugal.
Nesse clube chamado Benfica e nessa recuada década de 60 emergiu uma equipa de jogadores que, sabemos hoje, se tornou irrepetível na sua qualidade, grandeza e valor. Nessa equipa despontaram e cresceram jogadores do maior valor desportivo a nível internacional. Essa equipa tinha um 'patrão', um senhor que comandava uma constelação de futebolista a partir do meio campo, esse senhor dava pelo nome de Mário Coluna.
Ontem à noite, depois de saber do seu falecimento, comentei com o meu filho Pedro, benfiquista como eu, que me sentia um privilegiado por ter vivido esse tempo, o tempo em que uma equipa de futebol foi muito maior, e mais importante no mundo que o próprio país onde emergiu, e dentro dessa equipa de futebol, Mário Coluna foi, como lhe chamaram desde sempre, um 'monstro sagrado' no concerto dos futebolistas.
Há muita coisa de que não me orgulho em Portugal. Foi sempre assim. Portugal tem muita coisa, sempre teve, de que não nos podemos orgulhar, bem pelo contrário. Mas o Sport Lisboa e Benfica, e em especial Coluna é algo que, como português, me enche de orgulho e uma das razões pela qual me sinto recompensado na vida por ter vivido esse tempo, o tempo em que Mário Coluna jogou e em que o Benfica foi maior que Portugal.
Moçambique, Portugal, os moçambicanos e os portugueses devem sentir-se orgulhosos por Mário Coluna ter trazido brilho e glória aos dois povos.
Obrigado Mário Coluna. Descansa em paz.
Jacinto Lourenço
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Já Não Tenho Paciência...
Tenho andado a pensar que começo a acumular um défice de paciência para muitas coisas, sendo que outras já me passam completamente ao lado.
Não tenho paciência, por exemplo, para discussões inúteis no Facebook, especialmente as que têm em vista, por parte de quem muitas vezes as alimenta, a marcação de território, ostentação de opiniões absolutistas, ou exibicão de narcisismos pseudo-culturais com pouca saída em foruns de mais avisada assistência. Recuso liminarmente os púlpitos virtuais que se erguem nesta rede social onde pregadores ocasionais proclamam, em 'deriva profética', um evangelho de consumo imediato, pessoal ou utilitário ou, por outro lado, um cristianismo simplista de trazer por casa.
Tenho, como sempre tive, e só isso me levou a "aderir", uma visão puramente hedonista do FB, ou melhor: o FB é um dos meus lugares de "veraneio" na rede e nada mais, onde convivo com os amigos descontraidamente. Que me perdoem os puristas da coisa ou os que possam ter outra visão mais "séria" do assunto que eu sinceramente nunca consegui, nem quero, atingir.
Também já não tenho paciência para um certo 'imperialismo militante', de muitos sectores ditos cristãos, fundamentalistas religiosos, donos de toda a verdade e revelação. Jesus disse que Ele era a Verdade e é essa Verdade que eu defendo 'com unhas e dentes' por ser a Única Verdade. Esse é o evangelho que leio e que guia a minha vida. De resto, o respeito que tenho por qualquer cristão que, como eu, leia apenas e siga esse evangelho, é infinitamente maior do que o que tenho por qualquer exegeta, doutor da lei, apóstolo ( destes modernos que circulam por aí agora ) ou pregador, mesmo que possa ser muito relevante o seu papel numa qualquer igreja.
Já não tinha nenhum respeito nem paciência para cristãos, pastores, evangelistas, ministros, que acham que por o serem, a sua fé não pode ser confrontada, ou que estão acima de qualquer questionamento. Jesus nunca fugiu aos debates, aos diálogos com aqueles que o questionavam sobre a Salvação e até acerca da sua própria condição humana-divina, mas fartou-se algumas vezes dos fariseus e dos seus discursos rasteiros. Paulo não desprezava os confrontos que esclarecessem as posições e o alcance da fé cristã mas não os trocou por por um cristianismo de segunda. Mais modernamente Lutero ou todos os outros reformadores tiveram que se questionar igualmente sobre as "verdades" absolutas da fé que os tinha formatado tendo a sua vida sido um constante corrigir de percurso e erros, muito deles, infelizmente graves e irremediáveis. Há muito de farisaísmo numa fé que se refugia na fuga ao debate, ao diálogo, que acha que não se deve deixar questionar por quem dela duvida. Gente com uma fé assim anda sempre carregada de pedras nos bolsos, vive num círculo fechado, é habitada por um 'Trento' protestante.
Já se me esgotou a paciência, há muito, para igrejas que se escondem em lugar de se exporem mostrando que também são feitas da mesma 'massa humana' que toda a gente que não é igreja. Igrejas que necessitam de redenção! Já não tenho pachorra para tolerar 'superioridades' espirituais que mais parecem apontar para regimes de castas sublinhadas por particularismos pontuais que marcaram a vida da igreja de todos os tempos. Sou cristão-pentecostal, sim, mas não tenho isso como fundamental ou como matriz diferenciadora da minha fé ou do meu comportamento cristão. Não julgo que haja qualquer virtude cristã especial em ser pentecostal, em ser batista, presbiteriano, etc. Somos todos, se efectivamente somos, um em Cristo, nada mais. Não faço leituras ou exegeses abusivas da Bíblia Sagrada que tenham em vista aprisionar onde o evangelho libertou.
Noutro domínio, já não tenho paciência para governos de suposta esquerda, de centro direita e menos ainda de direita. Cansam-me as causas fracturantes da esquerda e os populismos da direita; a vacuidade das falsas ideologias que nos faz andar em círculos subindo na escala da babel dos ódios de estimação. Prefiro causas sociais, pessoas reais, trabalhadores, empresários e sindicalistas sérios, que não vêm o capital como o fim último dos seus interesses ou dos seus combates, mas as pessoas, o povo, a nação, como fim último do seu trabalho . Entre os valores do trabalho e de quem trabalha em qualquer sector da vida, e os do capitalismo selvagem que nos devora, nem preciso escolher. Sei de onde vim, quem sou e para onde vou e não vou com quem me devora.
Chateia-me Olivença e os seus 'amigos portugueses' em romaria anual a lembrar aos espanhóis que lá vivem que aquilo já foi português. A guerra de fronteiras encerrou-se há muito na península ibérica e os "fantasmas", como é sabido, não gostam de Espanha; preferem os ares mais taciturnos deste lado da fronteira onde os touros nunca andam em pontas e a investida é sempre mais dócil porque nada se arrisca. Para além do mais, Olivença nem quer ser portuguesa!
Perdi a paciência com um país de penacho onde as pessoas se tratam por doutores e engenheiros como se título académico fosse nome próprio ou apelido de pai ou mãe. Agasta-me de morte ver uma justiça onde muitos juízes prendem polícias e soltam ladrões. É bem provável que tenham cabulado no exame de acesso à profissão...
Não dá mais para suportar o eterno desprezo a que é votada a cultura em Portugal. Menos paciência tenho ainda para tolerar uma cultura-de-faz-de-conta-que-é-mas-não-é promovida por quem não sabe nem quer respeitar um país, um povo e uma cultura que se souberam afirmar contra ventos e tempestades e onde falta, há muito, uma nova geração de Avis que recoloque Portugal no lugar que é seu no concerto das nações. Enquanto isso não acontecer, estou sem paciência para este país e para este povo que teima em escolher para o governar as máfias que se acoitam nos partidos.
Não dá mais para suportar o eterno desprezo a que é votada a cultura em Portugal. Menos paciência tenho ainda para tolerar uma cultura-de-faz-de-conta-que-é-mas-não-é promovida por quem não sabe nem quer respeitar um país, um povo e uma cultura que se souberam afirmar contra ventos e tempestades e onde falta, há muito, uma nova geração de Avis que recoloque Portugal no lugar que é seu no concerto das nações. Enquanto isso não acontecer, estou sem paciência para este país e para este povo que teima em escolher para o governar as máfias que se acoitam nos partidos.
Jacinto Lourenço
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
A Rádio é Uma Coisa Diferente, e Hoje é o Dia Mundial da Rádio
Indiscutivelmente, a Rádio marcou a minha geração. Na Rádio ouviam-se os relatos da bola ao domingo à tarde ( sim, os jogos realizavam-se todos, e sempre, ao domingo à tarde... ). Para os mais velhos, e mais politizados, era também a Rádio que trazia as notícias que não passavam no crivo da censura em Portugal. Nas ondas curtas sintonizavam-se a Rádio-Moscovo e a Rádio-Portugal Livre. Foi assim que se ficou a conhecer no país a realidade da crise estudantil da década de 60 e também o que realmente estava a acontecer nas colónias quando aí estalou a guerra. Era tudo escutado muito em surdina, tudo muito baixinho, que as paredes, nesse tempo, tinham mesmo ouvidos e muitas pessoas foram delatadas à GNR local, por vizinhos ou 'amigos' apenas por ouvirem esses programas e, claro, sujeitos posteriormente ao respectivo interrogatório no Posto acompanhado pelos 'afagos' dos guardas... Portugal, queiramos ou não, foi sempre, mais do que se pensa ou diz, um país de 'bufos' .
Na Rádio passavam alguns programas que ninguém perdia e que marcaram gerações: o Serão para Trabalhadores, da FNAT ( actual Inatel ), os Parodiantes de Lisboa, o Quando o Telefone Toca, os Discos Pedidos ou a primeira rádio-novela em Portugal: "Simplesmente Maria", que deu brado. Foi pela Rádio que soubémos, ao momento, que Salazar tinha caído da cadeira. Foi também a Rádio que nos trouxe até casa essa notícia alegre e libertadora de que o 25 de Abril, estava na rua.
Em minha casa, a casa dos meus avós, nunca houve televisão, até porque a energia eléctrica só chegou à povoação no final da década de 60 e a televisão, alimentada a gerador, era um 'luxo' algo recente a que poucos particulares podiam ainda aceder, mas houve, tanto quanto me lembro, quase sempre, uma telefonia que era o centro de todas as nossas atenções. Era ela a ligação ao pequenino mundo português que se fechava sobre si próprio nas fronteiras com Espanha. A Rádio era assim como que uma evasão espiritual e mental para quem habitava um país que uma ditadura teimava em manter como ilha de criminoso subdesenvolvimento e atraso cultural e civilizacional. Era, dentro do Estado Novo, o único meio de comunicação que possibilitava uma pequena amostra de democracia. As Ondas-Curtas traziam aos portugueses um mundo novo e diferente que nenhum ditador ou polícia política conseguiam esconder ou prender. E talvez por tudo isto me tornei um indefectível ouvinte de rádio. Ainda hoje, em qualquer divisão da casa onde eu esteja, salvo alguma ocupação que o não permita, há sempre um rádio ligado para eu ouvir, como é o caso agora mesmo, enquanto escrevo. Gosto de estações de Rádio com gente dentro. Já as Rádios temáticas, que só passam música durante horas a fio, não me dizem muito, salvo uma ou outra honrosa excepção. Bem sei que poupam em recursos humanos... Mas se é para ouvir apenas música, então tenho outros suportes mais modernos. Rádio é uma coisa diferente.
Gosto de uma Rádio atenta a tudo o que se passa à nossa volta, uma Rádio que me traga o mundo sem me ocupar a visão com imagens de arquivo que nos adormecem ao cabo de alguns minutos de 'bombardeio' noticioso. Gosto de uma rádio que não faça das notícias um repetitivo 'enchimento de chouriços'. Uma rádio que diz o que tem a dizer sem grandes delongas ou 'floreados' bacocos. Gosto de rádio com cultura, com entretenimento inteligente, com uma boa selecção musical, com diversidade de rubricas, actuais e interessantes, e pluralidade de programação que chegue aos vários estratos da população. Depois é só escolher o que mais me me agrada. Outras vezes ouço rádio sem estar a ouvir, apenas por companhia. Não gosto da solidão pela solidão. Nunca gostei de estudar em silêncio. Isolo-me mais facilmente, para ler ou estudar, num ambiente ruidoso do que numa sala onde esteja sozinho.
Quando o meu despertador toca, pela manhã, a primeira coisa que faço é ligar um pequeno rádio que tenho na cabeceira e ouvir o que se passou no mundo enquanto eu dormia; a situação do trânsito, o tempo que vai fazer, etc. É raro, mas às vezes tenho insónias; então ligo o rádio e ponho uns auriculares. Ao fim de algum tempo 'desligo-me' sem dar por isso e os auriculares saltam-me das orelhas e vão à sua vida.
Gosto de uma Rádio atenta a tudo o que se passa à nossa volta, uma Rádio que me traga o mundo sem me ocupar a visão com imagens de arquivo que nos adormecem ao cabo de alguns minutos de 'bombardeio' noticioso. Gosto de uma rádio que não faça das notícias um repetitivo 'enchimento de chouriços'. Uma rádio que diz o que tem a dizer sem grandes delongas ou 'floreados' bacocos. Gosto de rádio com cultura, com entretenimento inteligente, com uma boa selecção musical, com diversidade de rubricas, actuais e interessantes, e pluralidade de programação que chegue aos vários estratos da população. Depois é só escolher o que mais me me agrada. Outras vezes ouço rádio sem estar a ouvir, apenas por companhia. Não gosto da solidão pela solidão. Nunca gostei de estudar em silêncio. Isolo-me mais facilmente, para ler ou estudar, num ambiente ruidoso do que numa sala onde esteja sozinho.
Quando o meu despertador toca, pela manhã, a primeira coisa que faço é ligar um pequeno rádio que tenho na cabeceira e ouvir o que se passou no mundo enquanto eu dormia; a situação do trânsito, o tempo que vai fazer, etc. É raro, mas às vezes tenho insónias; então ligo o rádio e ponho uns auriculares. Ao fim de algum tempo 'desligo-me' sem dar por isso e os auriculares saltam-me das orelhas e vão à sua vida.
A Rádio acabou por marcar um pouco do que eu sou como pessoa, pelas melhores razões. Fui também radialista durante cerca de 17 anos e, tudo somado, dá como resultado que, sem Rádio por perto, a minha vida seria sem dúvida um pouco mais insonsa.
Felizmente que em Portugal se faz muito boa e variada rádio. Obrigado a todos os que a produzem, realizam e trazem até nós, os ouvintes.
Jacinto Lourenço
Subscrever:
Mensagens (Atom)










