quinta-feira, 10 de abril de 2014

O Problema é Nosso !


Acabo de ouvir na rádio a resposta dada por Assunção Esteves relativamente à pretensão dos militares de Abril poderem usar a palavra na sessão evocativa dos 40 anos do 25 de Abril a realizar proximamente na Assembleia da República. "O problema é deles!", foi o que disse a dama do "inconseguimento".  Mais pela manhã, também já tinha ouvido que a maioria CDS e PSD tinha chumbado essa mesma pretensão. Os militares queriam estar presentes e usar a palavra. Nada que o regimento da Assembleia não preveja em situações especiais, como é o caso da dita  sessão evocativa. 

Ninguém, com mais qualidade do que os militares de Abril, tem esse direito, quanto mais não seja pelo respeito que eles devem merecer da parte de  todo o povo português e de todas as instituições que dizem representá-lo. O problema é deles sim, como já foi quarenta anos antes quando, mesmo com risco da própria  integridade física expuseram por nós o corpo ao perigo que envolvia derrubar uma ditadura velha de 48 anos. No mínimo, se os ventos não lhes tivessem sido favoráveis, esperava-os  a prisão, provavelmente o Tarrafal durante largos anos, a destruição da sua carreira profissional e eventualmente a desintegração da sua vida familiar com tudo o que isso teria implicado. E tudo para que depois possam existir figuras, da ridícula dimensão de Assunção Esteves, a ocupar o lugar mais elevado do Parlamento.  Sim, o problema era deles e só deles, não nosso, do povo,  que só saímos à rua quando a vitória era certa, num comportamento típico de assumida covardia e amorfismo que nos caracteriza.  Sim, não fora a vitória de Abril à mão de militares que se deram por inteiro, porventura, em muitos aspectos com uma cândida ingenuidade, em favor de um povo há muito espezinhado nos seus mais elementares direitos e hoje não seria possível à senhora que ocupa, indignamente, a cadeira de presidente da A.R. elevar a uma potência de estupidez inaudita a arrogância própria de quem acha que tem o poder de escorraçar da casa da democracia portuguesa aqueles em quem o povo português ainda se revê no sonho alcançado da conquista da liberdade e da democracia em Portugal. 

Este poder, esta arrogância e prepotência estúpida com que é exercido não é herdeiro legítimo do 25 de Abril de 1974 nem a maioria do povo português nele se reconhece. Este poder inspira-se nas catacumbas do 24 de Abril de 1974 e Assunção Esteves é apenas uma 'sacerdotisa'  que obedece a um ritual  de destruição dos melhores valores que a primavera de Abril nos trouxe. Nenhuma democracia, nenhum estado de direito, nenhum poder em Portugal pode jamais obliterar o que aconteceu em 25 de Abril de 1974. Os portugueses, em última análise, têm um penhor de gratidão para com os militares de Abril que devia impedir este tipo de tratamento a que assistimos por parte de figuras que não nos merecem nenhum respeito nem qualquer tipo de consideração ou crédito sócio-político.  

Não, o problema não é deles, dos capitães de Abril que fizeram o que tinham que fazer. O problema é nosso ao deixarmos que alguns destruam tudo o que de bom conseguimos construir nos últimos quarenta anos e ao permitirmos que nos matem os sonhos que um dia acreditámos ser possível concretizar. Não se pode incensar uma democracia que responde apenas perante a arrogância do poder plutocrata e não pelos interesses do povo que a constrói .  


Jacinto Lourenço

segunda-feira, 31 de março de 2014

Um Outro Caminho...






A História da humanidade está cheia de violência, de ódio, de preconceito. Mas se é verdade que não podemos modificar o passado, podemos aprender com ele. Durante a guerra civil na antiga Jugoslávia (1992-1996), a comunidade sefardita de Sarajevo decidiu lutar contra a intolerância ditada pelos senhores da guerra, que pretendiam segregar a população por grupos étnicos.

El Otro Camino é um pequeno filme com cerca de 12 minutos – uma co-produção entre a Espanha, a Turquia, a Bulgária e a Sérvia -, que nos fala da corajosa iniciativa daquela pequena comunidade, que em memória dos seus antepassados expulsos 500 anos antes de Sefarad, se recusou a trilhar o caminho do ódio. Ao invés decidiu trilhar um caminho de coexistência, de entreajuda com os seus vizinhos, quer fossem muçulmanos ou cristãos. 

Fonte:  Eterna Sefarad


quarta-feira, 26 de março de 2014

Lá Vamos Nós outra Vez...




Não conheço pessoalmente nenhum candidato de qualquer partido às eleições europeias. Não sei quem saiu ou quem entrou das listas partidárias, tirando um ou outro nome mais sonante . Mas aquilo que sei é que os partidos deste regime têm um grave problema de comunicação, que se agrava com a distância, no que concerne ao trabalho que fazem os seus deputados eleitos no Parlamento Europeu. Não duvido que muitos deles sejam uma jóia de pessoas e eventualmente bons/as deputados/as, mas a verdade é que o seu trabalho lá fora não tem eco cá dentro.

Não gosto de enveredar por opiniões populistas, mas aquilo que passa para a opinião pública é sobre as viagens que fazem os sres/as. deputados/as, os vencimentos que auferem e as super regalias que têm. Quanto ao resto, quase zero. Julgo que os cidadãos, em geral, não deviam ter que andar a vasculhar as páginas oficiais dos deputados ou dos partidos para saberem alguma coisa do que os primeiros por lá fazem. Talvez por tudo isto, as eleições europeias merecem dos portugueses ainda um maior desprezo do que todas as outras.

Acredito que uma pequena minoria de deputados/as possam ser pessoas de grande valia e competência, mas a verdade é que, até eu, que me considero uma pessoa razoavelmente bem informada, sei pouco do que fazem em Estrasburgo. Ou, num registo mais humorístico, os deputados europeus não se sabem 'vender tão bem' quanto os seus chefes, para poderem, como estes, levar os portugueses ao engano. Mais engano menos engano, pelos vistos os portugueses já não se importam com isso; ou porque já se habituaram, ou porque gostam, ou porque padecem de um problema que dá pelo nome de amorfismo.



Jacinto Lourenço

segunda-feira, 24 de março de 2014

Lançar Pérolas a Porcos...




Poucos têm a coragem de assumir a ruptura com alguns mantos diáfanos que cobrem fantasias pessoais dissimuladas. No que me diz respeito, nunca sustentei nem me escondi atrás de mantos de ilusão e também não sou especialista na contrafacção da verdade e muito menos domino a 'arte' da dissimulação . Tomo a vida por inteiro, como ela se apresenta, sendo as minhas opções e escolhas pessoais disso consequência, para o bem, para o bom, mas também para as coisas menos positivas que eventualmente me aconteçam. Interrogo-me muitas vezes se poderia ter descrito, em termos pessoais, outra trajectória, sublimado os meus defeitos, melhorado as minhas virtudes; enfim ser uma pessoa diferente em alguns aspectos. A resposta é sim e é não. Por um lado somos sempre resultado das nossas circunstâncias e das opções que tomamos face às mesmas, por outro lado há coisas que nunca conseguiremos mudar, que são intrínsecas a nós próprios, estão nos nossos genes e é isso que faz do ser humano uma criação perfeita; somos, a um tempo, todos diferentes e todos iguais. Claro que poderia sempre ter sido diferente daquilo que sou, mas então já não seria eu.   Foi Voltaire que disse que "Deus concedeu-nos o dom de viver, compete-nos a nós viver bem" .  Viver bem a vida de acordo com a visão daquele que no-la concedeu, sem peias, amarras ou receio de críticas daqueles que discordam de nós, melhorando sempre o que tiver que ser melhorado mas sem jamais correr o risco de pretender parecer outro 'eu', um 'eu' fantasioso, fabricado ou exibido com recurso a artes de prestidigitação.

Nunca tive e não tenho, felizmente, problemas de dupla personalidade ou bipolaridade.
Tenho por hábito dar-me sempre por inteiro, como sou, tal e qual, com toda a  frontalidade e lealdade, à vida que recebi em herança e penhor revestida de tudo o que ela supõe e traz.

Pela manhã estava a ler e a meditar num devocional de Spurgeon onde o autor diz, a dado passo, que "muitas vezes os homens maus carecem tanto de juízo quanto de fé [...], é inutil discutir ou procurar fazer paz com eles porquanto são falsos de coração e enganosos na suas palavras".

Quando inicio  um novo ano de vida, enquadrado igualmente por um novo ciclo, reflicto sobre a forma como muitas vezes  nos prejudicamos por darmos demasiada importância a pessoas que a não têm, que consomem o tempo da sua vida a colocar-se em bicos de pés  apenas para serem vistos ou para exibirem a sua moral e ética fantasiosas e falaciosas, ou ainda fazendo jogos de malabarismos com pessoas. Neste sentido penso que Spurgeon tem razão, que devemos 'sacudir o pó das nossas alparcas' e passar adiante fazendo a jornada da vida com quem se preocupe verdadeiramente com os valores mais elevados que fazem da dela algo que valha a pena ser vivido e não um deserto onde se amontoam esqueletos ressequidos. Isto é: como diz o livro de Mateus, não vou desperdiçar mais nenhum tempo da minha vida a  'lançar pérolas aos porcos'.

Jacinto Lourenço

sábado, 22 de março de 2014

Poesia na Epiderme de Espanca







Ser PoetaSer Poeta é ser mais alto, é ser maior 
Do que os homens! Morder como quem beija! 
É ser mendigo e dar como quem seja 
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor! 

É ter de mil desejos o esplendor 
E não saber sequer que se deseja! 
É ter cá dentro um astro que flameja, 
É ter garras e asas de condor! 

É ter fome, é ter sede de Infinito! 
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim... 
É condensar o mundo num só grito! 

E é amar-te, assim, perdidamente... 
É seres alma e sangue e vida em mim 
E dizê-lo cantando a toda gente! 


Florbela Espanca in Charneca em Flor

sexta-feira, 21 de março de 2014

'O Tempo em que Festejava o dia dos meus Anos'






























...

Pára, meu coração!
 
Não penses! Deixa o pensar na cabeça! 


Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus! 


Hoje já não faço anos. 


Duro. 


Somam-se-me dias.


Serei  velho quando o for.

 
Mais nada. 


Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ... 

[...]

Álvaro de Campos  in "Poemas" 

segunda-feira, 10 de março de 2014

A Camioneta da História...


O sol acordou, ainda preguiçoso como em todos os finais do inverno e primeiros rasgos de primavera. Iluminou o dia e afugentou frios e medos  que as madrugadas acoitam. O rádio dá novas/velhas notícias  duma Europa perdida e de um Portugal sufocado pelo garrote económico apertado sem dó nem piedade por quem manobra a economia a seu favor cá dentro mas também a milhares de quilómetros mais a norte. As notícias de um país em ruínas vêm no éter e vão-se esparramando nas nossas vidas.                                                                                

Por entre urbanos sons matinais, o pensamento voa-me para a minha infância,  na escola primária, com a mala às costas para aprender o futuro, numa sala fria, hostil em todos os invernos. Pensei na professora Helena, todos os dias má e todos os dias temível para alguns alunos. Havia os alunos de 'primeira' e os de 'segunda', mesmo se isso não tinha nada a ver com a classe frequentada. Os de 'primeira', normalmente de famílias mais facilitadas de vida, eram poupados à pancada e  elogiados; ocupavam as primeiras filas. Os outros, os de 'segunda', nas últimas filas, eram sempre candidatos naturais à ponteirada e reguada; estavam, paradoxalmente, sempre na linha da frente, mas apenas para  o castigo, houvesse ou não motivo de maior. O recreio era a libertação, tal como as segundas-feiras, quando a camioneta das onze, que trazia a dona Helena, se atrasava e nos dava mais uma hora de bónus de alegria. 

Hoje de manhã, quando Deus  nos visitou no sol,  lembrei-me que Ele nasceu para todos   mas lembrei-me também que a vida, no meio dos homens,  é normalmente aprendida à bruta. A rudeza dos dias, mesmo os de sol, castiga sempre os mais frágeis, os que pouco ou nada têm, nem mesmo uma simples escapatória. Este (des)governo,    faz quase o papel da dona Helena: marginaliza, açoita, despreza, castiga e fere ostensivamente. Distribui reguadas e ponteiradas aos que põe nas últimas filas. Em Portugal, a não ser que tenhamos vontade e determinação para isso, as coisas dificilmente vão mudar para quem está nas últimas filas... Restam-nos os pequenos recreios da história, quando ela se lembra de nós, por entre dias e tempos  feitos de invernias duras para quem foi condenado às  zonas de sombra  em Portugal,  a quem  o sol, quando chega, já está no seu declinar. Tirando isso, alegram-nos os atrasos da 'camioneta' da História quando esta se decide dar um bónus a quem normalmente só é autorizado a vê-la passar...

Jacinto Lourenço

terça-feira, 4 de março de 2014

Sherlock Holmes e o Caso na Livraria...



Cliente: (com um livro esotérico na mão). Você acredita em vidas passadas?

Livreiro: Hum. Bem, eu…

Cliente: Eu acredito. Absolutamente. Sinto que já vi as coisas antes. Tenho a certeza que esta é a minha terceira vida aqui na Terra.

Livreiro: Estou a ver.

Cliente: (com um semblante satisfeito). Tenho quase a certeza que numa vida passada fui Sherlock Holmes.

Livreiro: Mas sabe, Sherlock Holmes é uma personagem de ficção.

Cliente: (com um ar ultrajado). Não me diga que está a querer dizer que eu não existo?

Livreiro:



In Pó dos Livros

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O Valor da Dignidade e da Fé




...O trauma de ficar diante de um pelotão de fuzilamento, segundos antes da execução ser suspensa, não bastou para que Fiodor Dostoievsky deixasse de ser o aclamado escritor Fiodor Dostoievsky.
A força do império britânico não foi suficiente para que Mahatma Gandhi deixasse de se tornar o Mahatma Gandhi que trouxe tanto a independência da Índia quanto a filosofia do pacifismo como resistência política.
O ódio e a perseguição de John Edgar Hoover não foram suficientes para que Martin Luther King Junior deixasse de conquistar o seu lugar no panteão dos grandes vultos da humanidade como Martin Luther King Junior.
A difamação e a censura da União Soviética – e mais o exílio na Sibéria – não evitaram que Aleksandr Solzhenitsyn ganhasse o Prêmio Nobel de literatura como o Aleksandr Solzhenitsyn em Arquipélago Gulag.
O bloqueio da rede Globo de televisão não ofuscou o brilho poético do Chico Buarque de Holanda e ele continuou a compor para se imortalizar como um dos maiores letristas da música popular brasileira como o Chico Buarque de Holanda.
Os vinte sete anos de cadeia, além de ser chamado de terrorista por Ronald Reagan e Margareth Thatcher, não anularam Nelson Mandela; sequer impediram que ele se tornasse o presidente da África do Sul, e uma das maiores figuras da humanidade como Nelson Mandela.
[...]
Delatores congelam nas esferas mais baixas do inferno.
Covardes saem na urina da história.
Venais escorrem no esgoto da vida.
Lambe-botas se arrastam anos a fio como capachos.
Quando pensar que tiranos, oportunistas, poderosos e famosos levam vantagem, lembre-se do texto sagrado [Hebreus 11:35-39]:
[Devido a fé] mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos;
uns foram torturados, não aceitando o seu livramento,
para alcançarem uma melhor ressurreição;
E outros experimentaram escárnios e açoites,
e até cadeias e prisões.
Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada;
andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras,
desamparados, aflitos e maltratados
(Dos quais o mundo não era digno), 
errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra.
E todos estes, tendo tido testemunho pela fé,
não alcançaram a promessa.
Soli Deo Gloria

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Um 'Monstro Sagrado' no concerto dos Futebolistas



Houve um tempo em que um clube, em Portugal, foi maior, na sua projecção internacional que o próprio país. Esse clube chamava-se  Sport  Lisboa e Benfica.

Houve uma década em que esse clube chamado Benfica projectou, mundo fora,  o nome de um país desconhecido chamado Portugal.

Nesse clube chamado Benfica e nessa recuada década de 60 emergiu uma equipa de jogadores que, sabemos hoje, se tornou irrepetível na sua qualidade, grandeza e valor. Nessa equipa despontaram e cresceram jogadores do maior valor desportivo a nível internacional. Essa equipa tinha um 'patrão', um senhor que comandava uma constelação de futebolista a partir do meio campo, esse senhor dava pelo nome de Mário Coluna.

Ontem à noite, depois de saber do seu falecimento, comentei com o meu filho Pedro, benfiquista como eu, que me sentia um privilegiado por ter vivido  esse tempo, o tempo em que uma equipa de futebol foi muito maior, e mais importante no mundo que o próprio país onde emergiu, e dentro dessa equipa de futebol, Mário Coluna foi, como lhe chamaram desde sempre, um 'monstro sagrado' no concerto dos futebolistas.



Há muita coisa de que não me orgulho em Portugal. Foi sempre assim. Portugal tem muita coisa, sempre teve, de que não nos podemos orgulhar, bem pelo contrário.  Mas o Sport Lisboa e Benfica, e em especial Coluna é algo que, como português, me enche de orgulho e uma das razões pela qual me sinto recompensado na vida  por ter vivido esse tempo, o tempo em que Mário Coluna jogou e em que o Benfica foi maior que Portugal.

Moçambique, Portugal, os moçambicanos e os portugueses devem sentir-se orgulhosos por Mário Coluna ter trazido brilho e glória aos dois povos.

Obrigado Mário Coluna. Descansa em paz.


Jacinto Lourenço

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Já Não Tenho Paciência...


Tenho andado a pensar que começo a acumular um défice de paciência para muitas coisas, sendo que  outras já me passam completamente ao lado.
Não tenho paciência, por exemplo, para discussões inúteis no Facebook, especialmente as   que têm em vista, por parte de quem muitas vezes as alimenta, a  marcação de território, ostentação de opiniões absolutistas,  ou exibicão de narcisismos  pseudo-culturais com pouca saída em foruns de  mais avisada assistência. Recuso liminarmente os púlpitos virtuais que se erguem nesta rede social  onde pregadores ocasionais proclamam, em 'deriva profética',  um evangelho de consumo imediato, pessoal ou utilitário ou, por outro lado, um cristianismo simplista de trazer por casa. 

Tenho, como sempre tive, e só isso me levou a "aderir", uma visão puramente hedonista do FB, ou melhor: o FB é um dos meus lugares de "veraneio"  na rede e nada mais, onde convivo com os amigos descontraidamente. Que me perdoem os puristas da coisa ou os que possam ter outra visão mais "séria" do assunto que eu sinceramente nunca consegui, nem quero, atingir.

Também já não tenho paciência para um certo  'imperialismo militante', de muitos sectores ditos cristãos, fundamentalistas  religiosos, donos de toda a verdade e revelação. Jesus disse que Ele era a Verdade e é essa Verdade que eu defendo 'com unhas e dentes' por ser a Única Verdade. Esse é o evangelho que leio e que guia a minha vida. De resto, o respeito que tenho por qualquer cristão que, como eu, leia apenas e siga  esse evangelho,  é infinitamente  maior do que o que tenho por  qualquer exegeta, doutor da lei, apóstolo ( destes modernos que circulam por aí agora ) ou pregador, mesmo que possa ser muito relevante o seu papel numa qualquer igreja.
Já não tinha nenhum respeito nem paciência  para cristãos, pastores, evangelistas, ministros, que acham que por o serem,  a sua fé não pode ser confrontada,  ou que  estão acima de qualquer questionamento. Jesus nunca fugiu aos debates, aos diálogos com aqueles que o questionavam sobre a Salvação e até acerca da sua própria condição humana-divina, mas fartou-se algumas vezes dos fariseus e dos seus discursos rasteiros.  Paulo não desprezava os confrontos que esclarecessem as posições e o alcance da fé cristã mas não os trocou por por um cristianismo de segunda.  Mais modernamente Lutero ou todos os outros reformadores tiveram que se questionar igualmente sobre as "verdades" absolutas da fé que os tinha formatado tendo a sua vida sido um constante corrigir de percurso e erros, muito deles, infelizmente graves e irremediáveis. Há muito de farisaísmo numa fé que se refugia na fuga ao debate, ao diálogo, que acha que não se deve deixar questionar por quem dela duvida. Gente com uma fé assim anda sempre carregada de pedras nos bolsos, vive num círculo fechado, é habitada por um  'Trento' protestante.

Já se me esgotou a paciência, há muito, para igrejas que se escondem em lugar de se exporem mostrando que também são feitas da mesma 'massa humana' que toda a gente que não é igreja. Igrejas que necessitam de redenção!  Já não tenho pachorra para tolerar  'superioridades' espirituais que mais parecem apontar para  regimes de castas sublinhadas por particularismos pontuais que marcaram a vida da igreja de todos os tempos. Sou cristão-pentecostal, sim, mas  não tenho isso como fundamental ou como matriz diferenciadora da minha fé ou do meu comportamento cristão. Não julgo que haja qualquer virtude cristã especial em ser pentecostal, em ser batista, presbiteriano, etc. Somos todos, se efectivamente somos, um em Cristo, nada mais. Não faço  leituras ou exegeses abusivas da Bíblia Sagrada que tenham em vista aprisionar onde o evangelho libertou.

Noutro domínio, já não tenho paciência para governos de suposta esquerda, de centro direita e menos ainda de direita. Cansam-me as causas fracturantes da esquerda e os populismos da direita; a vacuidade das falsas   ideologias que nos faz andar em círculos subindo na escala da babel dos ódios de estimação. Prefiro causas sociais,  pessoas reais, trabalhadores, empresários e sindicalistas sérios, que não vêm o capital como o fim último dos seus interesses ou dos seus combates, mas as pessoas, o povo, a nação, como fim último do seu trabalho .  Entre os valores do trabalho e de quem trabalha em qualquer sector da vida, e os do capitalismo selvagem que nos devora, nem preciso escolher. Sei de onde vim, quem sou e para onde vou e não vou com quem me devora.

Chateia-me Olivença e os seus 'amigos portugueses' em romaria anual a lembrar aos espanhóis que lá vivem que aquilo já foi português. A guerra de fronteiras encerrou-se há muito na península ibérica e os "fantasmas", como é sabido, não gostam de Espanha; preferem os ares mais taciturnos deste lado da fronteira onde os touros nunca andam em pontas e a investida é sempre mais dócil porque nada se arrisca. Para além do mais, Olivença nem quer ser portuguesa!

Perdi a paciência com um país de penacho onde as pessoas se tratam por doutores e engenheiros como se título académico fosse nome próprio ou apelido de pai ou mãe. Agasta-me de morte  ver uma justiça onde muitos  juízes prendem  polícias e soltam  ladrões. É bem provável que tenham cabulado no exame de acesso à profissão...

Não dá mais para suportar o eterno desprezo a que é votada a cultura em Portugal. Menos paciência tenho  ainda para tolerar uma cultura-de-faz-de-conta-que-é-mas-não-é  promovida por quem não sabe nem quer respeitar um país, um povo e uma cultura  que se souberam  afirmar contra ventos e tempestades e onde falta, há muito,  uma nova geração de Avis que recoloque Portugal no lugar que é seu no concerto das nações. Enquanto isso não acontecer, estou sem paciência para este país e para este povo que teima em escolher para o governar  as máfias que se acoitam nos partidos. 

Jacinto Lourenço

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A Rádio é Uma Coisa Diferente, e Hoje é o Dia Mundial da Rádio




Indiscutivelmente, a Rádio marcou a minha geração. Na Rádio ouviam-se os relatos da bola ao domingo à tarde ( sim, os jogos realizavam-se todos, e sempre, ao domingo à tarde... ). Para os mais velhos, e mais politizados, era também a Rádio que trazia as notícias que não passavam no crivo da censura em Portugal. Nas ondas curtas sintonizavam-se a Rádio-Moscovo e a Rádio-Portugal  Livre. Foi assim que se ficou a conhecer no país  a realidade da crise estudantil  da década de 60 e também  o que realmente estava a acontecer nas colónias quando aí estalou a guerra.         Era tudo escutado muito em surdina, tudo muito baixinho, que as paredes, nesse tempo, tinham mesmo ouvidos e muitas pessoas foram delatadas à GNR local, por vizinhos ou 'amigos' apenas por ouvirem esses programas e, claro, sujeitos posteriormente ao respectivo interrogatório no Posto acompanhado  pelos  'afagos' dos guardas... Portugal, queiramos ou não, foi sempre, mais do que se pensa  ou diz, um país de 'bufos' .

Na Rádio passavam alguns programas que ninguém perdia e que marcaram gerações: o Serão para Trabalhadores, da FNAT ( actual Inatel ), os Parodiantes de Lisboa, o Quando o Telefone Toca, os Discos Pedidos ou a primeira rádio-novela em Portugal: "Simplesmente Maria", que deu brado. Foi pela Rádio que soubémos, ao momento, que Salazar tinha caído da cadeira. Foi também a Rádio que nos trouxe até casa essa notícia alegre e libertadora de que o 25 de Abril, estava na rua.

Em minha casa, a casa dos meus avós, nunca houve televisão, até porque a energia eléctrica só chegou à povoação no final da década de 60 e a televisão, alimentada a gerador, era um 'luxo'  algo recente a que poucos particulares podiam ainda aceder,  mas houve, tanto quanto me lembro, quase sempre,  uma telefonia que era o centro de todas as nossas atenções. Era ela   a ligação ao pequenino mundo português que se fechava sobre si próprio nas fronteiras com Espanha.  A Rádio era assim como que uma evasão espiritual e mental para quem habitava um país que uma ditadura teimava em manter como ilha de criminoso subdesenvolvimento e atraso cultural e civilizacional. Era, dentro do Estado Novo, o único meio de comunicação que possibilitava uma pequena amostra de democracia. As Ondas-Curtas traziam aos portugueses um mundo novo e diferente que nenhum ditador ou polícia política conseguiam esconder ou prender.  E talvez por tudo isto me tornei um indefectível ouvinte de rádio. Ainda hoje, em qualquer divisão da casa onde eu esteja, salvo alguma ocupação que o não permita,  há sempre um rádio ligado para eu ouvir, como é o caso agora mesmo, enquanto escrevo.  Gosto de  estações de Rádio com gente dentro. Já as Rádios temáticas, que só passam música durante horas a fio, não me dizem muito, salvo uma ou outra honrosa excepção.  Bem sei que poupam em recursos humanos... Mas se é  para ouvir apenas música, então  tenho outros suportes mais modernos. Rádio é uma coisa diferente.

 Gosto de uma Rádio atenta a tudo o que se passa à nossa volta, uma Rádio que me traga o mundo sem me ocupar a visão com imagens de arquivo que nos adormecem ao cabo de alguns minutos de 'bombardeio' noticioso. Gosto de uma rádio que não faça das notícias um repetitivo 'enchimento de chouriços'. Uma rádio que diz o que tem a dizer sem grandes delongas ou 'floreados'  bacocos.  Gosto de rádio com cultura, com entretenimento inteligente, com uma boa selecção musical, com diversidade de rubricas, actuais e interessantes, e pluralidade de programação que chegue aos vários  estratos da população. Depois é só escolher  o que mais me me agrada.  Outras vezes ouço rádio sem estar a ouvir, apenas por companhia. Não gosto da solidão pela solidão. Nunca gostei de estudar em silêncio. Isolo-me mais facilmente,  para ler ou estudar,  num ambiente ruidoso do que numa sala onde esteja sozinho.

Quando o meu despertador toca, pela manhã, a primeira coisa que faço é ligar um pequeno rádio que tenho na cabeceira e ouvir o que se passou no mundo enquanto eu dormia; a situação do trânsito, o tempo que vai fazer, etc.  É raro, mas às vezes tenho insónias; então ligo o rádio e ponho uns auriculares. Ao fim de algum tempo 'desligo-me' sem dar por isso e os auriculares  saltam-me das orelhas e vão à sua vida. 

A Rádio acabou por marcar um pouco do que eu sou como pessoa, pelas melhores razões. Fui também radialista  durante cerca de 17 anos e, tudo somado, dá como resultado que, sem Rádio por perto, a minha vida seria sem dúvida um pouco mais insonsa. 

Felizmente que em Portugal se faz muito boa e variada rádio. Obrigado a todos os que a produzem, realizam e trazem até nós, os ouvintes.

Jacinto Lourenço  

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Expulsão dos Judeus em Espanha - 1492




A decisão [recente] do governo [espanhol] de modificar o código civil  e conceder a nacionalidade espanhola aos descendentes dos judeus, que foram expulsos de Espanha em 1492, despertou um extraordinário interesse entre os cidadãos do estado de Israel. O facto não é estranho se pensarmos que as famílias de  judeus sefarditas conservaram a sua língua  e também as chaves das suas casas de onde foram expulsos.

Desde o tempo dos godos que os judeus foram perseguidos com maior ou menor intensidade conforme o momento e o lugar.  Foram acusados de serem portadores da peste, de crucificarem crianças na sexta-feira santa; proibiu-se-lhes a prática de determinadas profissões, foram obrigados a viver em guetos e, levando ao extremo a sua perseguição, tinham ainda que  exibir  uma marca distintiva no vestuário.   Toda esta voragem de humilhações e aberrações culminou com o decreto da sua expulsão de Espanha assinado em 31 de Março de 1492 pelos reis católicos com base num texto  do inquisidor geral  Tomás de Torquemada. Segundo este decreto, os judeus que não se convertessem deviam abandonar Sefarad (nome pelo qual era conhecida a Península Ibérica entre os judeus). Cerca de 100.000 judeus abandonaram então as suas casas e o seu país ( Espanha). Tiveram que vender os seus pertences à pressa e ao desbarato e pagar o frete dos barcos que os transportaram. Muitos exilaram-se em Navarra ( reino tido como independente ), em países dos balcãs, no norte de áfrica ou no império otomano [muitos outros refugiaram-se igualmente em Portugal onde, apesar de tudo, a monarquia era um pouco mais branda com os judeus].
Há contudo dois detalhes que são demonstrativos do seu apego por Espanha, que era também a sua terra.  Mantiveram viva entre si  a língua  sefardí, ou ladino [...], nos territórios para onde se dirigiram e onde se estabeleceram de novo. E, mais surpreedente ainda, conservaram as chaves das suas casas que tiveram que abandonar em Espanha. Mesmo hoje, muitas famílias guardam ainda as chaves dessas casas sendo as mulheres encarregadas de as passar de geração em geração.

Javier Sanz in Histórias de la História
( traduzido do Castelhano por Jacinto Lourenço )

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Uma Migalha de Sorte...



A   história de Portugal tem, apesar de tudo,  alguns  poucos registos que assinalam momentos em que o povo decidiu conduzir o seu próprio destino, de resto, o que é mais comum  é  deixarmo-nos embalar pelas cantigas  de uns quantos que traem, sistematicamente,  os verdadeiros interesses da nação portuguesa. Andamos há já quase quarenta  anos neste círculo vicioso isto, claro, se não contarmos com os dezasseis anos da Primeira República mais os quarenta e oito da ditadura e do Estado Novo  e, literalmente, passámos todo este tempo a "entregar o ouro ao bandido"  esperando sempre que alguém venha, providencialmente, qual D. Sebastião, resolver os nossos problemas.

 A verdade é que, no pós 25 de Abril de 1974  nunca deixámos de entregar o nosso presente e o futuro nas mãos dos  cleptocratas do costume e depois ainda  lá estamos para lhes bater palmas  na sua marcha triunfal esperando sempre  que algum deles  nos atire uma migalha de sorte. O problema é que o futuro dos povos não se contrói  à  sorte.                                                                  
Chegámos tarde à democracia e não conseguimos ainda decifrar muito bem os reais interesses dos que se acoitam nas quintas partidárias. Esses sim aprendem depressa os códigos da sobrevivência e fazem juz ao apodo  de chicos espertos  e à proverbial  fama de desenrascanço que normalmente o português se atribui a si próprio.  Deixamo-nos enganar ou damos espaço para que nos enganem. Somos enrolados em marés de promessas eleitorais e discursos acalorados que nos falam ao imediatismo do momento para depois, na glorificação dos vencedores, nos reservarem apenas o papel de aguentar  o férculo.                                      

Somos portugueses dum tempo geracional  incapaz de enfrentar os seus próprios medos e desafios, preferimos pagar, e bem, a quem o faça por nós. Falamos muito à mesa do café sobre os males que nos assolam mas não mostramos rasgo nem golpe de asa~para ir além disso. E há sempre alguém, alguma quinta partidária, algum carreirista da política, dispostos  a aproveitar essa fragilidade inscrita nos nossos genes, essa incapacidade de não conseguirmos construir a nossa própria história ou de sabermos  estar à altura da ancestral identidade de Portugal. 

Jacinto Lourenço

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O preconceito Mata. A Verdade Liberta


O preconceito mata a verdade na medida em que assenta em tradições, obediências inflexíveis e cegas, convenções que impedem o nosso olhar claro e juízo clarividente. Pela fé sabemos que podemos descansar em Cristo, pois n'Ele, só a verdade subsistirá. Cairão todas as mentiras que a nossa “arqueologia mental” sustentar, porque o Ele as destrói pelo seu poder. Um homem ou mulher que nasce de novo, que alicerça a sua vida em Deus, não pode ser preconceituoso em relação a nada que se lhe apresente pela frente. Jesus nunca utilizou o preconceito para julgar pessoas ou situações. Ele via pelo crivo da verdade e da misericórdia de Deus que assentavam em valores divinos.

”…Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro a atirar a pedra sobre ela (…) quando ouviram isso, saíram um a um , a começar pelos mais velhos até aos últimos; ficaram só Jesus e a mulher, que estava no meio. (…) e Jesus, não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? (…) ninguém Senhor.(…). Nem eu também te condeno; vai e não peques mais.”       Como vimos, nesta passagem bíblica de João 8:7-10, os judeus levaram a Cristo uma mulher adúltera. De acordo com a sua linha de preconceito, baseada em velhas tradições e convenções judaicas, tinham que a apedrejar até à morte. Jesus olhou e viu de outra forma. Uma forma que não está contaminada por qualquer raiz de conceito prévio sem fundamento de verdade.

Nos bolsos e mãos, levava a populaça as pedras que iria atirar sobre a mulher que se deitara com um dos da sua nação, era isso que lhes ditava a tradição. Aquilo que Jesus lhes disse é que as pedras do preconceito não libertam; matam, assassinam a verdade, e a verdade ali , naquele momento, é que nenhum dos que se preparavam para matar poderia atirar uma única pedra, porque as suas próprias vidas eram construídas sobre a mentira do preconceito. “Não peques mais, foi o que Cristo disse à mulher. A Verdade liberta-nos. A mentira oprime-nos e condena-nos. Jesus não relativizou a verdade, não pactuou com o pecado. Perdoou a mulher pecadora, deixando-lhe, ao mesmo tempo, a mensagem da necessidade da pureza de vida. Decerto que ela não esqueceu aquilo que o pecado da relativização moral em conjunto com o da arrogância religiosa institucionalizada podia trazer de nefasto para si própria e para os seus semelhantes.
***
Jacinto Lourenço

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Os Dois tipos de Imbecilidade


Estou num vazio tal de inspiração que não me ocorre, sequer, uma imbecilidade para escrever. Até para se ser mentecapto é necessário ter inspiração. Existem dois tipos de imbecis: os superficiais e os profundos. Eu prefiro os imbecis superficiais, são mais genuínos, terra-a-terra, dizem imbecilidades sem nenhum tipo de pretensão e normalmente têm graça. Os profundos são mais elaborados, complexos, pedantes adulterados pelo estudo e que recorrem normalmente à imbecilidade dos outros para elaborar teorias tolas, com duplo sentido. «O idiota é aquele que, quando se lhe conta uma história com um duplo sentido, não entende nenhum deles» e «não existe nenhuma espécie mais perigosa de estupidez que a de uma inteligência aguçada». No entanto, «devemos ser gratos aos idiotas. Sem eles, o resto de nós não seria bem-sucedido». Por isso, amigos, «percebam que no mundo existem muito mais tolos do que homens, e lembrem-se disso». «Porque, por mais imbecil que eu seja, sempre haverá um imbecil maior para achar que eu não o sou.»

 Jaime Bulhosa

In Pó dos Livros

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Uma Voz que o Tempo não Consegue Calar




Ministros da República, da justiça, da guerra, do estado, do mar, da terra. Vedes as 

desatenções do governo, vedes as injustiças, vedes os sonhos, vedes os descaminhos, vedes 

os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes os respeitos, vedes as potências dos 

grandes, e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos povos, os clamores e os gemidos 

de todos ? Ou os vedes ou não os vedes. Se os vedes, como não os remediais ? E se não os 

remediais, como os vedes ? Estais cegos ? 

Padre António Vieira

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O Abismo Europeu...




Em Inglaterra, o governo prepara-se para fazer a vida negra a todos os emigrantes, sejam ou não comunitários, mesmo que serem ou não comunitários para o caso até é irrelevante. Dentro de pouco tempo, os emigrantes perderão o direito a qualquer subsídio de renda de casa se ficarem desempregados por mais de um ano e, suprema maldade, os estrangeiros que forem encontrados na rua a deambular ou a pernoitar como sem-abrigos serão presos e repatriados. A coisa dita sem sofismas resume-se assim: o actual governo conservador inglês tratará de criar, estou certo, desemprego entre os emigrantes para, a seguir, lhes retirar subsídios, retirada essa que levará a uma vida insustentável  e os conduzirá a  sem-abrigos . Ora,  encontrando-os nessa situação, as autoridades inglesas encarregar-se-ão de os prender e expulsar e  de regressarem ao país durante um período mais ou menos alargado de tempo. Mas quer fazer mais, o actual governo inglês; quer proibir os emigrantes, que chegam a Inglaterra com um contrato de trabalho, de usufruírem quaisquer direitos de acesso à Segurança Social inglesa nos primeiros dois anos que lá permanecerem. 

David Cameron, como é sabido, está com  dificuldades de relacionamento com o eleitorado britânico e é ainda apertado pela extrema direita de Nigel Farage, factos que lhe encolhem a estreita margem de confiança para as próximas eleições. Os designados eurocépticos também não lhe cedem espaço de manobra e pretendem que o parlamento inglês tenha poderes de veto sobre leis da UE  que atentem contra os interesses ingleses. Búlgaros, romenos e asiáticos, ao que parece, são  alvos preferenciais de Cameron e irão ter grandes dificuldades, mais do que a generalidade dos  trabalhadores comunitários, para entrarem no mercado de trabalho inglês. A grande contradição de tudo isto é que todos os estudos de especialistas ingleses comprovam que os emigrantes não são, em Inglaterra, um peso para os cofres da Segurança Social, bem pelo contrário,  são contribuintes largamente líquidos, mas Cameron  com  a sua política populista prefere não atender a isso no caminho da  estigmatização dos emigrantes, como acontece, aliás, já em alguns países do norte da europa.

 Como sabemos, Cameron  quer realizar, em 2017, um referendo que responda sobre a permanência ou saída da Inglaterra da União Europeia. A razão  prende-se com o facto de se entender, em Inglaterra, especialmente nos meios conservadores, que devem ser revistos os tratados da UE e devolvida a soberania perdida pelo país. Este é um braço de ferro entre o actual governo inglês e a comissão europeia.  Não sabemos como vai acabar, mas sabemos que tem todos os condimentos para não acabar bem, se atendermos ao facto de que, não pertencendo à zona euro, e neste caso ainda bem para os ingleses, a Inglaterra foi em boa parte deixada à margem  das grandes decisões sobre a europa que, como igualmente sabemos, abandonou há muito o sonho europeu  inicial transformando-se a UE numa organização semi-mafiosa onde o poder  financeiro é que decide da vida e da morte, da pobreza e da riqueza dos povos. Ora nesta balança de poderes perversos quem mais  perde são os povos, especialmente os do sul europeu, e quem mais ganha é a Alemanha e os grandes grupos financeiros e capitalistas que se movem nos corredores da UE e nos meandros da economia alemã. O problema é que a Inglaterra, que não quer estar do lado dos perdedores,  possui uma das maiores e mais influentes praças financeiras internacionais e os ingleses não estão dispostos a abrir mão desse privilégio para nada nem ninguém e muito menos para os poderes instituídos na UE à volta da zona euro que, como sabemos é, fundamentalmente, o braço armado dos interesses financeiros alemães.

É um pouco por tudo o que fica dito que a Inglaterra está a usar os emigrantes como arma de arremesso contra a UE, e ameaça ainda  com a revisão dos tratados europeus e com o referendo em 2017 para decidir, em definitivo, da saída ou não, do país da  UE.  Uma parte disto é bluff ,   outra parte  será  xenofobia e o que resta será verdade.

Não temos nada contra que os ingleses defendam os seus interesses enquanto país, gostaríamos até que o mesmo acontecesse por cá. Compreendemos igualmente a reivindicação da devolução de boa parte da soberania perdida e desejamos o mesmo para Portugal. O que nos causa repulsa é que Cameron utilize os emigrantes como arma de arremesso e a xenofobia como argumento político para conseguir os votos dos ultra-conservadores afim de poder ser reeleito no próximo acto eleitoral. O palco político europeu está destinado à realização de melodramas de segunda categoria e Cameron é um actor político menor, como aliás quase todos os que ocupam actualmente o poder em toda a europa, e é por isso que a  europa e o sonho europeu morreram e, neste momento, nada nem ninguém sabe ainda como é que tudo isto vai acabar para os europeus.

A extrema direita ganha poder e instala-se um pouco por todo o lado. Os valores negativos e nefastos contra os quais se ergueu a construção do sonho europeu no pós-primeira e segunda guerra mundiais voltam agora a bater-nos de novo à porta. A europa está  claramente cindida entre sul e norte. A Alemanha comanda e, ensina-nos a história, sempre que a Alemanha comandou ou quis comandar, as coisas acabaram mal. Há hoje, claramente, uma guerra intestina, dentro da UE, por poder e dinheiro. Uma guerra que se reparte entre dois grandes centros de influência: Berlim e Londres. Bruxelas, e Paris por agora,  não contam neste jogo, são meros actores secundários que se limitam a colocar-se  em bicos de pés para serem vistos. A França, como sabemos, só voltará à liça depois do flop chamado Hollande ter saído de cena e a direita, unida à extrema direita, ocupar de novo o poder em 2017, curiosamente a mesma data em que deverá ocorrer ( se ocorrer ) o referendo inglês que Cameron quer levar a efeito... 

Como vemos, não é fácil compreender e resolver a equação que serve de construção à matriz europeia actual, especialmente porque os dados da mesma se alteram constantemente, mas de uma coisa não tenho dúvidas: a europa, perdidos os seus valores cristãos e humanistas que foram sempre as suas grandes referências construtivas,  não sabe, neste momento, para onde vai, mas, continuando pelo actual caminho só poderá encontrar um abismo no fim. E nós, os povos que pouco ou nenhum peso têm para se fazerem ouvir, e que ainda por cima elegem, para os governarem,  partidos que mais não são do que centrais de empregos muito bem pagos e distribuição de dividendos financeiros e económicos pelos seus líderes e clientelas políticas, sim, nós os povos europeus que somos apanhados na trama implacável e mafiosa do ultra-liberalismo e da ganância imperial e económica de alguns países que nunca querem perder, pelos vistos não passamos de arma de arremesso. 

Deixo aqui em citação parte de um artigo publicado no Diário Económico por José Reis Santos intitulado Eunucos sem Pio. Mesmo enquadrando uma temática de fundo quanto à qual me posiciono do ponto de vista cristão   discordando forçosamente do autor do artigo no fundamental do mesmo e no que à essência da  família diz respeito,  o enquadramento do texto não deixa de retratar bem o que os povos europeus, em particular os do sul europeu, uns mais que outros, bem entendido são neste momento: Eunucos sem Pio.

No meu trabalho como historiador, investigando os anos 30, sou diariamente confrontado com a crescente hegemonia política e ideológica do fascismo no mapa político europeu e de como, paulatinamente, se processaram as transição para modelos autoritários de cariz totalitário e se desmantelaram, peça a peça, as instituições democrático-liberais construídas no pós-I Guerra Mundial.
Claro que bem longe da imaginação estava a barbárie do genocídio, mas era já bem patente que estes Estados autoritários promoveriam - a bem a Nação e da pacificação social - sociedades exclusivas e estanques, masculinas, e que utilizariam todos os métodos disponíveis, legais ou não, para forçar a construção de uma utopia fascista, um Homem Novo, xenófobo, racista, homófono e misógino por definição moral e ideológica. E assim, um após outro, se foram retirando direitos fundamentais a esta e a outras minorias, primeiro a socialistas e comunistas, depois a sindicalistas e judeus, homossexuais e deficientes, mulheres e negros. Contra esta sistematização legal poucos foram os que organizadamente se insurgiram, pois não se consideravam parte da minoria afectada.
Sabemos hoje o resultado desta desistência e estamos conscientes da capacidade de "entrismo" do fascismo nos edifícios institucionais das democracias (via eleições e governos) em momentos de crise, apoiados em promessas de pacificação social, desenvolvimento e revitalização económica, reapropriamento da soberania nacional e na incapacidade de actuação dos sistemas democráticos em momentos de conflitualidade social e insolvência económica. Aliás, já nos anos 30 alguns alertavam para este perigo e para a necessidade das democracias liberais construírem diques legais que impossibilitassem o acesso legal de tal ideologia ao poder; preocupações aliás muito visíveis na aliança entre sociais-democratas e democratas-cristãos no processo de construção europeia.[...]  

Jacinto Lourenço