segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Dia Mundial da Rádio - Incontornável Rádio




Nasci e cresci na era da televisão.  A emissão começava às sete da tarde e terminava às onze da noite. Pelo meio haviam ainda dois ou três interlúdios musicais onde só se via uma imagem qualquer, fixa, acompanhada por uma música de fundo. Nunca percebi muito bem o porquê desses interlúdios mas presumo que a programação devia ser muito diminuta e não dava para as quatro horas de emissão diárias.  Ou seja, tudo resumido, aquilo daria para aí umas duas horas de emissão com programação normal.

Estávamos no tempo em que os telejornais só duravam meia hora... E do Super-Rato  e  mais dois ou três personagens de desenhos animados que ainda hoje fazem parte do meu imaginário infantil. Festa, mesmo, na terra onde passei parte da minha infância,  eram as transmissões de corridas de touros ou os jogos da selecção nacional de futebol ou os dos clubes grandes de então, que são os mesmos grandes de hoje, quando jogavam para as competições europeias. De resto, tirando os dias de semana e sábados à noite, só havia televisão durante mais horas ao domingo mas, mesmo assim, só a partir do meio da tarde.  Pouco a pouco, a televisão  lá foi  evoluindo, ou (in)voluindo, para aquilo que é hoje. A questão é que aquilo que a televisão é hoje tem muito pouco de atractivo. 

 Apesar de lhe vaticinarem vida curta,  mercê do aparecimento da TV, o que pontuava a vida do povo, pelo menos na província,  era a rádio. Era a rádio que as pessoas  ouviam, já que, com excepção de uma ou outra família mais rica e de alguns cafés, mais ninguém possuía televisão privada em  casa. Era um luxo ainda incomportável para a época e  só o 25 de Abril de 1974 modificaria esse estatuto e daria abertura para o começo da vulgarização da televisão vista em casa.  Telefonia, sim, muita gente tinha, embora um trabalhador assalariado tivesse que amealhar durante algum tempo para comprar uma telefonia ou, em alternativa, pagá-la a letras durante um ou dois anos.

   A minha geração foi porventura a última a ter a marca distintiva da rádio de forma bem vincada na sua vivência. Era a rádio que dava sempre os relatos da bola e que concitava as atenções dos homens e rapazes ao domingo à tarde ( sim, os jogos realizavam-se todos, e sempre, ao domingo à tarde ). Para os mais velhos, e mais ou menos politizados, era também a rádio que trazia as notícias que não passavam no crivo da censura em Portugal. Nas ondas curtas os mais velhos e mais politizados sintonizavam a Rádio-Moscovo e a Rádio-Portugal livre. Tudo muito em surdina, tudo muito baixinho, que as paredes, nesse tempo, tinham mesmo ouvidos e muitas pessoas foram delatados à GNR local, por vizinhos ou "amigos" ( Portugal foi sempre, afinal, mais do que se pensa ou diz, um país de "bufos" )  por escutarem esses programas clandestinamente sendo depois presos e sujeitos ao respectivo interrogatório no 'Posto' e,  provavelmente,  se ficasse só por aí,  a uns "afagos" dos guardas...

Alguns programas da rádio ficaram para a história: O Serão para Trabalhadores, da FNAT, (actual Inatel) os Parodiantes de Lisboa, ou a primeira rádio-novela em Portugal: "Simplesmente Maria", que deu brado.

Em minha casa, a casa dos meus avós, nunca houve televisão, até porque a energia eléctrica só chegou à povoação no final da década de 60, mas houve, tanto quanto me lembro, sempre uma telefonia que era o centro de todas as nossas atenções. Era ela   a nossa ligação ao pequenino mundo português que se fechava sobre si próprio nas fronteiras com Espanha. Talvez por tudo isto me tornei um indefectível ouvinte de rádio. Ainda hoje, em qualquer divisão da casa onde eu esteja, salvo alguma ocupação que o não permita,  há sempre um rádio ligado para eu ouvir, normalmente ligado na Antena 1.  Não me agradam  estações de rádio sem gente dentro, que só passam música durante horas a fio, ( com uma rara excepção de grande qualidade ); bem sei que poupam em recursos humanos, mas para isso, para ouvir apenas música, tenho outros suportes mais modernos. Rádio é outra coisa diferente.

 Gosto de uma rádio atenta a tudo o que se passa à nossa volta, uma rádio que me traga o mundo sem me ocupar a visão com imagens de arquivo que nos adormecem ao cabo de alguns minutos de bombardeio noticioso. Uma rádio que não faz das notícias um repetitivo "enchimento de chouriços". Uma rádio que diz o que tem a dizer sem grandes delongas ou "floreados" bacocos.  Gosto de rádio com cultura, com entretenimento inteligente, com uma boa selecção musical, com diversidade de rubricas, actuais e interessantes, e pluralidade de programação que chegue aos vários  estratos populacionais. Depois é só escolher  o que mais me agrada.  Outras vezes ouço rádio sem estar a ouvir, apenas como companhia. Não gosto da solidão pela solidão. Nunca gostei de estudar em silêncio. Isolo-me mais facilmente,  para ler ou estudar,  num ambiente ruidoso do que numa sala onde esteja sozinho. Outras vezes posso simplesmente colocar uma música do meu agrado em fundo e assim vou embalado pelo som.

Quando o meu despertador toca, pela manhã, a primeira coisa que faço é ligar um pequeno rádio que tenho na cabeceira e ouvir o que se passou no mundo enquanto eu dormia, a situação do trânsito, o tempo que vai fazer, etc.  É raro, mas às vezes tenho insónias; então ligo o rádio e ponho uns auriculares. Ao fim de algum tempo "desligo-me" sem dar por isso e os auriculares  saltam-me das orelhas e vão à sua vida sem eu dar  conta. 

Sem rádio por perto, a minha vida seria  um pouco mais insonsa.   Entre a televisão, onde praticamente só vejo um ou outro telejornal e programação que coloco previamente a gravar, e a rádio, sem dúvida que prefiro a rádio, salvo quando a imagem se me impõe inevitavelmente.

Porque é que eu me decidi hoje a reflectir sobre este tema ? Primeiro porque se celebra, precisamente hoje, o DIA MUNDIAL DA RÁDIO, depois,  porque tendo sido  radialista amador durante uns bons anos, quer escrevendo textos quer fazendo a produção e locução  de programas, conheço muito bem qual o poder de penetração da rádio e a sua capacidade para poder chegar a lugares, impossíveis para outros meios. Depois porque sou um verdadeiro adepto radiofónico e da magia que se solta da 'caixa' todos os dias a qualquer hora e que continua a ter a capacidade de me surpreender. É evidente que sou muito criterioso na rádio que ouço. Em primeiro lugar, nas minhas preferências, está a Antena 1, companhia de muitas horas, mas também gosto da Antena 2, da Antena 3, da  TSF, da Rádio Smooth ou da RFM.  Depende muito do momento ou da programação.

Mas hoje, quando se celebra o DIA MUNDIAL DA RÁDIO, é também bom lembrar que, há uns anos atrás, quando a televisão se começou a impor,  muitos anteviam a morte da rádio. Tal como continuaram a vê-la, aliás, no advento de tantos gadgets e suportes capazes de armazenar e reproduzir som e imagem ou até mesmo na chegada da rádio exclusivamente transmitida via internet . Apesar disso, a velha Rádio cá continua, a adaptar-se aos tempos e à tecnologia e a evoluir na directa proporção em que a Televisão agoniza pese embora a imensidão dos recursos tecnológicos de visualização que esta tem ao seu dispor e a que a Rádio não pode deitar mão, por razões óbvias, e ainda bem, pois perderia, quanto a mim, todo o seu encanto.

É também bom lembrar, neste DIA MUNDIAL DA RÁDIO, que em Portugal se faz muito boa rádio, de excelência mesmo, a qualquer hora, do dia ou da noite, todos os dias. 



Jacinto Lourenço

quarta-feira, 22 de junho de 2016



Fui verificar a data do último texto que tinha publicado neste Blogue e fiquei surpreendido !  Dezembro de 2015 !!  Meu Deus, tanta coisa que já aconteceu em seis meses, foi o que pensei. 

     Não tenho vindo até aqui por manifesta falta de tempo. Actividades académicas não têm permitido uma maior assiduidade. Tive que colocar de lado muitas coisas que gostava de fazer e para as quais não tenho agora tempo. O tempo parece escorrer-me por entre os dedos e escapar-me de vez. Aproveito todo o que posso, mas nem sempre consigo fazer tudo o que desejo. E escrever, apenas por escrever também não é a minha especialidade. Quando escrevo é porque tenho algo para dizer, e algo que considero relevante. Não é porque me faltem temas relevantes para escrever, o que me falta é tempo para os escrever.

     Penso que este tema, o do tempo, do meu tempo, ou do tempo que me falta, ou das coisas que me sobram por fazer no tempo que tenho, vai ser recorrente até lá quase para o fim do ano. Entretanto virei aqui pontualmente para escrever, não de qualquer coisa que me apeteça, mas, seguramente, de algo que me carregue o espírito de urgência. Afinal, urgência, é também uma medida para o tempo. Urgência é um momento. O tal momento em que temos que fazer aquilo que não podemos deixar de fazer sob pena de sermos ultrapassados pelo tempo certo e exacto para o fazer.

     Oxalá o tempo não se oponha à felicidade de o usufruirmos parcimoniosamente.  É que, afinal, não somos donos do tempo, nem temos todo o tempo do mundo. Reconhecer isso é um bom e sábio princípio para  podermos usar o tempo que temos.

Jacinto Lourenço

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O Tempo que Separa e que Une


      Mostramo-nos ingratos em relação ao que nos foi dado por esperarmos sempre no futuro, como se o futuro (na hipótese de lá chegarmos) não se transformasse rapidamente em passado. Quem goza apenas o presente não sabe dar o correcto valor aos benefícios da existência; quer o futuro quer o passado podem proporcionar-nos satisfação, o primeiro pela expectativa, o segundo pela recordação; só que enquanto um é incerto e pode não se realizar, o outro nunca pode deixar de ter acontecido. Que loucura é esta que nos faz não dar importância ao que temos de mais certo? Mostremo-nos satisfeitos por tudo o que nos foi dado gozar.
Lúcio Aneu Séneca, in Cartas a Lucílio, ed. Fundação Caloustre Gulbenkian


    A temporalidade é evidentemente uma estrutura organizada, e esses três pretensos "elementos" do tempo, passado, presente , futuro, não devem ser considerados como uma colecção de "dados" cuja soma deve ser feita - por exemplo, como uma série infinita de "agora", alguns dos quais ainda não são, outros que não são mais -, mas como momentos estruturados de uma síntese original. Senão encontraremos, em primeiro lugar, este paradoxo: o passado não é mais, o futuro ainda não é, quanto ao presente instantâneo, todos sabem que ele não é tudo, é o limite de uma divisão infinita, como o ponto sem dimensão.
Jean-Paul Sartre in O Ser e o Nada, (via Citador)

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

A sacralização da Direita e a diabolização da Esquerda...






Tinha acabado de fazer 20 anos quando aconteceu o 25 de Abril em Portugal. Sobre esse momento já passaram mais de 4 décadas. Embora nunca tenha sido analista político, não precisei de muito tempo, após um ou dois actos eleitorais, para perceber o rumo que o país iria seguir. Mas confesso que, depois da adesão de Portugal à então CEE, nada me poderia levar a supor que esta evoluísse na direcção que evoluiu e se transformasse numa hidra que abocanha a soberania das nações, especialmente das mais pequenas, e a reduz a um mero espasmo de subserviência ou a um tipo de balcão único  de representação  da plutocracia instalada em Bruxelas.

   Num curto lapso de tempo, depois de se ter percebido que o partido socialista não iria fazer qualquer tipo de favor à direita para a manter à tona, eis que se agitam todos os fantasmas e se ameaça com os piores anátemas essa  'heresia'  que se ergue de eventualmente poder vir a existir um governo que congregue o partido socialista e as forças partidárias à sua esquerda com representação parlamentar, como se o voto que elegeu os deputados da direita merecesse mais crédito do que a maioria dos votos que elegeram as forças da esquerda. Que eu saiba, o voto, um voto, seja ele qual for, depois de entrar na urna, não revela casta, cor ou cheiro; trata-se de um pedaço de papel com uns quantos símbolos partidários inscritos e sobre um dos  quais o cidadão eleitor, qualquer cidadão eleitor,  apôs uma cruz que determina a sua vontade sobre quem gostaria de ver a governar o país. Mas parece que agora, de repente, se descobriu em Portugal, e na Europa, que o voto de um cidadão eleitor de direita tem sempre mais valor para eleger quem deve governar do que o voto de um cidadão eleitor de esquerda. Ou melhor: para a direita, o que interessa no Sufrágio Universal Secreto e Directo é que, seja qual for a quantidade de votos que consiga obter, seja sempre ela a governar porque só ela tem o direito de o fazer, como se os seus votos passassem por um processo de transubstanciação que transformasse uns pedaços de papel com alguma tinta em algo de transcendente. Se o mesmo Sufrágio Universal Secreto e Directo, colocar a maioria dos votos nas forças à sua esquerda, aí já não pode ser, essas forças não podem governar porque são de esquerda.

     Ou seja: na verdade, o que as forças da direita , em Portugal e na Europa, intuíram desde há uns anos a esta parte é que nós, portugueses e europeus, temos um sistema eleitoral baseado num sufrágio censitário, ou dinástico, sei lá, em que só os votos de uns quantos plutocratas e dos seus representantes e clientes  podem ser validados para eleger quem governa em Portugal  porque só eles são os 'lídimos portugueses'. Os votos dos portugueses apontados à esquerda são, para toda essa gente que anda agora abespinhada com a possibilidade de ser o partido socialista e as forças da esquerda a governarem, assim como que um género de votos iconoclatas, anti-naturais, não transubstanciados, feios, porcos e maus e logo não podendo ser tidos em conta para que com eles se possa governar em Portugal, mesmo que até representem a maioria da vontade do povo. É o principio antinómico da sacralização da direita e da diabolização da esquerda, especialmente se a esquerda não manifestar espasmos de subserviência para com Bruxelas, ou não aceitar um qualquer exorcismo que a submeta aos poderes da hidra.

Jacinto Lourenço

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Não Acredito em Papões...



Este tempo que vivemos, de uma acentuada bipolarização político-partidária entre esquerda e direita traz-me à memória o ano em que fui chamado a cumprir o serviço militar obrigatório: 1975. Ficou conhecido como o ano do 'verão quente de 75'. A radicalização político-militar-partidária subiu a níveis que pareciam só ter fim com uma guerra civil. Em dois ou três momentos estivemos lá perto. O 11 de Março esteve quase a constituir-se no pavio que incendiaria tudo. Depois veio o 25 de Novembro e acalmou.
Fazia a especialidade na EMEl de Paço de Arcos. Uma manhã, fui chamado ao serviço para subir para as traseiras de uma Berliet posicionada no interior do quartel e virada para o portão sul da unidade. Dentro da viatura, por detrás de uns sacos de areia, uma metralhadora pesada Breda. Explicaram-me à pressa como funcionava e como se municiava. " - Ficam aí ( eu e outro camarada) até serem rendidos ! " " -E que é que fazemos ?" Perguntei. "Disparam se algum carro de combate deitar o portão abaixo !" Era a ordem. Vim, horas depois, a descobrir que as forças contra quem devíamos disparar pertenciam à chamada contra-revolução e eram encabeçadas pelos Comandos de Jaime Neves e pelos Para-Quedistas, entre outros. Não vou aqui revelar o que é que eu e o meu colega combinámos fazer se o portão fosse abaixo, mas a nossa vontade de disparar era nula, até porque o poder de fogo de Jaime Neves faria ir a Berliet pelos ares num ápice. Além do mais, a Breda estava toda enferrujada e não sei há quantos anos não era usada. Felizmente não aconteceu nada. Mas isto mostra ao que a radicalização das ideias pode levar.
As duas datas que citei, fracturaram completamente as forças armadas e radicalizaram-nas entre esquerda e direita, mas também a sociedade civil na altura se radicalizou à volta disso e da unicidade sindical defendida pelo PCP e a unidade sindical defendida pelo PS. Foram grandes as manifestações contra e a favor de qualquer das opções. Acho que nunca vi em Portugal tão grandes e tão encarniçadas manifestações. A isto tudo, somou-se a luta e as enormes manifestações dos SUV ( Soldados Unidos Vencerão) contra o stato quo da hierarquia militar. Pelo meio, aconteceram algumas mortes. O País cindiu-se politicamente em dois.
Bem sei que o que observamos agora em Portugal  não tem nada a ver com o relato que aqui deixo, mas pode eventualmente explicar muito. As posições estão extremadas, e isso não vai seguramente ser bom para o país. Observo nas redes sociais, como o FB, muita gente a digladiar-se sobre quem é melhor para governar. Noto azedumes a virem ao de cima. Suspeições, acusações, até ofensas. Pessoalmente não irei alimentar essa fogueira, mas não posso, nem devo defender quem, ao longo dos últimos quatro anos empobreceu, em extremo, o país, indo "além da Troika". Um governo que em 2011 foi constituído com base em promessas eleitorais mentirosas, que obrigou perto de 400 mil pessoas a emigrar, que cortou salários, pensões, na saúde, na educação, nos cuidados à infância e aos idosos, aos mais desfavorecidos. Que ignorou a cultura e ostracizou a ciência, que esmagou a classe média com "um enorme aumento de impostos", taxas e taxinhas, que ultrapassou todas as linhas vermelhas que ele próprio traçou, que exponenciou uma divida pública que os portugueses das próximas gerações terão que pagar com língua de palmo ( e bem sei que não foram os únicos responsáveis, mas são responsáveis por terem feito o mesmo que outros ), que malbaratou o património empresarial nacional com privatizações que colocaram as nossas principais empresas nas mãos do estado chinês e da cleptocracia angolana, etc, etc e que, em resumo, pretendeu sempre governar à margem da constituição. Um governo que fez isto, não pode continuar a governar como se nada tivesse acontecido, ou como se a sua obra fosse digna de registo. Não! Se alguém acha que pode fazer melhor, deve governar, para julgar temos as eleições. Aprendi que radicalizar é uma coisa perigosa, mas também não acredito em papões saídos dos idos de 75, como os que agora se agitam por aí.
Jacinto Lourenço

sexta-feira, 6 de março de 2015

Viver num País em estado de Esquizofrenia Colectiva


Cada dia que passa  mais me convenço que vivo num país em estado de esquizofrenia  colectiva.  Depois de quase  meia dúzia de anos a serem explorados, roubados, espoliados, humilhados e enxovalhados, os portugueses, quando tudo podia levar a supor que tivessem ganho  alguma experiência com tão amargas vicissitudes, voltam - a fazer fé nas últimas sondagens – a dizer que vão votar, nas próximas eleições legislativas, nos mesmos partidos e homens que os fizeram amargar e passar por tão difíceis condições que levaram ao empobrecimento, à miséria de muitos, à emigração massiva e forçada de jovens que tanta falta faziam ao país, ao desemprego  na casa dos 20 %, à penhora  de habitações e despejo das famílias em números nunca vistos em Portugal, ao aumento exponencial da dívida pública, ao escândalos  económicos  de BPN, BES, PT, etc, e que estamos a pagar, à transferência de fundos dos bolsos dos pobres para a conta dos ricos, à degradação do Serviço Nacional de Saúde procurando substituí-lo por uma saúde privada a que só têm acesso  os que puderem pagar um seguro de saúde ou aqueles a quem as empresas privadas o atribuírem, da escola pública em benefício da privada com a degradação ostensiva e calculada da primeira, à  delapidação  dos melhores e mais  lucrativos  activos do estado e da sua entrega ao capital privado , na maior parte estrangeiro , etc, e isto para só lembrar um pouco daquilo que todos, ou quase todos,  sabem.

Em Belém, devíamos ter um Presidente, mas temos apenas um residente, que nem sequer paga renda, e que dispõe de um orçamento sumptuoso e escandaloso  especialmente quando comparado com outros no estrangeiro, em países com diferentes capacidades económicas,  e que disse ao que vinha logo no discurso de vitória na noite das últimas eleições presidenciais.   No (des)governo , está um pequeno exército de copistas e replicadores das políticas da srª Merkel, que, como é evidente, só interessam à srª Merkel.  Na oposição trocaram o chamado líder da oposição, que diziam enfermar de frouxidão, por outro tão frouxo como o seu antecessor  mas a que junta  a desgraça de ser desastrado e ausente, isto, claro, para além de não se lhe conhecer qualquer tipo de ideia para o futuro do país que vá além de dizer mal do principal adversário. Ora, como bem sabemos, só isso, não serve para reerguer Portugal da miséria moral e material  em que caiu.

Para finalizar, sabemos agora que o ‘impoluto’ primeiro-ministro, afinal, utilizou o ‘esquecimento’ ou  ‘ignorância’  legal  como argumentos  para justificação de evasão de pagamento de impostos e contribuições.  E, para além de ele próprio achar que tem condições  para  continuar a (des)governar,  outros,  como o  residente de Belém,  não se pronunciam, não vá alguém lembrar-se, outra vez,  dos processos, pouco claros, que permitiram que ele usufruísse de mais-valias ao alcance apenas de alguns amigos de Oliveira e Costa, no BPN, ou ainda dos esquemas, também nunca esclarecidos, que facilitaram a construção da sua nova  moradia algarvia, na mesma rua onde muitos  dos seus amigos do BPN também possuem uma.

Face a tudo isto, os portugueses acham que os partidos que os (des)governam e levam à miséria há muitos anos, devem continuar com terreno livre para concluir, ou continuar a sua obra.  Isto tem um, ou vários  nomes : esquizofrenia, fuga para a frente, atraso, embrutecimento, amorfismo, baixa auto-estima, estupidez.   E disto, eu não partilho.

Se tenho alternativa ? Não sei se tenho ! Mas uma coisa faço: se estou à beira do abismo nunca dou um passo em frente, recuo, fujo dali, não deixo que me empurrem.


Jacinto Lourenço

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Rádio é outra Coisa - 13 de Fevereiro, Dia Mundial da Rádio


Há coisas que não se explicam, e esta é uma delas: não consigo passar um dia sem ouvir rádio. É aliás uma das primeiras coisas que faço de manhã, quando acordo; ligar o rádio. Mas não ouço qualquer tipo de rádio ou qualquer estação de rádio. A rádio, como a televisão, hoje, tem escolha. Já não é como nos meus tempos de criança e adolescente em que ouvir rádio significava ouvir Emissora Nacional, Rádio Clube Português ou, se morássemos em Lisboa, os Emissores Associados ou uma ou outra rádio de menor dimensão e alcance. Depois havia as ondas curtas, para ouvir a Rádio Moscovo ou a Rádio Portugal Livre, de que o meu avô José era atento ouvinte. Também se podia ouvir a BBC, mas isso, claro, o meu avô José não fazia por não saber inglês. Ouvir  rádio, nesse tempo, nos anos 60 e início de 70, podia ser, de acordo com o regime vigente, uma atitude subversiva e "anti-patriótica". Mas toda a gente ouvia. Os que eram anti-salazaristas ouviam as ondas-curtas para saberem o que se passava no país. Os Salazaristas ouviam também, mas por razões contrárias: para saberem o  que diziam os ingleses da BBC, e os comunistas da Rádio Moscovo sobre o que não se passava no país.  A rádio, nesse tempo, era das poucas alternativas dos pobres, e especialmente dos pobres e assalariados rurais no sentido da amenização das suas  difíceis condições de vida. Televisão era algo ainda incipiente e só durava duas ou três horas por dia, com uma programação onde a transmissão de uma corrida de touros ou de um evento desportivo eram uma autêntica pedrada no charco. Claro, também se podia ver os desenhos animados ao domingo à tarde.  Mas rádio sim, era outra coisa. Passava a "Simplesmente Maria", os "Parodiantes de Lisboa", o "Serão para Trabalhadores", os "Discos Pedidos", os concursos para eleição do rei e da rainha da rádio, ganhos invariavelmente por Madalena Iglésias, Simone de Oliveira, António Calvário, Artur Garcia, Fernando Farinha ou Tony de Matos. Ouvia-se também as peças de teatro onde pontificavam os grande actores nacionais de então. Enfim, outro tempo, em que a rádio era uma referência de todos.

A Rádio marcou a minha geração. Nela ouviam-se os relatos da bola ao domingo à tarde,  sim, porque os jogos realizavam-se, todos, e sempre, ao domingo à tarde.  O 25 de Abril trouxe as "Rádios-Piratas", onde eu próprio fui radialista, e o país radiofónico havia de se transformar bastante e, quanto a mim, para melhor. A rádio reinventou-se. Teve que fazer face à televisão, à explosão de novos meios de comunicação, aos jornais, à Internet. Quando todos lhe prognosticavam a morte, eis que ela aí está, mais viva do que nunca, com mais estações do que nunca. Rádio para todos os gostos, todas as idades, todos os momentos do dia ou da noite. Rádio que levamos connosco para a praia, para o campo, para o carro, para a rua. para a cama, até para a casa de banho. A rádio faz-nos companhia em todas as circunstâncias e ocasiões e, normalmente, é a primeira a trazer-nos as boas ou más notícias. 

Em minha casa, a casa onde cresci, a casa dos meus avós, nunca houve televisão, até porque a energia eléctrica só chegou à povoação no final da década de 60 e a televisão, alimentada a gerador, era um 'luxo'  algo recente a que poucos particulares podiam ainda aceder,  mas houve, tanto quanto me lembro, quase sempre,  uma telefonia que era o centro de todas as nossas atenções. Era ela   a ligação ao pequenino mundo português que se fechava sobre si próprio nas fronteiras com Espanha.  A rádio era assim como que uma evasão espiritual e mental para quem habitava um país que uma ditadura teimava em manter como ilha de criminoso subdesenvolvimento e atraso cultural e civilizacional. Era, dentro do "Estado Novo", o único meio de comunicação que possibilitava uma pequena amostra de democracia. E talvez por tudo isto me tornei um indefectível ouvinte de rádio. Possúo uns sete ou oito aparelhos de rádio, dois deles com mais de cinquenta anos, a válvulas, e ainda a funcionar . Ainda hoje, em qualquer divisão da casa onde eu esteja, salvo alguma ocupação que o não permita,  há sempre um rádio ligado para eu ouvir, como é o caso agora mesmo, enquanto escrevo e ouço a emissão especial da Antena 1.   Gosto de  estações de rádio com gente dentro. Já as rádios temáticas, que só passam música durante horas a fio, não me dizem muito, salvo uma ou outra honrosa excepção.  Bem sei que poupam em recursos humanos... Mas se é  para ouvir apenas música, então  tenho outros suportes mais modernos. Rádio é uma coisa diferente.

 Gosto de uma Rádio atenta a tudo o que se passa à nossa volta, uma Rádio que me traga o mundo sem me ocupar a visão com imagens de arquivo que nos adormecem ao cabo de alguns minutos de 'bombardeio' noticioso. Gosto de uma Rádio que não faça das notícias um repetitivo 'enchimento de chouriços'. Uma Rádio que diz o que tem a dizer sem grandes delongas ou 'floreados'  bacocos.  Gosto de rádio com cultura, com entretenimento inteligente, com uma boa selecção musical, com diversidade de rubricas, actuais e interessantes, e pluralidade de programação que chegue aos vários  estratos da população. Depois é só escolher  o que mais me me agrada.  Outras vezes ouço rádio sem estar a ouvir, apenas por companhia. Não gosto da solidão pela solidão. Nunca gostei de estudar em silêncio. Isolo-me mais facilmente,  para ler ou estudar,  num ambiente ruidoso, sem exagero, do que numa sala onde esteja sozinho.

É raro, mas às vezes tenho insónias; então ligo o rádio e ponho uns auriculares. Ao fim de algum tempo 'desligo-me'  sem dar por isso e os auriculares  saltam-me das orelhas e vão à sua vida. 

A Rádio acabou por marcar um pouco do que eu sou como pessoa, pelas melhores razões. Fui radialista  durante cerca de 17 anos e, tudo somado, dá como resultado que, sem Rádio por perto, a minha vida seria sem dúvida um pouco mais insonsa. 

Felizmente que em Portugal se faz muito boa e variada Rádio. Obrigado a todos os que a produzem, realizam e trazem até nós, os ouvintes.

Jacinto Lourenço  

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Em que Cremos quando Cremos em Deus ?





...Acreditei que Deus brinda – galardoa, abençoa - determinados filhos com milagres. Mantive por anos a certeza de que o Todo Poderoso interfere, indiscriminadamente, na história com alívio, prosperidade, cura, avanço profissional, proteção e longevidade. Jamais ousei indagar seus critérios. Hoje pergunto: Como conceber uma divindade justa se ela realiza suas maravilhas sem critério algum? Demorei a atinar: se Deus ama com gratuidade, milagres não podem vir para os mais capazes, mais eficazes e mais merecedores.
A guinada radical em meus conceitos se deu no dia em que assisti a uma reportagem sobre crianças aidéticas no Congo. O jornalista mostrou os corredores imundos de um pequeno hospital. As imagens gráficas e chocantes me desmoronaram. Diante do sofrimento, cara-a-cara com meninos e meninas agonizando sobre finos colchões de plástico, um monte de certezas ruiu. Com os olhos marejados de lágrimas eu me via encalacrado. Depois, a câmera foi até o necrotério refrigerado, já sem lugar para tantos corpos. A velha teologia que me dera um falso chão não resistiu. O choro das mães nos corredores explodiu o que até então parecia indubitável.
Pensei: Se existe um Deus  justo, que ama gratuitamente, não é possível que ele faça milagres em meu pequeno mundo ou no estado do Texas e dê as costas para tanto sofrimento no Congo.
A partir desse dia, procurei me desfazer dos clichês que eu usava para explicar os horrores da vida. Eu já não queria lidar com a aflição humana com o cinismo do religioso: Não importa a realidade, importa o que o texto sagrado diz. Não aceito que repitam que a raça humana se desgraçou em Adão e, por isso, padece as consequências funestas e intermináveis do seu pecado. Meninos e meninas condenadas ao inferno de Serra Leoa, Sudão, Congo, não pediram para nascer. Não há lógica no universo que justifique o que percam em vida.
Não posso celebrar minha condição privilegiada, ou a sorte de abençoado, enquanto multidões nascem, morrem e são enterradas sem sequer possuírem registro oficial de que existiram. Não consigo afirmar que os mais destituídos e pobres foram criados por Deus como vasos de desonra - como ensina o calvinismo. A doutrina da dupla predestinação que reformados defendem com ardor secular me é detestável. A dignidade humana não merece ser rebaixada a mero dente em uma engrenagem estratégica de Deus. Não aceito que o Criador possua uma vontade permissiva; e que, para trazer glória a si mesmo, ele faz vista grossa ao mal.
Essas certezas se pulverizaram em minha alma e por não ter calado, recebi rótulos odiosos: apóstata, herege, desviado. Minha metamorfose aconteceu, entretanto, porque eu busquei responder às inquietações da alma. Sei, ainda engatinho nessa jornada espiritual. Meu coração percebe, contudo, que Deus não é tão minúsculo quanto me ensinaram, e acreditei. Ao me despedir das divindades que povoaram uma fé pueril, não confesso: eu ainda creio. Digo apenas: eu volto a crer.
Soli Deo Gloria
Ricardo Gondim in blogue de Ricardo Gondim

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

No Limbo entre o Purgatório e o Inferno...



Portugal está numa situação insustentável. Está num limbo entre o purgatório e o inferno. Os portugueses sentem-se encurralados e sem saída, ou melhor, têm duas saídas: o abismo e a fuga para a frente. Não sei qual vai ser escolhida, mas nenhuma augura nada de bom.

Estávamos nós mergulhados na letargia habitual da nossa triste vida colectiva, a que nos deixámos conduzir como nação, quando, de repente, somos despertados num estertor de notícias pavorosas vindas dum subterrâneo político-institucional-social que nos alertou para o facto de que, afinal, as coisas são e estão muito piores do que imaginávamos,  neste país de brandíssimos e amórficos costumes.

De repente percebemos que os vistos dourados de Portas e Macedo eram ( e são ), afinal, uma porta dourada para actuações verdadeiramente mafiosas, no pior sentido da palavra.   A rede de interesses urdida por criminosos revestidos com a  pele de altos quadros do estado é assustadora. Há de tudo: criminosos que utilizam os seus cargos na administração pública para 'facilitarem' vistos de permanência, residência  e circulação a gente que chega com malas de euros conseguidos sabe-se lá como e onde ( só desconfiamos...), políticos que telefonam a esses corruptos a pedir favores para 'amigos' e 'conhecidos', juízes que jantam com os criminosos e corruptos e com os clientes destes, serviços secretos do estado, onde se encontram parqueados os amigos dos corruptos,  que fazem limpezas informáticas, varrimentos  e despistagens a  escutas e vigilâncias electrónicas nos gabinetes dos criminosos e a pedido destes, os mesmos criminosos a telefonarem a juízes queixando-se do 'aborrecimento' que é saberem que estão a ser escutados e vigiados, ministros que vão até Ayamonte só para se encontrarem  com os seus amigos corruptos e falarem longe das escutas telefónicas das polícias portuguesas, etc, etc. E isto, meus amigos, é só aquilo que a comunicação social nos vai trazendo, o grosso das coisas, estou convencido, nem chega ao nosso conhecimento pois é abafado nos gabinetes, nos corredores sombrios ou nos esconsos dos edifícios do poder ou da administração pública ou, quiçá, mais criativo ainda, à mesa de um qualquer café em Badajoz,  Ayamonte ou Cáceres.

Como se  não bastasse, do parlamento chega-nos a notícia de que os políticos que passaram 12 anos a executar 'arriscadas', 'perigosas' e 'desgastantes' funções políticas naquele lugar, voltam a ter direito à pensão vitalícia que lhes foi cortada com a crise. Claro que, todos os outros 'privilegiados' pensionistas portugueses, da Segurança Social e da Caixa Geral de Aposentações,  que viram 'muito justamente' as suas pensões sistematicamente cortadas e atacadas pela usura e captura fiscal do governo, continuarão sem receber aquilo que era seu, de direito, por uma vida inteira de trabalho, muitos desde crianças de tenra idade. E pasme-se, ou talvez não, o entendimento para que as subvençõezinhas desses 'denodados' deputados e políticos chegasse a bom porto vem de deputados do PS e PSD, os mesmos partidos que têm governado Portugal nos últimos 40 anos e que nos levaram à situação onde estamos.  Costa ainda nem chegou ao poder mas, falando, sem falar, ou mandando outros falar em seu lugar,  já todos percebemos as suas linhas de orientação para o futuro do país: mais do mesmo que temos tido desde 2011.

Mas ainda não é tudo. Ontem assistia no canal generalista da SIC à reportagem sobre o BPN e a Parvalorem, esta última é a empresa que ficou com os activos financeiros tóxicos do banco para que este fosse entregue, limpinho e sem osso,  ao BIC Angolano, pelos tais 40 milhões de euros. Um negócio no mínimo estranho e obscuro, como é bom de ver.  A reportagem  não deixa lugar a dúvidas: está confirmado e reconfirmado que  o aparelho de estado foi e continua a estar capturado por  mafiosos e criminosos que ostentam uma pele de gente elegante, bem falante e de trato fino.  Uma grande parte  dos ex-gestores  e ex-directores do BPN, que ajudaram a administração da central criminosa, que era o banco, a concretizar os seus crimes, roubos e desvios de grandes somas de dinheiro, e que todos estamos a pagar, estão agora colocados na Parvalorem  em elevados cargos de gestão, principescamente  remunerados como convém, mesmo depois de terem sido julgados e condenados por participação na ajuda à administração no saque ao BPN. E, imagine-se que, 'sem surpresa nenhuma', até o filho de Oliveira e Costa se apresenta, religiosamente, todos os dias, para cumprir o seu horário sem que se saiba muito bem o que por lá anda a fazer para além de receber o ordenado ao fim do mês e eventualmente catar documentos que possam eventualmente incriminar, ainda mais, a quadrilha do BPN .

Perante isto, dez milhões de portugueses, assistimos passivamente, como se tudo se estivesse a passar a milhares de quilómetros da nossa costa, como se não nos dissesse respeito, como se não ocorresse no nosso país, como se não fosse a nossa vida, a dos nossos filhos e filhas, a dos nossos netos.  Andamos a construir uma nação há novecentos anos. Somos um povo velho ( e agora de velhos ).  Devíamos ter vergonha por deixarmos, de facto, que isto aconteça a uma nação supostamente adulta e a um povo supostamente autónomo e dono de si próprio. O sebastianismo que nos vai na alma é uma coisa dolorosa, doentia, purolenta.                                                                                                                                                                  
 Estamos sempre à espera de algo ou de alguém providencial que nos mude o fado, como se esse  fosse o nosso destino secular. Recusamos erguer a indignação mais além da fronteira de uns desabafos  raivosos debitados nos fóruns radiofónicos e televisivos, ou à mesa do café, numa tertúlia conspirativa com os amigos,  desfiando o nosso fadário,  em surdina, sim,  porque as paredes voltaram a ter ouvidos, e nunca sabemos quando alguém quer ficar com o nosso emprego por menos duzentos ou trezentos desgraçados euros.

Somos realmente um povo estranho ou, pelo menos, nos últimos anos da nossa história, deixámos de atender ao essencial da dignidade que reveste a existência de uma nação enquanto tal.


Jacinto Lourenço





quinta-feira, 11 de setembro de 2014

11 de Setembro: Nada será como Antes



Hoje já ninguém tem duvidas sobre o que realmente aconteceu no fatídico dia 11 de Setembro de 2001.
A verdade é que uma data assim, marcada por acontecimentos tão macabros, nunca mais se esquece, por muitos anos que vivamos. O 11 de Setembro mudou, em definitivo, o mundo e os seres humanos, socialmente, economicamente e politicamente. O planeta tornou-se num sítio mais feio para viver e conviver.                                                                                       

Sabemos sempre e exactamente onde estávamos, o que fazíamos naquele momento, com quem estávamos e como nos chegou a notícia pela primeira vez levando a que nos precipitássemos para as televisões para, incrédulos, contemplarmos, em directo, uma elegia à loucura humana que, em nome de deus, de um deus menor, de um deus qualquer, acabava de assassinar mais de 3000 pessoas. Perguntamo-nos, ainda hoje, como é que foi possível ? ! Julgo que, o diálogo inter-religioso entre as nações do islão e as nações cristãs, por muitos anos, terminou ali no "Ground Zero", perdido por entre a poeira das torres gémeas e os restos de seres humanos que se lhe juntaram. Nunca mais, até hoje, foi possível ensaiar uma aproximação séria e honesta a esse diálogo de tolerância.  O terrorismo alcandorou-se a patamares nunca antes atingidos. Ganhou escala. Ressuscitou todos os fantasmas. Domina povos e países inteiros. Trouxe-nos de volta a idade média.

Há duas ou três coisas fundamentais para restabelecer a confiança entre as pessoas e os povos: reconhecer que estamos errados no fundamentalismo e no radicalismo religioso. Praticar a tolerância em relação ao nosso próximo, perdoar e ser perdoado.  Mas isso é uma quimera enquanto a lei do terror for a regra para muitos. 
Entretanto, enquanto escrevemos este texto, o nome de Deus continua a ser usado para justificar a matança de seres humanos de um e de outro lado da fronteira religiosa.
"Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize." João 14:27


Jacinto Lourenço

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A Pedagogia dos Valores




Já escrevi anteriormente sobre este tema, dos jovens, do seu presente e do seu futuro, mas também dos seus pais e encarregados de educação e da forma como interagem uns e outros sabendo das responsabilidades inerentes no plano dessa interacção.

Bem sabemos que o paradigma dos adoslescentes e jovens de hoje é bem distinto do de há três ou quatro décadas atrás, contudo há coisas que nunca mudam.  Mas na  verdade, para as actuais gerações de pais e educadores, ou mesmo desde há uma ou duas gerações para cá, essas coisas de que falo, e que nunca mudam, foram simplesmente banalizadas ou completamente relativizadas e o resultado disso espelha-se nos comportamentos que observamos nos adolescentes e jovens  e nas consequências que eles traduzem.

Não quero trazer à colação os meus valores cristãos para que não se diga que este pequeno texto reproduz ideias feitas ou influências de vínculo religioso . Quero  apenas olhar para algumas pequenas/grandes diferenças que encontro entre a matriz educacional e de valores ( as tais pequenas coisas que nunca mudam ) que foi  transmitida à minha geração e a mais uma ou duas gerações posteriores à minha e que, por muito que me esforce, não consigo encontrar na generalidade das actuais gerações de jovens nem de pais e educadores.
Longe de mim reivindicar a ideia do retorno ao trabalho infantil ou algo parecido, porém a minha geração aprendeu desde cedo o valor do trabalho, a sua dificuldade, a sua necessidade e recompensa enquanto factores de evolução pessoal e humana, fosse na escola ou fora dela  na ajuda aos familiares nas mais diversas tarefas domésticas ou mesmo em pequenos trabalhos agrícolas, oficinais ou outros.

Nas férias grandes era seguro e sabido que não ficaríamos a curtir o corpo na cama até às duas ou três da tarde mas que teríamos de acompanhar os nossos pais ou educadores até ao seu local de trabalho e ali permanecer grande parte do dia, ou então ser-nos-ia encontrada uma ocupação, a troco de uma pequena remuneração, num qualquer comércio, escritório ou oficina afim de não ficarmos entregues a nós próprios em casa ou na rua.  Se gostávamos ?  Claro que não !  Mas nada disso nos retirava o tempo para a brincadeira e convívio com os amigos ao final da tarde. Os serões, sentados nas soleiras das portas a ouvir histórias dos adultos ou a observar as estrelas no firmamento e a aprender eram uma animação e uma experiência irrepetível nas nossas vidas.  Sorvíamos cada momento,  cada experiência,  cada história.   Hoje o que vemos é os adolescentes completamente desocupados ou envolvidos com os seus gadgets quase todo o tempo que estão acordados. É a isso que se resume o seu pequeno mundo somado aos encontros de grandes grupos que pululam nas ruas até de madrugada quer provocando desmandos ou ruídos inadmissíveis, quer grafitando paredes de prédios com caracteres meio góticos  que só a sua tribo entende. Hoje o que observamos nos pais e encarregados de educação é a preocupação em rodearem, a uso e a desuso, os seus filhos e educandos de todo o conforto possível e impossível, a propósito ou despropósito, merecido ou imerecido sem que tal resulte de um critério educacional compreensível ou de uma escala de valores bem graduada.

Interrogo-me sempre sobre a qualidade do sono dos pais que permitem que os seus adolescentes e jovens, na maior parte dos casos ainda menores de idade, deambulem fora de casa, dia ou  noite dentro, sem qualquer tipo de controlo tutelar. Admito que, para alguns  pais e educadores, isso possa ser  uma alegria, um tempo de recreio em que não têm que se preocupar, achando que os seus filhos são um exemplo e os melhores filhos do mundo. Puro engano. Os seus filhos são iguais aos de todos os outros pais e com comportamentos iguais aos de todos os outros rapazes e raparigas quando deixados em roda livre e “entregues aos cuidados” e "conselhos" do seu grupo de amigos. Mas pelos vistos esses  pais e educadores acham que não e descansam nessa perigosa hipótese. O resultado é o que se vê e que algumas vezes aparece nos meios de comunicação social.

Sim, não peço desculpa por achar que aos filhos e educandos devem ser ensinados, além de outros, também os valores do trabalho enquanto ferramenta  útil de socialização e promoção social e humana e isso nada tem a ver com exploração de trabalho infantil. Mas muitos pais e educadores, quais moderníssimos  pedagogos  acham que os seus filhos devem ser “protegidos” dos “malefícios” dessa aprendizagem, preferindo que eles fiquem entregues a si próprios enquanto não estão na escola, ou quando estão de férias fora desta. E os resultados dessa opção estão à vista na civilidade comportamental das gerações juvenis actuais, na interacção com as gerações mais velhas, na  cada vez maior e incontrolada indisciplina nas salas de aula, na ausência do respeito devido aos professores que os ensinam e na falta de aplicação nos estudos com o insucesso escolar conhecido no país.

Existe um défice de compreensão elevado, da parte de muitos pais e educadores, mas também do estado, quanto a estas matérias e  sobre a sua importância, e alguma coisa precisa ser feita, a começar em casa, no seio familiar, sim, porque é aí que se educam os filhos, mas também no âmbito das  políticas de enquadramento sócio-económico dos jovens e na responsabilização cívica dos pais e educadores que continuam a achar que cabe à escola e não a eles educar os seus rebentos.   


Jacinto Lourenço

terça-feira, 22 de julho de 2014

Os que Não são Lembrados


Não tenho tido grande disponibilidade para vir até aqui escrever alguma coisa. Depois, bem ,depois não tenho disponibilidade nenhuma para vir aqui apenas  dizer alguma coisa do género vazio só para marcar presença, ou para 'encher'.

Escrever, para mim, não é um acto de violentação intelectual. Ou escrevo porque sinto que tenho algo de relativa relevância para escrever, ou não escrevo. Mas violento-me também se não escrevo. Tenho pavor da página em branco. Não sou do género de me sentar à espera de uma ideia para escrever. Quando me sento ao computador já sei o que vou escrever e porque o vou escrever, mesmo que não saiba se vou escrever muito ou pouco sobre o que quero escrever. Hoje, por exemplo, acho que vou escrever pouco porque a razão porque quero escrever se torna penosa em extremo para que me apeteça escrever muito sobre ela.

Toda a vida desejei estudar História tendo realizado o desiderato de fazer o meu curso de História. Percebo quase tudo sobre a história da humanidade, velha de séculos e milénios, vinda  desde tempos perdidos até aos nossos dias. Muitos dos livros que li e que estudei, e já foram provavelmente algumas centenas ao longo dos anos que levo de vida, estavam repassados de cadáveres de reis, príncipes, rainhas, princesas, imperadores, guerreiros, soldados, peões, cavaleiros, cruzados, homens bons e homens maus, gente importante ou gente simples que se deu por causas justas ou injustas. Muitos 'historiadores' infantilizaram a História passando a ideia de que a  gente que morria sabia  que esse poderia ser o seu destino por estar no meio de uma guerra qualquer em defesa de qualquer coisa, por mais banal que fosse, nem que fosse o quintal de um senhor da guerra. A verdade por detrás disso é que muita  gente  morreu sem sequer perceber porque razão tinha que morrer.

Não sei quem irá condensar, de forma escrita, a história das guerras de que todos os dias ouvimos agora falar, mas sei que, muito provavelmente, aqueles que comprarem, daqui por alguns anos, os livros de História que se escreverão sobre as guerras deste tempo actual, irão achar que a humanidade, afinal, jamais aprenderá, ou mostrará disponibilidade para aprender com as suas guerras e com os seus mortos. No fim, restarão, para memória futura, umas quantas estátuas erguidas a uns quantos 'heróis' que para o serem tiveram que matar uns quantos 'inimigos'. Claro que nunca serão lembrados os milhares de homens, mulheres e crianças inocentes que foram covardemente assassinados para que fosse produzido um 'herói'. É talvez porque me considero um anti-herói que desejo lembrar aqui, hoje, aqueles que morrem às mãos dos que acham que matar ou morrer é apenas  escolher um lado da moeda. Nenhum lado de uma moeda atirada ao ar e à sorte diz seja o que for sobre uma vida.

A morte de um ser humano não tem um preço porque a vida tem um valor imaterial incalculável. 


Jacinto Lourenço

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O que é Fátima ?


O que move tanta gente a pé para Fátima? Trinta e cinco mil, este ano, segundo consta. No fundo, diria que é a Mãe. Ele há tanto sofrimento - físico, psicológico, moral, próprio, dos filhos, do marido, da mulher, da mãe, do pai... E a Mãe não há-de entender e socorrer?
Depois, lá chegados, homens e mulheres, agradecem à Mãe as graças, gritam lá no mais íntimo, suplicam, choram, cumprem as promessas, de joelhos ou mesmo arrastando-se. E a gente comove--se. E é preciso respeitar o sofrimento das pessoas e manifestar--lhes compaixão activa na sua dor. Quem se atreverá, perante o sofrimento, por vezes extremo, a ridicularizar, em vez de tentar compreender e ajudar?
Mas, dito isto, deve-se acrescentar que é preciso evangelizar Fátima e o Deus de Fátima, mesmo sabendo que se trata de uma tarefa quase impossível. Foi o famoso antigo bispo de Nampula, D. Manuel Vieira Pinto, que me contou que, encontrando-se em Fátima, se deparou com uma senhora que, de joelhos, se arrastava a custo para a Capelinha das Aparições. Na tentativa de demovê-la, pois o Evangelho não é a favor de promessas nem do sacrifício pelo sacrifício, foi-lhe dizendo que Deus não queria aquilo e que ele, bispo, até podia substituir a promessa, por exemplo, pela ajuda a uma obra social. Insistiu, sublinhando até que assumia a responsabilidade. Mas a senhora atirou-lhe: "Vá com Deus, senhor bispo. Não foi a si que eu fiz a promessa." O bispo voltou-se para dentro de si e ter-se-á interrogado como é que o Evangelho tem dificuldade em entrar na Igreja.
As pregações em Fátima, apelando à penitência e ao sacrifício, nem sempre estão de acordo com o Evangelho. Até etimologicamente, a palavra Evangelho significa notícia boa e felicitante. O Evangelho segundo São Marcos começa assim: "Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. Jesus pregava o Evangelho do Reino de Deus e dizia: o Reino de Deus está próximo; mudai de mentalidade e acreditai na Boa Nova." O que lá está é: Evangelho enquanto notícia boa e feliz. Habitualmente, aquele "mudai de mentalidade" é traduzido por "fazei penitência". Mas, no original grego, está: "metanoeîte", que significa: "mudai de mentalidade, de pensamento, de coração". Não está: "fazei penitência". E Jesus também dizia: "Ide aprender o que isto quer dizer: Deus não quer sacrifícios, mas misericórdia."
Mas, muitas vezes, talvez porque ao poder interessa o cultivo do medo, o Evangelho tornou-se de facto uma má notícia. Deus, que Jesus proclamou como Amor, Liberdade criadora, Fonte de alegria e de realização plena, acabou por ficar associado a tristeza, tédio, medo, castigo, infantilismo, vida tolhida, sentimento de culpa. Para esse "Disangelho" (notícia má e paralisante), como lhe chamou Nietzsche, foi decisiva a infiltração da ideia de que Deus, para aplacar a sua ira e reconciliar-se com a humanidade, precisou da morte do próprio Filho na cruz. E aí está um deus vingativo, cruel e monstruoso, contradizendo o que Jesus disse e fez: Deus é Amor incondicional. Mas, se Deus fosse vingativo e cruel, também os seres humanos poderiam exercer vingança e crueldade. Que pai ou mãe sadios exigiriam a morte de um filho para reconciliar-se com os outros filhos? Note-se que o teólogo J. Ratzinger, mais tarde Bento XVI, rejeitou a noção de um Deus "cuja justiça inexorável teria exigido um sacrifício humano, o sacrifício do seu próprio Filho. Esta imagem, apesar de tão espalhada, não deixa de ser falsa".
Há ligação entre a crise e as peregrinações a Fátima? Não me custa admiti-lo. Mas, seguindo o Evangelho, isso não pode acontecer no sentido das promessas e do sacrifício pelo sacrifício, mas do que realmente deve ser: o sacrifício da conversão para uma nova mentalidade, um pensamento novo e um coração novo. Em Portugal, ainda há 80% que se confessam católicos. Se todos se convertessem, também no Parlamento, no Governo, nos Tribunais, na Banca, na Igreja, isso havia de ter consequências. E teríamos uma sociedade mais reflexiva, mais justa, mais solidária, mais empenhada no trabalho, menos corrupta, mais confiante.

Anselmo Borges in Diário de Notícias

( Título original do artigo: Fátima e a crise )

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Um Abril Proibido


O despertador tocou, à mesma hora de sempre, na manhã de quinta-feira, 25 de Abril de 1974. Seria um dia normal, igual a tantos outros, não fora o facto de haver um pronunciamento militar nas ruas que poria fim ao Estado Novo em Portugal.

Vivi o 25 de Abril de 1974 com muita intensidade. Tinha vinte anos acabados de fazer em Março.  Apresentara-me  já  à   inspecção militar e sabia que, como qualquer jovem português de então, o meu destino seria cumprir cerca de quatro  anos de tropa obrigatória sendo dois deles  no então designado Ultramar. Quatro anos na vida de um jovem na casa dos vinte, a cumprir serviço militar obrigatório, eram sem dúvida um tempo de interregno que comprometia  aspirações e punha em causa a própria vida. Muitos fugiam para o estrangeiro para não obedecerem a esse chamamento do regime a uma guerra injusta  que não fazia qualquer sentido. França era o destino mais corrente dos mais politizados, dos que tinham família emigrada ou dos que possuíam suporte financeiro familiar para por lá ficarem o tempo necessário. Eu não me enquadrava em nenhum destes perfis pelo que,  era mais do que certo, iria para o ultramar. Sem dúvida um cenário que apavorava.

Quarenta anos depois, os portugueses já não exibem o sorriso daquele dia vinte e cinco de Abril de 1974. O que sobra é apreensão, tristeza, angústia, revolta. Interrogam-se como é que deixaram que lhes retirassem coisas importantes que Abril lhes deu, que os amesquinhassem, que voltassem a espezinhá-los como no tempo do Salazarismo  e do Marcelismo. Desconfiam de si próprios e da sua capacidade para se voltarem a erguer e a lutar por liberdade, direitos e dignidade. Desconfiam que não conseguirão readquirir  o sorriso e a alegria que lhes roubaram neste percurso de quatro décadas de liberdade. Sabem que Salgueiro Maia já partiu, e que nem sequer será evocado como símbolo nas cerimónias oficiais na Assembleia da República. Sabem também que a letargia a que chegou a sua democracia só tenderá agravar-se às mãos de políticos vendidos a poderes que emergem de grandes grupos económicos que só tem o lucro como alvo. Nesse caminho as vidas das pessoas, a sua desgraça, não passam carne para canhão ou efeito colateral.

Em Portugal, em Abril de 2014, existem cada vez menos homens e mulheres com coluna vertebral e verticalidade suficientes para se erguerem em prol do que deixámos que se esboroasse às mãos de inimigos e falsos amigos do povo português. Os cravos perderam a sua cor quando o capitão partiu. Os seus colegas, os que fizeram com ele o 25 de Abril de 1974 ,foram proibidos de falar na Assembleia da República. O mais irónico de tudo isto é que os que agora proibiram os militares de Abril de falar na Assembleia, são os mesmos a quem estes deram voz.  Mas o povo, em quem reside a soberania de um país, quer ouvir os militares de Abril. Eles vão falar na rua, no Largo do Carmo, que é afinal símbolo maior do fim de um regime que também silenciou os portugueses durante 48 anos.

Sim, queremos ouvir o que  os homens que fizeram Abril em Portugal têm para dizer ! É verdade que quase posso adivinhar o que vão dizer e também sei que foram proibidos, pelos revanchistas que ocupam S. Bento, de o dizer ali, naquele lugar, porque estes não querem que os homens de Abril lhes digam, cara a cara, olhos nos olhos, o que eu adivinho que eles querem dizer. O que eles querem dizer é o que o povo sente quanto ao que eles fizeram de mal à democracia e a tudo o que de mais importante ela trouxe e que foi tão duramente conquistado.

Abril não pode ser proibido nem vendido !


Jacinto Lourenço

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O Domingo em que a Nossa História Mudou...



No dia seguinte, as grandes multidões que tinham vindo à festa, ouvindo dizer que Jesus vinha a Jerusalém,
tomaram ramos de palmeiras, e saíram-lhe ao encontro, e clamavam: Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o rei de Israel !
( Lucas 12:12,13 ) 


Passavam  apenas alguns dias sobre o domingo que seria consagrado pela tradição cristã como o de ramos. O trajecto de Cristo ter-se-ia esfumado ali, na velha cidade de Jerusalém,  e a história dos hebreus registaria apenas, se registasse,  que por aqueles dias,  um  jovem rabi, com grande capacidade  oratória, e que até operara  alguns  milagres,  fora  considerado culpado por 'blasfemar' do nome de Deus e que o Sinédrio o teria enviado aos romanos para que estes validassem a sua condenação e o  crucificassem até à morte. 

O tempo pascal que os cristãos celebram por estes dias  não existiria no calendário  se aquilo que se passou entre o domingo de ramos e o  domingo de páscoa fosse apenas  um mero episódio na história de um pequeno povo do médio oriente como tantos outros que por lá existem. 
          
A vida de Cristo e o seu ministério, pese embora a vontade de alguns judeus de então, não se quedaram engulidos por um sepúlcro. Cristo ressurgiu no domingo de páscoa e apareceu ressurrecto a muitos discípulos. Não, Jesus não era apenas um simples rabi que falava muito bem e operava alguns milagres; Ele era o próprio Deus que tomara a forma de um homem para se dar em sacrifício vivo por todos os homens. 

A partir desse momento,  o da ressurreição de Cristo, a história da humanidade mudaria para sempre. O relacionamento de Deus com os homens não voltaria a ser o mesmo; a páscoa  não mais seria apenas uma festa ritualizada, uma simples passagem.

Este tempo pascal que vivemos  faz parte da vida dos cristãos e indica a permanência do sangue de Cristo  naqueles que o aceitam como Salvador. E isto muda tudo; desde logo porque o acesso de todos os homens a Deus se passou a fazer sem a necessidade de qualquer intermediário. Ou seja: passámos, todos, a ter acesso directo a Deus num relacionamento íntimo e pessoal, falando com Ele acerca de tudo o que faz parte da nossa vida e das nossas preocupações.

Cristo vive, aleluia, e isso é motivo de júbilo para todo o povo de Deus, esteja ele onde estiver. Temos um Deus que tudo fez para se aproximar de nós e  devemos entender isso como uma Graça particular de Alguém que nos ama profundamente. Afinal, foram as suas mãos que nos modelaram. O salmista disse: "As tuas mãos me fizeram e me formaram; dá-me entendimento para que aprenda os teus mandamentos". É isto que Deus requer de nós, o entendimento da sua obra, da Sua Palavra que se projecta em cada ser humano. Foi por isto que Cristo foi à cruz, morreu e ressuscitou. A páscoa cristã não é apenas um episódio histórico, é a verdadeira história e operação divina em movimento e que ninguém poderá parar,  ou sequer negar.


Jacinto Lourenço