quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Lavre: O Meu Pedaço de Alentejo


Construída no século XIII e reconstruída no século XVIII após ter sido devastada pelo terramoto de 1755, esta imagem da igreja católica e matriz de Lavre aviva-me memórias de criança nos idos de 60 do século passado. Recuo no tempo e revejo-me com idade de pouco mais de meia dúzia de anos, cá em baixo, num recinto térreo a olhar para a porta da igreja para ver quando sairiam os noivos e o seu séquito de convidados.
Emproados, os homens maduros ou rapazes tipo franganotes, nos seus melhores fatos domingueiros. As mulheres casadas e as raparigas casadouras vaidosas nos vestidos, saias e blusas. As vestimentas deixavam muitas vezes adivinhar o passar do tempo, mas nada que o desenxovalhar correctivo do ferro de passar aquecido a brasas não resolvesse. Aos homens assentava-lhes a roupa como no dia de tirar sortes, embora, caso raro, com os botões do casaco algo mais espichados. As mulheres e raparigas, vistosas, empoadas com 'mises' e 'permanentes' que, de tão invulgarmente usadas mais pareceriam um objecto estranho implantado em cabeças pouco dadas a luxos ocasionais. Mas aos olhos dos homens e dos franganotes que raramente as viam sem roupas de trabalho; manguitos, lenços a tapar a cara e chapéus pretos a cobrir a cabeça, mostravam-se como se fossem rainhas e princesas.
Os rostos e mãos, fossem de homens ou mulheres, no comum dos casos e na maioria dos casamentos, deixavam adivinhar, pela pele tisnada, o trabalho duro do campo debaixo de um sol inclemente que não os poupava desde que nascia até que se ocultava no horizonte. Mais do que um casamento, era a festa que importava e se ansiava, terminando sempre com um baile movido, noite adentro, pelo acordeão, com as raparigas casadouras e os franganotes a iludirem os olhares perscrutadores das mães e os homens a preferirem o prosaico embalo de uns bons copos de vinho ou uma bebida mais fina se a apanhassem. Aos homens, o que os interessava, em boa verdade, e o que os divertia e fazia exultar, era muito mais a observação do jogo femeeiro dos franganotes. Iam-se revendo na sua própria juventude desfiada de baile em baile ao som do mesmo acordeão, a roubar afagos e apertos que os deixavam a sonhar com outras ousadias.
A nossa visão de crianças, amontoadas a partir de cá de baixo, na base da escada, e fixada no seu topo, só queria encontrar, nas mãos dos padrinhos, o taleigo onde se transportavam todas as expectativas fugazes do momento.
As velhas, espertas, atrapalhavam a criançada como podiam e apanhavam as amêndoas que voavam fazendo com que lhes caíssem junto dos pés imóveis. Meninos e meninas, ávidos de doces, agatanhávamo-nos e empurrávamo-nos para, entre mãos cheias de terra e pó, encontrar algumas amêndoas que nos sobrevoavam e caíam no chão empoeirado. Rolávamos então numa quase luta onde de amigos passávamos a adversários de ocasião naquela batalha sem quartel pelo melhor quinhão.
Chegados a casa, amêndoas metidas num copo com água bem agitada para retirar o pó, e o gozo de sentir aquele pequeno rebolo de açúcar derreter-se na boca era prémio suficiente para a nossa ânsia e sofreguidão após sofridos momentos no enxurdo poeirento.
Mas nem sempre os padrinhos dos casamentos eram pródigos nas oferendas à gaiatagem. Quando isso acontecia, os fonas eram mimoseados com uma lenga lenga repetida à exaustão para ver se o enxovalho lhes servia de emenda : "casamento xoxo que o padrinho é mocho, casamento xoxo que o padrinho é mocho". (na frase citada, a palavra "mocho" tem no Alentejo uma conotação pejorativa e não se refere ao simpático Mocho, que é uma ave bem bonita).
Vezes sem conta subi aquelas escadas. A maior parte para brincar no Adro à volta da igreja; as outras para conseguir que o padre Flausino me assinasse o livrinho que provava ter assistido à missa dominical. Sem ele, não havia televisão no domingo à tarde. Ora, como é bom de imaginar, o "Super Rato" só dava ao domingo à tarde! Se não assistíssemos, seria uma perda irreparável. Uma tirania que só poderia ser previamente redimida pelo pagamento de cinco tostões para entrar na sala da televisão, mas que eu, regra geral, não possuía.
A designada "televisão do padre" era a única (pelo menos que eu saiba) particular que havia em Lavre. Alimentava-a um pequeno gerador eléctrico que ia queimando o combustível e espalhando a pestilência da queima pela sala. Além de mais um ou outro dia da semana, também era ligada aos sábados à noite numa emissão televisiva concorrida essencialmente por mulheres que carregavam consigo filhos ou netos para lhes lerem as legendas dos filmes. O serão passava-se assim, numa sala fria, à volta de uma braseira daquelas que faziam "cabras" nas pernas quando apertava o inverno. A tarefa que nos era destinada nessas noites transformava-se em tédio e dava lugar, algumas vezes, a reinterpretações e criatividade para as falas dos actores, sem destoar muito da acção para não dar nas vistas.

Existiam mais duas ou três televisões nos cafés da terra, mas aí os gaiatos não podiam entrar sem serem acompanhados por um adulto e, regra geral, apenas para ver o Bonanza ou, eventualmente, uma tourada em que actuasse o cavaleiro Luís Miguel da Veiga, que tinha raízes na vila, onde nasceu também Simão da Veiga. Nesses dias Lavre mudava-se para os cafés onde as pessoas se amontoavam extravasando para a rua. Ver um homem, figura cimeira do toureio a cavalo de então, ligado à Vila, dar cartas nas arenas portuguesas, era um orgulho para tanta gente simples a que uma vida de quase semi-escravatura de trabalho duro e rude no campo, de sol a sol, não permitia grandes alegrias ou divertimentos.
Em dia solarengo espraiamos a vista para sul, a partir do Adro da velha igreja matriz; o tapete da rústica paisagem alentejana quase vem morrer-nos aos pés. Corta-nos a respiração, ergue-se plena de um verde que o Outono trouxe salteado por manchas de sobreiros e azinheiras que sempre lá estiveram. Fazemos sobrevoar o olhar pelos muitos telhados novos, ocres, de um bairro de casas de paredes alvadias. Mesmo que não possamos ver, podemos adivinhá-las com gente dentro, pessoas que se têm quedado em Lavre ou que elegeram a vila para retiro de dias pachorrentos. Mais ao longe, do lado de lá da ribeira, os novos 'Montes' erguem-se e impõem-se à paisagem denunciadores de um certo novo-riquismo; gente de Lisboa e alguns famosos, dizem-me.
Apesar de tudo, a vila parece resistir e conviver bem com o passar das décadas. É certo que à vista dos visitantes ocasionais não se mostram habitantes nas ruas; porque não existem, simplesmente, ou porque estão demasiado velhos para sair à rua. O comércio é resumido. Resistem dois ou três estabelecimentos dos muitos que a vila possuía. Há um lar onde estarão alguns dos velhos que não encontramos na rua. Uma conquista de 1974 nestas terras do interior, mas que se ergueu através do impulso visionário do padre Flausino.
Das pessoas que conhecíamos em Lavre, na nossa infância, a maior parte delas saíram em busca de mais auspicioso futuro nas grandes cidades ou vilas mais desenvolvidas, senão mesmo no estrangeiro. Sobram maioritariamente as que só podemos visitar em memória no bem cuidado cemitério onde repousa também a de pessoas que amamos. Mas sim, a beleza de Lavre não foi adulterada. Mantêm-se intocada e esplendorosa, pelo menos aos nossos olhos de menino que gostam de a preservar assim.
Os telhados das casas novas que observamos a partir do Adro deixam antever que Lavre vai persistir na sua secular história iniciada muito tempo antes de D.Dinis lhe outorgar foral em 1304.
Na foto que tirámos dispensavam-se bem as duas árvores. Excrescências que encobrem o património edificado e o desfeiam. Mas esperamos que isso seja resolvido um dia.
Iremos decerto voltar ao nosso chão alentejano, mas até lá, havemos de regressar à escrita sobre a nossa relação com ele.
Sobre Lavre e a literatura que a aborda, que nos aflora a mente, e que nos desencanta pelas memórias que traiu sem pontos nem vírgulas, só sobra a convicção comum de que esta velha vila que me viu crescer menino e adolescente seguirá agarrada ao mesmo chão que pisámos até finais dos anos 60. Agarramo-nos, afinal, a esse consolo, o de nos sabermos pertença sua e que ele nunca deixará de fazer parte de nós.


Jacinto Lourenço
2021, Novembro, 16

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

PORTUGAL EM MODO FRAUDE...


(imagem: jornal Público)

Regresso ao tema que a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) trouxe ao nosso conhecimento recentemente, de que os enfermeiros portugueses são dos mais mal pagos entre os países que integram esta organização internacional (em paridade de poder de compra) e apenas acima de Eslováquia, Lituânia, Letónia e Hungria, e que os salários dos médicos regrediram para valores reais (descontada a inflação) anteriores aos praticados em 2010, talvez convenha acrescentar que esta situação terá, certamente, um âmbito muito mais alargado tocando outras profissões qualificadas ou não qualificadas.
A verdade social e económica percepcionada em Portugal é a de que, quase meio século depois de instaurada uma democracia, que devia ser para todos, resulta ter afinal sido construída para quem consegue situar-se nas franjas do poder e assim usufruir das benesses e privilégios que este distribui, com toda a prodigalidade, por aqueles que lhe são próximos. Ora, como é evidente, a ideia generosa que presidiu ao 25 de Abril de 1974 estava muito longe da realidade que se instalou no país desde então.
Se exceptuarmos a liberdade conquistada ( que não é coisa de somenos, se nos lembrarmos do regime em que vivemos anteriormente), e após muitos milhares de milhões de euros em fundos da UE injectados para o desenvolvimento português, (sem que se veja, na maior parte dessas verbas, onde e como foram aplicadas) nada de muito substancial do regime salazarista foi
anulado. O caciquismo partidário instalou-se com outras cores numa rede tentacular que não deixa escapar nada ou quase nada que não termine nos seus bolsos. O nepotismo generalizou-se. O empobrecimento da população é um aviltamento. A corrupção é transversal na nossa sociedade. Os portugueses continuam a ter que emigrar aos milhares e, ao fim de 48 anos continuamos na cauda da Europa em termos sócio-económicos, mas agora ultrapassados por nações que nunca imaginámos que alguma vez o pudessem fazer. As famílias passam o tempo a olhar para o calendário e a imaginar como farão chegar o rendimento disponível ao fim do mês.
As maiores e melhores empresas nacionais, as mais lucrativas, as que podiam ajudar a economia nacional de outra forma, foram entregues por "patacos" a quem lhes pode lançar mão, facilitados esses por autênticos "Cavalos de Tróia", instalados nos sucessivos governos em Portugal, mas sempre na primeira linha de defesa dos interesses estrangeiros, que para isso lhes pagariam através de todos os esquemas financeiros que se possam imaginar, culminando ainda, mais tarde, com uma boa colocação em empresas ou bancos de nomeada internacional.
A cultura é inexpressiva e acessível apenas nos principais centros populacionais, no resto do país é um semi-deserto.
Dos jovens que terminam a sua formação académica, poucos são os que conseguem romper o ciclo de precarização no emprego e, por consequência, poucos podem assumir uma vida familiar independente fora das casas dos pais. Por outro lado, os que não vão além do ensino secundário e não possuem qualquer qualificação profissional, ou passarão o resto da sua vida em empregos que não pagam mais do que o ordenado mínimo ou ficam a parasitar os pais enquanto estes o permitem, e permitem muitas vezes, levando uma vida sem estudar ou trabalhar e sem quaisquer objectivos futuros, mas com dinheiro nos bolsos para cigarros, álcool, ténis de marca ou telemóveis topo de gama.
Os nossos velhos são entregues para morrerem nos meandros dessa nova indústria designada metaforicamente por "lares", que na sua maior parte se assemelham a "campos de concentração" pavorosos. Para os seus filhos ou famílias não existem escolha, tempo ou até dinheiro que sugiram pensar noutra solução, que na maior parte dos casos não têm.
Quem têm um trabalho deve mantê-lo a todo o custo mesmo que mal pago e sem horário de trabalho a atender à lei. As entidades patronais não olham, nem são para isso vocacionadas, para os problemas que os seus trabalhadores têm com pais ou filhos.
A justiça tornou-se simplesmente risível.
Em resumo e para atalhar caminho: após tantos anos de liberdade quantos os passados sob a ditadura do Estado Novo o país é pouco menos que uma fraude imposta por este regime a que chamam democrático mas que transporta dentro de si um artefacto político explosivo que irá implodir um dia destes e que nos levará a todos se não tivermos arte ou engenho para mudar o rumo.
As únicas e verdadeiras grandes construções da democracia foram o Serviço Nacional de Saúde e a educação. Pois nem mesmo essas parecem estar isentas de serem reduzidas a escombros por uma classe política apenas focada nos seus próprios interesses e jogos de poder.

Jacinto Lourenço


quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Não Vou por Aí...

 


"Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração." (Actos 17:28)


Ao reflectir um pouco sobre o verso bíblico citado acima ocorreu-me a realidade de tanta gente a quem a melhor ideia que lhes ocorre, para fazer a aplicação prática desta pequena quantidade da Escritura,  é no grande púlpito das redes sociais e em particular o FB. Ou seja, vivem nele, movem-se por ele e só existem em função dele, do FB. O seu 'cristianismo', o  desta geração de cristãos Facebookianos, encontrou um púlpito de onde pode ser pregado tudo o que quiserem, como entenderem e quando desejarem. Não precisam de filtros, pelo menos no imediato, e têm até a prerrogativa do envio de mensagens endereçadas e supostamente encriptadas. Acham que os destinatários saberão desencriptá-las não correndo eles o risco de poder ser considerada uma eventual descortesia ao identificarem claramente quem pretende atingir. Ou seja, querem viver de bem com Deus e com o diabo.                                

  Dão-se como exemplo de tudo a todos. Ao lê-los percebemos que parecem conquistadores de céus e terra. Brandem a sua nova fé, qual tocha que incendeia a pira duma inquisição privada, como arma de arremesso contra os condenados, no altar da sua justiça, ao lago de fogo . 


Ao apresentarem-se, qualquer incauto os teria como se fossem encarnação viva de Abraão, Moisés, Jacob, Isaías, Jeremias ou qualquer outro profeta ou apóstolo. Quais Saulo de Tarso não admitem desafios à sua moralidade, à sua sublime e puríssima ética religiosa conquistada a duras penas ao exército de likes, risonhos e outros emójis dos seus seguidores.                                                              

  Trespassam e derrotam, com a sua palavra inspirada por grandes pregadores facebookianos tomados como verdadeiras inspirações, fontes de luz sempre acesas para eles. Têm revelações, proferem imprecações e determinam, por todas as pragas do Egipto, derrotas aos inimigos que pela sua frente quiserem impedir tamanha obra e tão grande ministério que é o seu.                        

  São bispos, pastores, apóstolos, evangelistas, professores, pregadores, conselheiros, discípulos, doutrinadores, doutores de uma e outra qualquer lei feita por medida, à sua medida, claro.                                                                                                                                                        

  Poucos títulos ou dons de operações extraordinárias lhes escapam. As casas de oração, as igrejas,  são demasiadamente acanhadas para a dimensão de tamanhos profetas desta desgraça !   Têm o cepro do poder facebookiano. Podem julgar e condenar tudo e todos, em especial os que não pensam, não agem ou não seguem o mesmo caminho deste 'cristianismo' made by FB, ou que porventura não lhes outorgam likes fofinhos, risonhos, dedos de aprovação e apoio.                                                                                                                                            

  Este é um peditório para o qual nunca dei e nunca virei a dar. Não se pode  reconhecer respaldo bíblico a gente desta, porque ele não existe. Por este andar, um dia destes ainda se arranjará pelo FB uma licenciatura em "ciências das religiões Facebookianas" . E um mestrado e um doutoramento, com muitos créditos, claro, para demorar menos tempo a pendurar o diploma no mural e que confirmará toda a 'sabedoria' de tantos doutos sabedores dos mistérios da nova visão religioso-místico-facebookiana. Nem Relvas ou Sócrates, ambos muito sábios, aliás, em matéria de títulos, teriam pensamentos tão arrojados.                  


Como José Régio vos diria:

[...] "Ide ! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura! [...] 

Sei que não vou por aí."




Jacinto Lourenço - Outubro, 2020

terça-feira, 7 de julho de 2020

Quo Vadis. O Filme da nossa Vida...





Salazar, o jovem ministro das finanças que tomou posse em Abril de 1928, sob o comando dos militares da ditadura que fez cair a Primeira República, proferiu, no seu discurso de tomada de posse, uma frase lapidar que ditaria o rumo do país durante 40 anos, até à sua morte em 1968. Foi esse o tempo em que esteve no poder em Portugal como o senhor absoluto dos destinos desta nação que parece fadada a depender de homens providenciais.
Sei muito bem o que quero e para onde vou.

Teve Oliveira Salazar o condão de dizer uma coisa que os portugueses não estavam habituados a ouvir desde a Monarquia Constitucional e até 1928, pelo menos.

Tanto a Monarquia Constitucional como a Primeira República tiveram muitos homens que tentaram impor o que queriam, mas nenhum deles sabia muito bem para onde ia, ou, se sabia, desconhecia como lá chegar.


Porque é que a ditadura militar de Maio de 1926 se impôs tão facilmente ( pouco menos que um passeio a cavalo, de Braga a Lisboa, para Gomes da Costa, sem praticamente usar as armas ) e durou tanto tempo, mesmo que anos depois de eclodir se tenha transformado no que ficou conhecido como Estado Novo ? Porque ninguém, teve melhores argumentos ou força para a contrariar e porque havia de aparecer um designado homem providencial que disse saber o que queria e qual o caminho a seguir para tirar o país do lodo. Caso contrário o enorme PREC que foi o período da Monarquia Constitucional prolongado na Primeira República teria durado mais uns anos sem que se possa saber como tudo aquilo terminaria entretidos que andavam, os políticos e revolucionários, a ceifar oportunidades e vidas. Destas últimas tanto se abatiam as mais humildes como as de ilustres homens de grandes qualidades políticas, culturais e intelectuais.

Parece por isso estarmos destinados, nação e país, a esperar por que venha um homem providencial qualquer colocar as nossas esperanças alinhadas com um destino que, pelo menos, abra uma porta por onde se entreveja alguma hipótese de futuro.

E isso é um facto recorrente em vários períodos da nossa história. Talvez o caso mais conhecido e paradigmático seja, ainda até agora, o mais lembrado, porque, como noutros momentos, a independência de Portugal estava posta em causa: a espera pelo Desejado, e nunca regressado D. Sebastião. Acho que tantas foram as ocasiões em que estivemos nessa circunstância, a de deixarmos de ser um país, que sofremos hoje de um sebastianismo endémico; isto é, estamos sempre à espera de que algum homem providencial, aparecido como que por milagre, nos venha resgatar seja daquilo que for.


Em 1928, para a ditadura militar, Salazar seria o único homem capaz de dar ao país aquilo de que ele precisava depois de tantos anos de mortes, fome, guerra, doenças, miséria e endividamento externo num limite tal que nenhuma organização internacional, nenhum país, arriscaram emprestar a Portugal e, quando surgiu uma hipótese de isso acontecer, os custos eram tão altos e os sacrifícios a impor tão pesados que nenhum político de passagem pelo governo arriscou ousar comprometer-se, e ao país, com tais circunstâncias.

Os militares de 1926 agarraram-se a Salazar como última e única providência possível para operar o milagre de salvar Portugal. A verdade é que o país que este deixou a Marcelo Caetano, em 1968, era, para o bem e para o mal, totalmente diferente do que recebera quarenta anos antes. A duras penas os portugueses de então pagaram e sofreram essa recuperação económico-financeira que, apesar de tudo, e salvo algumas poucas excepções, não os retirou da pobreza endémica.

Os tempos que correm são diferentes, felizmente para melhor, apesar de tudo. Mas a Pandemia, como se adivinhava, destruiu um presente que, se não era grande coisa, pelo menos tinha aberto uma porta para entrever um futuro melhor do que aquele a que o governo Passista/Troikista nos tinha destinado. Seria Costa o tal providencial, condenados que estamos a depender sempre dessa figura do homem providencial, que iria operar a catarse que nos libertasse e projectasse para um lugar de tranquilidade colectiva ? ( claro que já não ousamos sequer sonhar sair da cauda da Europa... ) A Pandemia revelou que não! Costa é afinal mais equilibrista e malabarista do que "homem providencial".

Terminado o prazo de garantia da Geringonça, como todos os electrodomésticos que compramos para nossas casas, esta deu de imediato sinais de começar a ter problemas. E como acontece com quase todos os electrodomésticos que compramos, as avarias, findo o prazo de garantia, ficam-nos sempre mais caras na reparação do que a compra de um novo equipamento.

Depois, bem, depois vem sempre um conselheiro técnico dizer que o electrodoméstico, com um jeito aqui e outro ali, aguentar-se-à mais uns tempos e fará um figuraço. A questão é que raramente isso se confirma. E é aí que vem o pregador de milagres anunciar um milagre que nos levará a não termos que trocar a Geringonça em que o nosso electrodoméstico se tornou.

Digo-vos eu que não resulta, porque sei do que falo em matéria de electrodomésticos cá em casa. Se o prazo de garantia termina hoje, a partir de amanhã começo a esperar pelo dia próximo em que terei que o trocar.

Comprovadamente, a Pandemia estoirou com a Geringonça e, mais do que provavelmente, com a maioria absoluta que Costa achava que estava a construir. E nem qualquer milagre que Marcelo invente pode remediar isso, porque, como bem sabemos, os milagres de Marcelo são muito circunstanciais e não duram mais do que os poucos dias que demora um vírus impenitente e ateu a contrariar o melhor catolicismo que enche o peito de um presidente.

Para onde vamos afinal ?!
Bom, já nem Salazar, nem Centeno conseguirão dizer-nos. Só conseguimos saber onde está Salazar e para onde vai Centeno.

O que queremos ?!
Pois, acho que também não sabemos muito bem, mas para começo gostávamos de que não nos condenassem a andar a pagar, para o resto das nossas vidas, a TAP, o BES, o BPN, o Novo Banco, a EDP, a CGD, o BANIF, o BPP, a PT, as Rendas eternas das parcerias público-privadas, etc, etc, etc. E gostávamos também que os nossos pesados impostos servissem apenas para dotar o país das infra-estruturas necessárias e para investir naquelas onde desinvestiram durante tantos anos. Para revigorar o SNS, as polícias, e tantos outros serviços essenciais; para pagar melhor aos profissionais de saúde e aos polícias e não para irem parar aos bolsos de todos os plutocratas que têm usado o estado para nos empobrecerem continuadamente. Há, já agora: se não for pedir muito acabem de vez com as mensagens que andam a enviar à população sobre o controlo da Pandemia. Mas que controlo ? Podemos não saber para onde nos levam, mas não somos parvos de todo para nem sequer sabermos onde estamos !

Mas quem pode fazer isto tudo ? Pois, com o histórico que temos, provavelmente só um homem providencial já que de pregadores milagreiros , equilibristas e malabaristas estamos servidos. E que esse tal homem providencial não fique muito tempo no governo pois só isso nos garantirá que não terá tempo de descobrir onde levam todos os corredores dos palácios do poder, que é o que muitos ministros, primeiros ministros, secretários de estado e quejandos, plutocratas, enfim, vêem como missão de vida na sua passagem por qualquer governo.
Portugal e a vida dos portugueses...?!?   Isso são meros colaterais.

Jacinto Lourenço 

quarta-feira, 8 de abril de 2020

A Incompatibilidade entre Burros e Minas...




A fotografia que aqui deixo é um 'déjà vu' nos jornais e redes sociais destes últimos dias. Estas últimas, apressadas como sempre e mentirosas como habitualmente, logo inventaram uma história que colaram à fotografia como tratando-se de soldados que atravessavam um campo minado perto do qual andaria o burro. Ora, os soldados, com receio de que o burro começasse aos pinotes campo adentro e fizesse explodir as minas matando-se e matando-os a eles, preferiram pegar no jumento em ombros e levá-lo a campo seguro para evitar males maiores.
A história seria engraçada se fosse verdade, mas não é verdade e não resistiu à investigação sumária de alguns jornalistas que a investigaram e desmistificaram. Tratava-se afinal de um jumento que soldados da legião francesa encontraram, eventualmente perdido, e transportaram para o seu aquartelamento, algures na Argélia, onde foi muito bem tratado e adoptado como mascote.
Em abono de um bom fim para a história, diga-se que qualquer das versões, a das minas ou a da mascote, assentava bem ao burro, porque ambas, afinal, lhe teriam salvado a vida.
Mas há historietas que dão óptimas metáforas para a vida, e esta é uma delas.
Vive a humanidade um momento crucial da sua história. Ou seja estamos num campo cheio de minas e, ao mínimo descuido, pisamos uma delas e "BUM", vamos pelos ares, quer dizer, somo atingidos em cheio por este vírus que não conseguimos ver, cheirar, ouvir ou sentir e, quando o conseguimos fazer, já é tarde porque já nos atingiu, ficando por saber com que sequelas iremos ficar para a vida.
Esta é a nossa condição actual. Mas, para a agravar, estando em pleno campo minado damo-nos conta que temos por companhia uns quantos burros selvagens à solta que decidiram por bem brincar aos pinotes e zurrar a parvoíce habitual, na linguagem jumenta que só eles parecem entender, não cuidando que com a sua condição de burros tornaram-se um perigo para os humanos que, mesmo sem terem outra opção, estão no meio do campo minado a tentar atravessá-lo chegando ao fim sem danos de maior, mesmo os colaterais. Mas os burros, por serem burros, não conseguem discernir do perigo em que se constituem, com os seus pinotes por entre as minas que começam a explodir e a atingir muitos humanos que não conseguem eximir-se dos estilhaços que os burros fizeram explodir, por serem burros, claro.
Por se julgarem muito afastados uns dos outros, alguns com um oceano a separá-los, os burros criam várias explosões ao mesmo tempo, em vários locais do campo minado, atingindo pessoas que se imaginam a si próprias em segurança face à distância e, que, por isso, também tinham começado a agir como se burros fossem zurrando que estão mais seguros do que os humanos que se encontram mesmo no centro do campo minado.
Mas uma boa parte das pessoas não ligam aos burros, porque sabem que eles são burros, agem como burros e que assim continuarão por toda a sua vida. Por isso o que querem é salvar-se sem serem atingidas, tomando para isso todas as precauções que sabem ser importantes para se protegerem das explosões e esforçando-se para que não sejam elas causadoras de nenhumas.
Ora, conta-se, no livro da filosofia ancestral jumentina que, certo dia, quando os burros, guias de todos os outros burros, achavam que já tinham atingido o pleno conhecimento estratégico para se protegerem das minas do campo minado, um dos burros que tinha a certeza desse seu conhecimento validado pelos guias dos burros, decidiu dar um pinote menos controlado, e zás, pisa uma mina e foi pelos ares.
Face às lesões sofridas por este burro, achou-se então que seria suficiente manter o burro no estábulo, para que ele se recuperasse com o tempo. Mas não, o tempo, provou-se então, não é amigo dos burros, e o burro, não havendo um hospital para burros disponível, teve que ser internado num hospital para humanos afim de receber tratamento intensivo que o pudesse salvar dos danos causados pela explosão que ele próprio, burro, originou.
Moral da história: quando quiserem adoptar um burro, certifiquem-se que o deixam bem amarrado à manjedoura para que ele não vá dar pinotes para um campos minado e provocar explosões que convoquem malefícios para os humanos. Porque, afinal, se confiamos num burro, sabendo que a sua condição de burro é fazer burrices, somos mais burros do que o burro. E o problema é haver demasiados burros aos pinotes no meio de campos minados por esse mundo fora. Por favor não confiem nunca  em burros ou em humanos que parecendo burros são mesmo o que parecem.



Jacinto Lourenço 

segunda-feira, 30 de março de 2020

Por entre os Miasmas da morte









Para onde quer que nos voltemos, vimos, ouvimos, lemos, na maior parte das vezes, muitas vezes, sobre o tema genérico que domina os meios de comunicação. Já sabemos há muito que o que o que mais contribui para haver notícias não são as boas notícias, mas as más notícias. Afundamo-nos nas letras garrafais dos jornais ou nas imagens tristes e lúgubres que os telejornais nos fazem chegar a toda a hora e já não apenas à hora a que estávamos habituados. Ficamos quase paralisados com o olhar fixo nos números da morte e nos desplantes dos vampiros ocasionais que só conseguem olhar as suas populações através de uma folha de cálculo.
De repente, por entre o desfiar da vida nos écrans, nos periódicos, o tema dominante fala da morte e da exaustão dos vivos que a enfrentam.
É nestes momentos que talvez fosse bom lembrar que um cristão é alguém cuja visão deve ser mais alta. Ser cristão significa estar pronto para encarar as situações com os olhos postos em Deus e nas certezas que Ele tem para nós. É ser capaz romper o pessimismo, mesmo quando isso pode até ser controverso, face ao ambiente geral que vivemos. Afinal, foi Jesus que disse que devíamos ser Luz no meio das trevas.
No período de Páscoa que se avizinha a esperança tem que renascer dentro de cada um de nós, dentro das nossas casas. Na Páscoa, como sabemos, a morte é vencida pela vida. Jesus pagou todos os resgates presentes e futuros. É por isso que um sorriso, uma palavra de esperança, de alento, um gesto, mesmo à distância de dois metros, por pequeno que seja, e mais do que beijos ou abraços, podem romper as correntes de tristezas agónicas que nos cercam e fazer do dia um dia melhor para alguém que luta ou que está em perda. É isso que Jesus espera de nós, que no meio das crises saibamos reagir, saibamos pôr ao serviço dos homens aquilo que aprendemos de Jesus ressuscitado.
Mostrar capacidade de reacção positiva para com os outros no meio do sofrimento geral, mesmo se também nós estivermos a ser atingidos, não é apenas estoicismo humano, é igualmente demonstração de plena fé nas capacidades eternas de Deus e na sua direcção divina para os homens e mulheres que mostrarem ser capazes de irem além de si próprios, sabendo que, mesmo em solidão, nunca estarão sozinhos nesse desígnio.
Aquilo que Deus espera de nós, neste momento, é que a sociedade possa ver-nos como alguém que não perde a sua tranquilidade, a sua fé, o seu discernimento espiritual e humano, a sua capacidade de revelar compaixão e apoio e de manter uma atitude elevada sobre todos os contextos. É nestas ocasiões difíceis que se mostra a grandeza de espírito e a presença da fé que nos alimenta.
Aprendemos que nos ciclos negativos da vida a fé se prova de uma maneira muito mais extraordinária. A tormenta torna-se quase insuportável, mas Jesus está connosco, conhece-nos, ama-nos, tem bem medidos os nossos limites e, quando estivermos a cair Ele levanta-nos. Saibamos, como filhos de Deus, nestes momentos de tempestade, obter de Jesus a paz que está a faltar a tantas vidas e distribui-la a todos os que dela carecem. Que cada filho de Deus seja um referencial de esperança, de calma no meio da agitação premente, de temperança e estabilidade emocional, e que mostre isso no pequeno círculo em que se integra. Parece simples dito assim, não é ? Mas não vai ser nada fácil. Teremos que fazer uso daquele estoicismo que recebemos da nossa natureza espiritual. O apóstolo Paulo dizia que quando estava fraco então era forte. Porque se recolhia em Cristo, e então já não era mais ele, Paulo, mas Cristo nele.
É possível que fiquemos sem alguns anéis, mas o importante é mantermos os dedos. O importante é a vida humana e aquilo que podemos construir com ela. É para isso que Deus olha. Para os que tombam, como vítimas dos miasmas da crise pandémica, o nosso desejo é que possam ter encontrado, em algum momento, a Paz que Deus oferece a cada um de nós.
É tempo de pôr azeite na candeia para ser Luz num mundo em aflição e sem nenhuma certeza no amanhã. E isto não é teoria, é prática; não se opera apenas ao domingo na igreja, é na vida diária em sociedade, onde partilhamos a existência com todos, onde vivemos, trabalhamos, rimos, choramos com todos, mesmo se não partilham connosco da Fé em Cristo Jesus.


Jacinto Lourenço 2020, Março, 30

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

O Servilismo que nos Está no Sangue




O problema é antigo, e parece que nos está no sangue. Dizem-nos que o herdámos do tempo do "botas" , que nos obrigou ao servilismo. Não acredito. A coisa vem mais de trás, do princípio da nossa história enquanto nação, com Egas Moniz a confundir honra com servilismo ( numa "interpretação" muito minha, e livre, da História...) quando foi pedir perdão e oferecer a sua vida e da sua família em resgate  a Afonso VII por D. Afonso Henriques se ter recusado a prestar vassalagem ao primo, conforme lhe prometera Egas Moniz, se este levantasse o cerco a Guimarães.  Sempre tivemos esta tendência para a servidão, para a obediência cega e parva, sem questionamentos. Somos assim; desenvolvemos, de facto, como nenhum outro povo da Ibéria,  a arte de "engolir sapos", mesmo se eles são de difícil digestão, e mostrar um sorriso,  por mais amarelo que seja.

Se vamos ao senhor doutor para tratar das maleitas que nos afligem, lá vem a promessa de, pela Páscoa, lhe fazermos chegar um borreguinho ou um cabritinho desmamado, tenrinho, ainda a saber a leite, sim,  claro, porque  o médico nos vai aliviar das dores que carregamos. 

Os mais pobres podem sempre ofertar um queijinho ou um chouriço lá da terrinha. O físico, impante na sua cátedra inquestionável e impenetrável, a olhar-nos por cima dos óculos, diz que sim, que gosta e, na troca de uns placebos,  lá mais para a frente poderá seguir também para o consultório  um perú pelo Natal.                                                                                                            
Ainda hoje, mesmo acedendo a um Serviço Nacional de Saúde pago com os nossos impostos, não conseguimos deixar de olhar para o médico como alguém a venerar servilmente, em lugar de o vermos como profissional que é, pago para tratar-nos da saúde. A esta imagem, talvez mais diluída nos meios urbanos, juntam-se outras que têm a ver com o sacerdote católico, o pastor protestante,  o advogado, com o cabo da guarda, com o presidente da Câmara, etc, a quem dedicamos ridículos e servis  encómios numa atitude borrega, sem paralelo conhecido a não ser o da  nossa triste vocação para desistirmos com facilidade de exibir a dignidade que reside no simples facto de sermos seres humanos e cidadãos na  plenitude da igualdade de direitos e deveres que independe da posição social que ocupamos . Somos, quiçá, dos únicos países do mundo chamado desenvolvido a achar que títulos académicos fazem parte, ou devem  usar-se em lugar dos nomes de registo ou baptismo. Um país de doutores e engenheiros em que, mesmo aqueles que o não são exigem tratamento deferente como se o fossem. Doutor para aqui, doutor para ali, senhor engenheiro para isto senhor engenheiro para aquilo. É cultural, dizem-nos. Sim, até pode ser, mas não passa de uma cultura de penacho que assenta num servilismo a raiar a falta de coluna vertebral que se liga com a facilidade com que a vergamos por tudo e nada.

Clara Ferreira Alves constatava, numa das suas habituais e recentes crónicas no Expresso, que "outros países estão a conseguir atravessar a crise da dívida com a dignidade intacta" e só "Portugal resolveu transformar-se num país habitado por bonecos das Caldas". Dizia ainda  que "o nosso desejo de agradar, de servir, perde-nos. Faz-nos perder o respeito por nós próprios". Também, num outro registo, a mesma Clara Ferreira Alves, em reportagem sobre os estragos provocados pelo furacão Sandy, nos Estados Unidos da América, e para o mesmo semanário, constatava que os milionários de Manhattan, a deslizarem nos seus carros de luxo como se fossem os donos do planeta, não fazem a menor ideia de como vivem os pobres. "Usam-nos como serviçais, e proporcionam-lhes empregos com estatuto de invisibilidade. Os portugueses, da comunidade em Newark, são famosos pela sua honestidade e por serem criados, governantes  e mulheres da limpeza de confiança. Gente que se pode meter dentro de casa. Simples, discretos, invisíveis. Sem nome nem história".

Também é certo, por aquilo que diz Clara Ferreira Alves, que pudemos, e devemos,  interpretar essa atitude dos trabalhadores portugueses nos E.U. da América, por exemplo, como francamente profissional: fazem o seu trabalho com correcção, executam as suas tarefas com profissionalismo e não se metem, mais do que devem, na vida dos outros, especialmente dos seus patrões. Mas também pode ser que o servilismo cultural dos portugueses os ajude a isso tudo.

Quando Portugal esteve sob dominação espanhola, esta cultura de servilismo era levada ao extremo para com a corte Filipina. Refere a História de Portugal coordenada por José Mattoso, no volume 5.3,  que na corte de Filipe III [de Portugal], em Valladolid, os Castelhanos zombavam da soberba e vaidade dos portugueses: «não cuida um fidalgo português se não em que entrando na Corte, a hão-de assombrar, com os seus lacaios mais rica e custosamente vestidos do que nunca seus bisavós o fizeram nas suas vodas. Claro que o objectivo destes fidalgotes que se deslocavam a Valladolid,  emproados, empoados e seguidos pelo seu séquito de serviçais, era essencialmente  o de bajular o rei  e assim conseguir prebendas e favores políticos. Verificamos que, afinal, o servilismo é transversal na sociedade portuguesa e já vem de antanho.

O que sabemos hoje é que dignidade não rima com servilismo e que este não deve ser confundido com capacidade de realização e disponibilidade para correcção no nosso relacionamento com tudo e com todos.

Jacinto Lourenço


( texto editado em Setembro 2012 )

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

O Barroco Português e A Obra de Arte Total Wagneriana








A verdadeira aspiração da arte é, pois, aquela que tudo abrange 1
                                     Richard Wagner

Estamos habituados a que quando se fala de Richard Wagner o tema seja apenas música, mas o compositor marcou o seu tempo, e o tempo pertencente ao futuro, também como inventor,  por assim dizer, do conceito de Obra de Arte Total.  Ele lamentava que na ópera do seu tempo a ênfase estivesse apenas colocada sobre a música, ao contrário do que acontecia nas representações gregas da antiguidade onde a música dialogava com todo um conjunto de especialidades artísticas visando o envolvimento total dos participantes no espectáculo. Este conceito desenvolvia-se à volta do pressuposto de que as diferentes expressões artísticas, envolvidas na produção da Obra de Arte, deveriam conjugar-se e complementar-se numa lógica narrativa em que pudesse ser reconhecida uma unidade formal contextualizada na obra que é apresentado ao público e na qual este  deveria sentir-se  como fazendo parte integrante da mesma. Claro que aqui estamos a pensar no plano principal do ofício de Wagner, isto é, o de um espectáculo musical que fosse realmente englobante e levasse o público à sensação de ser parte do todo que era esse espectáculo, e não apenas uma figura passiva do mesmo.
    
O compositor  considerava que as diferentes formas de expressão artística  até então se tinham fechado como que num círculo involutivo, pouco interessante para os espectadores, e  que não poderiam romper por si só, mas apenas em complementaridade, umas com as outras,  seriam capazes de desenvolver e apresentar novas propostas estéticas ou, se quisermos, uma nova narrativa integrada, de ordem artística.  É neste contexto, aliás, que Wagner escreverá,  num estudo intitulado A Obra de Arte do Futuro,  que  O homem artista só pode satisfazer-se perfeitamente na união de todas as modalidades artísticas na obra de arte colectiva. No isolamento de uma das suas capacidades artísticas será não-livre, será não inteiramente aquilo que pode ser; pelo contrário, na obra de arte colectiva será livre e será inteiramente aquilo que pode ser. 2 
    
Mas afinal Wagner não dizia nada de muito novo uma vez que  Gian Pietro Bellori, nascido em Roma (1613-1696), e porventura  a mais alta referência da cultura artística do seu tempo em toda a Europa, com o seu conceito de Bel Composto  já tinha teorizado sobre os princípios globalizantes da Obra de Arte.

Também no território português se  identificavam já, antes de Wagner,  excelentes exemplos daquilo  a que, numa outra dimensão artística,  o compositor viria a designar por Obra de Arte Total.  Este conceito Wagneriano já se encontrava integrado pelo Barroco Português através desse outro conceito do Bel Composto de Bellori.  Isto não quer dizer, naturalmente, que os dois conceitos sejam um e a mesma coisa, mas na verdade regem-se pelos mesmos princípios globalizantes de encarar a Obra de Arte,  distanciados, claro, por essas fronteiras chamadas tempo e realidade contextual.                                                                                                                                           
Precisamos esclarecer que quando Wagner fala de arte colectiva,  fala da síntese de múltiplas expressões artísticas que se conjugam no sentido de uma Obra de Arte Total, a Gesamtkunstwerk.  Mas, como dizemos,  esta síntese de múltiplas expressões artísticas já tinha sido experimentada e concretizada no Barroco português por via do conceito de Bel Composto. 

Luis de Moura Sobral, professor na Universidade de Montreal e especialista em pintura Ibérica do século XVII,  diz que  é a partir de 1660  que  se verifica em Portugal uma tendência para a concepção globalizante e unitária de um certo número de espaços construídos, o que se levará a cabo através de programas  decorativos envolventes, quase sempre de grande riqueza 3.    Segundo o mesmo autor,  o Bel Composto estrutura-se em certas unidades […] mais simples […], compósitas, ou mais complexas […] que o historiador tem de ordenar para reconstruir o itinerário ou itinerários narrativos ou simbólicos previstos pelos respectivos autores .   Há,  já, na complementaridade das técnicas utilizadas no  Bel Composto visto em Portugal,  uma narrativa iconográfica que introduz um diálogo  temático, ou de diferentes temáticas,  entre si,  no sentido de explorar estéticas que levem os públicos a posições de simples auto-contemplação ou de expectação espiritual face à  envolvência  artística global em que se encontram.4

Neste curto texto, talvez a nossa melhor expectativa seja a de que, quem nos lê, perceba exactamente o conceito wagneriano de Obra de Arte Total, em toda a sua dimensão, de acordo com o que Wagner teorizou, olhando para uma mesmo aqui “à mão de semear”. Falamos do Convento/Palácio/Biblioteca /Basílica de Mafra. Como diz o seu director no sitio do  Palácio, no Google,  Mafra é arte com sentido – a certificação, o espectáculo, a representação do poder. Mafra é o esplendor do Barroco ! Estamos perante o monumento português que melhor reflecte o que podemos chamar de Obra de Arte Total: arquitectura, escultura, pintura, música, livros, têxteis. Um Património tipologicamente pensado […] que aqui configura uma realidade única. 

Jacinto Lourenço
2019, Dezembro
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1      Wagner, Richard - A Obra de Arte do Futuro. 1ª ed. Lisboa, Antígona, 2003, p.177
2       Wagner, Richard - A Obra de Arte do Futuro. 1ª ed. Lisboa, Antígona, 2003, p.177
3       Sobral, Luis de – Un bel composto: a obra de arte total do primeiro Barroco português, p.303
4      Sobral, Luis de – Un bel composto: a obra de arte total do primeiro Barroco português, p.305  

                                                                                                                                                                                                                                                                                      

    http://www.palaciomafra.gov.pt/pt-PT/Apresentacao/ContentList.aspx