segunda-feira, 27 de junho de 2022

Em Busca da Felicidade




   A Bíblia diz, no capítulo dois do livro de Eclesiastes, que "a sabedoria é mais excelente que a estultícia, quanto a luz é mais excelente que as trevas", diz também, no mesmo capítulo dois, que "ao homem que é bom diante dEle dá Deus sabedoria, conhecimento e alegria".

   Mas afinal que homem é bom perante Deus para que possa alcançar a sabedoria e o conhecimento diante dEle?  Entende-se como "bom", na leitura de Eclesiastes, não apenas aquele que alcança muito conhecimento, muito sucesso profissional, muita capacidade humana neste ou naquele sector da vida apenas porque estudou muito. Aliás, homens sábios e bons existiram, e existem em todas as culturas e geografias, em todos os tempos, e sem que para isso tenha sido necessário atingirem qualquer patamar de sucesso social ou económico.

   Um homem, ou uma mulher, "bons" e "sábios", são aqueles que se conhecem a si próprios, à sua natureza humana e espiritual, aos seus anseios e limites e têm, dos seus semelhantes, do mundo dos homens e das coisas, um conhecimento equivalente e proporcional ao que têm de si próprios sem que tenha sido necessário, porventura, aprender tudo isso numa qualquer universidade.

   Eclesiastes diz também que a alegria do homem está relacionada com a sabedoria e o conhecimento. Pode inferir-se que, para sermos felizes, temos que nos percepcionar em todas as dimensões. Ora, ao homem moderno, parece-nos, tem faltado olhar e perceber a sua dimensão e filiação divina; sem isso, por muito "bom" que se seja, nunca se estará completo, nem nunca se poderá percepcionar, por inteiro, o mundo dos homens e da realidade em que se inscrevem.

   Sem o espírito divino em nós nunca estaremos reconciliados com a autenticidade do projecto maior que nos envolve, nem estaremos irmanados neste destino comum que nos juntou aqui, à face da terra, homens de todas as cores, raças e culturas, todos diferentes e todos semelhantes.

   Sabedoria e felicidade serão então, de acordo com a Palavra de Deus, um dom ao alcance apenas dos que se compreendem, a si próprios, nesta globalidade, nesta dimensão física e espiritual. Só isso nos pode trazer a felicidade, porque só isso nos voltará a integrar dentro dos planos de Deus.


Jacinto Lourenço, Junho, 2022

quinta-feira, 9 de junho de 2022

PORTUGAL É UM ENORME ALQUEVA PARADO NO TEMPO E UMA SOCIEDADE BLOQUEADA





1926-1974 = 48 ANOS
1974-2022 = 48 ANOS

A conta é simples de fazer. Já completámos tanto tempo em regime dito democrático quanto o que passámos em ditadura: 48 anos!
Mas onde chegámos ao fim de 48 anos ?
Em ditadura não tínhamos Serviço Nacional de Saúde. Poucos anos depois de 25 de Abril de '74, passámos a ter um SNS que aos olhos de cá de dentro e de lá de fora parecia um dos melhores da Europa. Era o que nos diziam. O que lhe aconteceu à data que vivemos ? Praticamente destruído no seu funcionamento.
Antes de 25 de Abril de 1974 a Educação e a Escola destinavam-se só a alguns. O resto da população ou era analfabeta ou poucos tinham acesso a ir mais além do que a instrução primária. Depois de Abril de 1974 a Escola generalizou-se, o analfabetismo reduziu-se a valores pouco relevantes e a Educação tornou-se, ouvimos e lemos da boca de muitos responsáveis, uma paixão. Após Abril de 1974 chegámos a um ponto em que o analfabetismo funcional grassa em largas camadas da população, isto é: as pessoas que conseguem ler e escrever não são capazes de interpretar correctamente o que leram e menos ainda escrever composições mais elaboradas ou fazer cálculos aritméticos um pouco mais complexos. A escola tornou-se um terreno de devassa juvenil e um lugar mal frequentado onde impera a indisciplina de alunos e quantas vezes de agressões destes e dos seus pais aos professores que, por sua vez, estão cansados, alguns deprimidos e sem conseguirem obter satisfação ou retirar compensação do seu trabalho, como aliás acontece com a quase totalidade dos trabalhadores por conta de outrem. Uma larga percentagem trabalham décadas sem um vínculo laboral estável e sempre com uma "Espada de Damocles" sobre a cabeça, expectantes da sua colocação e dos resultados do concurso anual que, em muitos casos, lhes pretende atribuir horários tão escassos em número de horas semanais que, a serem aceites, os condenariam a uma quase indigência social a muitos quilómetros de casa. Os governos acham normal que muitos professores se encontrem a leccionar a centenas de quilómetros da sua casa e das suas famílias mesmo sendo pessoas como todas as outras que têm vida própria; marido, esposa, filhos para educar, famílias e lares para cuidar. Ou seja, são muitos anos seguidos a correr o risco de ver a família a desestruturar-se.

A propalada 'paixão pela educação' chegou a um beco sem saída e transformou-se num pesadelo, ou numa coisa qualquer que não se consegue mover por desarticulada que é.
O insucesso escolar, que todos querem esconder de todos, porque ninguém o enfrenta seriamente, corrói o futuro e não há PISA que lhe valha mesmo que nos queiram fazer crer que sim.
Claro que quem tem meios para tal foge a este insucesso matriculando os seus filhos em colégios privados e uma ou outra universidade de maior qualidade, se possível no estrangeiro, para ter a certeza de que estes sairão com uma boa formação ou aptos a conseguirem os melhores empregos ou, pelo menos, com melhores perspectivas profissionais.

O que mudou então de antes de Abril de 1974 para cá na Educação ? Se descontarmos a escolarização básica e o analfabetismo, nada ! Os pobres e os seus filhos, a classe média baixa, ou até uma grande parte da média, continuam a não conseguir usar o tal elevador social que se diz funcionar com a educação ou, se ele existe, só funciona para os mais favorecidos de vida; para os outros ainda que se carregue no botão ele não se move para cima, só para baixo. O país continua a marcar passo no seu desenvolvimento porque a sua população tem baixas qualificações académicas ou técnicas em todos ramos do saber. E não vale a pena virem com a questão da tal "geração de portugueses mais preparada de sempre" porque isso não passa de um sofisma. Os bons, os melhores, os portugueses realmente mais bem preparados de sempre foram empurrados ou levados a irem procurar a sua vida no estrangeiro. Por cá ficaram os resignados, ou os que já deixaram passar o momento de fugir a esta triste sina de ser português em Portugal, ou ainda os que não podem simplesmente sair por qualquer outra razão.
Com o 25 de Abril de 1974, a vida das classes média e média baixa, a geração dos nossos pais, passou a viver muito melhor que a dos nossos avós e, nós, durante uma ou duas décadas, vivemos muito melhor que os nossos pais. Estudámos mais, tivémos melhores empregos, comprámos casas, carros e outros bens que para as gerações anteriores eram inacessíveis. Mas o que sabemos é que os nossos jovens, filhos e netos, não vão ter uma vida melhor que a nossa. E se a tiverem é porque a ajuda dos pais se tornou essencial para isso. Ou seja, os jovens têm o seu caminho e futuro bloqueados em Portugal e já nem um curso superior lhes consegue resolver grandes problemas porque muitas licenciaturas só os habilitam a puderem, eventualmente, ser caixas de supermercado ou coisa parecida.

Os pobres ou gente que vive abaixo do limiar da pobreza cifram-se em milhões de pessoas e famílias, e já não falo daqueles que sobrevivem em empregos que só lhes pagam o ordenado mínimo em troca da exigência de esforço máximo. Já era assim antes de Abril de 1974 com a diferença de que não havia ordenado mínimo. À imensa pobreza do país, que nos envergonha, só algumas instituições caritativas conseguem levar algum consolo e ajuda para que as pessoas que estão nesta condição possam passar um pouco menos mal; mas isso é uma panaceia, não uma solução que só se conseguirá pela via da transformação estrutural do país. Não, não foi para ter isto que se fez o 25 de Abril de '74 !
A justiça transformou-se numa anedota de mau gosto e que, mesmo assim, não está ao alcance de todos, só dos que a podem pagar nem que seja para a postergar...
O turismo, imagine-se, o turismo, a par dos subsídios da UE, é a principal actividade e fonte de rendimento do país. Infelizmente está dependente de factores aleatórios que nem sempre se conjugam a seu favor e, como se isso não bastasse, ao fim de 48 anos Portugal apresenta alguns dos piores aeroportos do mundo nas classificações internacionais, ocupando mesmo o pódio da vergonha . Então mas alguém acha que um turista que chega a Lisboa, Porto ou Faro, e tem que suportar, durante várias horas, uma fila com centenas ou milhares de pessoas para que o seu passaporte seja controlado, vai ter vontade de cá voltar ou, no regresso ao seu país de origem, vai dizer maravilhas de Portugal ? Só se se estiver possuído por sentimentos masoquistas o fará.
As pescas acabaram ou resumem-se a uns poucos barcos que têm actividade em águas costeiras e que se dedicam ao carapau, cavala, sardinha, e umas quantas espécies piscícolas mais nobres a que poucos poderão chegar face ao seu preço nas bancas dos mercados.
A indústria é quase inexistente, se descontarmos meia dúzia de grandes empresas. A agricultura idem, depois de múltiplas experiências falhadas. Eternamente dependente de subsídios estatais, sem escala que a possa rentabilizar economicamente, a agricultura claudicou em favor da pecuária. Gado bovino, caprino ou ovino enche os campos cercados, os mesmos que antes de Abril de 74 estavam genericamente cultivados. O gado, pelo menos, garante alguma solvabilidade e tem comprador certo que vem do outro lado da fronteira. E não, não estou a defender o regime anterior, só estou a dizer que se destruiu uma coisa que, com todos os seus defeitos e problemas pareceu funcionar até ao fiasco e implosão da dita reforma agrária e suas sequelas. Tudo foi erodido sem apelo nem agravo.


Pelos vistos depois de Abril de 1974 nem copiar ou manter o que funcionava razoavelmente se conseguiu fazer. A agricultura é por isso um enorme cadáver económico em Portugal.
Há uns anos, em 1994, e muito antes de a barragem de Alqueva, que já vinha sendo projectada desde 1955 e começada a ser construída uns quantos anos mais tarde para ser de novo parada durante décadas, alguém escreveu no paredão semi-construído a frase "Construam-me, porra !". Claro que era só um desabafo de uns quantos, na altura jovens, alentejanos locais enfadados com o tempo que decorrera desde que se iniciara a obra e a pararam a meio, mas que no fundo dizia muito da inacção portuguesa. Contudo a frase lá ficou a servir de espelho para nossa vergonha colectiva. A barragem só viria a começar a ser cheia em 2002 e inaugurado o seu aproveitamento hidroeléctrico em 2004. Pensava-se que iria transformar, pelo menos, o Baixo Alentejo, numa zona irrigada e fértil. Mas não; o que vemos hoje são monoculturas intensivas de rentabilidade muito rápida e mais do que duvidoso interesse estratégico para os interesses locais ou nacionais. Maioritariamente posse de capitais espanhóis, destina-se o seu produto a exportação. Economicamente não me parece resultar daí grande benefício para o país; ficarão por cá alguns impostos e, na melhor das hipóteses, a criação de uns quantos postos de trabalho sazonais. Quando os espanhóis se cansarem de Alqueva, os terrenos que foram irrigados pela água da albufeira precisarão de muitos anos para poderem ser descontaminados dos resíduos de fertilizantes, herbicidas, fungicidas e de toda a sorte de químicos que lá ficarem depositados e que poderão levar à esterilidade da terra por muito tempo. À sua volta, à volta do Guadiana, ou onde a água de Alqueva não chega por falta de capacidade económica da agricultura nacional, continuam a pastar, em cercados, pachorrentos bois, cabras e ovelhas, até que do outro lado da fronteira cheguem os camiões que os vêm carregar para os entregar em matadouros de Espanha.
Pelo meio de todas estas desgraças e misérias portuguesas, podíamos ainda falar dos fundos europeus a que muitos, e especialmente os mais próximos do poder, chegaram, roubaram ou malbarataram sem vergonha nem pudor e com cobertura vá lá saber-se de quem... E agora está aí o PRR de que nunca mais se ouviu falar depois da campanha eleitoral em que se enchia a boca com tão grande oportunidade, diziam mesmo, a última para mudar o país...
Podíamos ainda falar dos bancos, mas isso, toda a gente sabe que são um sorvedouro de dinheiro dos contribuintes e funcionam como sacos azuis para pagar milhões aos cleptocratas que abundam nas suas direcções ou presidências. Dos transportes públicos que deviam e podiam prestar um bom serviço mas que na maior parte dos dias do mês estão parados por greve dos seus trabalhadores a reclamarem ser melhor pagos; e não direi que lhes não assiste razão. O problema é que as suas greves sucessivas e constantes atingem sempre, e só, outros milhares de trabalhadores que precisam de ir às suas vidas laborais e depois regressar a casa, ir buscar os filhos à escola fazer o jantar dar-lhes comer e, no fim de toda esta lida, dormirem meia dúzia de horas, tantas quanto as greves lhes permitirem. Estes milhares de trabalhadores não podem sequer reclamar porque não têm qualquer capacidade reivindicativa, a mesma capacidade em que se estribam e protegem os sindicatos atrás da segurança do emprego público, ou nas empresas estatais, institucionais ou quiçá de outras grandes empresas estratégicas para o funcionamento do país. É só aí que os sindicatos se sentem à vontade para fazer chegar a vontade de certos partidos e manipular e atirar trabalhadores contra outros trabalhadores.
Será que ainda poderei falar de mais duas ou três coisas sem que esgote a vossa paciência? Pois bem, lá vão : temos uma das maiores cargas de fiscalidade da Europa; pagamos dos mais altos preços de muitos bens essenciais, como a energia e os combustíveis - e já era assim antes da guerra na Ucrânia- para além de muitos bens alimentares, electrodomésticos tão essenciais como essenciais são uma máquina de lavar roupa, louça, frigorífico, etc. Poderia falar também no preço dos automóveis e tantas, mas tantas outras coisas. Não acreditam ? Então aproveitem as férias e deem um salto a uma qualquer cidade fronteiriça espanhola, por exemplo, e comparem o que vão vendo. Chega a ser doloroso e revoltante observar o que pagamos a mais, ganhando muito menos, deste lado da fronteira.
Sim, foi aqui que chegámos depois de 48 anos e quase nos apetecia desabafar, como os tais jovens alentejanos, numa parede qualquer, a frase: "Portugal: contruam-me porra !" Já que até agora só conseguiram destruir !

Jacinto Lourenço, Junho 2022

sábado, 18 de dezembro de 2021

ERA UMA VEZ NO FAROESTE PORTUGUÊS...

 

Não tenho qualquer tipo de competência técnica para discernir sobre a questão da justiça em Portugal. Mas tenho aquilo a que se chama senso comum, seja lá isso o que for, que me segreda à consciência sobre o que parece estar certo e o que possa estar eventualmente errado.

Vem isto a propósito da enorme exposição pública que foi dada, pelos meios de comunicação portugueses, à prisão de Rendeiro na África do Sul e à de Manuel Pinho em Lisboa. Veio igualmente ao nosso conhecimento, com justificado alarido neste caso, a forma de como alguns elementos da GNR andaram a tratar os emigrantes na região de Odemira, sabendo-se que, afinal, isso era uma prática reiterada e que até existiam agentes já julgados anteriormente por esse mesmo motivo, e condenados, mas que continuaram ao serviço, o que foi porventura por eles entendido como um voto de confiança da justiça para puderem continuar com as mesmas práticas de ofensas à integridade física e moral de emigrantes. As forças de segurança, por uma questão axiomática, é suposto serem integradas por pessoas com qualidades cívica, moral, ética e idoneidade bastante para tal, e não por pessoas réprobas que já foram julgadas e condenados por crimes.
Confesso que não nutro qualquer empatia especial em relação às duas figuras citadas, Rendeiro e Pinho, assim como também me sobram muitas dúvidas sobre a forma que reveste o poder discricionário que é exibido por muitos agentes da autoridade na sua relação com os cidadãos, e como esse poder é supervisionado em cada esquadra da PSP ou posto da GNR. E as minhas dúvidas assentam também numa ou outra experiência pessoal, que me foi tocando pontualmente, como certamente a outros tantos normais cidadãos como eu, com abordagens pouco edificantes levadas a cabo por agentes, em especial da GNR.
Mas incomoda-me (e indigna-me) ver que a justiça portuguesa se deixa embalar actualmente mais por um atitude de justicialismo tablóide e exibicionista do que pelo exercício de uma justiça produzida no âmbito estrito dos tribunais sem preocupações populistas para satisfazer a vox populi. Quando isso acontece, quando se quer uma justiça para, em primeiro lugar, calar o povo, dá nas trapalhadas justicialistas que têm vindo a público. Em qualquer país minimamente civilizado a justiça não será isto que temos visto. E para usar um termo muito em voga por estes dias, quando há “foguetório” à volta dos actos da justiça, então sabemos que ela não está a cumprir com as pessoas pendentes de quaisquer resolução, nem consigo própria nem com os portugueses em geral.
Foi também penoso ver um alto responsável da Judiciária, armado em qual Marshal do antigo faroeste americano, vir a todas as televisões proclamar a prisão de Rendeiro, como se isso resultasse exclusivamente de si próprio. Talvez nunca lhe tivessem explicado que as suas funções devem revestir discrição, reserva, sensatez e contenção verbal na comunicação dos factos ao invés da exuberância pessoal demonstrada, completamente inusitada, pedante, e até a roçar o disparate.
Em resumo: sedimenta-se mais no nosso espírito a ideia de que a falta de qualidade da democracia portuguesa já atingiu e deteriorou bastante o cerne da própria democracia representada esta pelas instituições em que mais devia repousar a nossa confiança enquanto cidadãos.


Jacinto Lourenço
18 de Dezembro de 2021

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Lavre: O Meu Pedaço de Alentejo


Construída no século XIII e reconstruída no século XVIII após ter sido devastada pelo terramoto de 1755, esta imagem da igreja católica e matriz de Lavre aviva-me memórias de criança nos idos de 60 do século passado. Recuo no tempo e revejo-me com idade de pouco mais de meia dúzia de anos, cá em baixo, num recinto térreo a olhar para a porta da igreja para ver quando sairiam os noivos e o seu séquito de convidados.
Emproados, os homens maduros ou rapazes tipo franganotes, nos seus melhores fatos domingueiros. As mulheres casadas e as raparigas casadouras vaidosas nos vestidos, saias e blusas. As vestimentas deixavam muitas vezes adivinhar o passar do tempo, mas nada que o desenxovalhar correctivo do ferro de passar aquecido a brasas não resolvesse. Aos homens assentava-lhes a roupa como no dia de tirar sortes, embora, caso raro, com os botões do casaco algo mais espichados. As mulheres e raparigas, vistosas, empoadas com 'mises' e 'permanentes' que, de tão invulgarmente usadas mais pareceriam um objecto estranho implantado em cabeças pouco dadas a luxos ocasionais. Mas aos olhos dos homens e dos franganotes que raramente as viam sem roupas de trabalho; manguitos, lenços a tapar a cara e chapéus pretos a cobrir a cabeça, mostravam-se como se fossem rainhas e princesas.
Os rostos e mãos, fossem de homens ou mulheres, no comum dos casos e na maioria dos casamentos, deixavam adivinhar, pela pele tisnada, o trabalho duro do campo debaixo de um sol inclemente que não os poupava desde que nascia até que se ocultava no horizonte. Mais do que um casamento, era a festa que importava e se ansiava, terminando sempre com um baile movido, noite adentro, pelo acordeão, com as raparigas casadouras e os franganotes a iludirem os olhares perscrutadores das mães e os homens a preferirem o prosaico embalo de uns bons copos de vinho ou uma bebida mais fina se a apanhassem. Aos homens, o que os interessava, em boa verdade, e o que os divertia e fazia exultar, era muito mais a observação do jogo femeeiro dos franganotes. Iam-se revendo na sua própria juventude desfiada de baile em baile ao som do mesmo acordeão, a roubar afagos e apertos que os deixavam a sonhar com outras ousadias.
A nossa visão de crianças, amontoadas a partir de cá de baixo, na base da escada, e fixada no seu topo, só queria encontrar, nas mãos dos padrinhos, o taleigo onde se transportavam todas as expectativas fugazes do momento.
As velhas, espertas, atrapalhavam a criançada como podiam e apanhavam as amêndoas que voavam fazendo com que lhes caíssem junto dos pés imóveis. Meninos e meninas, ávidos de doces, agatanhávamo-nos e empurrávamo-nos para, entre mãos cheias de terra e pó, encontrar algumas amêndoas que nos sobrevoavam e caíam no chão empoeirado. Rolávamos então numa quase luta onde de amigos passávamos a adversários de ocasião naquela batalha sem quartel pelo melhor quinhão.
Chegados a casa, amêndoas metidas num copo com água bem agitada para retirar o pó, e o gozo de sentir aquele pequeno rebolo de açúcar derreter-se na boca era prémio suficiente para a nossa ânsia e sofreguidão após sofridos momentos no enxurdo poeirento.
Mas nem sempre os padrinhos dos casamentos eram pródigos nas oferendas à gaiatagem. Quando isso acontecia, os fonas eram mimoseados com uma lenga lenga repetida à exaustão para ver se o enxovalho lhes servia de emenda : "casamento xoxo que o padrinho é mocho, casamento xoxo que o padrinho é mocho". (na frase citada, a palavra "mocho" tem no Alentejo uma conotação pejorativa e não se refere ao simpático Mocho, que é uma ave bem bonita).
Vezes sem conta subi aquelas escadas. A maior parte para brincar no Adro à volta da igreja; as outras para conseguir que o padre Flausino me assinasse o livrinho que provava ter assistido à missa dominical. Sem ele, não havia televisão no domingo à tarde. Ora, como é bom de imaginar, o "Super Rato" só dava ao domingo à tarde! Se não assistíssemos, seria uma perda irreparável. Uma tirania que só poderia ser previamente redimida pelo pagamento de cinco tostões para entrar na sala da televisão, mas que eu, regra geral, não possuía.
A designada "televisão do padre" era a única (pelo menos que eu saiba) particular que havia em Lavre. Alimentava-a um pequeno gerador eléctrico que ia queimando o combustível e espalhando a pestilência da queima pela sala. Além de mais um ou outro dia da semana, também era ligada aos sábados à noite numa emissão televisiva concorrida essencialmente por mulheres que carregavam consigo filhos ou netos para lhes lerem as legendas dos filmes. O serão passava-se assim, numa sala fria, à volta de uma braseira daquelas que faziam "cabras" nas pernas quando apertava o inverno. A tarefa que nos era destinada nessas noites transformava-se em tédio e dava lugar, algumas vezes, a reinterpretações e criatividade para as falas dos actores, sem destoar muito da acção para não dar nas vistas.

Existiam mais duas ou três televisões nos cafés da terra, mas aí os gaiatos não podiam entrar sem serem acompanhados por um adulto e, regra geral, apenas para ver o Bonanza ou, eventualmente, uma tourada em que actuasse o cavaleiro Luís Miguel da Veiga, que tinha raízes na vila, onde nasceu também Simão da Veiga. Nesses dias Lavre mudava-se para os cafés onde as pessoas se amontoavam extravasando para a rua. Ver um homem, figura cimeira do toureio a cavalo de então, ligado à Vila, dar cartas nas arenas portuguesas, era um orgulho para tanta gente simples a que uma vida de quase semi-escravatura de trabalho duro e rude no campo, de sol a sol, não permitia grandes alegrias ou divertimentos.
Em dia solarengo espraiamos a vista para sul, a partir do Adro da velha igreja matriz; o tapete da rústica paisagem alentejana quase vem morrer-nos aos pés. Corta-nos a respiração, ergue-se plena de um verde que o Outono trouxe salteado por manchas de sobreiros e azinheiras que sempre lá estiveram. Fazemos sobrevoar o olhar pelos muitos telhados novos, ocres, de um bairro de casas de paredes alvadias. Mesmo que não possamos ver, podemos adivinhá-las com gente dentro, pessoas que se têm quedado em Lavre ou que elegeram a vila para retiro de dias pachorrentos. Mais ao longe, do lado de lá da ribeira, os novos 'Montes' erguem-se e impõem-se à paisagem denunciadores de um certo novo-riquismo; gente de Lisboa e alguns famosos, dizem-me.
Apesar de tudo, a vila parece resistir e conviver bem com o passar das décadas. É certo que à vista dos visitantes ocasionais não se mostram habitantes nas ruas; porque não existem, simplesmente, ou porque estão demasiado velhos para sair à rua. O comércio é resumido. Resistem dois ou três estabelecimentos dos muitos que a vila possuía. Há um lar onde estarão alguns dos velhos que não encontramos na rua. Uma conquista de 1974 nestas terras do interior, mas que se ergueu através do impulso visionário do padre Flausino.
Das pessoas que conhecíamos em Lavre, na nossa infância, a maior parte delas saíram em busca de mais auspicioso futuro nas grandes cidades ou vilas mais desenvolvidas, senão mesmo no estrangeiro. Sobram maioritariamente as que só podemos visitar em memória no bem cuidado cemitério onde repousa também a de pessoas que amamos. Mas sim, a beleza de Lavre não foi adulterada. Mantêm-se intocada e esplendorosa, pelo menos aos nossos olhos de menino que gostam de a preservar assim.
Os telhados das casas novas que observamos a partir do Adro deixam antever que Lavre vai persistir na sua secular história iniciada muito tempo antes de D.Dinis lhe outorgar foral em 1304.
Na foto que tirámos dispensavam-se bem as duas árvores. Excrescências que encobrem o património edificado e o desfeiam. Mas esperamos que isso seja resolvido um dia.
Iremos decerto voltar ao nosso chão alentejano, mas até lá, havemos de regressar à escrita sobre a nossa relação com ele.
Sobre Lavre e a literatura que a aborda, que nos aflora a mente, e que nos desencanta pelas memórias que traiu sem pontos nem vírgulas, só sobra a convicção comum de que esta velha vila que me viu crescer menino e adolescente seguirá agarrada ao mesmo chão que pisámos até finais dos anos 60. Agarramo-nos, afinal, a esse consolo, o de nos sabermos pertença sua e que ele nunca deixará de fazer parte de nós.


Jacinto Lourenço
2021, Novembro, 16

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

PORTUGAL EM MODO FRAUDE...


(imagem: jornal Público)

Regresso ao tema que a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) trouxe ao nosso conhecimento recentemente, de que os enfermeiros portugueses são dos mais mal pagos entre os países que integram esta organização internacional (em paridade de poder de compra) e apenas acima de Eslováquia, Lituânia, Letónia e Hungria, e que os salários dos médicos regrediram para valores reais (descontada a inflação) anteriores aos praticados em 2010, talvez convenha acrescentar que esta situação terá, certamente, um âmbito muito mais alargado tocando outras profissões qualificadas ou não qualificadas.
A verdade social e económica percepcionada em Portugal é a de que, quase meio século depois de instaurada uma democracia, que devia ser para todos, resulta ter afinal sido construída para quem consegue situar-se nas franjas do poder e assim usufruir das benesses e privilégios que este distribui, com toda a prodigalidade, por aqueles que lhe são próximos. Ora, como é evidente, a ideia generosa que presidiu ao 25 de Abril de 1974 estava muito longe da realidade que se instalou no país desde então.
Se exceptuarmos a liberdade conquistada ( que não é coisa de somenos, se nos lembrarmos do regime em que vivemos anteriormente), e após muitos milhares de milhões de euros em fundos da UE injectados para o desenvolvimento português, (sem que se veja, na maior parte dessas verbas, onde e como foram aplicadas) nada de muito substancial do regime salazarista foi
anulado. O caciquismo partidário instalou-se com outras cores numa rede tentacular que não deixa escapar nada ou quase nada que não termine nos seus bolsos. O nepotismo generalizou-se. O empobrecimento da população é um aviltamento. A corrupção é transversal na nossa sociedade. Os portugueses continuam a ter que emigrar aos milhares e, ao fim de 48 anos continuamos na cauda da Europa em termos sócio-económicos, mas agora ultrapassados por nações que nunca imaginámos que alguma vez o pudessem fazer. As famílias passam o tempo a olhar para o calendário e a imaginar como farão chegar o rendimento disponível ao fim do mês.
As maiores e melhores empresas nacionais, as mais lucrativas, as que podiam ajudar a economia nacional de outra forma, foram entregues por "patacos" a quem lhes pode lançar mão, facilitados esses por autênticos "Cavalos de Tróia", instalados nos sucessivos governos em Portugal, mas sempre na primeira linha de defesa dos interesses estrangeiros, que para isso lhes pagariam através de todos os esquemas financeiros que se possam imaginar, culminando ainda, mais tarde, com uma boa colocação em empresas ou bancos de nomeada internacional.
A cultura é inexpressiva e acessível apenas nos principais centros populacionais, no resto do país é um semi-deserto.
Dos jovens que terminam a sua formação académica, poucos são os que conseguem romper o ciclo de precarização no emprego e, por consequência, poucos podem assumir uma vida familiar independente fora das casas dos pais. Por outro lado, os que não vão além do ensino secundário e não possuem qualquer qualificação profissional, ou passarão o resto da sua vida em empregos que não pagam mais do que o ordenado mínimo ou ficam a parasitar os pais enquanto estes o permitem, e permitem muitas vezes, levando uma vida sem estudar ou trabalhar e sem quaisquer objectivos futuros, mas com dinheiro nos bolsos para cigarros, álcool, ténis de marca ou telemóveis topo de gama.
Os nossos velhos são entregues para morrerem nos meandros dessa nova indústria designada metaforicamente por "lares", que na sua maior parte se assemelham a "campos de concentração" pavorosos. Para os seus filhos ou famílias não existem escolha, tempo ou até dinheiro que sugiram pensar noutra solução, que na maior parte dos casos não têm.
Quem têm um trabalho deve mantê-lo a todo o custo mesmo que mal pago e sem horário de trabalho a atender à lei. As entidades patronais não olham, nem são para isso vocacionadas, para os problemas que os seus trabalhadores têm com pais ou filhos.
A justiça tornou-se simplesmente risível.
Em resumo e para atalhar caminho: após tantos anos de liberdade quantos os passados sob a ditadura do Estado Novo o país é pouco menos que uma fraude imposta por este regime a que chamam democrático mas que transporta dentro de si um artefacto político explosivo que irá implodir um dia destes e que nos levará a todos se não tivermos arte ou engenho para mudar o rumo.
As únicas e verdadeiras grandes construções da democracia foram o Serviço Nacional de Saúde e a educação. Pois nem mesmo essas parecem estar isentas de serem reduzidas a escombros por uma classe política apenas focada nos seus próprios interesses e jogos de poder.

Jacinto Lourenço


quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Não Vou por Aí...

 


"Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração." (Actos 17:28)


Ao reflectir um pouco sobre o verso bíblico citado acima ocorreu-me a realidade de tanta gente a quem a melhor ideia que lhes ocorre, para fazer a aplicação prática desta pequena quantidade da Escritura,  é no grande púlpito das redes sociais e em particular o FB. Ou seja, vivem nele, movem-se por ele e só existem em função dele, do FB. O seu 'cristianismo', o  desta geração de cristãos Facebookianos, encontrou um púlpito de onde pode ser pregado tudo o que quiserem, como entenderem e quando desejarem. Não precisam de filtros, pelo menos no imediato, e têm até a prerrogativa do envio de mensagens endereçadas e supostamente encriptadas. Acham que os destinatários saberão desencriptá-las não correndo eles o risco de poder ser considerada uma eventual descortesia ao identificarem claramente quem pretende atingir. Ou seja, querem viver de bem com Deus e com o diabo.                                

  Dão-se como exemplo de tudo a todos. Ao lê-los percebemos que parecem conquistadores de céus e terra. Brandem a sua nova fé, qual tocha que incendeia a pira duma inquisição privada, como arma de arremesso contra os condenados, no altar da sua justiça, ao lago de fogo . 


Ao apresentarem-se, qualquer incauto os teria como se fossem encarnação viva de Abraão, Moisés, Jacob, Isaías, Jeremias ou qualquer outro profeta ou apóstolo. Quais Saulo de Tarso não admitem desafios à sua moralidade, à sua sublime e puríssima ética religiosa conquistada a duras penas ao exército de likes, risonhos e outros emójis dos seus seguidores.                                                              

  Trespassam e derrotam, com a sua palavra inspirada por grandes pregadores facebookianos tomados como verdadeiras inspirações, fontes de luz sempre acesas para eles. Têm revelações, proferem imprecações e determinam, por todas as pragas do Egipto, derrotas aos inimigos que pela sua frente quiserem impedir tamanha obra e tão grande ministério que é o seu.                        

  São bispos, pastores, apóstolos, evangelistas, professores, pregadores, conselheiros, discípulos, doutrinadores, doutores de uma e outra qualquer lei feita por medida, à sua medida, claro.                                                                                                                                                        

  Poucos títulos ou dons de operações extraordinárias lhes escapam. As casas de oração, as igrejas,  são demasiadamente acanhadas para a dimensão de tamanhos profetas desta desgraça !   Têm o cepro do poder facebookiano. Podem julgar e condenar tudo e todos, em especial os que não pensam, não agem ou não seguem o mesmo caminho deste 'cristianismo' made by FB, ou que porventura não lhes outorgam likes fofinhos, risonhos, dedos de aprovação e apoio.                                                                                                                                            

  Este é um peditório para o qual nunca dei e nunca virei a dar. Não se pode  reconhecer respaldo bíblico a gente desta, porque ele não existe. Por este andar, um dia destes ainda se arranjará pelo FB uma licenciatura em "ciências das religiões Facebookianas" . E um mestrado e um doutoramento, com muitos créditos, claro, para demorar menos tempo a pendurar o diploma no mural e que confirmará toda a 'sabedoria' de tantos doutos sabedores dos mistérios da nova visão religioso-místico-facebookiana. Nem Relvas ou Sócrates, ambos muito sábios, aliás, em matéria de títulos, teriam pensamentos tão arrojados.                  


Como José Régio vos diria:

[...] "Ide ! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura! [...] 

Sei que não vou por aí."




Jacinto Lourenço - Outubro, 2020

terça-feira, 7 de julho de 2020

Quo Vadis. O Filme da nossa Vida...





Salazar, o jovem ministro das finanças que tomou posse em Abril de 1928, sob o comando dos militares da ditadura que fez cair a Primeira República, proferiu, no seu discurso de tomada de posse, uma frase lapidar que ditaria o rumo do país durante 40 anos, até à sua morte em 1968. Foi esse o tempo em que esteve no poder em Portugal como o senhor absoluto dos destinos desta nação que parece fadada a depender de homens providenciais.
Sei muito bem o que quero e para onde vou.

Teve Oliveira Salazar o condão de dizer uma coisa que os portugueses não estavam habituados a ouvir desde a Monarquia Constitucional e até 1928, pelo menos.

Tanto a Monarquia Constitucional como a Primeira República tiveram muitos homens que tentaram impor o que queriam, mas nenhum deles sabia muito bem para onde ia, ou, se sabia, desconhecia como lá chegar.


Porque é que a ditadura militar de Maio de 1926 se impôs tão facilmente ( pouco menos que um passeio a cavalo, de Braga a Lisboa, para Gomes da Costa, sem praticamente usar as armas ) e durou tanto tempo, mesmo que anos depois de eclodir se tenha transformado no que ficou conhecido como Estado Novo ? Porque ninguém, teve melhores argumentos ou força para a contrariar e porque havia de aparecer um designado homem providencial que disse saber o que queria e qual o caminho a seguir para tirar o país do lodo. Caso contrário o enorme PREC que foi o período da Monarquia Constitucional prolongado na Primeira República teria durado mais uns anos sem que se possa saber como tudo aquilo terminaria entretidos que andavam, os políticos e revolucionários, a ceifar oportunidades e vidas. Destas últimas tanto se abatiam as mais humildes como as de ilustres homens de grandes qualidades políticas, culturais e intelectuais.

Parece por isso estarmos destinados, nação e país, a esperar por que venha um homem providencial qualquer colocar as nossas esperanças alinhadas com um destino que, pelo menos, abra uma porta por onde se entreveja alguma hipótese de futuro.

E isso é um facto recorrente em vários períodos da nossa história. Talvez o caso mais conhecido e paradigmático seja, ainda até agora, o mais lembrado, porque, como noutros momentos, a independência de Portugal estava posta em causa: a espera pelo Desejado, e nunca regressado D. Sebastião. Acho que tantas foram as ocasiões em que estivemos nessa circunstância, a de deixarmos de ser um país, que sofremos hoje de um sebastianismo endémico; isto é, estamos sempre à espera de que algum homem providencial, aparecido como que por milagre, nos venha resgatar seja daquilo que for.


Em 1928, para a ditadura militar, Salazar seria o único homem capaz de dar ao país aquilo de que ele precisava depois de tantos anos de mortes, fome, guerra, doenças, miséria e endividamento externo num limite tal que nenhuma organização internacional, nenhum país, arriscaram emprestar a Portugal e, quando surgiu uma hipótese de isso acontecer, os custos eram tão altos e os sacrifícios a impor tão pesados que nenhum político de passagem pelo governo arriscou ousar comprometer-se, e ao país, com tais circunstâncias.

Os militares de 1926 agarraram-se a Salazar como última e única providência possível para operar o milagre de salvar Portugal. A verdade é que o país que este deixou a Marcelo Caetano, em 1968, era, para o bem e para o mal, totalmente diferente do que recebera quarenta anos antes. A duras penas os portugueses de então pagaram e sofreram essa recuperação económico-financeira que, apesar de tudo, e salvo algumas poucas excepções, não os retirou da pobreza endémica.

Os tempos que correm são diferentes, felizmente para melhor, apesar de tudo. Mas a Pandemia, como se adivinhava, destruiu um presente que, se não era grande coisa, pelo menos tinha aberto uma porta para entrever um futuro melhor do que aquele a que o governo Passista/Troikista nos tinha destinado. Seria Costa o tal providencial, condenados que estamos a depender sempre dessa figura do homem providencial, que iria operar a catarse que nos libertasse e projectasse para um lugar de tranquilidade colectiva ? ( claro que já não ousamos sequer sonhar sair da cauda da Europa... ) A Pandemia revelou que não! Costa é afinal mais equilibrista e malabarista do que "homem providencial".

Terminado o prazo de garantia da Geringonça, como todos os electrodomésticos que compramos para nossas casas, esta deu de imediato sinais de começar a ter problemas. E como acontece com quase todos os electrodomésticos que compramos, as avarias, findo o prazo de garantia, ficam-nos sempre mais caras na reparação do que a compra de um novo equipamento.

Depois, bem, depois vem sempre um conselheiro técnico dizer que o electrodoméstico, com um jeito aqui e outro ali, aguentar-se-à mais uns tempos e fará um figuraço. A questão é que raramente isso se confirma. E é aí que vem o pregador de milagres anunciar um milagre que nos levará a não termos que trocar a Geringonça em que o nosso electrodoméstico se tornou.

Digo-vos eu que não resulta, porque sei do que falo em matéria de electrodomésticos cá em casa. Se o prazo de garantia termina hoje, a partir de amanhã começo a esperar pelo dia próximo em que terei que o trocar.

Comprovadamente, a Pandemia estoirou com a Geringonça e, mais do que provavelmente, com a maioria absoluta que Costa achava que estava a construir. E nem qualquer milagre que Marcelo invente pode remediar isso, porque, como bem sabemos, os milagres de Marcelo são muito circunstanciais e não duram mais do que os poucos dias que demora um vírus impenitente e ateu a contrariar o melhor catolicismo que enche o peito de um presidente.

Para onde vamos afinal ?!
Bom, já nem Salazar, nem Centeno conseguirão dizer-nos. Só conseguimos saber onde está Salazar e para onde vai Centeno.

O que queremos ?!
Pois, acho que também não sabemos muito bem, mas para começo gostávamos de que não nos condenassem a andar a pagar, para o resto das nossas vidas, a TAP, o BES, o BPN, o Novo Banco, a EDP, a CGD, o BANIF, o BPP, a PT, as Rendas eternas das parcerias público-privadas, etc, etc, etc. E gostávamos também que os nossos pesados impostos servissem apenas para dotar o país das infra-estruturas necessárias e para investir naquelas onde desinvestiram durante tantos anos. Para revigorar o SNS, as polícias, e tantos outros serviços essenciais; para pagar melhor aos profissionais de saúde e aos polícias e não para irem parar aos bolsos de todos os plutocratas que têm usado o estado para nos empobrecerem continuadamente. Há, já agora: se não for pedir muito acabem de vez com as mensagens que andam a enviar à população sobre o controlo da Pandemia. Mas que controlo ? Podemos não saber para onde nos levam, mas não somos parvos de todo para nem sequer sabermos onde estamos !

Mas quem pode fazer isto tudo ? Pois, com o histórico que temos, provavelmente só um homem providencial já que de pregadores milagreiros , equilibristas e malabaristas estamos servidos. E que esse tal homem providencial não fique muito tempo no governo pois só isso nos garantirá que não terá tempo de descobrir onde levam todos os corredores dos palácios do poder, que é o que muitos ministros, primeiros ministros, secretários de estado e quejandos, plutocratas, enfim, vêem como missão de vida na sua passagem por qualquer governo.
Portugal e a vida dos portugueses...?!?   Isso são meros colaterais.

Jacinto Lourenço 

quarta-feira, 8 de abril de 2020

A Incompatibilidade entre Burros e Minas...




A fotografia que aqui deixo é um 'déjà vu' nos jornais e redes sociais destes últimos dias. Estas últimas, apressadas como sempre e mentirosas como habitualmente, logo inventaram uma história que colaram à fotografia como tratando-se de soldados que atravessavam um campo minado perto do qual andaria o burro. Ora, os soldados, com receio de que o burro começasse aos pinotes campo adentro e fizesse explodir as minas matando-se e matando-os a eles, preferiram pegar no jumento em ombros e levá-lo a campo seguro para evitar males maiores.
A história seria engraçada se fosse verdade, mas não é verdade e não resistiu à investigação sumária de alguns jornalistas que a investigaram e desmistificaram. Tratava-se afinal de um jumento que soldados da legião francesa encontraram, eventualmente perdido, e transportaram para o seu aquartelamento, algures na Argélia, onde foi muito bem tratado e adoptado como mascote.
Em abono de um bom fim para a história, diga-se que qualquer das versões, a das minas ou a da mascote, assentava bem ao burro, porque ambas, afinal, lhe teriam salvado a vida.
Mas há historietas que dão óptimas metáforas para a vida, e esta é uma delas.
Vive a humanidade um momento crucial da sua história. Ou seja estamos num campo cheio de minas e, ao mínimo descuido, pisamos uma delas e "BUM", vamos pelos ares, quer dizer, somo atingidos em cheio por este vírus que não conseguimos ver, cheirar, ouvir ou sentir e, quando o conseguimos fazer, já é tarde porque já nos atingiu, ficando por saber com que sequelas iremos ficar para a vida.
Esta é a nossa condição actual. Mas, para a agravar, estando em pleno campo minado damo-nos conta que temos por companhia uns quantos burros selvagens à solta que decidiram por bem brincar aos pinotes e zurrar a parvoíce habitual, na linguagem jumenta que só eles parecem entender, não cuidando que com a sua condição de burros tornaram-se um perigo para os humanos que, mesmo sem terem outra opção, estão no meio do campo minado a tentar atravessá-lo chegando ao fim sem danos de maior, mesmo os colaterais. Mas os burros, por serem burros, não conseguem discernir do perigo em que se constituem, com os seus pinotes por entre as minas que começam a explodir e a atingir muitos humanos que não conseguem eximir-se dos estilhaços que os burros fizeram explodir, por serem burros, claro.
Por se julgarem muito afastados uns dos outros, alguns com um oceano a separá-los, os burros criam várias explosões ao mesmo tempo, em vários locais do campo minado, atingindo pessoas que se imaginam a si próprias em segurança face à distância e, que, por isso, também tinham começado a agir como se burros fossem zurrando que estão mais seguros do que os humanos que se encontram mesmo no centro do campo minado.
Mas uma boa parte das pessoas não ligam aos burros, porque sabem que eles são burros, agem como burros e que assim continuarão por toda a sua vida. Por isso o que querem é salvar-se sem serem atingidas, tomando para isso todas as precauções que sabem ser importantes para se protegerem das explosões e esforçando-se para que não sejam elas causadoras de nenhumas.
Ora, conta-se, no livro da filosofia ancestral jumentina que, certo dia, quando os burros, guias de todos os outros burros, achavam que já tinham atingido o pleno conhecimento estratégico para se protegerem das minas do campo minado, um dos burros que tinha a certeza desse seu conhecimento validado pelos guias dos burros, decidiu dar um pinote menos controlado, e zás, pisa uma mina e foi pelos ares.
Face às lesões sofridas por este burro, achou-se então que seria suficiente manter o burro no estábulo, para que ele se recuperasse com o tempo. Mas não, o tempo, provou-se então, não é amigo dos burros, e o burro, não havendo um hospital para burros disponível, teve que ser internado num hospital para humanos afim de receber tratamento intensivo que o pudesse salvar dos danos causados pela explosão que ele próprio, burro, originou.
Moral da história: quando quiserem adoptar um burro, certifiquem-se que o deixam bem amarrado à manjedoura para que ele não vá dar pinotes para um campos minado e provocar explosões que convoquem malefícios para os humanos. Porque, afinal, se confiamos num burro, sabendo que a sua condição de burro é fazer burrices, somos mais burros do que o burro. E o problema é haver demasiados burros aos pinotes no meio de campos minados por esse mundo fora. Por favor não confiem nunca  em burros ou em humanos que parecendo burros são mesmo o que parecem.



Jacinto Lourenço 

segunda-feira, 30 de março de 2020

Por entre os Miasmas da morte









Para onde quer que nos voltemos, vimos, ouvimos, lemos, na maior parte das vezes, muitas vezes, sobre o tema genérico que domina os meios de comunicação. Já sabemos há muito que o que o que mais contribui para haver notícias não são as boas notícias, mas as más notícias. Afundamo-nos nas letras garrafais dos jornais ou nas imagens tristes e lúgubres que os telejornais nos fazem chegar a toda a hora e já não apenas à hora a que estávamos habituados. Ficamos quase paralisados com o olhar fixo nos números da morte e nos desplantes dos vampiros ocasionais que só conseguem olhar as suas populações através de uma folha de cálculo.
De repente, por entre o desfiar da vida nos écrans, nos periódicos, o tema dominante fala da morte e da exaustão dos vivos que a enfrentam.
É nestes momentos que talvez fosse bom lembrar que um cristão é alguém cuja visão deve ser mais alta. Ser cristão significa estar pronto para encarar as situações com os olhos postos em Deus e nas certezas que Ele tem para nós. É ser capaz romper o pessimismo, mesmo quando isso pode até ser controverso, face ao ambiente geral que vivemos. Afinal, foi Jesus que disse que devíamos ser Luz no meio das trevas.
No período de Páscoa que se avizinha a esperança tem que renascer dentro de cada um de nós, dentro das nossas casas. Na Páscoa, como sabemos, a morte é vencida pela vida. Jesus pagou todos os resgates presentes e futuros. É por isso que um sorriso, uma palavra de esperança, de alento, um gesto, mesmo à distância de dois metros, por pequeno que seja, e mais do que beijos ou abraços, podem romper as correntes de tristezas agónicas que nos cercam e fazer do dia um dia melhor para alguém que luta ou que está em perda. É isso que Jesus espera de nós, que no meio das crises saibamos reagir, saibamos pôr ao serviço dos homens aquilo que aprendemos de Jesus ressuscitado.
Mostrar capacidade de reacção positiva para com os outros no meio do sofrimento geral, mesmo se também nós estivermos a ser atingidos, não é apenas estoicismo humano, é igualmente demonstração de plena fé nas capacidades eternas de Deus e na sua direcção divina para os homens e mulheres que mostrarem ser capazes de irem além de si próprios, sabendo que, mesmo em solidão, nunca estarão sozinhos nesse desígnio.
Aquilo que Deus espera de nós, neste momento, é que a sociedade possa ver-nos como alguém que não perde a sua tranquilidade, a sua fé, o seu discernimento espiritual e humano, a sua capacidade de revelar compaixão e apoio e de manter uma atitude elevada sobre todos os contextos. É nestas ocasiões difíceis que se mostra a grandeza de espírito e a presença da fé que nos alimenta.
Aprendemos que nos ciclos negativos da vida a fé se prova de uma maneira muito mais extraordinária. A tormenta torna-se quase insuportável, mas Jesus está connosco, conhece-nos, ama-nos, tem bem medidos os nossos limites e, quando estivermos a cair Ele levanta-nos. Saibamos, como filhos de Deus, nestes momentos de tempestade, obter de Jesus a paz que está a faltar a tantas vidas e distribui-la a todos os que dela carecem. Que cada filho de Deus seja um referencial de esperança, de calma no meio da agitação premente, de temperança e estabilidade emocional, e que mostre isso no pequeno círculo em que se integra. Parece simples dito assim, não é ? Mas não vai ser nada fácil. Teremos que fazer uso daquele estoicismo que recebemos da nossa natureza espiritual. O apóstolo Paulo dizia que quando estava fraco então era forte. Porque se recolhia em Cristo, e então já não era mais ele, Paulo, mas Cristo nele.
É possível que fiquemos sem alguns anéis, mas o importante é mantermos os dedos. O importante é a vida humana e aquilo que podemos construir com ela. É para isso que Deus olha. Para os que tombam, como vítimas dos miasmas da crise pandémica, o nosso desejo é que possam ter encontrado, em algum momento, a Paz que Deus oferece a cada um de nós.
É tempo de pôr azeite na candeia para ser Luz num mundo em aflição e sem nenhuma certeza no amanhã. E isto não é teoria, é prática; não se opera apenas ao domingo na igreja, é na vida diária em sociedade, onde partilhamos a existência com todos, onde vivemos, trabalhamos, rimos, choramos com todos, mesmo se não partilham connosco da Fé em Cristo Jesus.


Jacinto Lourenço 2020, Março, 30