terça-feira, 7 de julho de 2020

Quo Vadis. O Filme da nossa Vida...





Salazar, o jovem ministro das finanças que tomou posse em Abril de 1928, sob o comando dos militares da ditadura que fez cair a Primeira República, proferiu, no seu discurso de tomada de posse, uma frase lapidar que ditaria o rumo do país durante 40 anos, até à sua morte em 1968. Foi esse o tempo em que esteve no poder em Portugal como o senhor absoluto dos destinos desta nação que parece fadada a depender de homens providenciais.
Sei muito bem o que quero e para onde vou.

Teve Oliveira Salazar o condão de dizer uma coisa que os portugueses não estavam habituados a ouvir desde a Monarquia Constitucional e até 1928, pelo menos.

Tanto a Monarquia Constitucional como a Primeira República tiveram muitos homens que tentaram impor o que queriam, mas nenhum deles sabia muito bem para onde ia, ou, se sabia, desconhecia como lá chegar.


Porque é que a ditadura militar de Maio de 1926 se impôs tão facilmente ( pouco menos que um passeio a cavalo, de Braga a Lisboa, para Gomes da Costa, sem praticamente usar as armas ) e durou tanto tempo, mesmo que anos depois de eclodir se tenha transformado no que ficou conhecido como Estado Novo ? Porque ninguém, teve melhores argumentos ou força para a contrariar e porque havia de aparecer um designado homem providencial que disse saber o que queria e qual o caminho a seguir para tirar o país do lodo. Caso contrário o enorme PREC que foi o período da Monarquia Constitucional prolongado na Primeira República teria durado mais uns anos sem que se possa saber como tudo aquilo terminaria entretidos que andavam, os políticos e revolucionários, a ceifar oportunidades e vidas. Destas últimas tanto se abatiam as mais humildes como as de ilustres homens de grandes qualidades políticas, culturais e intelectuais.

Parece por isso estarmos destinados, nação e país, a esperar por que venha um homem providencial qualquer colocar as nossas esperanças alinhadas com um destino que, pelo menos, abra uma porta por onde se entreveja alguma hipótese de futuro.

E isso é um facto recorrente em vários períodos da nossa história. Talvez o caso mais conhecido e paradigmático seja, ainda até agora, o mais lembrado, porque, como noutros momentos, a independência de Portugal estava posta em causa: a espera pelo Desejado, e nunca regressado D. Sebastião. Acho que tantas foram as ocasiões em que estivemos nessa circunstância, a de deixarmos de ser um país, que sofremos hoje de um sebastianismo endémico; isto é, estamos sempre à espera de que algum homem providencial, aparecido como que por milagre, nos venha resgatar seja daquilo que for.


Em 1928, para a ditadura militar, Salazar seria o único homem capaz de dar ao país aquilo de que ele precisava depois de tantos anos de mortes, fome, guerra, doenças, miséria e endividamento externo num limite tal que nenhuma organização internacional, nenhum país, arriscaram emprestar a Portugal e, quando surgiu uma hipótese de isso acontecer, os custos eram tão altos e os sacrifícios a impor tão pesados que nenhum político de passagem pelo governo arriscou ousar comprometer-se, e ao país, com tais circunstâncias.

Os militares de 1926 agarraram-se a Salazar como última e única providência possível para operar o milagre de salvar Portugal. A verdade é que o país que este deixou a Marcelo Caetano, em 1968, era, para o bem e para o mal, totalmente diferente do que recebera quarenta anos antes. A duras penas os portugueses de então pagaram e sofreram essa recuperação económico-financeira que, apesar de tudo, e salvo algumas poucas excepções, não os retirou da pobreza endémica.

Os tempos que correm são diferentes, felizmente para melhor, apesar de tudo. Mas a Pandemia, como se adivinhava, destruiu um presente que, se não era grande coisa, pelo menos tinha aberto uma porta para entrever um futuro melhor do que aquele a que o governo Passista/Troikista nos tinha destinado. Seria Costa o tal providencial, condenados que estamos a depender sempre dessa figura do homem providencial, que iria operar a catarse que nos libertasse e projectasse para um lugar de tranquilidade colectiva ? ( claro que já não ousamos sequer sonhar sair da cauda da Europa... ) A Pandemia revelou que não! Costa é afinal mais equilibrista e malabarista do que "homem providencial".

Terminado o prazo de garantia da Geringonça, como todos os electrodomésticos que compramos para nossas casas, esta deu de imediato sinais de começar a ter problemas. E como acontece com quase todos os electrodomésticos que compramos, as avarias, findo o prazo de garantia, ficam-nos sempre mais caras na reparação do que a compra de um novo equipamento.

Depois, bem, depois vem sempre um conselheiro técnico dizer que o electrodoméstico, com um jeito aqui e outro ali, aguentar-se-à mais uns tempos e fará um figuraço. A questão é que raramente isso se confirma. E é aí que vem o pregador de milagres anunciar um milagre que nos levará a não termos que trocar a Geringonça em que o nosso electrodoméstico se tornou.

Digo-vos eu que não resulta, porque sei do que falo em matéria de electrodomésticos cá em casa. Se o prazo de garantia termina hoje, a partir de amanhã começo a esperar pelo dia próximo em que terei que o trocar.

Comprovadamente, a Pandemia estoirou com a Geringonça e, mais do que provavelmente, com a maioria absoluta que Costa achava que estava a construir. E nem qualquer milagre que Marcelo invente pode remediar isso, porque, como bem sabemos, os milagres de Marcelo são muito circunstanciais e não duram mais do que os poucos dias que demora um vírus impenitente e ateu a contrariar o melhor catolicismo que enche o peito de um presidente.

Para onde vamos afinal ?!
Bom, já nem Salazar, nem Centeno conseguirão dizer-nos. Só conseguimos saber onde está Salazar e para onde vai Centeno.

O que queremos ?!
Pois, acho que também não sabemos muito bem, mas para começo gostávamos de que não nos condenassem a andar a pagar, para o resto das nossas vidas, a TAP, o BES, o BPN, o Novo Banco, a EDP, a CGD, o BANIF, o BPP, a PT, as Rendas eternas das parcerias público-privadas, etc, etc, etc. E gostávamos também que os nossos pesados impostos servissem apenas para dotar o país das infra-estruturas necessárias e para investir naquelas onde desinvestiram durante tantos anos. Para revigorar o SNS, as polícias, e tantos outros serviços essenciais; para pagar melhor aos profissionais de saúde e aos polícias e não para irem parar aos bolsos de todos os plutocratas que têm usado o estado para nos empobrecerem continuadamente. Há, já agora: se não for pedir muito acabem de vez com as mensagens que andam a enviar à população sobre o controlo da Pandemia. Mas que controlo ? Podemos não saber para onde nos levam, mas não somos parvos de todo para nem sequer sabermos onde estamos !

Mas quem pode fazer isto tudo ? Pois, com o histórico que temos, provavelmente só um homem providencial já que de pregadores milagreiros , equilibristas e malabaristas estamos servidos. E que esse tal homem providencial não fique muito tempo no governo pois só isso nos garantirá que não terá tempo de descobrir onde levam todos os corredores dos palácios do poder, que é o que muitos ministros, primeiros ministros, secretários de estado e quejandos, plutocratas, enfim, vêem como missão de vida na sua passagem por qualquer governo.
Portugal e a vida dos portugueses...?!?   Isso são meros colaterais.

Jacinto Lourenço 

quarta-feira, 8 de abril de 2020

A Incompatibilidade entre Burros e Minas...




A fotografia que aqui deixo é um 'déjà vu' nos jornais e redes sociais destes últimos dias. Estas últimas, apressadas como sempre e mentirosas como habitualmente, logo inventaram uma história que colaram à fotografia como tratando-se de soldados que atravessavam um campo minado perto do qual andaria o burro. Ora, os soldados, com receio de que o burro começasse aos pinotes campo adentro e fizesse explodir as minas matando-se e matando-os a eles, preferiram pegar no jumento em ombros e levá-lo a campo seguro para evitar males maiores.
A história seria engraçada se fosse verdade, mas não é verdade e não resistiu à investigação sumária de alguns jornalistas que a investigaram e desmistificaram. Tratava-se afinal de um jumento que soldados da legião francesa encontraram, eventualmente perdido, e transportaram para o seu aquartelamento, algures na Argélia, onde foi muito bem tratado e adoptado como mascote.
Em abono de um bom fim para a história, diga-se que qualquer das versões, a das minas ou a da mascote, assentava bem ao burro, porque ambas, afinal, lhe teriam salvado a vida.
Mas há historietas que dão óptimas metáforas para a vida, e esta é uma delas.
Vive a humanidade um momento crucial da sua história. Ou seja estamos num campo cheio de minas e, ao mínimo descuido, pisamos uma delas e "BUM", vamos pelos ares, quer dizer, somo atingidos em cheio por este vírus que não conseguimos ver, cheirar, ouvir ou sentir e, quando o conseguimos fazer, já é tarde porque já nos atingiu, ficando por saber com que sequelas iremos ficar para a vida.
Esta é a nossa condição actual. Mas, para a agravar, estando em pleno campo minado damo-nos conta que temos por companhia uns quantos burros selvagens à solta que decidiram por bem brincar aos pinotes e zurrar a parvoíce habitual, na linguagem jumenta que só eles parecem entender, não cuidando que com a sua condição de burros tornaram-se um perigo para os humanos que, mesmo sem terem outra opção, estão no meio do campo minado a tentar atravessá-lo chegando ao fim sem danos de maior, mesmo os colaterais. Mas os burros, por serem burros, não conseguem discernir do perigo em que se constituem, com os seus pinotes por entre as minas que começam a explodir e a atingir muitos humanos que não conseguem eximir-se dos estilhaços que os burros fizeram explodir, por serem burros, claro.
Por se julgarem muito afastados uns dos outros, alguns com um oceano a separá-los, os burros criam várias explosões ao mesmo tempo, em vários locais do campo minado, atingindo pessoas que se imaginam a si próprias em segurança face à distância e, que, por isso, também tinham começado a agir como se burros fossem zurrando que estão mais seguros do que os humanos que se encontram mesmo no centro do campo minado.
Mas uma boa parte das pessoas não ligam aos burros, porque sabem que eles são burros, agem como burros e que assim continuarão por toda a sua vida. Por isso o que querem é salvar-se sem serem atingidas, tomando para isso todas as precauções que sabem ser importantes para se protegerem das explosões e esforçando-se para que não sejam elas causadoras de nenhumas.
Ora, conta-se, no livro da filosofia ancestral jumentina que, certo dia, quando os burros, guias de todos os outros burros, achavam que já tinham atingido o pleno conhecimento estratégico para se protegerem das minas do campo minado, um dos burros que tinha a certeza desse seu conhecimento validado pelos guias dos burros, decidiu dar um pinote menos controlado, e zás, pisa uma mina e foi pelos ares.
Face às lesões sofridas por este burro, achou-se então que seria suficiente manter o burro no estábulo, para que ele se recuperasse com o tempo. Mas não, o tempo, provou-se então, não é amigo dos burros, e o burro, não havendo um hospital para burros disponível, teve que ser internado num hospital para humanos afim de receber tratamento intensivo que o pudesse salvar dos danos causados pela explosão que ele próprio, burro, originou.
Moral da história: quando quiserem adoptar um burro, certifiquem-se que o deixam bem amarrado à manjedoura para que ele não vá dar pinotes para um campos minado e provocar explosões que convoquem malefícios para os humanos. Porque, afinal, se confiamos num burro, sabendo que a sua condição de burro é fazer burrices, somos mais burros do que o burro. E o problema é haver demasiados burros aos pinotes no meio de campos minados por esse mundo fora. Por favor não confiem nunca  em burros ou em humanos que parecendo burros são mesmo o que parecem.



Jacinto Lourenço 

segunda-feira, 30 de março de 2020

Por entre os Miasmas da morte









Para onde quer que nos voltemos, vimos, ouvimos, lemos, na maior parte das vezes, muitas vezes, sobre o tema genérico que domina os meios de comunicação. Já sabemos há muito que o que o que mais contribui para haver notícias não são as boas notícias, mas as más notícias. Afundamo-nos nas letras garrafais dos jornais ou nas imagens tristes e lúgubres que os telejornais nos fazem chegar a toda a hora e já não apenas à hora a que estávamos habituados. Ficamos quase paralisados com o olhar fixo nos números da morte e nos desplantes dos vampiros ocasionais que só conseguem olhar as suas populações através de uma folha de cálculo.
De repente, por entre o desfiar da vida nos écrans, nos periódicos, o tema dominante fala da morte e da exaustão dos vivos que a enfrentam.
É nestes momentos que talvez fosse bom lembrar que um cristão é alguém cuja visão deve ser mais alta. Ser cristão significa estar pronto para encarar as situações com os olhos postos em Deus e nas certezas que Ele tem para nós. É ser capaz romper o pessimismo, mesmo quando isso pode até ser controverso, face ao ambiente geral que vivemos. Afinal, foi Jesus que disse que devíamos ser Luz no meio das trevas.
No período de Páscoa que se avizinha a esperança tem que renascer dentro de cada um de nós, dentro das nossas casas. Na Páscoa, como sabemos, a morte é vencida pela vida. Jesus pagou todos os resgates presentes e futuros. É por isso que um sorriso, uma palavra de esperança, de alento, um gesto, mesmo à distância de dois metros, por pequeno que seja, e mais do que beijos ou abraços, podem romper as correntes de tristezas agónicas que nos cercam e fazer do dia um dia melhor para alguém que luta ou que está em perda. É isso que Jesus espera de nós, que no meio das crises saibamos reagir, saibamos pôr ao serviço dos homens aquilo que aprendemos de Jesus ressuscitado.
Mostrar capacidade de reacção positiva para com os outros no meio do sofrimento geral, mesmo se também nós estivermos a ser atingidos, não é apenas estoicismo humano, é igualmente demonstração de plena fé nas capacidades eternas de Deus e na sua direcção divina para os homens e mulheres que mostrarem ser capazes de irem além de si próprios, sabendo que, mesmo em solidão, nunca estarão sozinhos nesse desígnio.
Aquilo que Deus espera de nós, neste momento, é que a sociedade possa ver-nos como alguém que não perde a sua tranquilidade, a sua fé, o seu discernimento espiritual e humano, a sua capacidade de revelar compaixão e apoio e de manter uma atitude elevada sobre todos os contextos. É nestas ocasiões difíceis que se mostra a grandeza de espírito e a presença da fé que nos alimenta.
Aprendemos que nos ciclos negativos da vida a fé se prova de uma maneira muito mais extraordinária. A tormenta torna-se quase insuportável, mas Jesus está connosco, conhece-nos, ama-nos, tem bem medidos os nossos limites e, quando estivermos a cair Ele levanta-nos. Saibamos, como filhos de Deus, nestes momentos de tempestade, obter de Jesus a paz que está a faltar a tantas vidas e distribui-la a todos os que dela carecem. Que cada filho de Deus seja um referencial de esperança, de calma no meio da agitação premente, de temperança e estabilidade emocional, e que mostre isso no pequeno círculo em que se integra. Parece simples dito assim, não é ? Mas não vai ser nada fácil. Teremos que fazer uso daquele estoicismo que recebemos da nossa natureza espiritual. O apóstolo Paulo dizia que quando estava fraco então era forte. Porque se recolhia em Cristo, e então já não era mais ele, Paulo, mas Cristo nele.
É possível que fiquemos sem alguns anéis, mas o importante é mantermos os dedos. O importante é a vida humana e aquilo que podemos construir com ela. É para isso que Deus olha. Para os que tombam, como vítimas dos miasmas da crise pandémica, o nosso desejo é que possam ter encontrado, em algum momento, a Paz que Deus oferece a cada um de nós.
É tempo de pôr azeite na candeia para ser Luz num mundo em aflição e sem nenhuma certeza no amanhã. E isto não é teoria, é prática; não se opera apenas ao domingo na igreja, é na vida diária em sociedade, onde partilhamos a existência com todos, onde vivemos, trabalhamos, rimos, choramos com todos, mesmo se não partilham connosco da Fé em Cristo Jesus.


Jacinto Lourenço 2020, Março, 30

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

O Servilismo que nos Está no Sangue




O problema é antigo, e parece que nos está no sangue. Dizem-nos que o herdámos do tempo do "botas" , que nos obrigou ao servilismo. Não acredito. A coisa vem mais de trás, do princípio da nossa história enquanto nação, com Egas Moniz a confundir honra com servilismo ( numa "interpretação" muito minha, e livre, da História...) quando foi pedir perdão e oferecer a sua vida e da sua família em resgate  a Afonso VII por D. Afonso Henriques se ter recusado a prestar vassalagem ao primo, conforme lhe prometera Egas Moniz, se este levantasse o cerco a Guimarães.  Sempre tivemos esta tendência para a servidão, para a obediência cega e parva, sem questionamentos. Somos assim; desenvolvemos, de facto, como nenhum outro povo da Ibéria,  a arte de "engolir sapos", mesmo se eles são de difícil digestão, e mostrar um sorriso,  por mais amarelo que seja.

Se vamos ao senhor doutor para tratar das maleitas que nos afligem, lá vem a promessa de, pela Páscoa, lhe fazermos chegar um borreguinho ou um cabritinho desmamado, tenrinho, ainda a saber a leite, sim,  claro, porque  o médico nos vai aliviar das dores que carregamos. 

Os mais pobres podem sempre ofertar um queijinho ou um chouriço lá da terrinha. O físico, impante na sua cátedra inquestionável e impenetrável, a olhar-nos por cima dos óculos, diz que sim, que gosta e, na troca de uns placebos,  lá mais para a frente poderá seguir também para o consultório  um perú pelo Natal.                                                                                                            
Ainda hoje, mesmo acedendo a um Serviço Nacional de Saúde pago com os nossos impostos, não conseguimos deixar de olhar para o médico como alguém a venerar servilmente, em lugar de o vermos como profissional que é, pago para tratar-nos da saúde. A esta imagem, talvez mais diluída nos meios urbanos, juntam-se outras que têm a ver com o sacerdote católico, o pastor protestante,  o advogado, com o cabo da guarda, com o presidente da Câmara, etc, a quem dedicamos ridículos e servis  encómios numa atitude borrega, sem paralelo conhecido a não ser o da  nossa triste vocação para desistirmos com facilidade de exibir a dignidade que reside no simples facto de sermos seres humanos e cidadãos na  plenitude da igualdade de direitos e deveres que independe da posição social que ocupamos . Somos, quiçá, dos únicos países do mundo chamado desenvolvido a achar que títulos académicos fazem parte, ou devem  usar-se em lugar dos nomes de registo ou baptismo. Um país de doutores e engenheiros em que, mesmo aqueles que o não são exigem tratamento deferente como se o fossem. Doutor para aqui, doutor para ali, senhor engenheiro para isto senhor engenheiro para aquilo. É cultural, dizem-nos. Sim, até pode ser, mas não passa de uma cultura de penacho que assenta num servilismo a raiar a falta de coluna vertebral que se liga com a facilidade com que a vergamos por tudo e nada.

Clara Ferreira Alves constatava, numa das suas habituais e recentes crónicas no Expresso, que "outros países estão a conseguir atravessar a crise da dívida com a dignidade intacta" e só "Portugal resolveu transformar-se num país habitado por bonecos das Caldas". Dizia ainda  que "o nosso desejo de agradar, de servir, perde-nos. Faz-nos perder o respeito por nós próprios". Também, num outro registo, a mesma Clara Ferreira Alves, em reportagem sobre os estragos provocados pelo furacão Sandy, nos Estados Unidos da América, e para o mesmo semanário, constatava que os milionários de Manhattan, a deslizarem nos seus carros de luxo como se fossem os donos do planeta, não fazem a menor ideia de como vivem os pobres. "Usam-nos como serviçais, e proporcionam-lhes empregos com estatuto de invisibilidade. Os portugueses, da comunidade em Newark, são famosos pela sua honestidade e por serem criados, governantes  e mulheres da limpeza de confiança. Gente que se pode meter dentro de casa. Simples, discretos, invisíveis. Sem nome nem história".

Também é certo, por aquilo que diz Clara Ferreira Alves, que pudemos, e devemos,  interpretar essa atitude dos trabalhadores portugueses nos E.U. da América, por exemplo, como francamente profissional: fazem o seu trabalho com correcção, executam as suas tarefas com profissionalismo e não se metem, mais do que devem, na vida dos outros, especialmente dos seus patrões. Mas também pode ser que o servilismo cultural dos portugueses os ajude a isso tudo.

Quando Portugal esteve sob dominação espanhola, esta cultura de servilismo era levada ao extremo para com a corte Filipina. Refere a História de Portugal coordenada por José Mattoso, no volume 5.3,  que na corte de Filipe III [de Portugal], em Valladolid, os Castelhanos zombavam da soberba e vaidade dos portugueses: «não cuida um fidalgo português se não em que entrando na Corte, a hão-de assombrar, com os seus lacaios mais rica e custosamente vestidos do que nunca seus bisavós o fizeram nas suas vodas. Claro que o objectivo destes fidalgotes que se deslocavam a Valladolid,  emproados, empoados e seguidos pelo seu séquito de serviçais, era essencialmente  o de bajular o rei  e assim conseguir prebendas e favores políticos. Verificamos que, afinal, o servilismo é transversal na sociedade portuguesa e já vem de antanho.

O que sabemos hoje é que dignidade não rima com servilismo e que este não deve ser confundido com capacidade de realização e disponibilidade para correcção no nosso relacionamento com tudo e com todos.

Jacinto Lourenço


( texto editado em Setembro 2012 )

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

O Barroco Português e A Obra de Arte Total Wagneriana








A verdadeira aspiração da arte é, pois, aquela que tudo abrange 1
                                     Richard Wagner

Estamos habituados a que quando se fala de Richard Wagner o tema seja apenas música, mas o compositor marcou o seu tempo, e o tempo pertencente ao futuro, também como inventor,  por assim dizer, do conceito de Obra de Arte Total.  Ele lamentava que na ópera do seu tempo a ênfase estivesse apenas colocada sobre a música, ao contrário do que acontecia nas representações gregas da antiguidade onde a música dialogava com todo um conjunto de especialidades artísticas visando o envolvimento total dos participantes no espectáculo. Este conceito desenvolvia-se à volta do pressuposto de que as diferentes expressões artísticas, envolvidas na produção da Obra de Arte, deveriam conjugar-se e complementar-se numa lógica narrativa em que pudesse ser reconhecida uma unidade formal contextualizada na obra que é apresentado ao público e na qual este  deveria sentir-se  como fazendo parte integrante da mesma. Claro que aqui estamos a pensar no plano principal do ofício de Wagner, isto é, o de um espectáculo musical que fosse realmente englobante e levasse o público à sensação de ser parte do todo que era esse espectáculo, e não apenas uma figura passiva do mesmo.
    
O compositor  considerava que as diferentes formas de expressão artística  até então se tinham fechado como que num círculo involutivo, pouco interessante para os espectadores, e  que não poderiam romper por si só, mas apenas em complementaridade, umas com as outras,  seriam capazes de desenvolver e apresentar novas propostas estéticas ou, se quisermos, uma nova narrativa integrada, de ordem artística.  É neste contexto, aliás, que Wagner escreverá,  num estudo intitulado A Obra de Arte do Futuro,  que  O homem artista só pode satisfazer-se perfeitamente na união de todas as modalidades artísticas na obra de arte colectiva. No isolamento de uma das suas capacidades artísticas será não-livre, será não inteiramente aquilo que pode ser; pelo contrário, na obra de arte colectiva será livre e será inteiramente aquilo que pode ser2 
    
Mas afinal Wagner não dizia nada de muito novo uma vez que  Gian Pietro Bellori, nascido em Roma (1613-1696), e porventura  a mais alta referência da cultura artística do seu tempo em toda a Europa, com o seu conceito de Bel Composto  já tinha teorizado sobre os princípios globalizantes da Obra de Arte.

Também no território português se  identificavam já, antes de Wagner,  excelentes exemplos daquilo  a que, numa outra dimensão artística,  o compositor viria a designar por Obra de Arte Total.  Este conceito Wagneriano já se encontrava integrado pelo Barroco Português através desse outro conceito do Bel Composto de Bellori.  Isto não quer dizer, naturalmente, que os dois conceitos sejam um e a mesma coisa, mas na verdade regem-se pelos mesmos princípios globalizantes de encarar a Obra de Arte,  distanciados, claro, por essas fronteiras chamadas tempo e realidade contextual.                                                                                                                                           
Precisamos esclarecer que quando Wagner fala de arte colectiva,  fala da síntese de múltiplas expressões artísticas que se conjugam no sentido de uma Obra de Arte Total, a Gesamtkunstwerk.  Mas, como dizemos,  esta síntese de múltiplas expressões artísticas já tinha sido experimentada e concretizada no Barroco português por via do conceito de Bel Composto. 

Luis de Moura Sobral, professor na Universidade de Montreal e especialista em pintura Ibérica do século XVII,  diz que  é a partir de 1660  que  se verifica em Portugal uma tendência para a concepção globalizante e unitária de um certo número de espaços construídos, o que se levará a cabo através de programas  decorativos envolventes, quase sempre de grande riqueza 3   Segundo o mesmo autor,  o Bel Composto estrutura-se em certas unidades […] mais simples […], compósitas, ou mais complexas […] que o historiador tem de ordenar para reconstruir o itinerário ou itinerários narrativos ou simbólicos previstos pelos respectivos autores .   Há,  já, na complementaridade das técnicas utilizadas no  Bel Composto visto em Portugal,  uma narrativa iconográfica que introduz um diálogo  temático, ou de diferentes temáticas,  entre si,  no sentido de explorar estéticas que levem os públicos a posições de simples auto-contemplação ou de expectação espiritual face à  envolvência  artística global em que se encontram.4

Neste curto texto, talvez a nossa melhor expectativa seja a de que, quem nos lê, perceba exactamente o conceito wagneriano de Obra de Arte Total, em toda a sua dimensão, de acordo com o que Wagner teorizou, olhando para uma mesmo aqui “à mão de semear”. Falamos do Convento/Palácio/Biblioteca /Basílica de Mafra. Como diz o seu director no sitio do  Palácio, no Google,  Mafra é arte com sentido – a certificação, o espectáculo, a representação do poder. Mafra é o esplendor do Barroco ! Estamos perante o monumento português que melhor reflecte o que podemos chamar de Obra de Arte Total: arquitectura, escultura, pintura, música, livros, têxteis. Um Património tipologicamente pensado […] que aqui configura uma realidade única. 

Jacinto Lourenço
2019, Dezembro
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     Wagner, Richard - A Obra de Arte do Futuro. 1ª ed. Lisboa, Antígona, 2003, p.177
2       Wagner, Richard - A Obra de Arte do Futuro. 1ª ed. Lisboa, Antígona, 2003, p.177
      Sobral, Luis de – Un bel composto: a obra de arte total do primeiro Barroco português, p.303
4      Sobral, Luis de – Un bel composto: a obra de arte total do primeiro Barroco português, p.305  

                                                                                                                                                                                                                                                                                      

    http://www.palaciomafra.gov.pt/pt-PT/Apresentacao/ContentList.aspx


sexta-feira, 15 de novembro de 2019

A Inauguração do Canal de Suez e Eça de Queiroz em Congresso 15-18 Novembro 2019 Lisboa















Programa do Congresso “Eça de Queiroz, nos 150 anos do Canal do Suez” (15-18 de Novembro de 2019)

15 de Novembro | Sociedade de Geografia de Lisboa 

10h00 | SESSÃO DE ABERTURA
10h15 | PAINEL I (Moderação de Renato Epifânio)
Alfredo Campos Matos | VINTE PERGUNTAS PARA EÇA DE QUEIROZ E RESPECTIVOS COMENTÁRIOS
Ana Margarida Chora | EÇA DE QUEIROZ, AS BAILARINAS DO SUEZ, FATMÉ E A ALMEIA DE FLAUBERT
Breno Góes | UM CONTADOR DE HISTÓRIAS NO AUGE DO IMPERIALISMO: NOTAS SOBRE A ESCRITA JORNALÍSTICA DE EÇA DE QUEIRÓS A PARTIR DE “OS INGLESES NO EGIPTO”
Jorge Chichorro Rodrigues | EÇA DE QUEIROZ, O «IRÓNICO PEREGRINO» DO ROMANCE «A RELÍQUIA»
Paula Oleiro | A INFLUÊNCIA DO ORIENTE NA FICÇÃO QUEIROSIANA
Ricardo António Alves | PAISAGEM SOCIAL E ESTEREÓTIPO, ESTESIA E ESPALHAFATO: O EGIPTO VISTO POR EÇA DE QUEIROZ (1869) E FERREIRA DE CASTRO (1935)
Rui Lopo | EÇA DE QUEIROZ E O ORIENTALISMO PORTUGUÊS
12h45 | ALMOÇO
14h15 | PAINEL II (Moderação de Rui Lopo)
Adriana Mello Guimarães | EÇA DE QUEIROZ E A REVISTA DE PORTUGAL: A CONCRETIZAÇÃO DE UM SONHO
César Tomé | VESTÍGIOS DE KANT NA ANTROPOLOGIA ECIANA (A PROPÓSITO DA VIAGEM DE EÇA DE QUEIROZ À INAUGURAÇÃO DO CANAL DO SUEZ)Liliane Correa Faria Pinto | O EGIPTO DE DOM PEDRO II E EÇA DE QUEIROZ
Luís Manuel de Araújo | O EGIPTO DE EÇA DE QUEIROZ, 1869
Maged Talaat Mohamed Ahmed Elgebaly | ESTUDO COMPARADO ENTRE EGIPTO DE EÇA DE QUEIRÓS E TAHRIR DE ALEXANDRA LUCAS COELHO
Manuel Curado | EÇA DE QUEIROZ E O ESPIRITISMO: A CURIOSIDADE OITOCENTISTA SOBRE O SUEZ DO ALÉM
Mendo Castro Henriques | EÇA DE QUEIROZ, UM CRIADOR DE MAPAS DA EXPERIÊNCIA HUMANA
16h45 | INTERVALO
17h00 | APRESENTAÇÃO DE OBRAS
18h30 |ENCERRAMENTO

16 de Novembro | Casa do Alentejo de Lisboa (Almoço/ Tertúlia)

17 de Novembro | Passeio Cultural pela "Lisboa de Eça e da Geração de 70"

18 de Novembro | Biblioteca Nacional de Portugal

10h00 | SESSÃO DE ABERTURA
10h15 | PAINEL III (Moderação de Renato Epifânio)
Alexandre Honrado | 1900. QUE SÉCULO MORREU AO DESPEDIR-SE DE EÇA?
Antonio Augusto Nery | DIÁLOGOS COM O EGIPTO (EÇA DE QUEIROZ)
Fabrizio Boscaglia | EÇA DE QUEIROZ E O ISLÃO NO CONTEXTO DA GERAÇÃO DE 70
Maria do Carmo Mendes | À PORTA DO ORIENTE: A POESIA DE ANTÓNIO FEIJÓ
Maria Cristina Pais Simon | O EGIPTO “PASSEADO E COMENTADO” POR EÇA DE QUEIROZ
Mário Vítor Bastos | UMA NOVA PASSAGEM MARÍTIMA DA ÍNDIA PARA PORTUGAL: MÉDIO ORIENTE E ORIENTALISMO EM EÇA DE QUEIROZ
Miguel Real | EÇA DE QUEIROZ NA FICÇÃO CONTEMPORÂNEA
12h45 | ALMOÇO
14h15 | PAINEL IV (Moderação de Octávio dos Santos)
Annabela Rita | DA “CHRONICA” À “CRÓNICA”: TRAVESSIA(S)
Diógenes Pereira da Silva | SIMPATIA PELO DEMÔNIO: TENSIONAMENTO DAS FISSURAS A PARTIR DAS EXPERIÊNCIAS EM TERRITÓRIO DE DISPUTA
Maria Serena Felici | ENTRE INFRAESTRUTURAS NOVAS E ORDENS SOCIAIS ANTIGAS: O PROGRESSO COMO CONTRADIÇÃO NA OBRA JORNALÍSTICA DE EÇA DE QUEIROZ
Mónica Figueiredo | RASCUNHOS PARA UM ATLAS DO ROMANCE QUEIROSIANO
Patrícia da Silva Cardoso | NO CANAL DE SUEZ, A BORDO COM EÇA DE QUEIRÓS E ÁLVARO DE CAMPOS
Teresa Pinto Coelho | EÇA, DISRAELI, GLADSTONE E O CANAL DO SUEZ
Vera Mahsati | “CÂNTICO DA CARNE EXALTADA” OU “EXIBIÇÃO IMORAL”? A ORIGINALIDADE E VANGUARDISMO DE EÇA DE QUEIROZ NA SUA INTERPRETAÇÃO DAS DANÇAS DO MÉDIO-ORIENTE NO FIN DE SIÈCLE
16h45 | INTERVALO
17h00 | APRESENTAÇÃO DE OBRAS
18h30 |ENCERRAMENTO

O Congresso é de Entrada Livre, sem necessidade de inscrição prévia. Para se inscrever no Passeio Cultural e/ou no Almoço/ Tertúlia: info@movimentolusofono.org
organização:

Revista NOVA ÁGUIA | MIL: Movimento Internacional Lusófono | CLEPUL: Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.


Parcerias:
Academia Lusófona Luís de Camões
Biblioteca Nacional de Portugal
Cátedra Infante Dom Henrique (Universidade Aberta/CLEPUL)
Centro Cultural Eça de Queiroz
Círculo Eça de Queiroz
Fundação Eça de Queiroz
Fundação Lusíada
Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes
Instituto Fernando Pessoa
Instituto de Filosofia Luso-Brasileira
Observatório de Língua Portuguesa
Revista Letras Com(n)Vida
Sociedade de Geografia de Lisboa
SHIP: Sociedade Histórica da Independência de Portugal

terça-feira, 12 de novembro de 2019

O Mal que nos Faz a Saúde em Portugal.



E não há nenhum exagero no que é referido por Ricardo Paes Mamede no texto publicado no Diário de Notícias. Experimentei isso, recentemente, ao ter que ir a uma consulta de dermatologia no SNS por causa de um sinal que estava a ganhar contornos estranhos. A médica, muito admirada, perguntou-me como é que tinha conseguido a consulta para ela uma vez que a sua consulta estava com um tempo de espera de 2 anos...? Ela reparou, e bem, que eu não tinha esperado nada parecido com isso. Lá expliquei.                                                                                                    

Mas eu também percebi, com o tempo que estive à espera para ser atendido, que muitas pessoas de família de doentes estavam no corredor do serviço de dermo a fazer, literalmente, 'esperas' aos médicos para apelarem por si próprios, ou por um familiar, por se encontrarem em situações aflitivas. Se podiam ir ao privado ? Claro que podiam. O problema é que, depois, o seguimento das consultas é para cirúrgia e, como sabemos, o sistema privado cobra por tabelas incompatíveis para os utentes que habitualmente recorrem ao SNS. Se estes podiam ter um seguro de saúde ? Claro que podiam ! Mas,como sabemos, as seguradoras só contratam seguros de saúde a pessoas mais jovens, que dão pouca despesa... Fogem aos de mais idade como o diabo da cruz e, se não fogem, querem cobrar dois ou três milhares de euros/ano para efectivar um seguro de saúde com coberturas que mais parecem saídas do guião de um programa de humor.                                                                                          
Se após os 65 anos alguma seguradora faz um seguro de saúde ? Não, não faz ! A não ser aquelas da publicidade massiva nos programas da manhã e da tarde, nas tv's generalistas, e que se podem configurar quase como burlas para incautos. É assim que se trata a saúde em Portugal.

Jacinto Lourenço  / Nov.2019




quinta-feira, 6 de junho de 2019

75 Anos Depois





1944, JUNHO, 06. NORMANDIA, FRANÇA. OPERAÇÃO OVERLORD.


Foi o dia e o local em que a barbárie nazi começou, decidida e consolidadamente a ser esmagada. Completam-se hoje 75 anos.
Os aliados chegariam ao coração da Alemanha nazi, Berlim, em Abril de 1945. As tropas de Estaline seriam as primeiras a entrar, para travar, aquela que foi, porventura, a última batalha da 2ª Guerra Mundial. Nessa altura a desproporção de meios de combate e tropas era abismal. Cerca de 100.000 soldados alemães, a maioria jovens e velhos recrutados à última hora, para cerca de dois milhões de russos que cercavam a cidade, bem equipados, motivados e apoiados por um enorme dispositivo em equipamento aéreo e terrestre. Berlim caiu, e com ela a Alemanha nazi.
O que aprendeu a Europa com a Segunda Guerra mundial e o desaparecimento, causado por ela, de cerca de cinquenta e cinco milhões de pessoas? O que aprendemos nós, depois de 75 anos passados ?
O ambiente político à época, que levou à guerra, embora com raízes e causas muito diversas, não deixa de apresentar algumas semelhanças com os dias que se vivem hoje em quase todo o território europeu: populismos e nacionalismos exacerbados e a recrudescer todos os dias.
Seria bom bom que todos, e especialmente os líderes políticos, pudessem tomar mais atenção aos livros de história. É crucial que as novas gerações, apesar dos anos que as separam do episódio que se celebra hoje, possam ser ensinadas e esclarecidas sobre o que se passou durante a Segunda Guerra Mundial e os motivos principais que levaram até ela. Esse é um princípio fundamental e os europeus nunca poderão perder de vista que a ele estão subjacentes a Paz e os VALORES que nos enformam !
Em todos os países europeus se devia celebrar hoje o DIA DA MEMÓRIA. Em todas as escolas, em todos os graus, se deveriam consagrar algumas horas de aulas a esclarecer os jovens sobre esta temática. Conferências e sessões de esclarecimento deviam ser promovidas em locais públicos, abertos a toda a população, se possível com testemunhos de pessoas que tivessem ainda vivas as memórias do que foi viver o pós-guerra nos diversos países. Para que todos saibam que a liberdade, a paz e o bem estar de que usufruem hoje teve um preço muito elevado pago por gerações que nos antecederam, mas também de muitos homens, que nem sequer eram europeus e que vieram combater e morrer pela Europa e pelos europeus. O exercício da memória e do reconhecimento pelos que combateram e deram a vida por valores que nos são caros será sempre o mínimo que podemos fazer e quem não quiser perceber isso, não poderá perceber nada da vida que vive e como a vive.




Jacinto Lourenço, Junho, 2019

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Uma Conversa de CACA...






Com tantos temas interessantes para falar, logo me havia de dar para isto, uma conversa de...
Explodiu nas cidades e vilas portuguesas um último modismo, quiçá importado de alguns países europeus 'mais à frente' do que Portugal: a posse de animais domésticos por camadas da população que acham que isso lhes dará um ar mais civilizado e, eventualmente, mais 'chique'. Até aqui nada de anormal, eu próprio, não sendo particularmente admirador de gatos, gostaria de ter um ou dois cães se para tal tivesse condições, e resumo 'condições' como um espaço aberto contíguo à habitação onde os ditos se pudessem exercitar e desenvolver normalmente de acordo com as suas necessidades físicas e lúdicas. Não o tendo, não me acho no direito de confinar um cão, qualquer que seja o seu porte, a um recanto da marquise ou da varanda. Isso, quanto a mim, é exercer uma violência que nenhum canino merece. Mas pronto, são opções e minha opinião.

Agora, o que não percebo, nem nunca entenderei, é que uma grande parte dos novo(a)s possuidores de cães afirmem amar os animais e depois os confinem durante horas esquecidas a uma reclusão que nenhum animal realmente merece, muitos deles saindo à rua apenas quando os donos acham que eles precisam de se aliviar.

E nesse momento temos outro problema; quando vejo um ou vários cães a passearem nas traseiras relvadas da minha casa, fico sem saber quem 'se alivia' mais, se o canino ou o humano... É que se o animal não pode fugir às suas necessidades fisiológicas após horas encerrado no apartamento e faz o que a natureza o chama a fazer, o  seu dono humano, pelo contrário, não faz o que tem que fazer e que consiste em limpar os dejectos depostos, mais conhecidos por 'caca',  sobre o relvado. Algumas vezes, quando observo o seu "esquecimento",  alerto para o facto, recebendo, invariavelmente, a resposta de  "já apanho". Claro que nunca voltam atrás para apanhar. Outros, para evitarem ser confrontados com o débil grau de civilidade exibido, optam por soltar os animais no relvado mantendo-se eles a coberto de olhares e repreensões dos residentes,  pretendendo deixar  transparecer que os seu cães são afinal vadios ou que não lhes pertencem...

Havendo humanos que se lembram de que não basta exibir notas de civilização ou de um certo pedantismo "chique" e que são responsáveis por tudo o que implica possuir um animal doméstico, outros, porventura a maioria, só mereceriam que lhes esfregassem na cara o que os seus cães deixam na relva atrás da minha casa... Merecendo igual tratamento quando também os abandonam para poderem ir a banhos no verão.




Maio 2019

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Açúcar, um Veneno que nos Corre nas Veias


"Gente toda da cor da mesma noite, trabalhando vivamente e gemendo tudo ao mesmo tempo sem momento de tréguas, nem de descanso: quem vir enfim toda a máquina e aparato confuso e estrondoso daquela Babilónia não poderá duvidar, ainda que tenha visto Etnas e Vesúvios, que é uma semelhança do inferno."
Estas palavras do Padre António Vieira, no sermão do Rosário, em 1633, citadas por Stuart Schwartz na História da Expansão Portuguesa, edição Círculo de Leitores, julgo traduzirem bem a imagem da realidade da indústria do açúcar aos olhos de quem não estava habituado ainda, no século XVI, aos ritmos de trabalho pontuado pela exploração intensiva e industrial, mesmo tendo em linha de conta que a indústria açucareira só começou realmente a florescer e incrementar-se a partir de meados desse século. Mas não era apenas a realidade do processo industrial propriamente dito, ou da actividade de "platation", que causava espanto e admiração no espírito do Jesuíta. A realidade que ele observava com os seus olhos e aferia com as suas palavras era mais ampla e continha, parece-me, um sentimento de alguma repulsa, de cariz porventura religioso, por aquilo que observava e que era certamente o que mais saltava à vista: o trabalho forçado de um exército de mão de obra negra e escrava que tinha sido a solução encontrada para a substituição dos ameríndios menos adaptados e menos capazes, quer do ponto de vista técnico, quer do ponto de vista cultural, aos trabalhos de índole agrícola. Isto, claro, para além da escassez de mão de obra ameríndia que se foi acentuando em razão de vários factores, nomeadamente, e talvez dos mais importantes, o das doenças viajadas da europa e que foram dizimando os indígenas aos milhares no Brasil.
À realidade, que Vieira conheceria, juntava-se ainda o facto da complacência demonstrada em relação à rentabilidade laboral exigida pelos senhores ser muito menor para com os negros do que para com os ameríndios. A.R.Disney, dá conta disso na sua "História de Portugal e do Império Português", da "Guerra e Paz, Editores, numa pequena amostra do tratamento reservado aos escravos negros logo que chegavam a território brasileiro, mesmo que isso pudesse variar de senhor para senhor: “em algumas plantações brasileiras os novos escravos eram imediatamente chicoteados após a chegada, para enfatizar o seu estatuto servil”.
Pese embora saibamos que nem sempre os Jesuítas foram coerentes no discurso relativo à escravatura, não podemos deixar de notar, apesar de tudo, a visão de Vieira, a exibir ódio e repulsa face ao que via. Mas lembraremos igualmente a exclamação, por demais conhecida, do mesmo Padre António Vieira, quando fazia a defesa da expulsão dos holandeses da região Pernambucana: "Sem Angola não há negros e sem negros não há Pernambuco". Ou seja, o contexto da escravatura não deixava ninguém sem mácula.
Parece implícito que o jesuíta conhecia bem a realidade em que se movia o tráfico e reconhecia que ele era importante no recrutamento de mão de obra para a indústria do açúcar, logo para a Europa e, especialmente, para o bolso das coroas europeias sempre carecidas de novas receitas.


Jacinto Lourenço - Janeiro 2019